Evangelion: Shattered Thresholds

24 Episódio 24: A Anomalia no Fim do Mundo


Capítulo 202: Ecos do Silêncio / Prelúdio do Caos

O hangar agora estava silencioso.

A Unidade-04 permanecia imóvel, ainda banhada pela iluminação de emergência tênue, sua armadura cromada marcada por cicatrizes e queimaduras recentes do embate brutal que abalara o Dogma Central. Ao lado, a Unidade-02 estava cuidadosamente presa à sua gaiola, silenciosa e dormente mais uma vez, esperando pacientemente—quase em paz—pela piloto a quem pertencia.

Asuka.

O peito de Kai subia e descia devagar, a adrenalina finalmente começando a ceder, dando lugar a um cansaço que lhe atingia os ossos. Ele afundou no assento da cabine, olhar distante, o zumbido familiar dos sistemas do plug de entrada oferecendo um ritmo baixo e reconfortante ao silêncio.

Fechou os olhos por um instante, absorvendo a quietude, os ecos tênues da batalha ainda reverberando em sua mente. Ele havia vencido. Kaworu—o Último Anjo—estava morto. Esmagado por sua própria mão. Ainda assim, a vitória não tinha gosto de triunfo. Tinha gosto de alívio, temperado por tristeza e pela amarga consciência do preço que todos haviam pago.

O comunicador chiou suavemente, rompendo a paz frágil.

"Kai?" A voz de Misato soou, suave, sondando com cuidado. "Você tá bem aí dentro? Aquilo foi bem... intenso."

Kai abriu os olhos, piscando para afastar a fadiga. Respirou fundo, se recompôs, antes de responder com calma:

"Sim... tô bem. E você?" Sua voz soava estranhamente serena, quase desconectada do caos que acabavam de atravessar.

Misato riu suavemente, o alívio evidente no calor cansado de seu tom. "Sim, tô bem. Graças a você, todos estão."

Ele esboçou um sorriso fraco—gesto invisível dentro da cabine. Mas esperava que Misato sentisse. Ela sempre soube como puxá-lo de volta, mesmo quando o mundo estava desmoronando.

Os pensamentos de Kai voltaram-se para dentro, refletindo sobre tudo que acabara de acontecer. Ele havia enfrentado o oblívio. Havia se lembrado de quem era, aceitado a parte de si que tanto rejeitara. Agora estava inteiro. Completo. E, contra todas as probabilidades, ainda estava ali, ainda era ele mesmo. O conhecimento lhe trazia uma sensação estranha e profundamente reconfortante—paz. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia genuinamente em paz.

Seus olhos repousaram na forma silenciosa da Unidade-02, o coração apertando. Queria que Asuka estivesse ali para compartilhar essa vitória quieta e profunda. Para dizer, com seu desprezo brincalhão e orgulho feroz, que ele havia mandado bem. Para ancorá-lo, como sempre fazia, em uma vida que doía menos quando ela estava por perto.

"Como está a Asuka?" perguntou por fim, sem conseguir esconder o tom suave de preocupação na voz.

Houve uma pausa, o silêncio pesado. Então a voz clínica de Ritsuko interveio suavemente. "Sem mudanças, Kai. Ela está estável, mas ainda sem resposta."

Ele assentiu devagar, engolindo o nó que subia na garganta. "E... o Shinji? A Rei?"

Misato hesitou, escolhendo cuidadosamente as palavras. "Kai... a Rei não sobreviveu. Ela se sacrificou lutando contra o Décimo Sexto Anjo. Salvou todos nós, mas..." Misato calou-se, lutando com a emoção. Kai sentiu o sangue sumir do rosto, o coração apertar dolorosamente.

Rei se foi.

Misato prosseguiu com gentileza, sentindo sua dor. "E o Shinji... ele foi embora. Pediu desligamento da NERV outra vez. Dessa vez, pareceu... definitivo."

Kai sentiu como se tivesse levado um soco. Cada palavra caía como marteladas, pesadas e brutais. Shinji havia partido. Rei estava morta. Tudo enquanto ele estava com Asuka, alheio à tragédia que acontecia ao redor.

Culpa. Outra vez.

Misato pareceu perceber o redemoinho de seus pensamentos através do silêncio. Sua voz suavizou, mas estava firme. "Kai... escuta. Isso não é sua culpa. Nada disso. Você não podia impedir o que aconteceu. Você fez exatamente o que precisava. Não se culpe."

As palavras o alcançaram, ancorando-o de volta à realidade, puxando-o da escuridão que ameaçava engoli-lo. Ele ergueu a cabeça, os olhos voltando a brilhar com determinação, reacendendo-se nas brasas da dor.

Ele havia feito uma escolha. Escolheu Asuka, escolheu protegê-la, e nunca se arrependeria disso—não agora, nem nunca. Mas o peso das consequências era inegável. Estava sobre seus ombros, pressionando-o, mas paradoxalmente também o impulsionando adiante, alimentando uma vontade feroz.

Não deixaria mais ninguém para trás. Nunca mais.

"Entendi," murmurou, a firmeza retornando à voz. "Misato... obrigado."

Ele ouviu o sorriso gentil através do comunicador. "Sempre, Kai."

O silêncio voltou brevemente, uma paz frágil se assentando novamente. Kai respirou fundo, preparando-se para finalmente ejetar o plug de entrada e voltar à realidade, quando—

BOOM!

A primeira explosão sacudiu a sede da NERV, balançando violentamente o hangar. Kai se projetou para frente, as telas piscando erraticamente ao seu redor.

A voz de Misato soou nos comunicadores, agora em pânico:

"MAS O QUE DIABOS FOI ISSO?!"

Outra onda de choque atingiu a instalação, ainda mais forte, mais próxima. Sirenes dispararam, agudas e urgentes.

Mas não era o alarme usual de Anjo.

Era diferente.

O fim tinha começado.

Capítulo 203: Cerco da Humanidade / Loucura Liberada

"EMERGÊNCIA!"

Alertas vermelhos explodiram em todas as telas, iluminando a cabine com pulsos violentos de carmim. Kai se enrijeceu instintivamente, os olhos se estreitando enquanto vozes caóticas irrompiam pelo sistema de comunicação, frenéticas e sobrepostas.

"Comunicações de áudio da rede número 6 cortadas!"

"Circuito terrestre de Goura inoperante!"

"Todas as linhas de comunicação estão sendo sistematicamente cortadas!"

A voz de Fuyutsuki cortou o caos com firmeza. "Transfira o lado esquerdo para o canal azul de emergência! Use o satélite se for necessário." Ele fez uma pausa, a voz carregada de suspeita. "Eles estão atrás do Magi?"

A resposta urgente de Aoba veio na hora. "Upload de dados vindos de terminais externos. Estão tentando invadir o Magi, senhor. Pelo menos cinco supercomputadores Magi estão atacando!"

O tom de Fuyutsuki escureceu, quase amargo. "Parece que a SEELE está investindo tudo. São os cinco Magi contra um."

"Estou cuidando disso," disse Ritsuko, a voz firme e controlada, embora a tensão estivesse evidente por baixo.

Explosões sacudiram novamente a sede da NERV, as vibrações atravessando a cabine e abalando os nervos de Kai. Mais vozes frenéticas soaram pelo comunicador:

"Perdemos os radares do setor 8 ao 17!"

"Um esquadrão de forças especiais está entrando na linha de defesa Goura!"

"Dois esquadrões estão se aproximando do setor Gotemba!"

Kai escutava, cada palavra disparando como tiros contra seu peito. O coração congelou por um instante, a realidade se distorcendo ao seu redor num silêncio surreal. A SEELE finalmente havia liberado seus cães. Não eram Anjos. Eram humanos. Soldados treinados. Armados, impiedosos, cruéis—ali apenas para matar.

Se ele não agisse rápido—

"Me lança lá pra cima!" Kai gritou no comunicador, a voz vibrando de urgência. "Eu posso tentar impedir que eles entrem!"

Uma pausa hesitante, e a voz trêmula de Maya rompeu. "Mas... Kai, eles são seres humanos, não Anjos..."

A resposta de Hyuga foi imediata e pragmática. "Queria que o outro lado pensasse assim também."

Mais explosões sacudiram a instalação, mais alarmes soando alto.

A voz de comando de Misato trouxe todos de volta ao foco. "Não temos tempo pra discutir! Lançar imediatamente a Unidade-04!"

Fuyutsuki voltou a falar, mais baixo, mas igualmente agudo. "A SEELE deve estar desesperada—enviando as forças da JSSDF sem nem tentar negociar."

"Preparar a Unidade-04 para lançamento na superfície!" confirmou Maya, com a voz tremendo levemente. "Rota liberada—Lançar!"

Kai sentiu a aceleração conhecida, a Unidade-04 disparando para cima através do Geofront.

Na superfície, o caos reinava. Incêndios consumiam os perímetros externos da NERV, colunas de fumaça subiam em espiral, enegrecendo o céu. Abaixo dele, linhas de veículos blindados avançavam, suas armas disparando rajadas implacáveis.

Ele caiu sobre eles como uma tempestade.

O punho do Eva-04 esmagava tanques, os pés obliteravam transportes blindados. Figuras humanas corriam desesperadas, mas continuavam atirando, suas armas inúteis contra sua armadura impenetrável.

No comunicador, os técnicos relatavam com pânico crescente:

"Eles invadiram os níveis superiores—as tropas estão MATANDO todo mundo!" A voz de Maya beirava o desespero histérico.

Aoba acrescentou, afiado e temeroso. "Eles não vieram negociar—vieram nos EXTERMINAR!"

"O alvo é o Magi," interveio Hyuga. "Se tomarem o controle, a NERV ACABA!"

Kai continuava o ataque, cada movimento mecânico, instintivo. Mas o pavor torcia seu estômago ao ouvir os relatos.

"O Kai tá conseguindo atrasar o avanço, mas alguns esquadrões continuam rompendo a defesa," relatou Hyuga, tenso.

Outra voz interrompeu, surpresa evidente. "Major Katsuragi! Os registros de acesso—Shinji Ikari entrou na NERV há alguns minutos! Mas não conseguimos localizá-lo!"

A voz de Misato elevou o tom, confusa e preocupada. "Ele voltou? Mas se queria pilotar, por que não veio direto pra cá? Onde diabos ele está?"+

"Estamos procurando!" Aoba respondeu frenético. "Nenhum sinal ainda!"

O pulso de Kai acelerou, a preocupação disparando enquanto um calafrio subia por sua espinha. "Verifiquem se o Shinji tá com a Asuka!" gritou entre explosões e disparos.

"Sem registro de entrada na ala médica!" respondeu Hyuga, tenso, ofegante.

"Continuem procurando!" rosnou Kai, destruindo outra formação de veículos abaixo dele. "A gente precisa da ajuda dele AGORA!"

A voz de Misato rompeu com firmeza, apesar da ansiedade implícita. "Você tá mandando bem, Kai. Só alguns esquadrões conseguiram entrar."

Maya acrescentou: "Invasores rompendo pelos corredores E-17 e F-22! Indo pros níveis inferiores!"

A voz de Misato virou gelo. "Eles não querem só o Magi. Estão caçando os Evas—e os pilotos!"

O coração de Kai congelou no peito.

Asuka.

"Misato!" ele gritou, a voz crua e frenética. "Você precisa tirar ela de lá!"

"Não se preocupa, Kai!" disse Misato com firmeza. "Maya, manda as equipes de recuperação pra ala médica. Protejam a Asuka e preparem a Unidade-02!"

