Evangelion: Shattered Thresholds

9 Episódio 9: Acordes Secretos


Capítulo 70: Abordagem Calculada / O Gambito de Segunda

O domingo após o caos passou com uma quietude incômoda. De castigo e inquieto, Kai sentia o silêncio amplificar as perguntas que giravam em sua mente. Passou o dia trocando mensagens com Asuka — um fio de normalidade e conexão de volta à cumplicidade que haviam encontrado. Descobriu que ela ia sair para fazer compras com Hikari, uma atividade mundana que parecia pertencer a outro mundo, distante de Anjos e perseguições insanas de carro. Será que ela tá falando com a Hikari sobre o encontro?, pensou Kai, um leve sorriso nos lábios. Provavelmente não. Ainda assim, era reconfortante saber que ela tinha esse pedaço de vida normal, algo estável fora da panela de pressão da NERV.

Enquanto isso, Shinji e Rei ainda se recuperavam na ala médica da batalha brutal de sábado. A ausência deles deixava Kai sozinho com seus pensamentos — que inevitavelmente voltavam às inconsistências acumuladas desde sua chegada. Seus episódios de sincronização instáveis com a Unidade-04. A versão oficial do incidente em Nevada contrastava com a versão mais sombria de Kensuke — uma instalação, equipe e até a própria Unidade-04, que agora ele pilotava, desaparecendo sem deixar rastro. Por que ele foi escolhido? Por que os Anjos pareciam mirar nele especificamente? E aquele sussurro que ouviu durante o teste de sincronização — "...incompleto..."? Era sobre o Eva? Sobre ele mesmo? Ou outra coisa?

E ainda havia o que aconteceu ontem. Por que o Comandante Ikari, o próprio pai de Shinji, não interveio e nem sequer reconheceu a flagrante quebra de protocolo? O simples castigo de Misato pareceu... leve. Leve demais. Tudo parecia encenação. Uma distração. Por que recuperar dois pilotos não era prioridade máxima durante um ataque de Anjo? Aliás, o que são os Anjos, de verdade? Que segredos os Evas escondem? Por que os pilotos, que arriscam tudo, são mantidos tão deliberadamente no escuro?

As peças não se encaixavam. Tudo estava conectado, um quadro maior e mais sombrio escondido atrás das narrativas oficiais da NERV. Ele não podia confiar neles. A percepção caiu sobre ele com peso, solidificando uma determinação que vinha crescendo desde a conversa com Asuka. Ele precisava de respostas. E aquele tempo sozinho permitiu que um plano arriscado tomasse forma — um jogo de azar para puxar um pouco da cortina. Se funcionasse, talvez finalmente conseguissem algumas respostas reais.


A segunda-feira amanheceu sobre Tokyo-3 com um silêncio contido, como se a cidade prendesse a respiração. Kai dormiu mal. Apenas silêncio. Quando a luz começou a atravessar as persianas, a única coisa que o ancorou à realidade foi a vibração do celular.

Uma mensagem de Asuka.

"Levanta, preguiçoso. A gente tem trabalho a fazer."

Ele não conteve o sorriso. Ela não perdia tempo. Pelo visto, o castigo não apagou o fogo dela. Era reconfortante, de certa forma. O mundo podia desabar, mas Asuka sempre seguia em frente — direta, incendiária, impossível de ignorar.

Qualquer que fosse o jogo em que estavam entrando, já estava em movimento.

"Bom dia! Também tô ansioso pra te ver," ele respondeu antes de seguir para a cozinha. Enquanto quebrava ovos na frigideira, outra mensagem apareceu.

"Não começa com essa melação. Me encontra na escola. A gente começa por lá."

Direta ao ponto. Típico de Asuka. Kai terminou rápido seus ovos mexidos — uma rotina simples, um pequeno alicerce em meio à incerteza crescente. Um banho rápido, uniforme, uma olhada no espelho — Pareça normal, aja normal. Pegou a mochila e saiu pela porta.

A caminho da escola, pensou em Rei. Era a única com quem ele ainda não havia conseguido se conectar de verdade. Com todos os outros — Misato, Shinji, até mesmo Asuka — ele encontrava o ritmo certo. Mas Rei? Ela era uma porta trancada. Silenciosa. Distante. Embora parecesse se abrir um pouco mais perto de Shinji. Especialmente depois daquele momento após a última batalha. Talvez ele fosse a chave. E se queriam respostas, precisavam de Rei.

O que significava que precisavam de Shinji do lado deles. Espero que ele esteja pronto.

Ao se aproximar da escola, visões familiares apareceram. Toji brincando com Kensuke. Hikari os repreendendo com as mãos na cintura. E lá estava Shinji, olhando para o céu como se procurasse respostas nas nuvens.

Asuka estava perto da entrada da escola, braços cruzados e o pé batendo como se estivesse esperando desde o amanhecer. Assim que o avistou, aquele sorriso malicioso floresceu em seu rosto.

"Demorou, hein, Kai," ela chamou, jogando o cabelo para trás. "Tava ocupado demais se admirando no espelho?"

Era tudo que ele precisava para se afastar das ideias negativas. A energia dela o fez sorrir de volta, sem pensar.

"Por que diz isso? Tá gostando do que vê, é?"

Ela revirou os olhos, mas não parou de sorrir daquele jeito esnobe.

Shinji, parado por perto, deu um leve aceno — quieto, como sempre.

"Bom te ver melhor, cara," disse Kai, dando um tapinha leve no ombro dele.

"É... eu tô bem," respondeu Shinji suavemente, embora seus olhos ainda carregassem um traço de cansaço.

Os três seguiram para dentro da escola conforme as aulas começavam, mas Kai mal ouviu as explicações. Seu olhar vagava. Asuka o flagrou distraído mais de uma vez, sorrindo toda vez. Shinji permanecia calado, encarando o quadro-negro.

Preciso conversar com ele logo.

Capítulo 71: Limite da Confiança / Rebelião Sussurrada

Quando o sinal do intervalo finalmente tocou, Kai fez um gesto com a cabe\c{c}a para Asuka. Ela arqueou uma sobrancelha e, ao ler seu olhar, retribuiu com um leve aceno. Hora de agir.

Kai se virou para Shinji. "Ei. Vamos subir pro telhado um pouco. Preciso conversar."

Shinji piscou, desconfiado. "Hã... sobre o quê?"

Ele já parece nervoso. Isso não vai ser fácil.

Asuka se intrometeu, braços cruzados. "Cala a boca e vem logo, Terceira Criança. É importante."

Aquilo bastou. Ele suspirou e se levantou, seguindo os dois pelas escadas.

O telhado estava silencioso. A brisa trazia o cheiro da cidade, e ao longe, as torres geométricas de Tokyo-3 brilhavam sob a luz do sol. Pacífico. Mas parecia que estavam na beira de algo enorme.

Shinji se encostou na grade, franzindo a testa. "Certo. O que está acontecendo?"

Kai olhou para Asuka e depois voltou-se para ele. Hesitou. Encontrar as palavras certas era mais difícil do que esperava.

"Ok, Shinji. Vou te contar tudo."

Shinji esperou, em silêncio.

Kai respirou fundo. "Desde que cheguei aqui, as coisas não batem. Não são só os ataques dos Anjos, as coisas nos bastidores. Como meu Eva ser sempre o alvo. Ou como a NERV nem se preocupou em procurar por mim ou pela Asuka durante o último ataque. Sem punição real, nada. E... os chefões? Eles tratam a gente como ruído de fundo."

