Evangelion: Shattered Thresholds
23 Episódio 23: Uma Guerra Além da Realidade
Capítulo 196: O Rompimento do Destino / Aquele que Estremece o Mundo
Os corredores da NERV pulsavam em luz carmesim, cada sirene um grito nos ouvidos de Kai enquanto ele avançava. Rápido. Focado. Furioso. Cada passo ecoava o ritmo de seu coração—implacável, agudo, movido por algo mais profundo que a raiva.
Algo pessoal.
Ele avançava pelos corredores trêmulos, a mente um redemoinho de imagens. O corpo inconsciente de Asuka. A mão dela, ainda quente na sua. O sorriso de Kaworu.
E aquela palavra.
Anjo.
Ele não precisava de confirmação. Soube no momento em que aquele garoto olhou para ele—calmo demais. No momento em que Misato disse que ele estava dentro da Unidade-02, como se sempre tivesse sido sua. Como se Asuka não importasse. Como se ela já tivesse partido.
Outro tremor rasgou a base. As paredes gemeram. Vozes distantes gritavam. Mas Kai mal notava.
Seu peito ardia ao atravessar as portas reforçadas.
A Central de Comando surgiu diante dele—
Misato. Ritsuko.
E na tela principal—alertas piscando.
"ALERTA: PADRÃO AZUL. 17º ANJO CONFIRMADO."
O mapa tático mostrava a Unidade-02 descendo lentamente pelos túneis internos da NERV.
Rumo ao Dogma Central.
Dentro dela: Kaworu Nagisa.
Sua voz escorria pelos alto-falantes como seda.
"Mesmo aqui... a alma canta. Tão próxima. Tão frágil."
Os punhos de Kai se cerraram até suas unhas cravarem nas palmas.
Misato se virou, surpresa. "Kai—!"
Mas não teve tempo de terminar—porque a Unidade-02 já estava se movendo.
Kai encarava a tela. Os olhos de Kaworu se voltaram para a câmera.
Para ele.
E ele sorriu.
Aquele sorriso.
Como se nada daquilo importasse. Como se
ela não importasse.
A voz de Kai cortou o centro de comando como uma lâmina.
"Preparem a Unidade-04. Eu vou ACABAR com aquele merda."
Ele não esperou resposta.
Já estava correndo.
Misato praguejou entre os dentes. "Kai..."
Tarde demais. Ele já havia partido.
Ela se virou para a equipe técnica, a voz fervendo em fúria e urgência.
"Preparem a Unidade-04 para lançamento! AGORA!"
O deck de comando entrou em ação.
"Desbloqueando as travas da gaiola!" gritou Maya, os dedos voando pelo console.
"Redirecionando energia para o setor seis!" gritou Hyuga.
"Esterilização do plug de entrada em andamento!" completou Aoba, os olhos fixos nas contagens regressivas.
Ritsuko não se moveu. A voz era fria, mas tensa. "Isso é imprudente—"
"Não temos escolha!" retrucou Misato, batendo o punho no console. "A Unidade-02 está comprometida! Se o Kai não lançar, quem vai?!"
Silêncio.
Então Ritsuko murmurou sombriamente: "Onde diabos está Ikari?"
Os olhos de Misato correram até o quadro de pessoal.
PILOTO DA UNIDADE-01: STATUS—LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA.
O frio atingiu seu estômago como gelo.
Shinji estava desaparecido.
E não havia tempo.
Lá fora, nos monitores, a Unidade-02 se movia novamente—os braços se erguiam como os de um fantoche despertando.
A voz de Kaworu voltou, calma e distante.
"Então... você escolhe lutar."
Um suspiro. Uma risada sutil.
"...Não era quem... eu esperava."
Vestiário da NERV – Ala de Equipamento de Kai
Metal tilintou.
Kai escancarou seu armário, agarrando o plugsuit com uma fúria treinada.
Cada movimento era mecânico, mas o fogo em seus olhos queimava branco e intenso. Os selos se encaixavam com estalos, o tecido sintético sibilando enquanto se ajustava ao corpo.
Sua mente não estava no vestiário.
Já estava na gaiola.
Estava no
Eva dela.
Estava
nela.
Asuka.
A pessoa que ele mais queria proteger. E falhou.
Mas agora?
Agora era diferente.
A raiva. O luto. O amor. Tudo se fundia em um único foco absoluto e inabalável.
Aquela coisa dentro do Eva dela ia pagar. Os Anjos conheceriam sua fúria.
Sua mão se fechou em punho, o selo final travando com um estalo e um chiado.
Ela
nunca o perdoaria por deixar isso acontecer.
E ele também não.
Isso não era apenas uma batalha.
Era um acerto de contas.
Outro tremor sacudiu a base.
Kai não se abalou.
Dessa vez?
Era ele quem iria estremecer o mundo.
Capítulo 197: A Descida da Anomalia / Sob a Sombra Dela
Os passos de Kai ecoavam como trovões pelo corredor, sua silhueta um rastro de fúria e propósito sob o vermelho pulsante das luzes de emergência. As sirenes continuavam a berrar, mas ele já não as ouvia. A única coisa que importava agora era a baía de lançamento—e o que o esperava além dela.
Rei. Shinji. Eles não estavam lá. Mas isso não importava. Agora, essa era a luta de Kai.
Ele invadiu a plataforma de lançamento, os pulmões ardendo, mas os movimentos precisos.