Houve um segundo de hesitação, então a voz de Maya surgiu trêmula, mas com resistência:

"Mas... Major! Ela não vai conseguir sincronizar com a Unidade-02 nesse estado—"

Misato não hesitou. "Se ficar lá, ela definitivamente vai morrer. Esconder ela no Eva é a melhor chance que temos. Só FAZ!"

"S-Sim senhora!" Maya gaguejou, já digitando freneticamente, os dedos um borrão sobre o teclado.

Kai avançava, esmagando tanques, detonando artilharia, rasgando veículos. As mãos se moviam por instinto, mas cada segundo parecia uma eternidade. Precisava ignorar o cansaço das batalhas consecutivas. Nunca havia estado sincronizado por tanto tempo.

"Equipes de recuperação resgataram a Asuka! Ela foi colocada na Unidade-02!" relatou Maya, sem fôlego. "Iniciando sequência de lançamento!"

"Lance ela no lago," ordenou Misato. "É o lugar mais seguro que ainda temos!"

Os técnicos se moveram de imediato. Instantes depois, Aoba confirmou, ofegante: "Unidade-02 sendo lançada pelo túnel 8, vai ficar a setenta metros de profundidade!"

Kai sentiu um alívio momentâneo—logo destruído por uma nova barragem de explosões. As forças inimigas se reagruparam, bombardeando sua posição, o chão explodindo sob seus pés.

Ele avançou com um rugido, esmagando mais veículos, neutralizando o fogo inimigo com precisão implacável.

"Eles tão perdendo terreno," disse Misato, observando os monitores. "A gente tá virando o jogo. Nenhum esquadrão novo tá conseguindo entrar. Graças ao Kai."

Então, um temor repentino apertou o peito dele. O inimigo havia se ajustado.

Mísseis passaram zunindo por ele, diretamente em direção ao lago. Os impactos sacudiram a água, explosões lampejando no fundo.

"NÃO! Eles encontraram ela!" Kai gritou, avançando, o Campo A.T. da Unidade-04 explodindo ao seu redor, formando uma barreira cintilante protegendo a submersa Unidade-02. Ele ficou como um guardião, suportando o bombardeio implacável.

"Mais esquadrões invadindo!" gritou Aoba. "Rota E-32—eles estão DENTRO!"

Kai rangeu os dentes. Não podia fazer os dois. Proteger a Asuka—e impedir a infiltração.

A voz apavorada de Aoba rompeu o caos do comunicador. "BOMBA N2 detectada—caindo em direção a Tokyo-3! Impacto iminente!"

O coração de Kai disparou, o pânico apertando seu peito.

Ele permaneceu firme, o mundo rugindo ao seu redor com fogo e morte, sua determinação intacta.

Precisava protegê-la—precisava proteger todos eles.

Ou morrer tentando.

Capítulo 204: Renascimento em Meio à Ruína / O Amor (não) é Destrutivo

O céu explodiu.

A bomba N2 despencou pelo ar, detonando com um poder devastador. Todo o teto do Geofront desabou violentamente, se abrindo como se o próprio mundo estivesse acabando. O céu se partiu com uma fúria ensurdecedora. Fragmentos gigantescos caíram, mergulhando o Geofront em uma escuridão sufocada por fumaça.

Kai mal teve tempo de reagir.

Ele se firmou dentro da Unidade-04, os dentes cerrados de dor enquanto convocava cada grama de força de vontade, o desespero se afiando em pura determinação. Seu Campo A.T. se expandiu em uma onda cintilante de energia protetora, abrangendo a sede da NERV e o lago onde a Unidade-02 ainda repousava, sem resposta.

Os destroços colidiram com sua barreira com uma força sísmica, enviando choques de dor por todo seu corpo a cada impacto. Mas Kai resistiu, arfando de dor, os olhos fixos adiante com uma determinação ardente.

Mas isso—isso era só o começo.

"Mais mísseis a caminho—centenas deles!" A voz de Maya rompeu em histeria no comunicador, o pânico evidente em cada palavra.

Kai ergueu o olhar, o medo se acumulando em seu estômago ao ver uma tempestade de projéteis flamejantes despencando sobre ele. Os mísseis explodiam contra seu Campo A.T. como ondas contra rochas, e cada impacto parecia um choque elétrico através dos seus ossos.

"Droga! Ele tá por um fio!" A voz de Hyuga tremeu com medo.

"Ele precisa aguentar!" Misato gritou com firmeza. "Kai, segura firme! Só mais um pouco!"

Explosões surgiam ao redor, e Kai sentia suas forças se esvaindo, escorrendo como areia entre os dedos. Inspirou com dificuldade, a visão turva. Não podia falhar. Não podia deixá-los alcançá-la.

"Misato!" gritou de repente, a voz crua e urgente. "Me conecta diretamente com o plug de entrada da Asuka—agora!"

Misato não hesitou. "Façam isso!"

Uma rápida sequência de confirmações frenéticas, e então a linha foi aberta, crepitando com estática. Kai inspirou fundo, o coração martelando no peito, e falou com uma emoção que nunca havia deixado escapar antes.

Ele falou.

"Não sei se você pode me ouvir..." sua voz tremia, espessa de lágrimas contidas. "Mas... acho que pode, dona Kyoko." Engoliu seco, apertando os controles com mais força, forçando a voz a se manter firme. "Por favor... sei que você está aí. Você precisa alcançá-la. Só você pode fazer isso. Sua filha precisa de você mais do que nunca. Só você pode trazê-la de volta. Por favor... eu não consigo fazer isso sozinho..."

As explosões ao redor se intensificaram, sacudindo Kai violentamente enquanto forças terrestres uniam-se ao ataque, lançando bombas e projéteis sem trégua. A barreira de Kai tremulava perigosamente, cada respiração virando uma luta.

Mas sob a superfície do lago, dentro da cabine escura da Unidade-02, algo se moveu.

"Mamãe...?"

Um tremor atravessou o lago, e uma luz deslumbrante em forma de cruz explodiu em direção ao céu, cegante. A Unidade-02 surgiu das profundezas, erguendo um encouraçado da SEELE como se fosse de papel, esmagando-o num só movimento brutal.

O coração de Kai parou.

"Quantas vezes," a voz de Asuka surgiu no comunicador, cheia da arrogância familiar e da fúria vibrante, "eu vou ter que salvar sua bunda de novo, Selvinha?"

"ASUKA!" Kai gritou, o riso escapando entre lágrimas de alívio. "Demorou, hein!"

"...Cala a boca, Selvinha," ela rebateu.

A Unidade-02 se moveu.

Primeiro um movimento dos dedos. Depois, um gesto nítido enquanto se erguia por completo dos escombros, os olhos ardendo com fúria.

O riso de Kai ecoou pelo comunicador, a adrenalina substituindo o medo. "Nem acredito que senti saudade de ouvir `Selvinha'!"

No Comando Central, o caos deu lugar à descrença—e então à realização eufórica.

"Unidade-02—reativando!" Maya gritou, a voz embargada.

"Mas—mas como pode..." Aoba gaguejou, atônito.

O riso abafado de Misato se sobrepôs ao ruído, exausto e profundamente aliviado. "Essa é a Asuka," sussurrou roucamente, o orgulho evidente na voz. "Essa é a minha garota."

Dentro da Unidade-02, Asuka piscava devagar, a visão se clareando dos ecos do ataque de Arael. Vozes de vergonha e medo ainda sussurravam na beira de sua mente, memórias a assombrando—mas agora fracas, impotentes.

Sua mãe estava ali. Ela podia ouvi-la.

O verdadeiro significado do Campo A.T..

A alma dela estava ali, protegendo-a.

E algo mais tocou sua mão—sólido e quente. Ela olhou, surpresa.

O bracelete. O bracelete do Kai.

Seus dedos o envolveram com cuidado, tremendo levemente. Ele tinha estado ali. Kai. O seu Kai. Seu porto seguro. Ele nunca a deixou—nem por um segundo.

Os dedos apertaram a pulseira, a determinação inundando suas veias.

Ela não estava sozinha.

E nunca estivera.

A determinação brilhou dentro dela, queimando as sombras, incendiando sua alma com um novo propósito. Os olhos se abriram completamente—vermelhos, ferozes.

"...Tá bom, Kai," sussurrou ela, um sorriso se formando, afiado como sempre, belamente desafiador. "Vem pegar seu maldito bracelete."

O sorriso de Kai cresceu, a voz ressoando nos comunicadores com aquele calor provocador familiar.

"Sabia que você ia voltar. Você simplesmente não consegue ficar longe de mim."

A Unidade-02 rugiu, anunciando sua volta com vingança e chamas.

"Tch," Asuka bufou, escondendo o calor sob o desdém. "...Você é inacreditável. Mas acho que posso te recompensar quando a gente acabar de transformar esses desgraçados em poeira."

O comunicador explodiu.

Misato, entre o desespero e uma enxaqueca: "Ai, pelo amor de—VOCÊS DOIS PODEM FLERTAR DEPOIS!"

Aoba, hesitante: "A gente devia... tá ouvindo isso?"

Hyuga murmurou melancólico: "Queria que alguém flertasse comigo durante o apocalipse..."

Kai sorriu.

Mas Asuka—Asuka riu de verdade. Não um deboche. Não um riso disfarçado.

Uma risada real. Quente. Desarmada.

Ela cortou a fumaça e o medo como um raio de sol, e o coração de Kai disparou.

Ela estava mesmo de volta.

E a SEELE?

A SEELE ia pagar por cada segundo da ausência dela.

Capítulo 205: O Acerto de Contas das Almas / Pulsos de Vida Cortados

A Unidade-02 rugiu como uma fera libertada. Ela avançou, olhos brilhando, armadura flexionando como se tivesse esperado por aquele momento tanto quanto a própria Asuka.

"Muito bem, Selvinha," disse Asuka, a voz em chamas, "eles vieram para um massacre. Vamos dar um pra eles."

E então a Unidade-02 avançou.

Um borrão vermelho de vingança, abrindo caminho pela próxima onda das forças da JSSDF como uma maré de aço.

Kai não se conteve. Sua voz explodiu, cheia de uma alegria insana. Fazer isso com Asuka... era como cantar com ela no karaokê outra vez. Um dueto.

"AGORA sim eu tô completo! Vamos nessa, Ass!"

Um silêncio mortal caiu.

"...COMO É QUE É?!"

O grito de Asuka quase estourou os comunicadores.

Mas Kai apenas riu, mesmo quando Asuka gritou:

"VOCÊ NÃO ME CHAMOU DE—KAI, EU JURO POR DEUS—"

A fúria na voz dela poderia incendiar cidades. Mas por baixo, ele ouvia algo mais.

Calor.

Fogo.

Ela.

Ela nem esperou mais ordens.

A Unidade-02 lançou-se adiante, atravessando aeronaves, armadura vermelha cintilando enquanto mergulhava na tempestade. Tanques miraram. Destruídos em segundos. Rajadas de balas rasparam sua lateral. Ela girou no meio delas como uma bailarina, arrancando helicópteros do céu com precisão brutal.

Ela era uma tempestade. Uma arma. Uma fúria há muito negada, agora libertada.

E no meio do caos, a voz dela voltou, cuspindo raiva e riso:

"EU VOU FAZER VOCÊ PAGAR POR ISSO, IGUAZU!"

Seu sobrenome.

Ele ainda não tinha contado a ela que havia recuperado suas memórias.

"Peraí... como você sabe meu sobrenome?" A voz dele vacilou.

A risada dela foi inesperadamente suave. "Minha mãe me contou, idiota. Ela me contou tudo."

Ele ficou vermelho na hora. "Tudo?"

"Cada detalhe vergonhoso," provocou, a voz carregada de escárnio teatral. "Inclusive o quanto você apanhou do meu Eva, de novo. Mas você esmagou o Anjo. Impressionante, pra um tonto como você é."