Dizer aquilo em voz alta parecia estranho. Como levantar uma pedra e finalmente enxergar a podridão debaixo. Mas agora que começara, não conseguia parar.

Ele fez uma pausa. "O seu pai nem sequer deu conhecimento de que estávamos ausentes. É como se... não importasse. Como se ele nem nos quisesse lá."

Shinji se enrijeceu. Seus punhos se fecharam sobre a grade. Asuka bufou ao lado dele.

"Tsc. Não é óbvio? Ele só se importa com o Eva. Não com a gente. Você é só mais uma peça pra ele."

A voz de Shinji saiu baixa. "Então... vocês estão dizendo que a NERV não conta tudo pra gente? Que meu pai..."

Kai assentiu. "Exatamente. E a gente vai descobrir o que está realmente acontecendo. Queremos você com a gente. Você e a Rei — achamos que estão no centro disso tudo."

Shinji desviou o olhar. "Eu... eu sei que meu pai não me conta tudo. Só não sei se quero saber."

Dessa vez, Asuka não revirou os olhos. Apenas esperou. Em silêncio. Observando.

Kai se aproximou, com a voz mais suave. "Eu entendo. A NERV sempre foi suspeita. Mas eu acreditava que tudo isso valia a pena, que pelo menos estávamos protegendo as pessoas. Só preciso ter certeza de que isso ainda é a verdade."

Shinji os encarou, lutando com tudo o que fora dito. Seus ombros tremiam. "Vocês acham... que a Rei sabe de algo?"

Kai assentiu. "Ela está aqui há mais tempo que todos nós. Mas ela não vai simplesmente falar. É aí que você entra."

Asuka interveio. "Você é o único com quem ela realmente fala. De algum jeito. Se alguém pode quebrar esse mistério, é você."

"Na verdade," acrescentou Kai, virando-se para Shinji, "se você mesmo lembrar de mais alguma coisa, algo que ouviu, algo estranho, pode ajudar."

Shinji hesitou. Então, lentamente, seu olhar escureceu. "Antes do último Anjo... ouvi meu pai conversando com o Fuyutsuki. Falaram algo sobre um plano, mas..." Sua voz tremeu. "Eu não entendi direito..."

A voz de Asuka foi cortante. "A gente acha que queriam que você perdesse o controle. De novo."

Shinji olhou pra ela, depois baixou o rosto. "Não quero acreditar nisso."

"Mas você acredita," ela respondeu.

Silêncio.

Kai se virou, olhando o horizonte. A cidade abaixo seguia sua rotina, alheia ao peso que os esmagava. "Ele não está só interferindo na sua vida, Shinji. Pessoas inocentes podem se machucar."

Ele olhou de volta, encontrando os olhos do amigo. "E se você estiver bem com isso... me desculpa."

Então virou-se para Asuka. "Mas nós não estamos. Vamos chegar ao fundo disso."

Os três ficaram em silêncio. O vento agitava seus uniformes.

Shinji olhou para as mãos, expressão distante. Os ombros tensos, como se o peso de tudo o que Kai acabara de dizer estivesse finalmente se assentando. Por um momento, não disse nada. Apenas ficou ali, parado e silencioso, preso entre a descrença e o medo.

Asuka cruzou os braços com força, observando-o. "Olha, Terceira Criança, ninguém tá pedindo pra você ir à guerra com seu velho. A gente só quer a verdade. Se quiser continuar sendo o soldadinho obediente, beleza. Mas não vem chorar quando te jogarem no fogo de novo esperando que você queime."

Aquilo o atingiu. Ele se encolheu, levemente. Mas então — um suspiro lento. O queixo erguido.

"Eu não quero ser mais um peão deles," disse Shinji, com a voz baixa, mas firme. Ele olhou para cima, o olhar mais estável. "Se vocês vão mesmo seguir com isso... então eu ajudo. Pelo menos com a Rei."

O sorriso de Asuka voltou. "Boa resposta." Ela inclinou a cabeça. "E qual é o melhor jeito de abrir a Senhorita Sem Emoções? Porque a gente sabe que ela não fala com qualquer um."

Shinji pensou por um momento, então disse: "Acho que... a única pessoa a quem ela realmente escuta... é meu pai."

Isso pegou Kai de surpresa. "Ela se importa mesmo... com seu pai?" perguntou Kai, surpreso. "Eu não sabia disso. Por quê?"

Shinji se mexeu, coçando o braço. "Não sei por quê. Mas ela escuta ele — mais do que a Misato, mais do que a Ritsuko. Ela confia nele. Completamente. Nunca questiona nada que ele diz." Sua voz apertou. "É como se fosse devota a ele."

Asuka bufou. "Tsc. Isso é perturbador." Ela bateu o dedo no braço, pensativa. "Se ela é tão leal ao Gendo assim, então provavelmente sabe muito mais do que demonstra. Mas como fazer ela falar?"

Kai se virou para Shinji. "Mas... Agora que você disse que ela é tão próxima do seu pai, eu... eu não sei... será que a gente pode mesmo confiar nela?"

Shinji abaixou o olhar de novo. Pensativo. Hesitante. "Eu... eu acho que sim. Ela nunca me machucou. Sempre foi gentil, do jeito dela. Mas se meu pai mandasse ela fazer alguma coisa... acho que ela faria. Sem hesitar."

Asuka franziu a testa. "É exatamente isso que a torna perigosa. Se ela sabe de algo, não vai nos contar. E se não sabe... então é só mais uma peça nesse quebra-cabeça deturpado."

Kai se recostou levemente, olhos no céu.

A Asuka claramente tem implicância com ela, mas o jeito como a Rei se sacrificou para proteger o Shinji... Aquilo não foi uma ordem do pai dela, foi ela agindo por vontade própria. E isso me faz sentir que talvez possamos confiar nela.

Ela se virou para Kai. "E aí, qual é o plano, gênio? Como a gente faz isso sem levantar suspeita?"

Kai soltou o ar. "Bom, ela não tá aqui hoje. Provavelmente ainda está no hospital. E eu e a Asuka estamos de castigo, então não podemos fazer nada fora da escola ou da NERV por enquanto. Mas talvez..." Ele olhou para Shinji. "Talvez se você for visitá-la hoje, possa conversar com ela. Ver como ela tá. Sentir o clima. Acho que ela ia gostar disso."

Shinji piscou. "Visitar a Rei...?" Ele pareceu incerto, olhando de Kai para Asuka. "Na verdade... eu tava pensando em fazer isso. Provavelmente ela não vai falar muito, mas... vou tentar."

Asuka sorriu de lado. "O quê, tá nervoso? Sabia que ia amarelar."

"Não é isso," murmurou Shinji. "Só não quero que ela ache que tô espionando ou algo assim." Ele voltou o olhar para Kai. "Eu vou. Falo com ela um pouco. Mas se ela parecer desconfiada, não vou forçar."

Asuka deu de ombros. "Tudo bem. Melhor que nada. Não dá pra esperar muito de você mesmo."

Ele suspirou. "Certo. Vou depois da aula. Se notar algo estranho... aviso vocês."

Kai assentiu. "Valeu, Shinji. É só isso que estamos pedindo."

Shinji retribuiu o gesto. Depois olhou de novo para a cidade. "Só espero que ela realmente escute."