Alarmes uivavam por toda a sede da NERV, mergulhando a Central de Comando em vermelho pulsante. Cada tela exibia leituras sísmicas e imagens de câmeras internas, todas mostrando a mesma cena impensável:
O Eva-02 estava descendo—destruindo sistematicamente tudo em seu caminho.
Misato virou-se para Ritsuko. "Não dá pra desligar o Eva remotamente?!"
Ritsuko: "O sinal está bloqueado. Kaworu está controlando os sistemas centrais diretamente."
Os técnicos se afastaram instintivamente.
Aoba gritou por cima das sirenes: "O Eva-02 rompeu a quarta camada defensiva! E ainda está descendo!"
Hyuga completou na hora: "Colapso estrutural severo! Barreira de segurança D-17 foi destruída! Portas blindadas viraram sucata!"
Fuyutsuki ordenou: "Desligamento de emergência! Fechem todo o Dogma Central! Temos que ganhar tempo, nem que seja pouco!"
Os alertas aumentavam: "Desligamento de emergência, todos os níveis estão sendo fechados. Evacuar! Repito, evacuar!"
Fuyutsuki murmurou: "Nunca pensei que a SEELE iria mandar um Anjo direto pra nós."
Maya, curvada sobre o terminal, voz aguda: "Todas as contramedidas internas estão falhando! Ele limpa os níveis em menos de dez segundos!"
Hyuga: "O alvo já passou pelo Cocytus 2!"
Misato, já inclinada sobre o console de comando, gritou: "Quão longe ele está do Dogma Central?!"
Aoba, sombrio: "Seis camadas restantes. Mas nesse ritmo—menos de três minutos!"
A voz de Misato ecoou pelos alto-falantes:
"Kai está a caminho—coloquem a Unidade-04 em posição! Preparem todos os sistemas para lançamento imediato!"
Na passarela, Kai não diminuiu o passo.
Lá estava.
A Unidade-04.
Seu Eva. Armadura cromada brilhando sob as luzes de emergência como uma lâmina recém-sacada. A estrutura segmentada parecia respirar com ele.
E nos monitores—
A Unidade-02.
Vermelha. Majestosa. Errada.
Flutuando, não de pé. Como se a gravidade já não se aplicasse.
E dentro dela—Kaworu.
Olhos brilhantes. Uma presença calma demais.
Kai podia sentir mesmo dali.
Não era controle.
Era possessão.
Nos poços inferiores, o Eva-02 se movia como uma máquina de julgamento divino—braços em brasa, ombros fumegantes, abrindo caminho por aço, armadura composta e blindagem como se fossem papel. Cada golpe era preciso. Controlado. Como se soubesse exatamente onde atingir.
Uma voz suave surgiu nos comunicadores:
"Então, você escolheu me enfrentar, Kai."
Ele não recuou.
Uma pausa.
Então Kaworu sorriu. Genuinamente. Quase... gentilmente.
"Eu me pergunto... você ao menos sabe o que você é?"
Um arrepio percorreu a espinha de Kai.
Mas não o deteve.
"PILOTO, PLUG DE ENTRADA PRONTO—AGORA!" gritou Maya, e Kai se moveu.
Ele entrou.
Sem hesitação.
Sem dúvidas.
Este era o seu Eva.
E esta era sua batalha.
O plug se selou.
O LCL invadiu, quente e sufocante. O cheiro o atingiu—mas ele o recebeu. Suas mãos voaram para os controles enquanto a interface se acendia.
Taxa de sincronização subindo. Rápido.
Os grampos se destravaram.
A Unidade-04 despertou.
E lá fora, a Unidade-02 continuava sua descida.
Maya, olhos colados no visor: "Kaworu ainda está em controle total da unidade. Sem sinais de retorno de dados."
Ritsuko, calma mas fria: "Sempre soubemos que esse era o risco. Ele não está mais escondendo o que é."
Fuyutsuki, baixo: "O último Anjo... está agindo."
Na tela, o Eva controlado pelo Anjo esmagava mais uma antepara—rasgando fiações, esmagando torres de armas, avançando pelo próximo corredor de acesso como se toda a instalação fosse ar aberto.
Hyuga estremeceu quando a tela tremeu. "Ele está chegando ao nível mais baixo. Acesso interno confirmado."
Aoba, alarmado de novo: "Ele passou pelos bloqueios de pressão—sem nenhum sinal de desaceleração!"
Maya, sem fôlego: "O Eva-02 está protegendo ele de tudo. Nada o atinge..."
Silêncio prevaleceu por meio segundo—tempo suficiente para o som do próximo impacto do Eva-02 reverberar por toda a estrutura.
Um estrondo profundo, ecoante.
Mais próximo agora.
Aoba, voz baixa: "A última trava de segurança foi aberta."
Hyuga, ainda mais baixo: "A Porta do Céu está se abrindo."
A voz de Misato caiu. "Ele está indo para..."
Fuyutsuki: "Se ele fizer contato..."
A voz de Kaworu voltou, mais gentil agora:
"Venha, então, anomalia. Vamos ver se você realmente pertence a este lugar."
Os grampos de lançamento sibilaram.
LANÇAMENTO INICIADO.
O lançamento não foi como antes.
Sem catapultas rugindo. Sem explosão rumo ao céu.
Desta vez, era para baixo.