Kai riu alto, eufórico. "NOSSA, como eu senti falta dessa arrogância!"

"...Você se acha TANTO!," Asuka resmungou, claramente sorrindo por trás da frustração.

Eles lutavam juntos de novo, em sincronia como sempre foram. Letais. A velha dança retornando sem esforço. Kai girava ao redor dela, a Unidade-04 destruindo defesas inimigas com movimentos precisos.

"Adivinha quem também teve treinamento de verdade por anos?" Kai se gabou, destruindo outro esquadrão de tanques.

Ela bufou. "Ah, por favor. Alguns aninhos de treino e agora você acha que é especial? Que fofo."

De repente—

A voz de Makoto estourou pelo caos:

"...espera—ESPERA—TEMOS ALGO!"

Os monitores internos mudaram de repente.

Uma câmera tremulante surgiu.

Uma sala fria, cintilando em baixa resolução. Nas profundezas. Dogma Central.

E lá estavam.

Shinji.

E diante dele—

Gendo Ikari.

A respiração de Misato prendeu na garganta. Ela não precisava de contexto para sentir o peso da cena. Os olhos arregalados de Shinji. Gendo, imponente como uma sombra no fim do mundo.

A voz dela sussurrou, tomada de horror. "...Ah, não."

Ela se recompôs. "Shinji tá com Gendo... Que diabos tá acontecendo?"

A voz de Maya entrou, tensa, tentando acalmá-la. "Pelo menos ele está seguro da SEELE lá embaixo!"

De repente—

"Alerta! Inimigos se aproximando da linha principal de energia!" A voz de Aoba cortou o comunicador. "Vão cortar o cabo de energia da Unidade-02!"

Kai se virou, sensores explodindo em vermelho. Um comboio de blindados da SEELE—tanques, lançadores de mísseis, drones—avançava pela destruição, direto em direção à estação de energia.

Rápido demais.

Na Unidade-02, os alertas gritaram.

CABO UMBILICAL – CORTADO.

Kai girou, olhos arregalados—tarde demais.

Um contador surgiu no plug de Asuka.

4:59

Ela estava na bateria. Cinco minutos. Depois disso, desligada.

Mas a voz de Asuka nem vacilou. "HAH! Eu não preciso do cabo umbilical! Eu ainda tenho doze mil placas de uma armadura fortificada e—"

Kai não pensou. Antes que ela terminasse a frase, a Unidade-04 disparou até ela. Em um só movimento brutal, ele arrancou seu próprio cabo de energia das costas do Eva e o encaixou na entrada da Unidade-02. A conexão faiscou, travou—e a Unidade-02 brilhou novamente.

O visor dela piscou—CONECTADA.

Energia restaurada. A dele, desconectada. O HUD de Kai ficou vermelho. Um novo contador surgiu:

5:00

Um segundo de silêncio.

E então Asuka explodiu:

"QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, KAI?!"

Kai sorriu, mesmo com os alertas berrando ao seu redor. "Não vou deixar você dormir de novo." Apertou os controles. "Relaxa. A gente termina isso em menos de cinco minutos, né?"

Por meio segundo—só meio—ela suavizou.

Depois afiou de novo o sorriso. "...Pode apostar que sim."

Kai riu alto, girando, esmagando outro pelotão sob os pés da Unidade-04.

Lutavam. Juntos. Implacáveis. As forças da JSSDF quebraram formação, alguns tentando fugir—em vão. Nem Asuka nem Kai mostravam piedade. Não agora. Não depois de tudo. Ninguém sairia vivo.

Então—

Sons altos de turbinas. Nove enormes aeronaves negras em formato delta romperam as nuvens, lançando sombras apocalípticas sobre o Geofront destruído.

Os olhos de Kai se voltaram para cima. "Misato?!"

A voz dela voltou, sem humor. De puro aço. "Kai. Asuka. Nova ameaça chegando. Múltiplos alvos. Fiquem atentos."

E dos céus, eles desceram.

Nove silhuetas brancas e distantes, deslizando no ar como monstros silenciosos.

Idênticos.

Sorrindo.

Alados.

O coração de Kai acelerou, adrenalina queimando novamente.

"Preparado pro evento principal, Iguazu?" Asuka provocou, a voz cheia de excitação feroz.

Kai sorriu, selvagem, mãos firmes nos controles, o coração em chamas.

"Sempre pronto, Langley."

E então, de novo.

"Lang-ley."

Capítulo 206: Asas Sobre o Vazio / Deuses Criados por Homens

O céu se rasgou.

Como abutres descendo sobre uma carcaça, nove formas rasgaram as nuvens pesadas, planando com asas grotescas — imitações emplumadas e artificiais de algo que jamais deveria voar. Mas voavam. Com facilidade.

Cada forma era imensa. Humanóide, à primeira vista — mas apenas à distância.

De perto, eram qualquer coisa, menos isso.

A pele era pálida e manchada — branca como porcelana, quase cerosa, esticada sobre músculos industriais. Sob essa carne, cristas de placas de armadura em carbono-cerâmica saltavam em ângulos geométricos brutais, fundidas diretamente ao tecido exposto. Tendões sintéticos negros estalavam nas articulações onde membros humanos deveriam se dobrar.

Sorrindo.

Todos ostentavam um sorriso permanente — grotesco, pintado em vermelho em um rosto liso e mascarado. Onde deveriam haver olhos, só havia vazio. Poços fundos e escuros. Como se tivessem sido arrancados com um cinzel.

Mas o pior era a boca.

Larga demais. Funda demais.

Não era apenas pintada. A boca se abria — articulada — não apenas em dentes, mas no que parecia uma garganta infinita, uma abertura semelhante às presas de um tubarão, feita para devorar. Ou gritar. Ou ambos.

Das costas saíam asas-motor obscenas — vastas estruturas membranosas, que à primeira vista pareciam penas, mas eram revestidas de lâminas compostas. As penas metálicas reluziam em tons de aço e sangue, se contraindo e se dobrando de maneira antinatural conforme ajustavam seus vetores de descida.

Nove monstros. Nove blasfêmias.

Seus dedos eram longos demais — o dobro da proporção humana — terminando em garras, algumas de carne, outras de titânio exposto.

Cada um aterrissou com um estrondo — ondas de choque espalharam detritos, água e poeira pelo Geofront arruinado.

O chão afundou sob o peso deles.

E então ficaram de pé.

Silhuetados contra as ruínas do santuário interno de Tokyo-3. Imensos. Silenciosos. Olhos vazios, escaneando sem mover a cabeça. Os sorrisos esticados até parecerem maníacos. Ou famintos.

Cada um carregava uma arma que desafiava qualquer descrição comum — uma imensa lâmina-cutilada, maior do que eles próprios, moldada com brutal pragmatismo. As bordas eram pesadas e rústicas, um sulco profundo dividindo o centro como uma veia oca. O metal brilhava sem brilho — negro como obsidiana, mas com fibras aparentes, como se músculos tivessem sido congelados em aço. Não era elegante. Nem preciso.

Era uma declaração.

Uma ferramenta feita para esquartejar. Sem finesse — apenas massa, momento e inevitabilidade.

A presença deles pesava sobre o Geofront como uma maldição.

Eles não deveriam existir.

E, no entanto — existiam.

Nem nascidos. Nem vivos. Nem máquinas. Nem homens.

Ferramentas. Armas. Zombarias do divino.

As monstruosidades de branco se espalharam, cercando os Evas-02 e 04 como hienas rodeando presas feridas.

E sorriam. Sempre sorriam.

Mas Kai e Asuka também.

Do Comando Central, a voz de Ritsuko veio carregada de horror e surpresa:

"Meu Deus... Misato, são... Evas de Produção em Massa. A SEELE conseguiu completá-los."

Kai estreitou os olhos. "Sou só eu ou eles meio que se parecem com meu Eva?"

"Não é coincidência," respondeu Ritsuko, com uma voz sombria. "Eles são baseados no protótipo da Unidade-04. Uma evolução do seu modelo, Kai — produzidos em massa, aperfeiçoados."

A voz de Misato cortou firme. "Kai, Asuka! Fiquem alertas! Essa é a cartada final da SEELE. Eles não vão parar até vocês estarem mortos."

A Unidade-02 flexionou. A voz de Asuka veio carregada de bravura afiada. "Kai, quanto tempo você tem?"

"Uns três minutos e meio."

"Nove unidades, três minutos e meio," ela zombou. "Dá uns vinte segundos por Eva. Moleza, né?"

A risada de Kai foi selvagem. "Mais que suficiente."

Eles avançaram em perfeita sincronia.

Kai atingiu primeiro — a Unidade-04 esmagou o peito de um MPE, lançando-o contra a parede da cratera. Asuka girou, arrancando o braço de outro com a faca progressiva, depois cravou a lâmina em seu pescoço com violência. Dois a menos.

Os demais investiram como um só, movendo-se com sincronia antinatural. As lâminas desciam em arcos letais. Kai desviou, fluido, cravou o cotovelo na placa peitoral de um, girou e o usou como escudo. Asuka passou por ele em um salto, arrancando o braço de outro, cravando a faca no pescoço com precisão feroz.

"Três!" ela rugiu.

O HUD de Kai piscou.

2:45

Kai sentia — cada movimento, cada impacto — como se ele e a Unidade-04 fossem um só. Não era só sincronização. Era fusão.

Avançaram. Kai deslizava, decepando pernas. Asuka saltava, esmagando peitos com os joelhos. Ela se ergueu, olhos em chamas.

"Cinco já era!" comemorou.

Kai cerrou os dentes.

2:10

A voz de Misato cortou o comunicador:

"Alguma notícia do Shinji?"

As mãos de Aoba voaram pelos teclados. "Temos imagens — ele ainda está no Dogma Central. Com o Comandante Ikari."

"O quê? O que ele ainda tá fazendo lá?" disparou Misato.

Aoba balançou a cabeça. "Impossível saber. A sala está selada. Sem áudio. Estão... conversando. Ou discutindo. Não sabemos."

O punho de Misato se fechou. "Por quê? Por que agora, justo agora... O que o Gendo ainda quer com o Shinji?"

A pergunta pairou no ar como uma lâmina.

Os últimos quatro MPEs avançaram. A Unidade-04 rugiu, esmagando o crânio de um com um golpe aberto, depois girando o calcanhar no abdômen de outro. Asuka girou entre os dois últimos, deixando cortes profundos antes de tomar suas armas caídas e decapitá-los.

"Sete... oito!" ela rosnou.

"Falta um!" Kai chamou.

1:20

O último MPE atacou, boca aberta, lâmina erguida. Juntos, Kai e Asuka avançaram, cortando o monstro ao meio com golpes sincronizados.

Nove corpos jaziam destroçados ao redor. Membros espalhados. Armadura em pedaços. O silêncio reinou por um instante.

O cronômetro de Kai:

1:00

Asuka riu, exausta e vitoriosa. "Viu? Eu disse que ia ser fácil."

Kai riu, sem fôlego. "Você é inacreditável."

Então — um som úmido e horrível ecoou.

Cabeças se ergueram.

Os membros decepados, os crânios estilhaçados e os corpos dilacerados convulsionavam violentamente. Carne e armadura cerâmica começavam a se recompor, os tendões grotescos se reconectando com uma eficiência aterradora. Os Evas de Produção em Massa se ergueram de novo.

Reconstruídos. Revividos.

Sorrisos ainda mais largos.

A voz de Kai tremeu, o pavor tomando seu lugar. "Eles... estão regenerando..."

O rosnado de Asuka foi baixo, cheio de fúria.

"Então vamos continuar destruindo até eles ficarem no chão."