Asuka lançou um olhar desafiador para Kai. "E agora? Qual é o próximo passo, líder destemido?"

Kai estreitou os olhos. A conversa sobre a Rei deixara um nó de incerteza no estômago. Confiar apenas no Shinji para extrair informações de alguém potencialmente manipulada pelo Gendo parecia passivo demais, insuficiente.

A gente não pode só esperar e torcer para que a Rei decida falar, ou que o Shinji consiga algo útil sem atrair atenção do Gendo.

Eles precisavam de algo concreto, algo fora do controle da NERV, uma forma de ver o que realmente estava acontecendo sem depender de pessoas que talvez estivessem sendo manipuladas. Precisavam de olhos próprios.

"Na verdade... pensei num plano pra conseguir respostas que a gente provavelmente não deveria ter. Mas é arriscado."

Shinji e Asuka pararam. Shinji pareceu imediatamente preocupado.

Asuka se inclinou, intrigada. "Não para por aí. Que tipo de arriscado estamos falando?"

"Kensuke." Kai olhou para Shinji. "Lembra do vídeo que ele mostrou pra gente? No meu primeiro dia? Ele tinha imagens da nossa luta contra o Ramiel. Nem a NERV sabia que ele tinha aquilo."

Shinji arregalou os olhos. "Você tá dizendo... espionar a NERV?"

Asuka inclinou a cabeça, interessada. "Agora sim tá ficando bom. Mas como diabos você pretende fazer isso? Não dá pra entrar com uma câmera e esconder debaixo da mesa."

Kai fez uma pausa e olhou para Asuka. "Esse... é exatamente o meu plano!"

Asuka o encarou por um segundo e depois caiu na risada. "Tá falando sério?! Quer plantar uma câmera dentro da sede da NERV? Kai, isso é insano!" Mas seus olhos brilhavam de empolgação.

A preocupação de Shinji era visível. "E... o que a gente espera encontrar com isso? Isso não é mais só fuçar por curiosidade. É espionagem."

Kai virou-se primeiro para Asuka. "Você não tava lá, então deixa eu explicar. O Kensuke conseguiu burlar a vigilância da NERV. Não sei como, mas ele tinha um vídeo limpo, completo, da nossa luta. Esse tipo de acesso... não é pouca coisa."

Asuka ergueu a sobrancelha, braços cruzados. "O nerdzinho conseguiu mesmo? Huh. Talvez ele seja mais útil do que eu pensava."

Shinji coçou a nuca, ainda cético. "Ele deve ter usado algum equipamento que a NERV não monitora. Coisa militar, talvez."

Asuka olhou para Kai, com um sorriso provocador. "E então? Vamos mesmo fazer isso ou estamos só trocando fantasias de espião?"

Kai sorriu. "Ah, vamos sim. Somos pilotos, o fio da espada. Não deviam nos deixar no escuro." Ele se virou para Shinji, voz mais suave. "Mas sim... é perigoso. Não vou te forçar a participar. Você precisa decidir por si."

Shinji ficou quieto por um momento, o rosto tenso enquanto encarava o chão. Kai conseguia sentir — Shinji já pesava os riscos, não só pra ele, mas pra todos. Esse era seu fardo: sempre carregar a culpa antes do crime.

"Não é que eu não queira respostas. Mas se a gente for pego... isso pode recair sobre a Misato. Ou a Ritsuko. Ou pior, sobre todo o programa Eva."

Asuka suspirou alto. "Você sempre complica tudo, Terceira Criança. A gente não tá tentando derrubar o sistema — só queremos a verdade. E se seu amiguinho conseguir algum equipamento de vigilância que a NERV não perceba, seríamos idiotas de não tentar."

O sinal tocou à distância, marcando o fim do intervalo. Asuka se espreguiçou e se levantou. "Tsc. Hora de voltar a fingir que somos só pilotinhos burros que não desconfiam de nada." Ela lançou um olhar para Kai, sorrindo. "Tem certeza que consegue bancar o inocente, Kai?"

Ele sorriu. "Nem um pouco. Mas sei que você não vai me dar sossego se eu não conseguir, né?"

Asuka jogou o cabelo para o lado. "Pode apostar. Se você vacilar, eu acabo com a sua paz."

Shinji balançou a cabeça. "Vocês dois são péssimos em serem discretos."

Asuka piscou. "Por favor. Perto de você, a gente é praticamente espião profissional."

E com isso, eles voltaram para dentro. O resto do dia passou em um borrão de aulas e conversas banais, com a máscara da normalidade mal se sustentando.

Capítulo 72: Sinais e Sombras / O Recurso Nerd

O tique-taque do relógio da sala parecia se arrastar enquanto Kai olhava pela janela, observando o horizonte pacífico de Tokyo-3. Era sempre assim — quieto demais. Como se a própria cidade não percebesse o que fervia sob a superfície. Mas Kai sabia. E cada segundo era como uma mola se comprimindo em seu peito.

Ao lado dele, Asuka tamborilava os dedos na carteira, impaciente. Shinji não dizia uma palavra há um tempo, perdido nos próprios pensamentos. Provavelmente já ensaiando o que diria para Rei.

O sinal final tocou, e Asuka se espreguiçou, soltando um suspiro exagerado.

"Finalmente! Já tava achando que nunca íamos escapar."

Shinji arrumou a mochila lentamente, olhar distante.

"Vou ver a Rei," disse. "Aviso vocês se descobrir algo."

Respirou fundo, olhando o corredor antes de continuar:

"Eu e Asuka vamos encontrar o Kensuke e conversar com ele. Depois a gente se reúne de novo. Na sua casa, Shinji. Acho que a Misato não vai se importar se dissermos que estamos só passando o tempo, né?"

Shinji pareceu hesitante, mas assentiu.

"É... tudo bem. Ela não vai ligar não." Ele olhou entre os dois. "Só tomem cuidado com o Kensuke. Se ele se empolgar demais, pode começar a fazer perguntas que a gente não quer responder."

Asuka deu de ombros. "Pfft. A gente responde. Só não com a verdade." Ela virou-se para Kai. "Certo, parceiro no crime, vamos encontrar o seu nerd."

Shinji se afastou, ainda imerso em pensamentos.

Asuka estalou os dedos. "Certo, Kai. Operação ‘Nerd Espião’ iniciada. Então — onde você acha que ele tá se escondendo?"

Kai pensou por um momento, os olhos escaneando os corredores que começavam a esvaziar.

"A última vez que vi, o Kensuke ainda estava na sala de aula conversando com o Toji. Vamos começar por lá."

Asuka assentiu com firmeza. "Beleza. Vamos antes que ele suma com aquela câmera dele."

Os dois voltaram para a sala de aula. E lá estavam: Toji e Kensuke ainda conversando. As mãos de Kensuke se agitavam no ar no meio de uma explicação — provavelmente algo sobre tecnologia da NERV ou especificações militares. Toji parecia menos interessado, meio perdido na conversa.

"Aí estão vocês!" Kensuke sorriu ao vê-los entrar. "A gente tava falando sobre aqueles resultados dos testes de sincronização que vazaram —"

Toji gemeu. "Cara, nem tudo na vida tem que ser sobre os Evas."

Asuka cruzou os braços, sem paciência. "Tsc. Vocês realmente não têm nada melhor pra fazer?"