Kai estava sentado na cabine da Unidade-04, as mãos firmes nos controles. Sentiu imediatamente—a mudança, o ranger frio do aço sob os pés do Eva. Não era uma subida. Era uma queda.
"Rota de lançamento configurada," informou Maya, tensa, da Central.
Hyuga: "Cabo umbilical conectado—Unidade-04 com alimentação externa total para descida."
Aoba: "Poço de descida para o Dogma Central ativo."
Maya: "Liberando travas internas."
Nas profundezas da NERV, mecanismos selados se abriram com estalos. Plataformas blindadas se separaram—anéis concêntricos se destravando como a íris de um olho de aço.
Abaixo: o poço.
Negro. Profundo. Infinito.
Um túnel de serviço normalmente reservado para transporte de materiais de segurança—agora transformado em corredor de combate.
"Início da descida," anunciou Aoba.
Os grampos hidráulicos se soltaram com um estrondo sísmico, e a Unidade-04 caiu.
Sem propulsão. Sem orientação. Apenas gravidade.
E tudo isso—cada som—foi engolido pelo rugido dentro do peito dele.
Raiva.
SEELE.
Os Anjos.
Gendo.
Cada um que o tratou como um erro. Como uma variável fora de lugar.
Diziam que ele era uma anomalia.
Ele mostraria o que isso significava.
O túnel de aço deu lugar a algo mais escuro, mais amplo—o vazio catedralício do Dogma Central, sua vastidão silenciosa iluminada apenas pela infraestrutura fria e o brilho ameaçador do que esperava lá dentro. O espaço era enorme, cavernoso e mal iluminado—mais um cripto sagrado do que uma instalação.
Ele aterrissou como trovão explodindo no chão. Um joelho e uma mão tocando o solo, a outra perna dobrada, a cabeça inclinada para frente com um olhar feroz e determinado.
Os ecos se expandiram por cada centímetro da NERV—e lá estava:
A Unidade-02.
Vermelha. Imponente. Ainda flutuando como uma divindade em desafio à física, aproximando-se do imenso gigante branco.
Ela parou. E se virou diante da presença ameaçadora da Unidade-04.
A voz de Kaworu surgiu de novo, suave demais, calma demais:
"Entendo. Você está tomado por tanta dor."
Uma pausa.
"...Mas só a dor não vai salvá-la."
E isso—
Isso foi o bastante.
A voz de Kai rompeu os comunicadores, fúria vibrando em cada sílaba.
"Acho... que você não me ouviu direito da última vez..."
A Unidade-04 avançou.
As mãos de Kai agarraram os controles com fúria de nós brancos.
O Eva se ergueu.
Mais pesado.
Mais mortal.
Ardendo com a fúria de um piloto que já havia perdido demais.
E não perderia de novo.
O peso em sua voz—o fogo por trás dela—tornava o ar ao redor quase elétrico.
Ele encarou a forma vermelha flutuante à sua frente, aquela imagem profana do Eva da Asuka sendo usado como uma casca.
E repetiu as únicas palavras que achava que aquela coisa merecia:
"CAI... FORA!!!"
O grito rasgou seu peito, reverberou pelo LCL e estremeceu a armadura do Eva até o núcleo.
Não era apenas uma ordem. Era uma declaração.
O Geofront inteiro parecia prender a respiração.
E pela primeira vez—
A expressão de Kaworu mudou.
Levemente.
Quase imperceptível.
Mas Kai viu.
O mais sutil dos tremores naquele sorriso constante.
Capítulo 198: Controle Rompido / O Anjo Liberto
Kai se moveu.
Sem esperar comandos. Sem cálculos. Apenas fúria.
A Unidade-04 avançou como um míssil, o metal rangendo sob pura velocidade e força. Seu soco veio forte e direto, um arco brutal destinado a despedaçar tanto metal quanto carne.
A Unidade-02 se moveu—não desviando, apenas flutuando para trás, esquivando-se com uma suavidade antinatural.
Mas não foi rápida o bastante.
O punho de Kai acertou em cheio.
Aço contra aço. Raiva contra carne.
Uma onda de choque varreu o espaço cavernoso, lançando a Unidade-02 para trás, rompendo duas estalactites enormes. Rochas desabaram, uma tempestade de destroços chovendo sobre o terreno arruinado.
A terra tremeu violentamente.
Dentro da cabine, Kai não parou. Não podia parar.
Não até isso acabar.
Não até o Eva da Asuka ser dela de novo.
Por entre a estática, a voz de Kaworu surgiu, a respiração estável, mas agora com algo a mais. Curiosidade? Respeito?
"...Entendo. Você é diferente, afinal."
Então—um brilho.
Irradiando da armadura da Unidade-02. Não laranja como um Campo A.T. normal. Branco. Etéreo. De outro mundo. Pulsando como um coração, distorcendo o ar com ondas cintilantes.
Errado.
Os olhos de Kai se arregalaram.
A voz de Kaworu flutuou pelos comunicadores como seda.
"...Continuamos, então?"
Antes que Kai pudesse reagir, a Unidade-02 avançou, propulsionada por uma força além da mecânica comum. Seus movimentos eram graciosos e assustadoramente precisos. Uma mão alcançou, agarrando a cabeça da Unidade-04, esmagando-a contra o chão com eficiência brutal.