Nove pares de olhos ocos voltaram-se lentamente para o Eva-02 e o Eva-04. As bocas se abriram em gritos silenciosos de triunfo.

A guerra estava longe do fim.

Capítulo 207: O Último Minuto / Batimento do Infinito

0:45

Eles estavam se movendo de novo.

Um por um, os Evangelions de Produção em Massa começaram a se erguer. Seus membros retorcidos se recolocavam no lugar com estalos violentos. Sorrisos se alinhavam em perfeita sincronia—sorrisos eternos, insanos, prometendo apenas agonia.

Kai encarou, sem fôlego, olhos arregalados. "Como diabos eles conseguem fazer isso?"

A voz de Ritsuko cortou o silêncio, clínica, mas com um traço de pavor. "Eles foram construídos com dispositivos S². Energia infinita, como os Anjos. A SEELE criou as armas perfeitas."

Misato praguejou, a voz tensa. "Kai, Asuka — preparem-se! Eles vêm de novo!"

Kai cerrou a mandíbula com determinação. "A gente consegue."

Asuka riu, sombria, viva como nunca. "É claro que a gente consegue."

A segunda onda explodiu em violência brutal. Os MPEs avançaram, um furacão de carne branca e aço negro. Kai sentiu seu Eva se mover com fluidez, como se fosse parte dele. O punho esmagou a mandíbula de um inimigo. Ao lado, a Unidade-02 despedaçava outro com elegância selvagem.

O cronômetro piscava com urgência.

0:35

"Ritsuko!" gritou Kai, desviando de uma lâmina colossal que quase atingiu o peito de seu Eva. "Se essas coisas têm núcleos, como os Anjos, onde eles ficam? Não deveríamos simplesmente destruir o núcleo?"

A voz de Ritsuko se manteve firme, mas sem esperança. "Os núcleos deles não são centralizados — estão dissolvidos, dispersos pelo corpo. São indetectáveis. Não existe um ponto único para atacar.."

"Droga!" Kai rosnou, sentindo o tempo se esvair.

Outro MPE saltou, e Kai rugiu, rasgando seu torso ao meio. Asuka girou, cravando uma lâmina na cabeça de outro. Mas os primeiros já se recompunham, se reerguendo com eficiência macabra.

Kai olhou para o cronômetro:

0:20

A voz de Misato explodiu no comunicador, o nervosismo transparecendo. "Alguma novidade sobre o Shinji?"

Os dedos de Aoba corriam pelo console. "Ainda está no Dogma Central — ele finalmente se moveu, deixou o Comandante Ikari para trás. Parece que está indo para a Unidade-01!"

Misato soltou o ar, aliviada. "Ótimo. Finalmente. Precisamos dele aqui fora."

"Misato," Ritsuko interrompeu de repente, com um tom estranhamente distante, mas carregado. "Preciso ir."

Misato hesitou, alarmada. "Ritsuko? O que tá acontecendo?"

Houve um silêncio meio segundo longo demais. Então Ritsuko falou suavemente, suas palavras gentis mas cheias de resignação. "Passei a vida cercada por monstros, Misato. Talvez esteja na hora de encarar o pior deles."

"Ritsuko—!"

"Cuide deles," murmurou Ritsuko com doçura. "Cuide dos nossos pilotos."

A linha caiu, deixando um silêncio arrepiante.

Kai não teve tempo de pensar. Os últimos segundos escoavam rapidamente.

0:03

0:02

Com um grito angustiado, ele esmagou outro Eva contra o solo. O último segundo desapareceu, e de repente—

0:00

Seu Eva congelou.

"Não," arfou Kai, o pânico cravando garras em seu peito. "Não, não, NÃO!"

Ele já sabia: os Evas da Produção em Massa estavam se mexendo de novo, seus membros destroçados se reconstruindo de forma impossível. Kai sentiu o desespero subir, apertando seu peito. Estava preso. Imóvel. Asuka estava lutando sozinha. E, mais uma vez, ele não podia ajudar.

Não. Não, não—para. Concentra.

Não podia se deixar dominar pelo pânico. Não agora.

Ele se lembrou das palavras de Ritsuko: os Evas da Produção em Massa foram baseados na Unidade-04. Na sua Unidade-04. Aprimorados com um dispositivo S² perfeito e indetectável. Uma fonte de energia infinita.

Energia infinita.

Os olhos de Kai se arregalaram, o coração disparado. Nevada. O experimento—será que realmente havia falhado? Ou havia sido um sucesso... perfeito demais?

Ele fechou os olhos, buscando dentro de si. Através do caos, do pânico, do desespero—

Uma batida.

Ele sentiu. Bem no fundo do peito, ressoando para fora. Um pulso que era dele e do seu Eva.

O mundo desacelerou. Algo se acendeu dentro dele.

Outra batida. Infinita. Indetectável. Viva.

A Unidade-04 estremeceu violentamente—e então explodiu de volta à vida, com poder jorrando sem fim por seus circuitos. Kai sentiu a força inundá-lo, ilimitada, brilhando como o Sol.

Ele abriu os olhos a tempo de ver.

Uma Lança de Longinus—menor que a original, mas inegavelmente mortal—voava em direção à cabeça do Eva-02, destroçando seu desesperado Campo A.T. como vidro.

Sem pensar—sem hesitar—ele se moveu.

A Unidade-04 disparou à frente, com uma velocidade além dos limites de sua compreensão, suas mãos agarrando o cabo da lança a centímetros do olho incandescente da Eva-02. A lança tremeu, rugindo contra ele, uma arma viva tentando, com toda força, perfurar a Unidade-02.

Os propulsores dos pés de Kai explodiram com potência violenta, impulsionando-o para trás com intensidade sobre-humana. Ele gritou com o esforço, cada músculo e nervo queimando de dor. A lança estremeceu, e por fim se aquietou, suspensa a um sopro de Asuka.

O silêncio se esticou, insuportável.

Asuka encarava a ponta da lança, paralisada. Um piscar. Um respiro.

Sua voz estalou no comunicador, baixa mas inconfundivelmente Asuka.

"…Tch."

Um momento se passou.

Então—

Ela riu.

Curta. Seca. Real.

"Droga, Selvinha."

Kai sorriu, o alívio tomando conta dele.

"Para de se exibir," ela rosnou com um sorriso, o fogo voltando por completo à sua voz, "e me ajuda a ACABAR COM ESSES DESGRAÇADOS!"

Com um grito selvagem, Kai ergueu a lança e a partiu com brutalidade sobre o joelho. O metal gritou, se retorceu—e se quebrou. As metades caíram de suas mãos enquanto ele se erguia, um poder infinito pulsando de dentro do seu Eva.

Os Evas da Produção em Massa haviam se reerguido, seus sorrisos insanos fixos para frente, suas formas brancas maculando o campo de batalha destruído como grotescos anjos da morte.

Mas Kai não sentia mais medo.

Sentia apenas certeza.

Os Evas da Produção em Massa podiam lutar para sempre.

Mas agora, ele também.

Capítulo 208: O Fim Começa / Ecos de Ciclos Eternos

Kai sentia apenas poder — bruto, infinito, implacável — pulsando por cada fibra da Unidade-04. O mundo desacelerava em uma clareza cristalina. Cada respiração parecia eterna, cada batimento cardíaco, um pulso sísmico ressoando em seu ser.

Ele respirava, olhos fixos nas monstruosidades regenerando-se diante deles.

A Unidade-02 se flexionava ao seu lado, a armadura escarlate reluzente através do campo de batalha coberto de fumaça. A voz de Asuka ecoava firme pelo comunicador, a bravura ardendo intensa. "Vamos acabar com isso, Selvinha."

Eles avançaram como um só.

Kai se lançou com velocidade estonteante, esmagando o Eva mais próximo com o punho, despedaçando a armadura branca e o lançando à destruição. Asuka girou graciosamente ao redor de outro inimigo, cravando sua faca progressiva profundamente antes de arrancá-la num floreio selvagem e vitorioso.

Mas desta vez, os MPEs reagiram diferente.

As lâminas primitivas e colossais em suas mãos se torceram grotescamente — remodelando-se, solidificando-se em réplicas ominosas da Lança de Longinus.

"Você só pode estar de brincadeira," rosnou Asuka, incrédula.

Kai cerrou os dentes. "Deixa comigo!"

Avançou sem hesitação, arrancando uma lança do MPE em pleno ar. O metal gritou sob sua força antes de ser despedaçada em seus punhos. Ele repetiu o gesto, destruindo lança após lança, o corpo vibrando com adrenalina. Mas cada MPE derrotado se reerguia, os corpos se reconstruindo com eficiência de pesadelo.

Asuka rugiu, a respiração pesada. "Eles não param!"

"A gente dá conta," insistiu Kai, apesar da dúvida que mordia sua voz. Manteve-se firme, ombros arquejantes, energia vibrando à sua volta. "Temos que dar. Até pensarmos em algo."

Então —

O chão explodiu.

Um tremor rachou a terra, pulsando pelo céu. Uma erupção de luz. Uma explosão em forma de cruz. O vento uivava.

Das ruínas do Geofront, uma silhueta colossal emergia, rasgando as nuvens de poeira como um deus libertando-se do submundo. A Unidade-01 ascendia — não lançada, não impulsionada — mas erguida, como se o próprio céu a exigisse.

Sua forma já não era apenas mecânica. Asas de pura energia se desenrolavam das costas. Cortavam as nuvens negras, fraturando o céu com uma espiral que se estendia até o infinito.

Tudo parou.

Os Evas de Produção em Massa pararam de atacar, as cabeças girando em uníssono na direção da divindade ascendente. Os sorrisos maníacos congelados.

A voz de Misato explodiu pelo comunicador, desesperada. "Shinji! Shinji, responde! O que você está fazendo?! SHINJI!"

Nenhuma resposta. Apenas silêncio.

Um silêncio que gelou os ossos de Kai.

Sua voz saiu rouca, incerta. "Ainda bem que ele tá do nosso lado… né?"

A resposta de Asuka foi um sussurro tenso, com medo infiltrando a valentia. "Esse não é ele… não pode ser."

O céu se abriu ao redor da Unidade-01, que continuava a subir — lenta, deliberada, inevitável. Os olhos queimavam com fogo de outro mundo, lançando um brilho aterrador sobre o campo de batalha. O rosto de Shinji surgiu no HUD de Kai — vazio, quebrado, mas resoluto.

Subitamente, os Evas de Produção em Massa alçaram voo, asas grotescas os impulsionando em direção à Unidade-01. Alinharam-se ao redor dela em formação perfeita.

A voz de Misato rachou o ar, dilacerada. "Shinji! POR FAVOR, me responde!"

O grito de Aoba cortou o caos. "Major Katsuragi! Temos outro problema! Uma fonte de energia desconhecida aumentando rapidamente no Dogma Central!"

A voz de Hyuga tremia. "Campo A.T. confirmado! Padrão... Azul!"

Misato perdeu o ar. "Um Anjo? Não pode ser —"

Hyuga a interrompeu, frenético, os olhos arregalados diante do console. "Não é um Anjo — é uma pessoa!"

A Geofront estremeceu violentamente. Um zumbido celestial e ensurdecedor reverberou para cima, ressoando nos ossos e na alma de Kai. E então, ela apareceu — erguendo-se lentamente, serena, impossível.

O gigante branco do Dogma Central. Lilith. Mas… diferente.

Kai não acreditava no que via, mas não havia dúvidas. Aquele rosto. Era Rei.