"Ah, qual é, Asuka," Kensuke sorriu. "Nem todos nós temos o privilégio de pilotar um Eva. Alguns de nós têm que viver isso através de vocês." Então seu olhar voltou para Kai, o interesse aguçado. "E aí? Vocês dois estão com uma cara de quem tá tramando alguma coisa."

Kai se inclinou com um sussurro brincalhão. "Isso mesmo, Kentucky. Preparado pra uma missão ultra-secreta? Encontra a gente no telhado."

Os olhos de Kensuke brilharam. "Ultra-secreta? Agora você falou a minha língua."

Toji suspirou. "Cara, não arrasta ele pra essas maluquices de piloto. Ele se empolga demais com essas coisas. Tô fora."

Mas Kensuke já ajeitava os óculos. "Telhado, então. Me dá cinco minutos — preciso pegar uma coisa antes."

Asuka sorriu de canto. "Hah. Não faz a gente se arrepender, Kentucky."

Com Kensuke se preparando, Kai e Asuka seguiram em direção ao telhado.

Capítulo 73: Protocolo de Contenção / Último Recurso

A brisa os recebeu primeiro, fresca e constante, quando pisaram no espaço aberto. Tokyo-3 se estendia sob o céu, banhada pela luz que se desfazia.

Kai se encostou na grade ao lado dela. "Finalmente sozinhos de novo, hein?"

Asuka arqueou uma sobrancelha, com um sorriso de canto. "Tsc. Não fica todo sentimental agora, Selvinha."

Ela se recostou na grade, braços cruzados, mas havia algo em sua expressão — um brilho de curiosidade, talvez até expectativa.

"E aí? Vai começar a recitar poesia ou coisa assim?"

Kai riu. "Não, mas... falando sério... As rosas são vermelhas—"

Asuka gemeu. "Ai meu Deus, Kai. Se você terminar esse poema, eu te jogo desse telhado."

Mas ela estava sorrindo. Um leve tom rosado coloriu suas bochechas — quase imperceptível, mas inconfundível. Ela se mexeu um pouco, sem encará-lo diretamente.

"Falando sério... o que tá passando aí nessa sua cabeça?"

A voz de Kai suavizou. Ele se virou para ela, encarando seus olhos.

"Desde que cheguei aqui, você sempre esteve do meu lado. Obrigado por isso. Ter esse tipo de apoio... não é algo comum pra mim."

Por um instante, Asuka piscou como se não esperasse aquilo. Seu sorriso vacilou, e ela desviou o olhar rapidamente, cruzando os braços do jeito defensivo que sempre usava quando as coisas ficavam reais demais.

"Tsc. Não fica todo meloso," murmurou.

Ela inclinou levemente a cabeça e o olhou de novo.

"Além do mais... você nem é tão ruim de se ter por perto."

Uma pausa.

Kai olhou discretamente para baixo. E lá estava. Descansando sobre a clavícula dela — o colar em forma de estrela que ele havia dado. Brilhando ao sol.

Ela estava usando.

Asuka seguiu o olhar dele e imediatamente cruzou os braços com mais força, um rubor subindo pelas bochechas.

"O quê? Para de encarar," resmungou. "Só... combina com a roupa, tá?"

Mas ela não escondeu. E quando seus dedos tocaram o pingente — breve, quase instintivo — disse tudo que ela não disse em voz alta.

Kai sorriu.

"Tem... uma coisa que quero te pedir. E essa parte — só vou contar pra você."

Asuka ergueu uma sobrancelha, os olhos brilhando de curiosidade.

"Tá bom, manda. Que ideia maluca você vai me arrastar dessa vez? E é bom que seja boa, se tá escondendo até do nosso pequeno espião em treinamento."

Kai sorriu. "Só... promete uma coisa."

Os olhos dela se estreitaram, desconfiada.

"Tsc. Promessas são coisa séria, Kai. Exatamente com o que eu tô concordando antes mesmo de saber?"

Ele respirou fundo.

"Lembra do último teste de sincronização?"

Asuka inclinou a cabeça. "Lembro. E daí? Você surtou por um segundo, depois se recuperou. Não foi seu melhor momento — mas também não foi o pior."

O sorriso dela sumiu à medida que o observava.

Kai desviou o olhar.

"Talvez você não tenha percebido, por causa do meu óbvio carisma e coragem... mas eu fiquei com medo. Senti que se eu ouvisse mais aquela voz, se eu me entregasse... perderia o controle. E se isso acontecer..." Ele voltou a encará-la. "...você vai ter que me parar. A qualquer custo. É isso que quero que prometa."

O sorriso sumiu de vez.

Asuka o encarou, o maxilar tenso. Então se aproximou, a frustração vibrando na voz.

"Pode apostar que eu vou te parar. Como se eu fosse deixar você surtar comigo por perto."

A expressão dela suavizou. Ela cutucou o peito dele.

"Mas nem pense em entrar achando que vai se perder. Você não é um monstro. Você é você. E eu não vou deixar alguma voz idiota tirar isso de você."

Ela hesitou e depois murmurou:

"Mas sim... eu prometo." Um instante depois, completou com um sorriso torto:

"Não que eu tivesse qualquer problema em te derrubar."

Kai sorriu. "Essa talvez fosse a chance que você sempre quis, de me dar um soco forte o bastante pra me apagar, né?"

Asuka bufou. "Hah! Como se eu precisasse de desculpa. Mas não facilita, tá? Se eu tiver que te parar, que seja desafiador." E depois, baixinho: "E não me faça ter que fazer isso."

Kai assentiu. "Não é meu plano. Só precisava saber que posso contar com você. O Shinji com certeza nem tentaria."

Asuka suspirou, séria de novo. "É... eu sei. Ele hesita. Não é como a gente. Mas eu? Eu faço o que for preciso. Sem hesitar."

Ela desviou o olhar.

"Mas... não me obriga a isso. Por favor."

Depois de uma longa pausa, Kai também suspirou.

"De qualquer forma... espero que a gente consiga plantar a câmera antes dos próximos testes de sincronização."

Asuka assentiu. "É. Vamos ter que agir rápido. A tecnologia do Kensuke pode ser boa, mas a NERV tem olhos em todo lugar. Precisamos de um lugar que nem os técnicos pensariam em verificar. Tem alguma ideia?"

Kai sorriu de canto. "Ah, eu acho que você sabe exatamente onde eu quero colocar. Um lugar onde conseguiríamos informações reais. Nem a Misato nem a Ritsuko sabem toda a verdade."

Os olhos de Asuka se arregalaram e depois se estreitaram. "Você tá falando do escritório do Comandante." Ela cruzou os braços. "Mas isso é insano. Você sabe, né?"

Mas havia empolgação na voz dela.

"A gente teria que ser rápido. E sutil. Chegar perto daqueles lugares já é um risco."

Kai deu de ombros. "Eu tava esperando que você ajudasse com essa parte. O escritório do Comandante seria o ideal, mas eu nem cheguei a conhecer o Gendo ainda."

Asuka bufou. "Tsc. Claro que não. Ele mal fala com o próprio filho. Mas... talvez tenha outro jeito. A Ritsuko. Ela é próxima do Comandante. Se colocarmos a câmera perto do laboratório dela, podemos pegar algo grande."

Ela levou a mão ao queixo, pensativa.

"Os laboratórios são restritos, mas nem tanto quanto o Dogma Central. E nós somos pilotos de Eva. Testes de sincronização podem ser a desculpa perfeita."