Kai rosnou em desafio, forçando uma reação, faíscas explodindo nas articulações blindadas. Mas a Unidade-02 girou suavemente, lançando um chute poderoso que rachou a blindagem peitoral da Unidade-04, fazendo Kai recuar cambaleando.
O Eva inimigo desceu, desferindo uma série de golpes devastadores—socos precisos nos pontos frágeis, chutes com precisão cirúrgica. Kai se defendia desesperadamente, braços erguidos, bloqueando, desviando—cada movimento era uma luta pela sobrevivência.
Cada impacto sacudia seus ossos, abalava seu espírito. A Unidade-02 se movia sem esforço, como um fantoche guiado por mãos invisíveis, superior e inumanamente elegante. Kaworu estava brincando com ele, testando seus limites, impondo domínio sem piedade.
Finalmente, a Unidade-02 recuou ligeiramente, pairando com graça, à espera.
A voz de Kaworu, calma e arrogante, escorreu pelos alto-falantes.
"Esse realmente é o seu limite? E eu achei que você seria mais... interessante."
Foi o suficiente.
Tudo o que bastava para empurrar Kai além da razão.
Kai explodiu.
"EU VOU TE ARRANCAR DESSE EVA!"
E avançou de novo.
A Unidade-04 cortou a caverna devastada como um trovão, impulsionada por pura fúria cega.
Dessa vez, ele se ajustou. Nada de golpes largos. Nenhum movimento desperdiçado.
Avançou com precisão cirúrgica—e sua mão agarrou o pescoço da Unidade-02.
A armadura vermelha gemeu sob seu aperto. O metal estalou audivelmente conforme a pressão aumentava.
A voz de Kai queimava com veneno e orgulho. "Já fui derrotado por esse Eva antes. E acredite, você não é nada comparado a quem pilotava naquela vez."
Mas a Unidade-02 não se debatia. Não resistia.
Permanecia pendente. Passiva. Imóvel.
A voz de Kaworu se manteve tranquila.
"Tanta raiva. Tanta dor." Uma pausa. "...Você deseja tanto assim este Eva?"
Antes que Kai pudesse responder, uma onda imensa de energia explodiu, um clarão branco cegante. A força lançou a Unidade-04 para trás, arremessando-a violentamente pela caverna.
Na Central, o caos se instalou.
Maya gritou frenética: "O Campo A.T.! Não está vindo do Eva-02! Está emanando diretamente de Kaworu!"
Os olhos de Misato se arregalaram, incrédulos. "O quê... o que você disse?!"
A tela tremulou. A Unidade-02 pairava imóvel, seu plug de entrada sendo ejetado lentamente da coluna. Ele se abriu, revelando Kaworu Nagisa—flutuando serenamente no ar, intocado, sem medo.
"Pronto..." A voz de Kaworu ecoou suave, calma. "Pode ficar com ela."
A respiração de Kai prendeu. Os olhos se estreitaram, confusão e suspeita lutando dentro dele.
"Você acabou de cometer um erro enorme, Anjo."
Kai avançou outra vez, vendo Kaworu indefeso, um alvo fácil. Um impulso primal de justiça, de vingança, tomou conta dele.
Mas antes que pudesse alcançá-lo—
Um movimento súbito. Impossível.
A Unidade-02 se movimentou sozinha, lançando-se à frente com velocidade chocante, interceptando o golpe de Kai, agarrando os pulsos da Unidade-04 com força inquebrantável.
"O quê—?!" Kai engasgou, o horror crescendo em seu peito. "Como... como ela está se movendo?!"
O Eva vermelho atacou novamente, com fúria—sem piloto no interior, mas animado por uma força desconhecida. Golpe após golpe impiedoso caía sobre Kai, forçando-o a recuar. O desespero impulsionava sua defesa, mal conseguindo acompanhar a nova ferocidade.
"Impossível!" Kai gritou, o pânico misturado à raiva. "Ela não tem piloto! Que diabos está acontecendo!?"
A voz serena de Kaworu flutuou, intocada pela violência:
"Você se agarra desesperadamente a algo que nunca foi seu, Kai."
Kai rosnou de volta, desviando de socos, tentando desesperadamente retomar o controle.
"Isso não é possível! Quem—o que—está controlando isso!?"
O Eva possuído atacava sem parar, cada golpe preciso, impiedoso. Kai lutava contra a força esmagadora, a armadura se deformando sob a pressão.
E ainda assim, Kaworu flutuava acima, observando calmamente, um leve sorriso nos lábios.
"Você desejava tanto essa luta. Mas nunca se tratou de vencer, Kai. Sempre se tratou de aceitar... o seu lugar."
Kai lutava desesperadamente contra o aperto implacável da Unidade-02, cada músculo em chamas, cada instinto gritando. E mesmo assim, sentia tudo escorregando—o controle, a certeza, a própria realidade.
Kaworu inclinou levemente a cabeça, olhos gentis mas penetrantes.
"Não se desespere. Logo, tudo isso terminará. Para você... e para ela."
Enquanto o mundo de Kai começava a ruir, Kaworu sussurrou suavemente, uma promessa final e assombrosa:
"E talvez... você finalmente entenda o que realmente é."
Capítulo 199: Sementes da Criação / A Besta que Gritou "Eu" no Coração do Mundo
Caos.
Metal rugia. Aço gritava. Faíscas iluminavam a caverna como um estroboscópio. A Unidade-04 e a Unidade-02 se engalfinhavam violentamente, cada golpe ecoando com uma força que reverberava por todo o Dogma Central.