Sua forma imensa, fantasmagórica e luminosa, erguia-se em direção ao céu. Sua pele branca, de porcelana, brilhava de forma etérea, lisa e sem marcas, exceto pelos contornos delicados e inconfundíveis do rosto de Rei—calmo, inexpressivo, devastadoramente humano. Seus vastos braços estendiam-se para os lados—convidativos. Gentis. E ainda assim, infinitamente distantes. Seus olhos encaravam adiante—vazios, abismos insondáveis de carmim.

Um ser divino e monstruoso.

Diante dela, a Unidade-01 moveu-se, posicionando-se entre os MPEs em formação. Juntos, começaram a formar uma estrutura impossível e aterradora—a Árvore Sephirótica da Vida—cada Eva um nó silencioso de energia profana. Uma imagem que Kai reconheceu do livro da Instrumentalização Humana que Rei havia mostrado. No coração desse ritual grotesco, a Unidade-01 de Shinji Ikari flutuava estática.

Uma voz rompeu o silêncio.

"Não se preocupe, Misato."

A voz de Shinji era calma, gentil, mas com um tom que gelava a alma. Misato congelou, apertando o fone com força, lágrimas enchendo os olhos.

"Logo tudo vai ficar bem."

O coração de Misato se partiu de forma audível em sua voz: "Shinji..."

Kai olhou para o alto, o horror crescendo lenta e implacavelmente.

A figura de Rei/Lilith permanecia impassível, transcendendo o tempo e o espaço. O corpo se expandia por dimensões, imenso demais para compreender. Emocionalmente neutra. Inerte.

Observando.

Kai entendeu, de repente e com dor.

Aquilo já não era mais uma batalha.

Era o fim.

Capítulo 209: O Coração da Instrumentalidade / Sinceramente Meu

A respiração de Kai acelerava, os olhos fixos no espetáculo surreal acima dele. A Unidade-01, radiante e sem limites, pairava cada vez mais próxima da forma titânica de Lilith-Rei, uma deusa nascida de pesadelos. O céu agora rubro pulsava com o ritmo de um mundo agonizante, a realidade se distorcendo ao redor de suas figuras colossais.

Seu coração disparava. Pensamentos surgiam em ondas quebrando contra os penhascos da sua mente.

Será que ele conseguiria?

Energia infinita. Os propulsores de salto. Era imprudente, impossível — mas talvez fosse exatamente o tipo de impossível de que precisava.

Ele lançou um olhar para o rosto de Asuka no monitor. Os olhos dela ardiam com fúria, orgulho, e algo mais profundo, cru e não dito. Um laço forjado em batalhas, em dor, em tudo.

Ele falou, com voz firme, inabalável. "Asuka. Eu TENHO que fazer alguma coisa. E se eu ficar aqui parado sem fazer nada, você mesma vai me matar, não vai? Então... eu vou lá."

Ela prendeu a respiração. Por um instante, a expressão dela suavizou, revelando algo sob a armadura que vestia com tanto orgulho. Então sua voz rasgou os comunicadores, furiosa, trêmula, vulnerável.

"Pode apostar!" gritou, a Unidade-02 segurando a faca progressiva com tanta força que o metal rangeu. "É melhor você não estragar tudo, Selvinha. Ouviu?! Se for até lá — TEM QUE VOLTAR!"

As palavras eram duras, ferozes — mas sob elas havia um apelo desesperado.

"Você tem que voltar."

Kai assentiu, sentindo as palavras dela queimarem dentro de si, alimentando sua determinação. Sabia o que precisava fazer. Suas mãos apertaram os controles, a resolução se cristalizando em um único pensamento.

Voar.

O dispositivo S² rugiu dentro dele, vibrando, implorando por liberação. A Unidade-04 estremeceu com uma onda de poder ilimitado quando Kai canalizou tudo para os propulsores.

Eles acenderam.

Primeiro, em explosões — brilhos ofuscantes — e então, com um rugido ensurdecedor que sacudiu a terra.

O coração de Kai se elevou.

A Unidade-04 rompeu o domínio da gravidade, disparando rumo ao céu em um clarão de luz.

Ele estava voando.

O Geofront diminuía abaixo dele, tornando-se insignificante. Tudo ao redor se desfocava, exceto seu objetivo — o brilho radiante da Unidade-01 e a forma monstruosa de Lilith-Rei.

A voz de Asuka, surpresa e sem fôlego, sussurrou pelos comunicadores.

"...Seu maluco."

Ele sorriu.

E ascendeu.

Rumo a Shinji.

Rumo a Lilith.

Rumo ao destino.

O coração de Kai trovejava em seu peito enquanto subia. Abaixo, o campo de batalha diminuía, o caos desaparecendo em ecos diminutos. Ele ativou os comunicadores, a voz firme apesar da tempestade de adrenalina.

A voz de Aoba explodiu no canal, carregada de pavor. "A Série Eva liberou seus dispositivos S²!"

As mãos de Hyuga voavam sobre o console. Sua voz tremia. "As medições dimensionais estão se invertendo! Os números estão colapsando em valores negativos—impossível fazer... medição numérica!!"

Fuyutsuki se inclinou, fitando os dados impossíveis. "Esse é o anti-campo A.T.?" Sua voz era baixa, amarga. "A destruição do limite da própria alma..."

A voz de Misato cortou os comunicadores, mais afiada do que nunca. "Kai — me escuta! Não temos muito tempo! Isso é exatamente como há quinze anos — mas ainda dá pra impedir o Terceiro Impacto! Ouviu?! Ainda temos uma chance!"

Shinji flutuava estagnado, em transe, derivando impotente em direção a Lilith. A Unidade-01 estava suspensa, cintilando com um poder incompreensível, mas completamente inerte.

A voz de Asuka cortou os pensamentos dele com urgência, ofegante. "Kai — se apressa. O maldito céu tá prestes a desabar!"

O desespero de Misato explodiu, cru e sem filtros. "Se Lilith completar a Instrumentalidade — é irreversível. Você precisa impedir isso AGORA!"

A visão de Kai se aguçou. O coração silenciou, em plena clareza.

Shinji.

Lilith.

Ele sabia exatamente o que fazer.

A energia inundou os propulsores, lançando a Unidade-04 com velocidade absurda. Ele mirou direto para o impacto, canalizando toda a sua vontade em um único golpe decisivo.

Ele socou a Unidade-01.

O impacto explodiu com um estrondo, o Eva-01 sendo arremessada violentamente, girando pelo céu.

A onda de choque do golpe de Kai reverberou pelos céus como um trovão que rachou a própria realidade. O Eva-01 tombou para trás, rompendo a formação ritualística. As linhas luminosas de energia que ligavam a Árvore Sephirótica se romperam uma a uma, desaparecendo em uma cascata de símbolos em colapso.

As Evas da Produção em Massa despencaram do céu como marionetes quebradas, suas asas grotescas se fechando sobre si. Elas atingiram a terra arruinada em uma série de estrondos, se debatendo, convulsionando.

Misato arfou nos comunicadores. "Ele conseguiu... Ele quebrou a formação!"

Kai gritou no canal aberto, a voz rasgada pela fúria. "SHINJI! ACORDA!"

Sem resposta. Eva-01 flutuava, asas ainda radiantes, mas Shinji permanecia imóvel. Congelado. Distante.

"Droga!" Kai rugiu e avançou novamente, os propulsores em chamas.

Seu punho disparou mais uma vez em direção à cabeça do Eva-01—mas foi interrompido. Dedos como grampos de ferro agarraram seu pulso no meio do golpe. O Eva-01 não apenas bloqueou—ele dominou o movimento. Em um gesto rápido, torceu e lançou a Unidade-04 para trás com força esmagadora. Kai girou, estabilizando-se no último segundo.

A voz de Shinji ecoou, suave demais. Quebrada. Resignada. "Eu conversei com ele... com meu pai. Por muito tempo. Ele me mostrou um caminho. Uma opção. Um jeito de consertar tudo. De remodelar o universo."

Kai cuspiu, forçando os propulsores para se recuperar. "Olha ao seu redor, Shinji! ISSO é consertar as coisas?! Olha pro mundo! Olha o que você tá fazendo!"

No chão, as MPEs começaram a se contorcer. Seus membros decepados se recompunham. Seus sorrisos se esticavam ainda mais enquanto começavam a rastejar, asas remendadas se agitando para levantar voo.

Asuka já se movia. "Ah, NÃO MESMO!" rosnou, avançando, faca progressiva em uma mão e o punho cerrado na outra. "VOCÊS VÃO FICAR NO CHÃO!" Sua Unidade-02 colidiu com eles com brutalidade, cortando, esmagando, recusando-se a deixar que se erguessem.

No céu, a batalha era uma tempestade elétrica. Kai e Shinji colidiam — propulsores contra asas, metal contra luz. Campos A.T. se estilhaçavam em seu rastro, cada impacto sacudindo os céus.

A Unidade-04 avançava, socos em arcos brutais. O Eva-01 esquivava-se com graça divina, asas pulsando. Um golpe preciso partiu do punho do Eva-01 — Kai se abaixou, girou, e cravou o joelho na lateral dele, lançando-o. Shinji retaliou, asas de energia se dobrando em lâminas que desceram num golpe — Kai cruzou os braços para bloquear, sendo lançado para trás e segurando com um rugido dos propulsores.

"Shinji! O Gendo MENTIU pra você!" Kai gritou em meio aos desvios. "Esqueceu o que ele fez com o Toji?! Com a Asuka?! Com a Rei?! Você acha que ISSO é salvação?!"

A voz de Shinji tremeu, mas não cedeu. "É a única maneira! Todo mundo... vai ficar bem. Eu posso consertar isso. Vou ver minha mãe de novo. A Rei vai voltar. Todo mundo vai voltar. Vai ser normal. Eu vou arrumar tudo."

A voz de Kai era crua, tremendo entre fúria e tristeza. "NÃO! Você não pode sacrificar o mundo inteiro pela SUA esperança! Pela SUA vontade! Sempre vai haver dor! Faz parte de viver! Você não pode apagar a dor e resetar tudo quando algo dá errado!"

A voz de Shinji escureceu. "HIPÓCRITA! Não mente pra mim, Kai. Se a Asuka tivesse morrido... você ficaria parado, dizendo que deixaria pra lá?!"

As palavras atingiram como uma lâmina. Kai vacilou. Por um segundo.

Silêncio.

Então — uma nova voz. Firme. Real.

"NEM FERRANDO que eu deixaria ele fazer isso!"

Os dois se viraram, atônitos.

Asuka estava sobre os destroços de um MPE, a Unidade-02 brilhando, danificada, mas desafiadora. "Se eu morresse e o Kai me trouxesse de volta sacrificando um universo inteiro... eu NUNCA perdoaria ele."

Ela cravou a lâmina em um MPE caído e ergueu a voz. "A gente tem UMA vida. Uma chance. Às vezes é uma merda. Às vezes dói. Mas às vezes... às vezes é boa pra caralho! Lida com isso. Ninguém devia ter o direito de reescrever a realidade. Nem por mim. Nem por ninguém."

A voz suavizou — só um pouco. "A Rei... merece mais do que ser uma peça nesse joguinho."

Shinji prendeu a respiração. Seu aperto afrouxou. As asas vacilaram.

Kai avançou, voz firme, apontando para cima, para a colossal Lilith-Rei. "Shinji. Olha. Olha pra ela. Ela está ali. Você sabe disso. Se alguém pode alcançá-la... é você."

A voz de Misato surgiu, embargada pela emoção. "Shinji... Por favor. Volta pra gente. Você não está sozinho."

Silêncio.

Shinji tremia. Lágrimas fluíam. A voz se quebrou. "Vocês têm razão... Vocês todos estão certos. Eu... me desculpem."