Kai piscou. "Dogma... Central? O que é isso? Você ainda sabe mais sobre a NERV do que eu."

Asuka olhou pra ele como se ele tivesse acabado de dizer que não sabia o que era um plug de entrada.

"Sério? Dogma Central é a parte mais baixa e restrita da base. É onde eles guardam os segredos de verdade."

Kai a encarou, sorrindo devagar.

"Sabe... é errado eu estar animado por fazer isso com você?"

Asuka ergueu uma sobrancelha, com um sorriso.

"Você é inacreditável. A gente tá prestes a invadir uma instalação ultra-secreta e você tá aí, todo bobo, só porque eu tô com você?"

Ela balançou a cabeça, rindo baixinho.

"Você é mesmo um caso perdido."

Então, depois de uma pausa, ela encostou levemente o ombro no dele.

"Mas... se fosse pra fazer uma loucura dessas, tem pessoas bem piores pra se fazer junto."

Kai riu. "A gente vai fazer isso. E depois... eu te levo em outro encontro."

Asuka revirou os olhos. "Tsc. Você não desiste, né?"

Ela desviou o olhar.

"Tá. Mas não estraga nenhum dos dois."

Então, inclinando-se com um sorriso malicioso, sussurrou:

"Porque se estragar, você é quem vai estar em apuros."

Ela se virou, espreguiçando-se como se nada tivesse acontecido.

"Certo, líder destemido. Qual é o próximo passo? A gente precisa pegar aquela câmera antes de sair se esgueirando pela NERV."

Kai sorriu.

"Com certeza! E onde diabos se meteu o Kensuke?"

Capítulo 74: Ativos Não Autorizados / Olhos nas Sombras

Como se tivesse sido convocado pelo nome, a porta do terraço rangeu ao se abrir e Kensuke surgiu, um pouco sem fôlego, mas transbordando energia. "Caramba, vocês são impacientes! Tive que garantir que ninguém me seguisse."

Kai revirou os olhos. "Seguisse você? Pô, a gente nem começou ainda! Por que alguém suspeitaria de alguma coisa?"

Ainda assim, Kai olhou em volta. Só por precaução.

Kensuke ajustou os óculos e deu um sorriso para os dois. "Certo, Comandante Kai, Major Soryu, qual é essa `missão ultra-secreta' na qual vocês me alistaram?"

Asuka sorriu de lado, braços cruzados. "Não se empolga demais, Kentucky."

Kensuke fez um gesto com a mão, despreocupado. "Tá, tá. Agora conta aí — o que vamos fazer?"

Kai manteve o tom sério. "Não podemos contar muito. É para sua própria segurança. Mas precisamos da sua ajuda."

Os olhos de Kensuke se arregalaram de empolgação. "Nossa, isso já tá ficando bom. Eu vivo pra esse tipo de coisa. Beleza, beleza, sigilo nível máximo — entendi. Mas vocês sabem que me dizer isso só me deixa ainda mais curioso, né?"

Asuka revirou os olhos. "Tsc. Óbvio, né, nerd. Só escuta e faz o que a gente pedir."

"Entendido," respondeu ele, animado. "Então, qual é a minha parte?"

Kai se aproximou. "Lembra daquela câmera que você usou pra filmar a luta contra o Ramiel? A gente precisa dela. Ou melhor, de uma versão dela. Menor, mais discreta. Algo que consiga entrar na NERV sem ser detectado."

O rosto de Kensuke se iluminou. "Vocês precisam de uma câmera fantasma. Essa é a minha praia. Aquela que eu usei antes não transmitia — apenas gravava localmente, por isso os sistemas da NERV não detectaram. Posso arranjar uma versão menor, com certeza. Mas... onde exatamente vocês querem colocar isso?"

Asuka manteve o tom vago. "Num lugar útil. Onde as pessoas conversam."

Kensuke assentiu, já com a mente trabalhando a mil. "Certo. Se não precisam de prioridade em vídeo e o foco for áudio, posso reduzir a qualidade e aumentar a sensibilidade do microfone. Economiza energia. Mas se não tiver fonte externa, a bateria dura no máximo uns dois dias."

Kai assentiu. "Áudio é prioridade. Se conseguir fazer algo pequeno o bastante pra esconder perto de um console ou mesa, a gente cuida do resto."

Kensuke anotou num caderno. "Ok… tamanho de uma moeda, microfone direcional, memória interna, temporizador com atraso pra não começar a gravar de imediato. Sem luzes, sem sons, sem sinais. O mais limpo possível. Mas vocês vão ter que recuperar o aparelho depois pra acessar o que foi gravado. Essa é a parte arriscada."

Asuka bufou. "Claro que é. Só não faz cagada."

"Nunca," disse Kensuke com orgulho. "Me deem 48 horas. Mas me passem mais detalhes sobre o local — mesa, duto de ventilação, painel? Preciso ser específico."

Kai hesitou, depois puxou Asuka de lado.

"Não faço ideia de como é o Dogma Central. É grande? Onde a gente coloca isso?"

Asuka cruzou os braços, sussurrando. "É enorme. Enorme mesmo, pelo que ouvi. Se tiver algum lugar onde as pessoas se reúnem — deck de observação, console, qualquer coisa — vamos mirar nisso. Algo funcional. Onde se fale abertamente."

Kai assentiu e voltou até Kensuke. "Faz pequeno. Vamos ter que improvisar lá dentro. Console ou mesa, provavelmente."

Kensuke sorriu. "Então eu tenho exatamente o que vocês precisam. Eles nem vão notar que tá lá."

Ele ergueu os olhos, mais sério agora. "Mas vocês têm que tomar cuidado. Isso não é como esconder lanche na aula. Estamos falando de espionagem contra a NERV. É bem acima do meu nível. Se vocês forem pegos—"

Kai lançou um olhar firme. "Não se preocupa. A gente não abriria a boca nem sob tortura."

Então seus olhos se estreitaram. "E você… não conta pra ninguém sobre isso. Nem pro Toji, nem pra ninguém."

Kensuke engoliu seco, mas assentiu. "Tá, tá. Silêncio total. Entendi. Eu não sou idiota."

Depois, tentou aliviar o clima com um sorriso. "Mas caramba, vocês dois são mesmo de outro mundo. Primeiro o carro roubado, agora espionagem? Certeza que não tão escrevendo o próprio filme de espiões?"

Asuka gemeu. "Tsc. Ótimo. Agora somos celebridades."

Kai piscou. "Perae… como diabos você sabe disso?"

Kensuke riu. "A maioria acha que vocês foram para alguma missão secreta. Sinceramente, apostei que vocês tinham fugido pra uma viagem romântica!"

Ele mal conseguiu desviar quando Asuka deu um tapa na parte de trás da cabeça dele.

"Cala a boca, Kentucky!"

"Ai! Tô arriscando muito ajudando vocês, tenham dó!" Ele suspirou. "Enfim, vou preparar o dispositivo. Quando estiver pronto, entrego pra vocês."

Ele apontou pros dois. "E lembrem-se: eu nunca estive aqui. Vocês não pegaram isso comigo. Eu nem existo."

Asuka sorriu de lado. "Relaxa. Só não vacila."

Kai fez que sim com a cabeça. "Estamos contando com você. E… valeu."

Kensuke fez uma continência curta. "Só não sejam pegos. Quero muito ver o que vocês vão descobrir."

Com isso, ele virou e desapareceu escada abaixo, deixando Kai e Asuka sozinhos mais uma vez.