O mundo de Kai se reduzia a puro instinto—bloquear, golpear, contra-atacar. Cada soco lançado era fúria encarnada, cada esquiva um pedido desesperado de sobrevivência. Faíscas explodiam, iluminando a escuridão cavernosa com clarões de violência crua.
E, ainda assim, Kaworu flutuava intocado, indiferente, deslizando suavemente em direção ao gigante branco crucificado. Ele parou, olhos serenos absorvendo a forma colossal diante de si, e uma realização tocou levemente seus traços.
"Isso não é Adão," murmurou Kaworu, quase reverente. "É... Lilith. Entendo."
Ele se virou devagar, quase com desdém, observando a luta brutal que se desenrolava atrás dele. Inclinou a cabeça, pensativo, a curiosidade brilhando em seus olhos carmesim.
"Mesmo aqui... mesmo agora," a voz de Kaworu ecoava suavemente, atravessando com facilidade os sons do combate. "Eu me perguntava por quê. Por que eu sentia isso. Essa atração... uma força dentro de mim, me puxando em sua direção—não por saudade, nem por afinidade, mas algo mais... hostil. Um instinto. Um sussurro das profundezas do que sou. Dizendo que você... não deve existir."
A Unidade-04 lutava com ferocidade, agarrando a Unidade-02 e esmagando-a brutalmente contra a parede da caverna. Kaworu continuava calmo, intrigado, distante.
"Mesmo antes de vê-lo, eu sentia. Esse desconforto. Essa repulsa antiga e profunda. No início, pensei que fosse por você ser Lilin—nascido de Lilith, como todos os humanos. E eu... sou o último filho de Adão, o Primeiro Anjo. O último da minha espécie. Aquele que deve retornar à origem."
A Unidade-02 avançou novamente, movimentos graciosamente aterradores, pegando com facilidade o próximo golpe de Kai e contra-atacando com ferocidade, fazendo a Unidade-04 recuar.
"Agora vejo com mais clareza," Kaworu continuou, mais suave, mais cauteloso. "Você não é nenhum dos dois. Não é de Lilith, nem de Adão. Você é outra coisa."
Kai avançou de novo, rugindo em desafio, desferindo um soco brutal no ombro da Unidade-02. Mas o Eva inimigo parecia antecipar cada movimento, contra-atacando com perfeição sobrenatural.
"No princípio," murmurou Kaworu, "duas Sementes da Vida vieram a este mundo—por erro, por destino. Adão, portador do Fruto da Vida—a fonte dos Anjos. E Lilith, portadora do Fruto do Conhecimento—de quem a humanidade descende. Dois frutos. Dois caminhos."
A faca progressiva da Unidade-04 brilhou enquanto Kai a sacava, a lâmina cortando ar e metal numa rajada desesperada. Mas a Unidade-02 aparava cada golpe com precisão antinatural.
"A coexistência deles quebra a lei do céu," murmurou Kaworu com delicadeza. "Nós, nascidos de Adão, não podemos viver num mundo governado pela prole de Lilith. E a humanidade, nascida de Lilith, teme o domínio de Adão. Por isso vieram os Anjos—não para conquistar, mas para retornar à origem. Para recuperar o que nos foi negado."
Kai sentia a raiva crescer, dentes cerrados, cada golpe mais desesperado, mais brutal. Mas então, algo mudou.
"Mas você... Você é um terceiro caminho," a voz de Kaworu ecoou, assombrosamente clara. "Um fruto não registrado. Um ser que a Primeira Raça Ancestral não descreveu nos Pergaminhos. Nem da Vida. Nem do Conhecimento. Mas algo além. Algo externo."
Kaworu sorriu suavemente, a figura gigante de Lilith logo atrás dele.
"Sua existência viola o equilíbrio que tentamos restaurar. Você não pertence a esta realidade. A esta gênese. Você não pertence a este mundo."
A Unidade-04 avançou com um golpe final, desesperado—mas no meio do movimento, seu braço congelou. Estremeceu violentamente.
"O quê—?!" Kai rosnou, os músculos em tensão. "O que diabos está acontecendo?! MEXA-SE, PORRA!"
Mas seu Eva resistia, rebelando-se contra seus comandos, os membros tremendo de forma descontrolada.
"Você sente agora, não sente?" A voz de Kaworu era suave, mas segura.
Na Central, a voz de Maya disparou: "Os níveis de sincronização do Kai estão caindo rapidamente! A Unidade-04 não responde—é como se Kaworu a estivesse controlando também!"
A Unidade-02 aproveitou a vantagem, esmagando a Unidade-04 contra o chão, montando sobre ela e desferindo uma série de ataques implacáveis e brutais. Cada golpe reverberava dolorosamente dentro do crânio de Kai.
Kaworu continuava, pensativo e calmo. "Seus Evas e eu... somos feito do mesmo corpo. A série Eva. Nascidas de Adão, são uma existência abominável para os humanos, e os Lilins às utiliza para poder sobreviver. Não consigo entender. Porque eu também nasci de Adão, poderia me fundir com eles—mas isso só se eles não tivessem almas."
A Unidade-02 golpeava sem piedade, cada impacto brutal, inflexível.