De repente, toda a Geofront gemeu—o corpo colossal de Lilith-Rei pulsando, se retorcendo. A energia surgia de forma caótica. As linhas Sephiróticas quebradas piscavam perigosamente, ameaçando se reacender. Um zumbido assombroso e trovejante vibrava no ar.

Kai e Shinji se viraram lentamente, ambos encarando o rosto imenso de Lilith-Rei, cujos olhos ocos e carmesins os fitavam vazios.

Kai engoliu seco, apertando os controles.

"...E agora... como a gente para isso?"

Capítulo 210: Tornar-se Um Só / Mas Não Assim

A forma gigante de Rei Ayanami, sua pele pálida brilhando com uma luminescência etérea, pairava sobre o horizonte carmesim — uma divindade esculpida em desespero e transcendência.

Alto acima do Geofront destruído, Kai e Shinji flutuavam em sincronia, ambos suspensos por forças antinaturais. O Eva-01 pairava com suas asas feitas de luz, enquanto os propulsores do Eva-04 explodiam em rajadas instáveis, corrigindo a rota enquanto circundavam a colossal Lilith-Rei. A forma monstruosa distorcia a realidade ao redor, como um pesadelo dobrando o mundo.

Lá embaixo, uma batalha diferente persistia. Asuka — ainda lutando. Ainda viva. Sua Unidade-02 era um borrão escarlate em meio ao mar branco. Faca progressiva em riste, golpeando. Ela era uma tempestade de violência. Mas Kai podia ver agora — ela estava diminuindo o ritmo. Seus movimentos estavam mais precisos, sim, mas mais tensos. Cansados.

Ela não era indestrutível.

Não para sempre.

Kai rangeu os dentes. "Cadê a Ritsuko? Precisamos dos especialistas! Será que alguém consegue me dizer o que diabos está acontecendo?!"

Silêncio.

A voz de Misato ficou mais baixa.

"...A Ritsuko se foi."

O tempo pareceu parar por um segundo.

Misato continuou, agora mais suave.

"Ela confrontou o Gendo. Tentou detê-lo. Mas não conseguiu."

Mas não havia tempo.

A voz de Misato endureceu.

"Não temos tempo pra digerir isso! Você precisa agir!"

Então — a forma gigante se moveu.

A carne dela ondulou, se partiu e se reformou. Outro rosto surgiu do ombro — olhos fechados a princípio, depois se abrindo lentamente com uma gentileza conhecida. Kaworu. Sua expressão era serena, as mãos estendidas com a mesma graça e empatia trágica que definira sua existência.

Eles eram um só.

Dois seres — Rei e Kaworu — fundidos em perfeita harmonia. Uma fusão de Lilith com Adão. Da rejeição e da aceitação. Do amor e da perda. O Fruto da Vida e o Fruto da Sabedoria.

As linhas entre eles se apagavam, seus corpos dobrando-se como uma escultura surreal de transcendência. Kaworu arqueava as costas de maneira antinatural, sustentando o peso da forma fundida enquanto o corpo de Rei permanecia dominante — mas nenhum dos dois se sobrepunha completamente.

As mãos colossais se estenderam — não em violência, mas em convite.

Uma oferta.

Uma escolha.

Tornar-se um só. Abandonar a dor, a identidade, o eu. Dissolver-se num mar de LCL, no útero coletivo da consciência humana, livre da solidão... e livre da existência.

Abaixo deles, o mundo tremia. As nuvens brilhavam como ouro fundido, o oceano refletia sua forma impossível, e cada alma ainda agarrada ao último traço de individualidade sentia o mesmo puxão inevitável.

Era aterrorizante.

Era belo.

Mas também fez a mente de Kai clarear por completo. "Agora sim, com essa cara eu sei exatamente o que fazer."

Os propulsores rugiram. A Unidade-04 disparou. O punho se armou carregado de tudo o que ele era.

BOOM!

O som não foi uma explosão — foi uma ruptura. Uma violação das leis naturais.

Seu punho colidiu em cheio com o rosto de Kaworu. A onda de choque detonou, arrancando um pedaço do queixo de porcelana do gigante.

Mas os pedaços não caíram.

Eles flutuaram de volta. Cintilaram — e se reformaram. A rachadura se selou, a luz recuou. O rosto se reconstruiu como se o golpe fosse apenas uma sugestão, não um ataque.

"Droga," rosnou Kai.

Shinji seguiu. As asas do Eva-01 se abriram. Ele socou o rosto do gigante com força igual — estilhaçando parte do maxilar.

Os pedaços brilharam. Reformaram-se. Inteiros. De novo. Nada ficava.

Kai olhou para baixo — para ela.

A Unidade-02 dançava entre morte e dominação, destruindo os Evas de Produção em Massa com uma ferocidade quase bela. Ela era uma tempestade escarlate, uma fúria viva.

Mais um MPE caiu, garganta cortada, entranhas expostas. Mas eles não permaneciam no chão. Nenhum deles.

E Asuka —

Ela estava ficando mais lenta.

Seus movimentos estavam tensos agora, mais agudos, mas desesperados. Ela se movia como uma leoa ferida que se recusava a deitar.

Sua voz irrompeu os pensamentos de Kai, raivosa sob o cansaço. "Droga — por que vocês NÃO MORREM?!"

A batalha acima também não cessava. Kai atacava. Shinji atacava. A carne se reformava. De novo. E de novo.

A voz de Shinji surgiu, em pânico. "Isso não tá funcionando! Precisamos de um plano!"

A voz de Maya surgiu, frenética. "O campo anti-A.T. da Lilith não está estável! Ela ainda está oscilando entre estados — ainda não se ancorou completamente!"

Misato cortou imediatamente, afiada como uma lâmina. "Isso significa que vocês estão atrasando o processo! Ainda há chance de parar isso!"

A mente de Kai girava. "Espera aí... você tá certa! A gente não precisa matar essa coisa. Só precisa parar ela!"

Uma pausa.

Então — clareza. "A Lança de Longinus original. É a única forma de impedir isso. Não era ela que mantinha a Lilith selada antes?"

Misato não hesitou. "SIM! A Lança manteve a Lilith contida por anos. É a única coisa capaz de conter uma entidade nesse nível! Mas —"

Maya invadiu, em pânico. "Mas ela ainda tá na Lua! Nunca foi recuperada depois que a Rei a usou contra Arael!"

Antes que alguém respondesse —

BOOM!

Uma explosão cortou o canal.

A voz de Aoba irrompeu em pânico. "O cabo umbilical da Unidade-02 foi cortado! Ela está na bateria interna!"

Kai olhou embaixo. "De novo essa porcaria de cabo..."

Lá estava ela.

Asuka.

Ainda lutando. Ainda de pé. Mas agora oscilando. Desesperada. Cansada. Mas, de algum modo, ainda — Asuka.

Ele rangeu os dentes. "Shinji! Agora a pouco você estava em transe, conectado com isso, certo? Distraia ela! Enrole. Faça QUALQUER COISA! Eu sei o que eu tenho que fazer."

A voz de Shinji tremeu. "...Acho que posso tentar. Quando eu tava na formação, parecia... parecia que ela tava na minha mente. Talvez..."

Mas Kai não esperou confirmação. Os propulsores rugiram. A Unidade-04 disparou para baixo.

O HUD de Asuka piscava em vermelho.

"MERDA — NÃO — AGORA NÃO!" A voz de Asuka explodiu nos comunicadores, furiosa, o medo oculto sob a raiva.

Ela golpeava selvagemente. Cortou um MPE. Outro avançou — ela decepou a cabeça com sua lâmina. Mas estava ficando lenta. A maré estava virando contra ela.

A Unidade-04 descia dos céus como um meteoro.

A voz de Asuka ecoou de novo, trêmula mas desafiadora.

"Tch! Um cabo idiota não vai me parar! VEM PRA CIMA! VOU DESTROÇAR TODOS VOCÊS!"

Mas seu fôlego estava pesado.

Seus movimentos, mais longos.

BOOM!

A Unidade-04 não pousou. Ela colidiu com o campo de batalha. A onda de choque achatou o terreno, jogando os MPEs para longe.

Kai avançou, posicionando a Unidade-04 entre Asuka e os monstros brancos. Suas mãos tremiam nos controles.

Ela se endireitou. Voz firme. "Tsc. Eu ainda consigo lutar, Selvinha."

Kai viu, horrorizado, os Evas de Produção em Massa começarem a se mover. Crânios esmagados se recompunham. Membros partidos se uniam. Torsos rachados brilhavam novamente.

"Não," murmurou. "Não temos tempo."

Ele se virou, o coração disparado, para Asuka.

"Você tem que entrar aqui. Comigo," disse Kai, a voz trêmula de urgência. "Se a gente estiver perfeitamente sincronizados... vai funcionar, certo?"

Os olhos de Asuka se arregalaram. "O quê?!"

Sem tempo para explicar. Nem convencer.

Mas ela olhou pra ele — e algo clicou.

O Eva dele não tinha cabo de energia. Nenhum limite externo. Nenhuma contagem regressiva.

Os punhos dela se fecharam. "Tsc. Isso é loucura. Isso é TÃO idiota."

Ela se moveu. A Unidade-02 avançou como uma besta ferida fazendo seu último ataque. Cada movimento gritava dor metálica. Mas Asuka não ligava. Ela sabia o que viria.

Os Evas brancos avançaram junto, saltando para interceptar. Predadores.

Kai abriu o plug da Unidade-04, prendendo a respiração.

E antes de saltar — Asuka sussurrou, tão baixo que mal se ouvia.

"Auf Wiedersehen, Mama. Du kannst dich jetzt ausruhen, mir wird es gut gehen."

Seu plug de entrada ejetou, cortando o ar como a última bala de prata em um mundo moribundo.

"ME PEGA, Selvinha!"

A mão de Kai se fechou.

CLAMP.

Ela era dele.

Asuka pousou ao lado dele, com força. A Unidade-04 recolheu o plug, puxando-o para o núcleo. O LCL ondulou. O corpo dela colou ao dele na cabine apertada. As mãos dela encontraram os controles — dedos sobre os dele, nós dos dedos se tocando. Apertaram juntos.

Lá fora — os MPEs se lançaram sobre a Unidade-02 como abutres. A devoraram. Arrancando placas. Escavando as entranhas. Destroçando-a. Rasgando-a como animais selvagens.

Foi horrível. Chocante. Final.

Asuka assistia, maxilar travado, tremendo — mas sem desviar os olhos.

Kai olhou pra ela. Pra garota ofegante ao seu lado.

O cabelo dela flutuava no LCL como fogo. As mãos pressionadas nas dele. As pernas enroscadas nas dele no espaço apertado. Seus olhos se encontraram.

Ela engoliu em seco. "É bom que isso funcione, idiota."

Ela estava ali. Bem na frente dele.

O Eva respondeu como se estivesse esperando. Não sussurrou — rugiu.

A taxa de sincronização disparou — acima de qualquer valor que já haviam alcançado sozinhos.

Eles não lutaram pelo controle. Sem esforço. Sem concessão.

Suas mentes se fundiram. Padrões se conectaram. Feridas se reconheceram.

Ele olhou pra Asuka — tão perto que podia sentir seu calor, mesmo no LCL — e sorriu.

"Então, esquentadinha," disse, um sorriso no canto da boca. "Que tal um encontro na Lua?"

Os olhos dela se arregalaram.

Ela bufou. Um sopro curto. Metade riso. Metade desafio.

"Tch! Você é INACREDITÁVEL!"

Uma breve pausa, depois:

"Mas, é... Me leva pra Lua, Selvinha!"

BOOM!

Os propulsores rugiram.

A Unidade-04 ascendeu — como um cometa prateado disparado da Terra.

Rumo à Lua.