Capítulo 75: Caminhos que Convergem / Passos Resolutos

Asuka exalou, mãos na cintura, olhos acesos por adrenalina e propósito. "Pronto, isso tá feito. Agora é só esperar o relatório do Shinji sobre a Rei e—" ela cutucou o braço de Kai com um sorriso malicioso, "—planejar nosso grande golpe pra descobrir os segredos mais sombrios da NERV. Acha que dá conta, parceiro?"

O sorriso de Kai foi imediato. "Com certeza."

Asuka jogou o cabelo por cima do ombro. "Ótimo. Porque, depois disso, não tem mais volta."

Eles começaram a descer a escadaria juntos. Asuka ia à frente, mãos cruzadas atrás da cabeça. "Por enquanto, a gente mantém o disfarce. Aja normalmente. Espera o Shinji e aquela câmera. Mas quando chegar a hora? A gente deixa de ser só piloto. E vira jogador."

Kai assentiu. "Vamos pra casa do Shinji."

"Boa ideia," disse Asuka. "Se a gente não aparecer, ele pode tentar escapar. E eu não vou deixar ele se safar dessa."

Eles caminharam lado a lado por Tokyo-3, mas para Kai, o ritmo desacelerou. Sua mente vagava—de volta à cachoeira, ao encontro que poderia ter sido mais. Aquele momento que escapou.

Asuka o olhou de lado e cutucou seu braço. "Tá bem calado. O que tá passando nessa cabeça esquisita?"

Kai despertou. "Eu só… tava pensando na câmera. O Kensuke disse dois dias. A gente tem que ser cuidadoso..."

Ela deixou a provocação de lado por um momento. "Então a gente espera. Segue o plano. Consegue respostas."

Ela o cutucou de novo. "E tenta não se perder demais no que quer que você realmente estava pensando."

Kai se atrapalhou um pouco. "Eu não… não sei do que você tá falando."

Asuka ergueu uma sobrancelha, admirada. "Aham. Sei. Você é tão óbvio, Kai. Chega a ser meio fofo." Ela sorriu. "Mas tudo bem, não vou zoar você… demais."

Ela voltou a olhar pra frente. "Vamos chegar logo no Shinji antes que você exploda de vergonha."

Kai riu baixo e então olhou para o céu. "Ele provavelmente já falou com ela. Espero mesmo que tenha conseguido alguma coisa útil."

"É," disse Asuka. "Mas se a Rei sabe de alguma coisa, ela não vai sair contando. Talvez o Shinji tenha conseguido quebrar o gelo. Se não... bem, a gente descobre por conta própria."

Caminharam em silêncio até Kai finalmente falar de novo. "Mas você viu como ela se jogou na frente daquele Anjo pra proteger ele? Acho que ela realmente se importa com ele. E agora ele foi ver ela sem pensar duas vezes? Acho que isso é tudo que ela precisava pra se abrir."

Asuka sorriu de lado. "Olha só a gente, virando cupido agora. Devíamos começar a cobrar por isso. Mas é... eu vi. Ela tava pronta pra morrer por ele. Isso não é pouca coisa. Ele pode realmente quebrar aquela parede de gelo dela."

Ela lhe deu uma cotovelada brincalhona. "Claro que, se der certo, ele vai nos dever uma. E bem caro."

"Não pega tão pesado com ele," disse Kai. "O pai dele é talvez o maior babaca do mundo."

Asuka suspirou. "É, eu sei. Não odeio o cara. Ele só… frustra. Tem tanto potencial, mas sempre se segura. Com um pai daqueles? Dá pra entender. Mas não deixa de ser irritante."

Ela deu de ombros. "Mas olha, se a Rei ajudar ele a criar coragem e a gente conseguir informação com isso? Sai todo mundo ganhando."

Kai riu. "Vai ver eles ficarem juntos é exatamente o que a gente precisa pra salvar o mundo."

Asuka deu um risinho. "Ah, para. Vai derrotar os Anjos com o poder do amor agora?"

Kai riu e ela riu também, balançando a cabeça. "Embora... se isso fizer ele lutar sem reclamar, talvez não seja má ideia."

Ela o cutucou de novo. "E nem pense que você é algum gênio dos relacionamentos. Mal tá dando conta de mim."

Asuka piscou. Seu sorriso vacilou—só por um segundo. Então ela estreitou os olhos, como se estivesse rebobinando a frase na própria cabeça. "Espera—cala a boca! Não é isso que eu quis dizer!"

Ela recuou um passo, apontando pra rua como se fosse um campo de batalha. "Corrida até a casa do Shinji! Sem choro quando eu te fizer comer poeira!"

Antes que ele pudesse responder, ela disparou. Sem contagem, sem aviso.

"Quê?!—Trapaceira!" Kai riu, saindo em disparada atrás dela. "Toma cuidado pra não escorregar num penhasco enquanto corre, ou vou ter que salvar sua bunda de novo! Achou que eu esqueci, mestre das escaladas?"

Asuka gritou por cima do ombro: "Tch! Aquilo foi UMA VEZ, e eu nem precisava de ajuda!"

Mas ela tava rindo, e Kai também.

Era o tipo de riso que afastava o medo—nem que fosse por um tempo. Kai sabia que, enquanto ainda pudessem rir assim, talvez ainda tivessem algum controle.

Cortaram as ruas em alta velocidade, desviando de pedestres e carros. O vento rasgava ao redor deles. Não era só uma corrida—era um desabafo compartilhado. Um momento de adrenalina no meio do caos.

Ela chegou à porta do Shinji primeiro, batendo a mão no batente com triunfo. "Hah! Mais uma vitória pra mim!"

Kai chegou segundos depois, curvado, mãos nos joelhos, ofegante. "É… vamos ver… se ele tá em casa."

Asuka sorriu, se inclinando sobre ele. "Tsc. Sem fôlego? Eu ganho em velocidade, resistência e estilo."

Ela deu um peteleco na testa dele. "Talvez você vire um rival decente algum dia."

Então, com uma batida rápida, ela chamou: "Vamos lá, vamos ver se o casalzinho rendeu alguma coisa."

Capítulo 76: Fins Necessários / A Primeira Traição

Antes que Kai pudesse recuperar o fôlego, a porta do apartamento se abriu. Shinji piscou, claramente surpreso ao ver os dois ali.

"Vocês... vieram correndo?" ele perguntou, confuso.

Asuka passou por ele sem perder o ritmo. "Isso não importa, Terceira Criança. Você falou com a Rei? O que ela disse?"

Kai entrou logo depois dela, olhando em volta. "Espera—A Misato tá aqui?"

Shinji balançou a cabeça. "Não. Ela ainda tá na NERV. Lidando com relatórios ou algo assim. Não vai voltar tão cedo."

Asuka se jogou no sofá, satisfeita. "Ótimo. Podemos falar livremente."

Shinji fechou a porta e se juntou a eles, coçando a nuca. "Eu falei com a Rei. Ela tava difícil de ler, como sempre. Mas quando mencionei meu pai... ela hesitou. Como se estivesse realmente pensando no que ia responder."

Ele olhou para cima. "Ela disse que o Comandante Ikari tem um plano. Que tudo o que tá acontecendo é ‘necessário’."

Asuka bufou. "‘Necessário’? Que diabos isso quer dizer?"

Shinji balançou a cabeça. "Não sei. Perguntei se ela confiava nele, e ela disse: ‘Sim. Mas não se trata de confiança.’"