"A alma da Unidade-02 fechou-se em si mesma por ora," explicou Kaworu com suavidade. "Ela se esconde de mim. Me rejeita—pelo que a estou forçando a fazer."
Os olhos de Kai se arregalaram, o choque rompendo sua fúria. "Alma... da Unidade-02? Do que você está falando?!"
Os olhos de Kaworu suavizaram, agora um sussurro: "A alma da mãe de sua amada reside dentro da Unidade-02."
Kai arfou, horrorizado. "A mãe da Asuka? Ela estava lá... esse tempo todo? Mas..."
Uma pausa. Então a voz de Kaworu tornou-se mais grave, carregada de tristeza. "A esperança da humanidade... é escrita nas linhas do desespero."
As mãos de Kai tremiam violentamente, veias saltadas, cada músculo gritando. Mas a Unidade-04 resistia, convulsionando sob um peso invisível.
"MEXA-SE, DROGA!" Kai gritou. "Você não pode me deixar agora!"
Nenhuma resposta. Apenas resistência. Congelada. Inútil.
O desespero crescia. Apertava. Tremejava.
E em sua mente—
Um pensamento.
Parte da mãe de Asuka... A própria alma dela... estava presa dentro da Unidade-02. Por isso a mente da mãe enlouqueceu. A mãe estava... incompleta.
Incompleta.
Os olhos de Kai ardiam, a compreensão o atingindo com clareza brutal. A mente fragmentada da mãe de Asuka.
Kai arfou, ofegante. "Ok... Eu não queria fazer isso. Mas não vejo outra saída."
Sua respiração tremeu, a voz assumindo um tom de aço resoluto.
"Eu sempre soube... Isso SEMPRE esteve aqui... à espreita. Mas eu simplesmente não queria saber. Eu não me importava com quem eu era. Não queria perder quem eu sou agora."
Ele se inclinou até que sua testa encostasse nos controles, o coração martelando no peito.
"Mas... se É ISSO que preciso fazer... pra ACABAR COM VOCÊ..."
Ele soltou. O controle. O medo. Tudo que o impedia.
Alcançou o interior. Além da raiva. Além da memória. Além da dor.
Até aquela voz.
Aquela que ele sempre afastou, que nunca reconhecer de verdade. O sussurro fraco, sempre dentro da Unidade-04.
Ele se abriu para ela, por completo.
"Estou ouvindo," ele sussurrou.
E o silêncio dentro da cabine começou a mudar.
Não estava mais vazio.
Pulsava—quente, vasto, vivo.
E algo respondeu de volta.
Capítulo 200: Gênese Quebrada / A Anomalia Ascende
A cabine brilhava fracamente com dados oscilantes.
Mas Kai não percebia.
Ele estava em outro lugar—mais fundo do que jamais estivera.
Não perdido.
Encontrado.
Uma voz chamava através das correntes de memória e aço.
"Você voltou."
Essa voz. Aquela que ele afastara, temera, negara.
Agora, ela falava sem angústia. Sem desespero.
Apenas com certeza.
"Você está pronto agora."
Um pulso percorreu o plug. O LCL vibrava—não como fluido, mas como pensamento. Como intenção.
Tudo se dissolveu em branco.
Sem peso. Sem pensamento. Apenas um branco incandescente, interminável—ofuscante e absoluto, como se o próprio universo tivesse sido apagado e restasse apenas luz.
Kai flutuava ali. Ou talvez fosse parte disso. Sem sensação de corpo, sem voz, sem respiração.
Então—algo rachou.
Não um som, mas uma fratura. Um estilhaçar silencioso e irregular dentro do branco infinito.
Memórias começaram a transbordar.
Não flashes. Uma vida inteira. Desdobrando-se.
Ele viu um garoto. Cabelos escuros, olhos verdes. Rindo. Correndo por um caminho de pedras rachadas à sombra de montanhas irregulares. Verde por todos os lados, envolto em penhascos imponentes, e o céu mais azul do que ele jamais se lembrava. "O Dedo de Deus", chamavam. Um pilar de pedra apontando para o céu, desafiador mesmo num mundo quase afogado.
O mundo havia mudado. O Segundo Impacto devastou o Hemisfério Sul. O litoral do Brasil desapareceu sob a maré vermelha do oceano. O planalto central, antes seco e ensolarado, virou um deserto abrasador—sem vida, rachado. As terras baixas da Amazônia eram agora florestas submersas.
Mas nas montanhas, a vida resistia. Cidades pequenas como aquela onde Kai vivia—isoladas, belas, brutais.
Ele viu seu lar novamente.
Uma janela pequena. O cheiro de ovos mexidos, queijo e ervas. Risadas que aqueciam. Sua mãe—Aurora Iguazu—linda, com cabelos longos e ondulados, olhos brilhantes e claros. Sempre sorrindo, mas aqueles olhos nunca paravam de olhar para a porta. Ela nunca falava sobre seu pai. O silêncio era mais alto do que qualquer resposta poderia ser.
Seu irmão mais novo—meu Deus, aquele sorriso. A maneira como se agarrava ao braço de Kai quando trovões ecoavam lá fora.
Até a noite... em que tudo acabou.
O homem tinha uma faca. O som da chuva era ensurdecedor. O vermelho do sangue queimava seus olhos. Mas o grito de Aurora superava tudo. Um grito que não parava. Que não era só dor.