Capítulo 211: A Lança do Destino / O Que Restará

O campo de batalha ficou para trás.

Tokyo-3 desapareceu abaixo deles, uma mancha de luz e ruína que se dissolvia no horizonte. Os Evas de Produção em Massa encolheram até se tornarem pequenos vultos brancos, sombras trêmulas contra a Terra fraturada. Até seus sorrisos grotescos se perderam na névoa da distância.

O céu começava a se rasgar.

O corpo de Rei/Kaworu se expandia, já não contido por forma ou escala. Sua silhueta sangrava pelo horizonte como um buraco aberto na realidade — uma ferida impossível, devorando nuvens, luz e tempo. O espaço se distorcia. A física se revoltava.

Mas a Unidade-04 não parava.

Ela subia.

Mais rápido. Mais alto.

O planeta encolhia abaixo deles, nuvens se afastando como vapor sobre o vidro. Eles ultrapassaram a estratosfera. Depois, a atmosfera. A última camada entre a humanidade e o vazio.

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Kai e Asuka estavam agora sem peso.

As mãos de Asuka ainda envolviam as dele, segurando os controles com precisão feroz — não guiando, não resistindo, mas com ele. Seus cabelos ruivos flutuavam pelo LCL âmbar. Seus olhos, iluminados pelo espanto, alternavam entre o brilho da Terra e a escuridão diante deles.

Então sua voz, em um sussurro surpreso, cortou os comunicadores.

"...Não tô acreditando que a gente tá mesmo fazendo isso."

À frente, a Lua se agigantava, sua superfície acinzentada e repleta de crateras. Kai podia ver agora — enterrada entre a poeira e os sulcos além do Mare Tranquillitatis, o brilho espiralado da Lança de Longinus.

Sua última esperança.

A voz de Misato irrompeu no canal, ofegante e urgente. "Kai! Asuka! Vocês já estão em órbita baixa! Se forem atrás da Lança — têm que se apressar! Não sabemos quanto tempo resta antes que a Lilith desestabilize a realidade por completo!"

Então Shinji — sua voz tensa, esforçada — apareceu nos comunicadores. "Kai — eu tô tentando, mas... não sei quanto tempo mais consigo —"

CLANK.

Um ruído mecânico rasgou o céu.

Os Evas de Produção em Massa avançaram como um só — marionetes quebradas e sorridentes — e suas bocas escancaradas morderam as asas do Eva-01. O metal gritou. A luz se fragmentou. As asas se dobraram sob a pressão impossível.

"NÃO —!" A voz de Shinji explodiu nos comunicadores.

Os MPEs arrastavam o Eva-01 para trás, asas batendo, empurrando-a de volta ao alinhamento da Árvore Sephirótica.

As linhas incandescentes do ritual reacenderam, feixes de luz carmesim espiralando, costurando novamente a formação.

No Comando Central, o caos se instaurava.

"Picos massivos de energia!" A voz de Hyuga tremia, dedos dançando pelos teclados. "Todos os gráficos explodindo — nunca vi nada assim!"

"A Série Eva —" Aoba cortou, com a voz afiada como aço. "Estão liberando os dispositivos S² de novo! Potência reversa total!"

"É o campo anti-A.T.!" Maya gritou, pálida. "O colapso tá acelerando — a Barreira do Ego tá se desfazendo!"

As telas explodiam em vermelho. Alertas em cascata. Gráficos se distorcendo. As ondas dimensionais se invertiam.

Aoba socou o console. "O Shinji tá resistindo — mas tá sendo puxado! O ego dele tá se dissolvendo!"

"AaaAAAHH—!!" O grito de Shinji rasgou os comunicadores — cru, quebrado — o som de uma alma tentando não se desintegrar.

Sua voz se fragmentou em estática, depois voltou como um grito, lutando contra algo que nenhuma mente humana deveria enfrentar.

Misato irrompeu de novo, cortando o pânico com precisão. "Vocês tão quase lá! Kai, me escuta! A Lança de Longinus ainda tá cravada perto de Mare Tranquillitatis — logo depois do local de pouso da Apollo! Coordenadas estão sendo enviadas AGORA!"

Sua voz tremia sob a firmeza — mas se mantinha.

"VÃO!"

O HUD acendeu. Marcadores vermelhos piscaram no mapa. E ali — dentro de uma cratera estreita — algo brilhava. Espiralava. Silencioso. À espera.

A Lança.

ALERTA!

Os sensores gritaram.

Um pulso irrompeu da Lança. Invisível — mas palpável. Lentamente, a Lança começou a se mover sozinha, como se tentasse voltar à Terra.

A voz de Misato explodiu, incrédula. "Vocês têm que ser RÁPIDOS! Peguem ela AGORA!!!"

Sem hesitar.

Avançaram.

Rumo à Lança.

Rumo à última, impossível esperança.

Eles se concentraram.

Eles agarraram a Lança.

A cabine se encheu de luz, o LCL reluzindo como um líquido de estrelas. Suas respirações estavam sincronizadas. Seus corações batiam num mesmo ritmo. Não havia mais espaço entre eles, nem fronteiras. A taxa de sincronização na tela disparou, ultrapassando todos os limites teóricos.

Não era só sincronização.

Era fusão.

União.

Kai e Asuka.

Unidade-04.

Juntos.

O plug tremeu quando seu Campo A.T. explodiu — não como escudo, não como muralha, mas como lâmina. Um espinho de pura vontade humana irrompeu ao redor, estilhaçando a pressão invisível que tentava afastar a Lança. A luz explodiu em todas as direções. O espaço se entortou. A gravidade fugiu.

E a Lança de Longinus estremeceu.

Os dedos da Unidade-04 se fecharam sobre o eixo espiralado. Ela pulsava — violenta, elétrica, divina. Faíscas saltavam por sua superfície enquanto o Eva puxava, o metal rangendo, a crosta lunar se rompendo sob o esforço.

Ela reagia. Estabilizava nas mãos deles.

Um artefato dos deuses. Uma ferramenta do apocalipse.

Uma arma arrancada do túmulo por dois pilotos que se recusavam a morrer.

Dentro da cabine, as mãos de Kai se firmavam. Asuka se apoiava ao lado, o corpo inteiro tremendo de esforço — mas não de fraqueza. Nunca de fraqueza.

A voz de Misato rompeu o rádio, incrédula. "ELES CONSEGUIRAM! ELES PEGARAM A LANÇA!"

O olhar de Kai se voltou para cima.

A Terra.

Lilith.

Uma monstruosidade divina se desenrolando pelo céu. Seu corpo se estendia pela atmosfera, membros como fitas de luz, uma deusa triste coberta de pele fantasma. E ela estava estendendo as mãos.

Não para o mundo.

Para Shinji.

Para o Eva-01.

Era isso.

O momento final.

E ele segurava a chave.

A Lança que uma vez atravessou Arael.

Agora estava em suas mãos.

Agora poderia acabar com tudo.

Kai e Asuka inclinaram-se à frente, ajustaram a Lança na posição de lançamento, respiração firme, olhos fixos no alvo acima.

Trocaram um último olhar.

Sem hesitação.

Sem medo.

Só fogo.

Ela assentiu com um leve movimento de cabeça.

Ele respondeu da mesma forma.

Moveram-se como um só.

A Unidade-04 recuou, a Lança brilhando ainda mais — queimando, reluzindo. Ela pulsava com algo antigo e terrível. Uma força além da compreensão humana. Mas agora, era deles.

Eles a lançaram.

Os braços da Unidade-04 avançaram com força.

A Lança partiu de suas mãos.

Um espiral de prata e carmesim, cortando o vazio como um deus atravessando o universo.

Rumo à Terra.

Rumo à Lilith.

Rumo ao fim de tudo.

A Lança de Longinus rasgava o vácuo do espaço, uma trilha de luz carmesim descendo em velocidade impossível.

A força do arremesso sacudiu os céus.

Ela atravessou a atmosfera superior, incendiando o céu — um cometa flamejante de intenção divina.

Da Lua, Kai e Asuka observavam.

O silêncio era total. Sem vento. Sem explosões. Apenas quietude. E imensos clarões de luz.

Mas dentro daquele silêncio — eles sentiram.

A pressão de algo imenso se desenrolando.

Asuka se inclinou para frente no plug, as mãos relaxadas nos controles. Sua voz era suave.

"...A gente acabou de jogar uma lança espacial gigante contra uma deusa?"

Ela olhou para Kai.

"...Porque isso foi bem metal."

Ele não tirou os olhos da Terra. Apenas sorriu e disse:

"É... rock'n'roll."

Asuka bufou, revirando os olhos. "Tsc. Nerd."

Eles viram o mundo se contorcer, como se estivesse se encolhendo de dor. Uma onda de energia vermelha e branca inundava a estratosfera, rasgando as nuvens, curvando a própria Terra.

Outro pulso de luz.

Cegante.

Eterno.

A pergunta já não era mais o que seria destruído.

Mas o que restará.

Capítulo 212: Só Mais um Pouco / Nós (não) Estamos Sozinhos

A Terra pairava acima deles, transformada.

Envolta em uma luz silenciosa, já não parecia o planeta moribundo que haviam deixado para trás. Os ventos furiosos haviam cessado. Os céus não sangravam mais. A tempestade divina passara, deixando apenas a quietude.

Dentro da Unidade-04, Kai estava com Asuka, o silêncio do espaço pressionando o plug de entrada como um vácuo. O LCL mal se mexia entre eles.

"Pelo menos... a vista é legal, né?" ele disse.

Asuka se recostou levemente nele, os braços cruzados, o olhar fixo na esfera azul e branca acima deles. A Terra reluzia, presa numa estranha dança entre renascimento e consequência.

Ela exalou. Não porque tudo tinha acabado, mas porque, pela primeira vez, o peso não estava só sobre os ombros dela.

Ela não estava mais sozinha.

Ela virou o rosto em direção a ele.

E sorriu.

"...É. Não é ruim."

Kai não respondeu. Apenas a observou por um segundo a mais do que precisava. Então ambos voltaram a encarar a Terra e o mar infinito de estrelas acima deles, em silêncio.

O planeta brilhava mais. Estava mudando — seus contornos se dobrando, o céu se reformando de um jeito que desafiava qualquer explicação. Algo estava acontecendo.

Parecia que só restavam os dois, suspensos no silêncio, envoltos pelo luar, assistindo a algo que nenhum deles compreendia por completo.

A Terra permanecia quieta além deles, envolta no brilho do que parecia ser uma salvação.

O silêncio entre eles não era desconfortável. Nem tenso.

Era paz.

Ele a olhou. De verdade. O jeito como o cabelo dela flutuava como seda no ar sem gravidade, captando fragmentos de luz. O modo como os olhos dela — bem abertos agora, totalmente presentes — não mostravam mais confusão. Apenas clareza.

Ele quebrou o silêncio com a voz suave. "...Então... acho que temos que voltar agora, né?"

Mas mesmo enquanto falava, não tirava os olhos dela. Não se movia. Havia algo dentro dele, apertado e doído, que só queria ficar ali.

Segurar aquele momento.

Deixar ele respirar.

Asuka sustentou o olhar, a expressão indecifrável por um instante.

Então os olhos dela suavizaram.

Ela exalou, recostando-se só um pouco enquanto olhava para as estrelas. O vasto nada ao redor, infinito e silencioso.

"...Tsc." Ela bufou de leve. "Acho que sim."

Mas ela não se mexeu.

E ele também não.

Então ficaram ali.

Sentados na Lua. Acima de um mundo ferido, mas curado. Sem alarmes. Sem caos. Sem monstros.

Só os dois.

Juntos.

Depois de tudo.

Depois de todo o inferno que passaram.