Kai franziu a testa, sentando ao lado da Asuka.

"Então… ele tem um plano. Isso pode ser bom ou ruim. Ela disse que confia nele. Mas também disse que não se trata de confiança. Isso é… enigmático."

Shinji assentiu. "É. Como se ela seguisse ele porque acredita que tem que fazer isso—não porque quer."

Asuka se inclinou pra frente. "Tsc. Isso não é normal. Tipo, a gente recebe ordens, mas ela nem questiona."

Shinji hesitou. "Ela também disse outra coisa. Quando perguntei sobre os Anjos… ela disse que eles não são nosso único inimigo."

Isso fez Asuka se endireitar. "O quê? Que diabos isso quer dizer?"

Shinji parecia desconfortável. "Ela não explicou. Só disse que ‘o fim já está decidido.’"

Kai piscou. "O... fim?"

Shinji assentiu devagar. "Como se não importasse o que a gente fizesse, não mudaria nada."

Asuka rosnou. "Isso é besteira. Somos nós que estamos lutando. Se alguém vai decidir como isso acaba, somos nós."

Shinji deu de ombros. "Acho que ela não quis dizer bem isso. Mais como... ela já sabe o que vai acontecer. Como se tudo já tivesse sido planejado."

O silêncio caiu. O peso daquelas palavras—o fim sendo inevitável—ficou no ar.

Kai se levantou, forçando-se a manter o foco. "Pelo menos é alguma coisa. Mas ainda não acabou. A câmera do Kensuke vai ficar pronta em dois dias. Até lá, a gente fica quieto. Age como estudantes exemplares. E talvez a gente consiga fazer a Rei se abrir mais."

Shinji assentiu. "Se ela perceber que estamos todos do mesmo lado, talvez comece a falar mais."

Asuka suspirou. "Ugh. Quer dizer que temos que ser simpáticos e pacientes? Isso não é comigo." Ela olhou para Kai. "Mas tudo bem. Eu vou colaborar. Por enquanto."

"Não finja ser simpática," Kai disse. "Seja você. Ela vai notar se for falso. Só… vamos mostrar que ela pode confiar na gente. Que somos mais que uma equipe, somos amigos."

Asuka levantou a sobrancelha. "Então é só continuar sendo incrível? Entendi."

Shinji deu um leve sorriso. "Honestamente, isso é provavelmente melhor. Se ela vir que confiamos uns nos outros, talvez comece a confiar na gente também."

Asuka cruzou os braços. "Certo. Mas ainda não tô feliz com essa espera. Dois dias escondidos. E depois? A gente só entra na NERV e planta o negócio?"

Ela olhou para Kai. "Qual é o próximo passo?"

"Vamos recapitular o plano," Kai disse. "Passo 1: O dia de hoje já tá no fim. Não dá pra fazer muita coisa. Passo 2: Amanhã a gente vai pra escola e finge normalidade. Se a Rei estiver lá, tentamos nos aproximar."

"Agir naturalmente, entendi," Asuka disse. "E depois?"

Shinji acrescentou, "Passo 3: A gente pode usar amanhã pra encontrar onde plantar a câmera, certo?"

"Exato," Kai disse. "A gente se esgueira quando tiver uma chance. Mas pra entrar no Dogma Central... provavelmente vamos precisar de um cartão de acesso."

Asuka cruzou os braços. "Esse é o verdadeiro problema. A segurança lá embaixo é séria."

Shinji parecia incerto. "A Misato deve ter um cartão. Mas ela nunca deixaria a gente usar."

"A Ritsuko provavelmente também tem," Asuka disse, "mas ela é bem mais paranoica."

Kai fez uma careta. "Eu odeio o que vou dizer agora. Principalmente depois do que fizemos com o carro dela…"

Asuka sorriu. "Ah não. Você tá pensando em roubar da Misato, né?"

Shinji parecia horrorizado. "Kai, ela vai matar a gente."

Kai levantou as mãos. "Só tô dizendo, temos acesso às coisas dela. Você mora aqui. Mas tô aberto a outras ideias. Tem mais alguém de quem a gente possa pegar o cartão?"

Shinji hesitou. "Qualquer um de nível alto serviria, mas a gente não consegue chegar neles."

Asuka sorriu de lado. "Tem mais uma pessoa."

Os dois olharam pra ela.

"Quem?"

Ela se inclinou, o sorriso se alargando. "Kaji."

Capítulo 77: Charme e Acesso / O Plano Kaji

Os olhos de Shinji se arregalaram, o horror estampado no rosto. "O quê?! Asuka, de jeito nenhum! Ele com certeza perceberia!"

Asuka deu de ombros, sem se preocupar. "Eu nunca disse que seria fácil. Mas ele deve ter acesso, e é mais distraído do que a Misato ou a Ritsuko. Além disso, eu—" ela pigarreou. "Nós poderíamos distraí-lo. Ele cai fácil com uma conversinha doce."

Shinji gemeu. "Eu realmente não gosto de onde isso está indo."

Asuka se inclinou em direção a Kai, o sorriso afiado. "E aí, mestre ladrão, o que acha? Arriscar a Misato, a Ritsuko... ou o Kaji?"

Kai franziu a testa, ponderando. "Kaji, huh... Já vi ele por aí algumas vezes. Mas nunca falei com ele. Não sei se gosto do que você quer dizer com... distraí-lo."

Asuka revirou os olhos. "Ah, por favor. Tá com ciúmes, é isso? Isso é só tática, Kai. O Kaji é um alvo fácil se você souber apertar os botões certos."

Shinji suspirou. "Isso é uma péssima ideia."

Asuka o ignorou. "Tsc. Você não tem graça. Mas qual é a alternativa? Roubar da Misato e ser literalmente assassinado? Ou tentar enganar a Ritsuko e acabar dissecado num laboratório?"

Kai franziu o cenho, refletindo. "Não sei... Me conta mais sobre esse cara."

Asuka se animou. "Kaji? Típico espião charmoso e cheio de lábia. Trabalha pra NERV, mas claramente tem segundas intenções. Vive se esgueirando, bancando o misterioso. Acha que é o espertão."

Ela se inclinou, abaixando a voz de forma zombeteira. "Tudo o que precisa é de um pouco de charme, um ‘Ah, Kaji, você é tão inteligente e enigmático’, e pronto—ele tá na sua mão. Ele pensa que está no controle, mas na real? Sou eu que tô conduzindo o jogo."

Shinji franziu o cenho. "Você flerta com ele só pra conseguir o que quer?"

Ela hesitou, os olhos desviando para Kai — rápido demais pra se entender — e então bufou, com a voz tão afiada quanto sempre. "Duh. O quê, acha que eu gosto mesmo daquele velhote? Eca. É tudo tática."

Ela voltou a olhar pra Kai. "E aí, líder destemido? Vai fazer do meu jeito ou tem um plano melhor?"

Kai suspirou. "Ainda não gosto dessa ideia de você... flertar... com um cara mais velho. Eu preferia roubar da Misato."

O sorriso de Asuka se alargou. "Relaxa, Kai. Eu não tô interessada nele de verdade." Ela se recostou, braços cruzados. "Além disso, nem preciso fazer muito. O Kaji é do tipo que acha que é mais esperto do que todo mundo. Ele nunca vai suspeitar de nada."

Shinji parecia cético. "E se ele perceber?"