Kai tentou correr. Proteger. Lutar. Mas no fim, ele foi fraco demais. Impotente demais. Forçado a assistir enquanto aquele homem a destruía de todas as formas possíveis. Enquanto sua mãe, Aurora, era despedaçada na frente dos filhos, seu irmão mais novo apertando-lhe o braço até machucar, olhos vidrados de terror.
E então, ela se foi.
Seu irmão continuou silencioso desde aquela noite. Olhos abertos. Boca fechada. Catatônico.
Foram levados para um abrigo. Orfanato era uma palavra gentil demais.
Então veio a NERV.
Disseram que era um programa voluntário. Mas recrutavam fantasmas—crianças que ninguém sentiria falta. Crianças que não tinham nada a perder. Nem onde se esconder.
Kai se inscreveu.
Para fugir. Para sobreviver. Talvez para ter algum valor.
Testes. Infinitos testes. Sangue tirado em salas frias. Escaneamentos. Eletrodos. Algumas das outras crianças... simplesmente sumiam. Sem explicações. Sem despedidas.
Até que um dia, escolheram Kai. Ele não perguntou por quê.
Disseram que ele iria para os Estados Unidos. Que ajudaria a impedir o Terceiro Impacto.
Ele não se despediu de ninguém. Nem do irmão. Essa... essa era uma ferida que nunca cicatrizou.
Anos se passaram em treinamento.
Estudou tudo—Campos A.T., sistemas de controle de Eva, dados sobre os Anjos. Tornou-se afiado, como uma lâmina forjada com luto e obsessão. E, o tempo todo, observava os relatórios. Os Anjos começaram a atacar.
Sachiel. Shamshel. Ramiel.
Sabia os nomes deles antes mesmo de saber os nomes de seus colegas pilotos. Rei. Asuka. Shinji. Nomes sussurrados por boletins internos e comunicados criptografados. Idolatrava-os de longe.
Estava pronto. Ansioso para se juntar a eles. Para entrar na luta.
A Unidade-04 estava quase completa. Faltava um teste. Um passo final.
Nevada.
O plug foi inserido. O teste de sincronização começou.
"Calibração final iniciada. Começar sincronização."
A contagem regressiva.
3… 2… 1—
Nada.
Então—tudo.
Um grito vindo de todos os lugares e de lugar nenhum. Um clarão que queimava os sentidos. Dor além da dor. Algo dentro dele se rasgava.
Estava sendo absorvido.
O Evangelion o tomava—não, fundia-se a ele. Parte de sua alma, arrancada, engolida pelo núcleo.
O espaço se dobrou.
As cores distorceram.
Então—
Um mar arruinado. Carmesim e interminável. Torres meio engolidas pela terra. Ossos de cidades transformados em coral. Ondas vermelhas lambendo aço fantasma.
Ele estava ali.
Sozinho.
Ao longe, uma forma—colossal, humanoide, errada—surgia contra o céu.
Depois, outro clarão.
Caiu por mundos.
Outras cidades. Outras versões da realidade. Pessoas que não conhecia. Algumas mais velhas. Algumas quebradas. Algumas gritando.
Depois, a escuridão.
E, finalmente, ar.
Frio.
Técnicos gritando. Luzes cegantes. Plug ejetado.
Foi puxado do plug de entrada, encharcado de LCL. Mal consciente. Mal ali.
"Quem é você?" uma voz perguntou.
Tentou responder.
"Eu... Eu sou... Kai."
Colapso.
Acordou pouco depois, mente fraturada, tentando desesperadamente organizar fragmentos de memórias, mundos, dor. Os cientistas escutavam em silêncio, rostos pálidos, expressões indecifráveis.
"Está instável," murmurou alguém. "Mas os níveis de sincronização... sem precedentes."
"Mande-o para o Japão," ordenou friamente outra voz. "Deixe Ikari lidar com isso. Enviem a Unidade-04 junto."
As telas estabilizaram.
A voz de Maya tremia: "A taxa de sincronização dele... está... está subindo rápido! 200%... 250%... 300%... 350%... se aproximando de 400%! Isso é impossível!"
Os olhos da Unidade-04 brilharam prateados. Um rugido irrompeu de sua boca, primitivo e ensurdecedor.
A mente de Kai rasgava a estática, a dor, e voltava às memórias.
Viu sua mãe novamente. A mão dela em seus cabelos.
Viu o menino. Seu irmãozinho. A perda. O arrependimento.
A chama em seu peito.
Agora—finalmente—clareza.
"Eu sou Kai Iguazu," sussurrou, com absoluta certeza. Dessa vez, ele se lembrava de tudo.
Lá fora, os olhos de Kaworu se arregalaram—quase imperceptivelmente—mas o suficiente.
Mas Kai viu.
E sorriu.
"Agora eu entendo," respirou Kai, a voz firme, quase suave, mas inabalável.
O Campo A.T. da Unidade-04 explodiu, uma onda de energia furiosa despedaçando o ataque da Unidade-02, lançando-a violentamente para longe.
A Unidade-04 ergueu-se sem esforço, olhos em brasa prateada, sem hesitação, sem medo.
Apenas propósito.
Apenas fogo.
Avançando, a Unidade-04 agarrou o Campo A.T. de Kaworu, os dedos rasgando-o como se fosse papel. Sua mão gigantesca agarrou o Anjo, segurando-o com força.
Mas Kaworu manteve o tom sereno.