Apesar da imensidão impressionante do espaço acima deles, Kai mantinha os olhos nela. No contorno tranquilo dos lábios dela. A serenidade dos ombros. O jeito como as mãos repousavam suavemente sobre os controles — mas não tentavam usá-los.

Ele mal podia acreditar.

Ela estava ali.

Viva.

Desperta.

Presente.

Ele engoliu seco, sentindo algo prender na garganta. Então sussurrou:

"...Ainda não."

Ela não discutiu.

Não revirou os olhos.

Apenas assentiu. Quase imperceptivelmente.

"...Só mais um pouco," murmurou.

Eles ficaram assim.

Flutuando no silêncio.

Juntos.

Kai não sabia quanto tempo se passou até que falasse de novo. Talvez segundos. Talvez horas. O tempo já não funcionava do mesmo jeito.

Ele ainda a observava, o jeito como o cabelo emoldurava o rosto dela. Os lábios, entreabertos. O olhar, lançado para as estrelas, mas sem realmente vê-las.

Então ela se virou completamente para ele, flutuando em gravidade quase zero.

E não recuou.

Ela deixou que ele a visse.

Toda ela.

"...E agora, Selvinha?" ela perguntou.

Não era um desafio.

Nem provocação.

Era... um convite.

O coração de Kai martelava.

Ele a encarou, o peito doendo de um jeito que não tinha nada a ver com cansaço ou batalha.

Ele se afastou lentamente do assento.

E flutuou até ela.

Asuka não se mexeu.

Não o impediu.

Apenas o observava, olhos grandes e quietos, a respiração falhando só um pouco.

Ele se aproximou, centímetro por centímetro, o silêncio entre eles ensurdecedor. Palavras não ditas preenchiam o espaço como ar. E, pela primeira vez — não havia barreiras.

Nem provocações.

Nem gritos.

Nem medo.

Só aquilo.

Só eles.

As testas quase se tocaram.

A respiração dela falhou.

Os lábios se entreabriram.

E então —

Eles se beijaram.

O beijo começou suave. Gentil. Como se ambos tivessem medo de quebrar algo frágil. Então, as mãos dela subiram, devagar, quase instintivamente. Pairaram entre os dois.

Ela o puxou.

Só um pouco.

Como se estivesse esperando por aquilo.

O mundo desapareceu.

A guerra.

A dor.

Tudo.

Tudo se dissolveu naquele beijo.

Calor, mesmo na escuridão congelada do espaço.

O tempo parou.

E, pela primeira vez desde que tudo desmoronou, Kai se sentiu inteiro.

Ela se moveu, aprofundando o beijo.

E, por um momento, aquilo foi tudo.

Então — finalmente — ela se afastou.

Apenas um centímetro.

A respiração vinha entrecortada. O rosto corado de um jeito que não tinha nada a ver com gravidade zero.

Ela o encarava, lábios entreabertos, como se nem acreditasse no que tinha acabado de acontecer.

Mas não o soltou.

Os dedos ainda agarravam o traje dele.

Ainda seguravam.

E então, sem aviso, a mão dela se moveu.

Encostou no pulso dele.

A mão se moveu novamente — devagar, deliberadamente.

Ela retirou o bracelete do próprio pulso.

O acessório de metal escuro flutuou entre eles, suspenso.

Ela a encarou.

Depois olhou para ele.

Os olhos estavam firmes. Indecifráveis. Intensos.

E então, com uma voz tão suave que mal chegou até ele, ela murmurou:

"...Idiota."

E alcançou o pulso dele.

Prendeu o bracelete de volta onde ele pertencia.

Os dedos dela demoraram um segundo a mais do que o necessário.

Então soltou.

Kai a encarava.

O bracelete.

Ela.

Tudo aquilo.

A promessa.

A espera.

A esperança.

Ela tinha voltado.

Por escolha própria.

E agora, ela estava ali.

Com ele.

De verdade.

A luz se suavizou.

E a Terra... repousou.

Ainda lá.

Kai se recostou um pouco, sem saber se estava respirando. A respiração de Asuka vinha devagar ao lado dele, deliberada. Ela não disse nada. E ele também não.

Apenas observaram.

Um estalo fraco no comunicador.

"...Kai...?"

A voz era fraca.

Mas era dela.

Misato.

Viva.

Ele sentiu Asuka se endireitar, prendendo a respiração. Kai nem percebeu que também estava prendendo a dele até então.

"...Espera."

Ele se virou para os comunicadores.

"Vocês estavam assistindo... tudo?"

Uma longa pausa se estendeu nos comunicadores.

"Ah, pode ter certeza que estávamos!" disse Misato, absolutamente sem arrependimentos.

Os olhos de Kai se arregalaram de horror.

A voz de Aoba veio logo depois, debochada e satisfeita. "Alto e claro, pombinhos."

Hyuga entrou na conversa, rindo demais. "Cara, isso foi energia total de comédia romântica. Beijo no espaço? Devolução simbólica do bracelete? Na Lua?!"

Maya, aflita: "E-eu... tecnicamente era um canal aberto, então..."

Kai não teve tempo de responder.

Porque Asuka enrijeceu.

O corpo inteiro ficou tenso.

A cabeça virou para ele como um míssil travando no alvo.

O rosto dela ficou vermelho como brasa.

"...VOCÊ DEIXOU OS COMUNICADORES LIGADOS?!"

"Espera—eu—" Kai começou, olhos arregalados.

Mas já era tarde demais.

Ela pulou nele.

A gravidade próxima de zero só piorou. O cabelo dela explodiu ao redor como fogo, os braços se enrolando no pescoço dele — não de forma carinhosa.

"SEU MALDITO IDIOTA, EU JURO POR DEUS —!"

A Unidade-04 se debatia desajeitadamente sobre a superfície lunar, o sistema de estabilização externo lutando para manter o equilíbrio enquanto, dentro do plug, Asuka tentava estrangulá-lo.

Misato, entre gargalhadas: "AI MEU DEUS, ELE TÁ MORTO. ELE TÁ TÃO MORTO."

Makoto: "Pra ser justo, foi bem romântico —"

Aoba, nada prestativo: "Descanse em paz, Kai."

Maya: "E-eu posso fingir que não ouvi nada!"

Kai se debatia, tentando se defender. "Mas ninguém disse nada! Seus desgraçados! Misato!"

Misato mal conseguia falar. "AH, VAI, KAI! O QUE VOCÊ ACHAVA QUE IA ACONTECER?!"

Makoto: "A gente não ia interromper aquilo! Foi tipo, o ápice do romance cinematográfico!"

Aoba: "É, cara, a gente tava torcendo por você! Achei que ia amarelar. Ainda bem que não!"

Maya, tentando soar profissional e falhando: "A gente tava só monitorando a taxa de sincronização... Só isso!"

Asuka não ouvia nada disso.

Ainda tentava matar ele.

"VOCÊ. É. UM. IDIOTA. IGUAZU!"

Kai mal impediu que ela chutasse os controles.

Misato, com um falso choque: "Asuka, por favor! Não mata seu namorado antes de voltar pra Terra!"

Asuka congelou.

Olhos arregalados.

Rosto mais vermelho que Marte.

"...O. QUE. VOCÊ. DISSE?!"

Misato, claramente se divertindo muito: "O quê? Só tô dizendo o que todo mundo viu!"

Asuka se virou para Misato, fumegando. A voz dela virou um rosnado baixo.

"Você. é. a. PIOR."

Eles ligaram os propulsores.

E a Unidade-04 iniciou a descida.

De volta para casa.

Capítulo 213: Além do Horizonte / Cuidem Uns dos Outros

A descida pela atmosfera foi silenciosa.

A Unidade-04 cortava o céu como uma fênix prateada, sua armadura metálica incandescente pelo calor, tremores suaves percorrendo o plug. Os olhos de Kai estavam fixos no mundo abaixo, não nas montanhas, nem nas cidades, nem mesmo nos vestígios do campo de batalha.

Mas na gigante branca caída.

Lilith.

O que restava dela.

O corpo outrora divino já não alcançava os céus. Já não lançava luz pelas nuvens. A Lança de Longinus estava cravada profundamente em seu peito, prendendo-a como um titã derrotado, sua forma desabada no solo. Já não se parecia como a Rei.

Os Evas de Produção em Massa jaziam espalhados pelo campo arrasado, retorcidos e imóveis. Secos, como se seus corpos tivessem sido drenados. Seus sorrisos doentios congelados na morte. Sua monstruosa regeneração, encerrada.

Sem ressurreição.

Sem renascimento.

Apenas silêncio.

O céu cicatrizava. Devagar. Suavemente. Mas indiscutivelmente.

Não completamente.

Ainda não.

Mas o suficiente.

As nuvens vermelhas se dissipavam, substituídas por algo mais próximo do azul. A superfície da Terra reluzia em transformação, novas cicatrizes, sim, mas também uma nova luz.

E ali, no centro de tudo, ajoelhava-se a Unidade-01.

Imóvel.

As palmas abertas, e erguidas com delicadeza.

Com cuidado.

Com proteção.

Kai prendeu a respiração.

A voz de Shinji soou pelos comunicadores. Fraca. Exausta. Mas firme.

"Kai... eu consegui. Eu peguei ela."

A Unidade-04 tocou o solo, sua estrutura titânica levantando poeira no Geofront arruinado. Dentro do plug de entrada, Kai e Asuka encaravam o que a Unidade-01 segurava.

Rei.

Não Lilith.

Não a deusa.

Apenas Rei.

Pequena. Pálida. Humana.

Ela estava encolhida nas mãos de Shinji, nua como um recém-nascido, como algo frágil e sagrado. Seus olhos vermelhos estavam abertos, semi cerrados. Sonhadores. Vivos.

Como alguém despertando de um pesadelo.

Dentro da Unidade-01, Shinji a aproximava do peito.

Ela piscou para ele. Sua respiração era fraca. Sua voz, mais suave do que qualquer coisa que Kai já ouvira.

"...Shinji."

Ele tremia.

"Eu tô aqui," ele sussurrou.

Rei assentiu.

E então, pela primeira vez que Kai já vira —

Ela sorriu.

Em algum lugar nas profundezas quebradas do que já foi a NERV, Misato permanecia de pé entre os escombros. O uniforme estava rasgado, o corpo machucado, mas ela estava de pé.

E ela os via. A todos eles.

Seus olhos se encheram, mas ela não chorou. Ainda não.

Ela se apoiou em um console rachado, finalmente permitindo que o corpo sentisse tudo que havia suportado.

Mas seus lábios se curvaram num sorriso.

"...Pirralhos."

Kai também sorria.

Não porque tudo tinha acabado.

Mas porque algo mais profundo se assentava em seu peito. Algo que demorou demais para ser dito em voz alta.

Ele olhava para o horizonte, para a luz do sol atravessando nuvens que não sangravam mais.

Ele sabia quem era.

Ele não era deste mundo. Nunca fez parte da profecia da SEELE. Era um fantasma, uma sombra de outra realidade. Mas este mundo, este lugar, essas pessoas? Agora eram dele.

Ele escolheu isso.

Ele lutou por isso.

E eles o escolheram de volta.

Ele olhou para Asuka.

Ela olhou para ele.

E pela primeira vez desde que caiu nesta realidade impossível, Kai soube.

Ele pertencia.

Aqui.

Com eles.

E o que quer que viesse a seguir —

Eles não enfrentariam sozinhos.

A batalha havia terminado.

Os deuses se foram.

E a humanidade, quebrada e ferida, estava diante de algo novo.

Não o fim.

Nem mesmo um recomeço.

Apenas uma chance, uma nova esperança para um amanhã mais brilhante.