"Ele não vai," ela garantiu. "Eu já fiz isso antes." Então ela inclinou a cabeça, observando Kai. "Mas se alguém aí tá se corroendo de ciúmes, pode tentar pensar em algo melhor."

Ela claramente estava se divertindo em ver ele se contorcer, mas Kai também percebia que ela estava levando o plano a sério.

Ela voltou a olhar pra ele. "A não ser que você queira me supervisionar o tempo todo?" Havia um desafio provocador em sua voz, mas também algo mais—como se ela realmente quisesse saber o quanto ele odiava esse plano.

Kai estreitou os olhos. "Talvez seja perigoso demais? Eu posso..."

Ele não disse "...dar um soco se ele tentar alguma coisa", mas o pensamento estava ali.

"...fazer a distração."

Asuka ergueu uma sobrancelha. "Awn, preocupado comigo? Relaxa. Eu dou conta do Kaji. E se ele tentar alguma coisa, eu quebro o nariz dele. Isso te deixaria mais tranquilo?"

Kai não escondeu a resposta. "SIM. Muito. Eu já odeio esse cara."

Ficar deixando garotas bonitas chegarem perto dele assim...

Asuka riu, claramente se divertindo com o ciúmes. "Hah! Tá com ciúmes mesmo, hein?" Ela se inclinou ligeiramente, o sorriso crescendo. "Não se preocupa, Kai. Eu só tenho olhos para—" Ela virou o rosto com o cabelo, um sorriso debochado. "—a missão, é claro."

Shinji gemeu. "Podemos focar, por favor?"

Asuka deu um tapinha no ombro de Kai. "Relaxa, cabeça quente. Eu vou entrar e sair antes do Kaji perceber o que aconteceu. É só seguir o plano e deixar que eu cuide da mágica."

Kai se recompôs. "Ok, eu odeio isso, mas tá decidido. Amanhã, depois da escola, vamos à NERV. Lá, Asuka faz a abordagem. Pega o cartão o mais rápido possível. Rápido como um raio. Num piscar de olhos. Nem um segundo a mais do que o necessário."

Asuka bufou. "Tsc. O quê, acha que vou jantar com ele primeiro? Eu sei qual é a missão."

Shinji assentiu. "Beleza. Eu tento de novo com a Rei. Sem promessas, mas vou tentar."

Kai cruzou os braços. "E eu vou procurar um caminho pro Dogma Central."

Asuka olhou pra ele, mais séria agora. "Tem certeza que quer ir sozinho? Se te pegarem—"

Kai sustentou o olhar dos dois. "Sim. Vocês já vão estar ocupados."

Shinji acrescentou, "A gente devia ter um plano de contingência. Algo pra distrair os outros se der ruim."

Asuka assentiu. "Na pior das hipóteses, distraímos a Misato e os outros enquanto o Kai se infiltra. Algo grande, se for preciso. Mas você ainda quer ser o único a fazer isso?"

Kai sorriu, confiante. "Com certeza. Tenho um bom pressentimento. Acho que finalmente vamos conseguir algumas respostas."

Asuka sorriu também. "Já era hora. Tô cansada de ficar no escuro."

Shinji exalou. "Vamos só ter cuidado. A gente não sabe no que tá se metendo."

Asuka lançou um último olhar pra Kai. "Nada de fazer besteira."

Shinji assentiu. "Dessa vez, concordo com ela."

O plano estava traçado.

Agora, só faltava executá-lo.

Capítulo 78: Rachaduras no Silêncio / Corações em Risco

Kai se recostou no sofá, a tensão da noite finalmente começando a desaparecer dos ombros. "Claro que vamos ter que recuperar a câmera pra checar a gravação no dia seguinte, mas isso é problema pra depois. Por enquanto... é melhor a gente ir antes que a Misato apareça. A gente tá de castigo, lembra? Nem devia estar aqui."

Asuka sorriu de lado, cutucando o braço dele. "É, não queremos ver o grande rebelde Kai se metendo em mais encrenca." Ela deu um sorriso. "Além disso, você vai precisar do seu sono de beleza se quiser invadir a parte mais segura da NERV sem ser pego."

Shinji se levantou, se espreguiçando. "É, melhor todo mundo descansar. Amanhã vai ser puxado."

"Pra vocês dois, talvez," Asuka retrucou, se recostando com um sorriso maroto. "Eu só tenho que encantar um idiota e conseguir o que quero." Ela piscou pra Kai, visivelmente se divertindo com o incômodo que causava nele.

Kai revirou os olhos, mas não conteve o sorriso que surgiu nos lábios. Os dois saíram do apartamento juntos, o ar da noite estava fresco contra a pele. O plano estava traçado. A missão à frente podia mudar tudo — se eles não fossem pegos.

Enquanto andavam, Asuka lançou um olhar para ele. "E aí, parceiro no crime, pronto pra isso?"

Kai sorriu. "Claro que tô pronto. Só... um pouco preocupado de estar sendo manipulado por uma garota bonita, porque aparentemente isso é algo que ela costuma fazer..."

Asuka bufou, jogando o cabelo pra trás com exagero. "Se só percebeu isso agora, você é mais idiota do que eu pensava." Ela deu mais um empurrãozinho de leve. "Mas ei, pelo menos você é um idiota útil."

Ela voltou a olhar pra frente, e sua voz ficou mais suave. "Além disso... não é só você que tá correndo riscos aqui, sabia?"

As palavras ficaram no ar por um momento — simples, honestas e totalmente inesperadas. E então, num piscar de olhos, ela disfarçou com seu típico sorriso. "Então não estraga tudo, entendeu?"

"Eu não vou," disse Kai, sério. "Você sabe que pode confiar em mim, né? Porque eu confio em você."

Asuka diminuiu o passo, cruzando os braços. "Tsc. Não começa com sentimentalismo agora." Mas depois de um instante, ela murmurou suavemente: "É. Eu sei."

Continuaram andando lado a lado. Kai não disse mais nada — só aproveitou o momento.

A cidade estava estranhamente tranquila naquela noite. Sombras longas se estendiam pelas calçadas, e tudo parecia... calmo.

Ao chegarem no prédio, ela se virou para a porta. "Vai descansar, Kai. Amanhã é o grande dia."

Kai hesitou. "Então... boa noite, Asuka. Amanhã o plano entra em ação. Mas... você sabe como são os planos. Fica pronta pra se adaptar, tá?"

Ela olhou por cima do ombro, o sorriso mais suave agora. "Você acha que eu não sei disso? Planos nunca sobrevivem ao mundo real. Mas é... você também. Fica pronto."

Ela fez uma pausa, mantendo o olhar por mais um segundo. "Agora vai embora, seu esquisitão."

Kai ficou ali mais um momento e depois assentiu. "Boa noite."


O caminho até em casa parecia surreal — como estar à beira de algo gigantesco.

Ele entrou, trancou a porta e suspirou. O nervosismo voltava, mas também a empolgação. Tirou a roupa, tomou um banho quente e finalmente se enfiou na cama.

Antes de dormir, pegou o celular e mandou uma mensagem:

"😘"

Poucos segundos depois, o celular vibrou.

Asuka: "Você é um caso perdido. 😏 Vai dormir, idiota. Amanhã é o grande dia."

Ele sorriu para a tela.

Amanhã, tudo mudaria.

E não importava como acabasse... ele só esperava que ela ainda estivesse ao lado dele no final.