"É meu destino continuar vivendo, mesmo que isso resulte na dest—"
CRACK
O punho da Unidade-04 se fechou com brutalidade, esmagando o corpo frágil de Kaworu instantaneamente. Sangue espirrou, tingindo de carmesim os dedos prateados.
A cabeça decepada de Kaworu caiu silenciosamente no LCL abaixo, afundando sob a sombra crucificada de Lilith.
Um último suspiro sufocado.
Depois, silêncio.
Um clarão de luz branca pura explodiu de seu corpo, brilhante mas breve—o último suspiro de uma existência que já não pertencia a este mundo.
O Campo A.T. ao redor da Unidade-02 cintilou brevemente e desapareceu.
O Eva vermelho tombou para frente, vazio.
Kaworu Nagisa.
O Último Anjo.
Estava morto.
Capítulo 201: Sepultamento e Fé / Prelúdio do Fim
O campo de batalha estava imóvel.
Fumaça pairava sobre o aço retorcido e os alicerces quebrados do Dogma Central, serpenteando pelas passarelas despedaçadas como o fôlego de uma criatura ferida. O metal gemia em ecos distantes, destroços flutuavam preguiçosamente no LCL, e o brilho avermelhado das luzes submersas lançava sombras oscilantes pela caverna.
A Unidade-04 estava no centro—ferida, amassada, chamuscada. Sua armadura cromada estava rachada no peito, enegrecida nos ombros. Um dos braços tremia levemente, linhas hidráulicas chiando.
Mas ela estava de pé.
Dentro do plug de entrada, Kai respirava com dificuldade. A adrenalina ainda percorria sua pele como estática. O suor grudava na testa. Seus braços tremiam levemente.
Mas o aperto era firme.
Seu pulso já não disparava.
Ele exalou devagar, olhos percorrendo o que restava do campo de batalha. A Unidade-02 estava desabada contra a parede, inerte. O sangue de Kaworu ainda se dissipava no LCL como tinta em água.
Um chiado surgiu nos comunicadores.
Estática. Depois, silêncio.
Então—a própria voz de Kai.
Firme. Constante.
"Anjo... neutralizado."
As palavras pairaram no ar.
Houve uma pausa do outro lado. Longa o suficiente para significar algo.
Então a voz de Misato retornou—baixa no início, tensa.
Abalada.
Mas orgulhosa.
"Entendido."
Outra pausa.
Então:
"...Belo trabalho, Kai."
A ponte de comando estava em silêncio enquanto suas palavras ecoavam pelo canal. Os técnicos olhavam fixamente para os monitores, ainda piscando diante do que haviam testemunhado. Não apenas os números. Não apenas a quebra impossível do Campo A.T. ou os 400% de sincronização.
Mas ele.
A pura força de vontade. A brutalidade. A fúria implacável que ele havia desencadeado sobre o Último Anjo. E como, quando tudo terminou—ele permaneceu de pé. Não triunfante. Não arrogante.
Resoluto.
Maya estava sentada à sua estação, segurando a borda da mesa. Sua voz mal passou de um sussurro.
"Ele ainda é só um garoto..."
Hyuga não disse nada. Apenas assentiu, olhos voltados para os dados.
Aoba soltou um longo suspiro.
"Me lembra de nunca irritá-lo."
Ninguém riu.
Kai não respondeu a Misato. Não de imediato.
Ele encarava através da névoa a forma caída da Unidade-02.
Apertou os controles, mandíbula cerrada.
Então acionou o comunicador.
"Vou levar a Unidade-02 de volta ao hangar," disse ele, voz baixa mas inabalável. "A Asuka vai precisar dela quando acordar."
Silêncio.
Então a voz de Misato voltou—dessa vez, mais baixa. Mais suave.
"...Sim. Certo. Faça isso."
Ritsuko, que estivera calada o tempo todo, virou-se levemente para os técnicos.
Sua voz não revelava nada. Mas algo brilhou em seus olhos.
"Preparar a gaiola secundária. Protocolo completo de recuperação. Duas unidades."
Maya mordeu o lábio. Havia algo na forma como Kai dissera aquilo. Como se fosse um fato, não uma esperança. Não uma prece.
Asuka vai acordar.
E, de algum modo, ouvi-lo dizer isso fazia todos acreditarem também.
A Unidade-04 virou-se. Lentamente. Com passos pesados, cruzou o chão devastado. Um dos braços ergueu o corpo danificado da Unidade-02, segurando-o quase com delicadeza.
E juntos, eles ascenderam.
\textit{INTERLÚDIO}
Conselho Privado da SEELE
Nas profundezas da Terra, nas instalações ocultas e secretas muito além da NERV, os monólitos da SEELE cintilaram em presença espectral.
A escuridão os envolvia.
Um círculo de silêncio.
Então:
SEELE 01: "A anomalia demonstrou resistência."
Uma pausa.
SEELE 06: "E, ao fazê-lo, acelerou nossa linha do tempo."
SEELE 04: "Ikari se desviou demais. Não podemos confiar que ele execute a Instrumentalidade sozinho."
SEELE 05: "Então devemos removê-lo da equação."
Por um momento, nada.
Então—as palavras que acenderiam o estopim.
SEELE 01: "Iniciem a invasão da NERV."
Os monólitos piscaram. Um por um.
Depois, desapareceram.
E a guerra pela Instrumentalidade Humana começava.
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