Evangelion: Shattered Thresholds

7 Episódio 7: Sussurros e Sentimentos


Capítulo 53: Provocações / A Arte de Não Ser Pego

Kai passou metade da noite pensando e planejando o que fazer no próximo encontro. Depois de espremer o cérebro por horas, finalmente teve uma ideia. Seria perfeito. Faltava apenas um detalhe — mas isso podia esperar. Pela primeira vez, sua mente não estava tomada por preocupações, e o cansaço dos últimos dias finalmente o alcançou. Ele adormeceu com um pequeno e satisfeito sorriso nos lábios.

A manhã chegou rápido demais.

Seu celular vibrou, tirando-o do sono. Ainda meio dormindo, ele esticou o braço e olhou para a tela, piscando contra o brilho.

Uma mensagem de Asuka:

"Bom dia, dorminhoco. Espero que esteja pronto pra ser humilhado hoje. 😏"

Isso fez um sorriso surgir em seu rosto instantaneamente. Ele respondeu:

"Bom dia, Asuka! Acordando cedo? Ansiosa pra apanhar, né? Porque eu dormi como um anjo! 😴"

Ele praticamente podia ouvir a voz dela na cabeça, já provocando, já mais próxima do que qualquer outra pessoa jamais esteve.

Ele sabia que ela estava empolgada pra rivalidade do teste de sincronização — mesmo que nenhum teste tivesse sido confirmado ainda. A NERV não disse nada, mas Asuka estava tratando o dia como um campo de batalha de qualquer forma.

Quase instantaneamente, ela respondeu:

"Hah! Continua sonhando, novato. Espero que tenha aproveitado seu último dia de paz, porque hoje você vai cair. Até logo."

Kai sorriu.

Levantou-se da cama, se espreguiçou e olhou pela janela. Muita coisa tinha acontecido desde que chegou a Tokyo-3 — lutou contra Anjos, fez amigos, conheceu Asuka — mas ele ainda não sabia a verdade por trás de tudo disso. Os Evas, os Anjos, nem mesmo por que estava ali de verdade.

Mas, curiosamente... ele não sentia vontade de saber. Não agora. Era como se saber demais fosse quebrar a calma frágil que ele havia construído. Felicidade, ele sabia bem, podia ser destruída num instante.

Preparou ovos mexidos e ficou esperando um chamado da Misato. Se não chegasse, seria escola. Asuka parecia convencida de que haveria um teste de sincronização, mas ele não tinha tanta certeza. Talvez a NERV simplesmente não conseguisse mais surpreendê-la depois de tanto tempo. De qualquer forma, ele meio que esperava que ela estivesse certa.

Caminhando até a escola, continuava checando o celular. Nada da Misato. Pelo visto, seria aula mesmo.

O som típico da manhã escolar o cercava quando entrou no pátio. Ele procurou pelo lugar, já esperando encontrar um certo brilho vermelho.

Lá estava ela — encostada casualmente na parede perto da entrada, braços cruzados. Ela o viu, não acenou, não chamou. Apenas sorriu de canto, esperando que ele fosse até ela.

Kai sorriu e se aproximou.

"Oi! Tava me esperando, é isso?"

Ela revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o leve rubor que surgiu em seu rosto.

"Tsc. Sonha, Kai."

Ainda assim, havia uma suavidade na voz dela. Ela se afastou da parede, endireitando a postura, e inclinou a cabeça enquanto o analisava.

"E então? Pronto pra ter sua pontuação de sincronização esmagada hoje?"

O sorriso dela se alargou enquanto se virava na direção do prédio, esperando que ele a acompanhasse.

Kai retribuiu o sorriso. "Prontíssimo! Digo… pronto pra te enterrar com minhas habilidades de sincronização!"

Olhou de novo pro celular. Ainda nada da NERV. Suspirou.

"Por que é que quando eu quero que a NERV ligue, eles somem?!"

Asuka bufou. "Hah! Olha só, desesperado pra levar uma surra."

Ela batucava o pé com impaciência. "Típico. A única vez que a gente realmente quer um teste de sincronização, eles demoram uma eternidade."

Ela olhou para a entrada da escola, depois de volta para ele, os olhos semicerrados.

"Se eles não ligarem logo, vamos ficar presos na aula o dia inteiro. A não ser que..."

O sorriso dela mudou — agora mais travesso — enquanto se aproximava um pouco mais.

"A gente crie a nossa própria diversão."

Kai arqueou a sobrancelha. "Tô gostando do seu jeito de pensar."

Asuka jogou o cabelo sobre o ombro. "Claro que tá. Eu sou um gênio."

Ela olhou em volta, procurando qualquer sinal de professor, e então se inclinou como se estivesse revelando segredos de estado.

"Beleza, escuta só. Se a Misato não ligar até o intervalo, a gente vaza. Vamos fazer algo realmente interessante. Um desafio de verdade, já que eu sei que esmagaria você num teste de sincronização mesmo."

Os olhos dela brilhavam.

"E aí, tá dentro? Ou vai ser um aluno certinho?"

Kai riu. "Faltar aula no meu segundo dia? Caramba, você é uma péssima influência."

Coçou o queixo, fingindo pensar seriamente.

"É CLARO que tô dentro!!! Eu nem entendo metade do que os professores dizem mesmo! Gramática japonesa é difícil!"

Asuka riu, dando uma leve ombrada nele. "Viu? Sabia que você não era um caso totalmente perdido."

Eles entraram e seguiram para a sala.

"Certo," ela disse, cruzando os braços. "A gente espera até o intervalo. Se a Misato não ligar, tchau aula. Mas já vou avisando — isso tem que ser divertido. Se eu ficar entediada, a culpa é toda sua."

Ela lançou um olhar meio ameaçador, meio provocador.

"E tenta não parecer muito suspeito até lá, tá?"

Kai sorriu. "Pode deixar!!!"

Ele estava realmente animado com aquilo.

"Mas pra onde a gente vai? Já fomos no fliperama, no karaokê, no parque…"

Asuka tocou o queixo dramaticamente.

"Hmmmm… boa pergunta. Ah! Já sei!"

Ela se iluminou.

"Tem um lugar perto do distrito comercial — tipo um jardim no topo de um prédio. É tranquilo. Quase ninguém vai lá. Tem uma vista legal e, o melhor de tudo..."

Ela se inclinou como se fosse confidenciar um segredo de estado.

"Nenhum adulto chato pra dizer o que a gente pode ou não fazer."

O jeito como ela disse isso, como se a liberdade fosse um jogo que podiam vencer juntos — aquilo acendeu algo quente no peito dele. Estar com ela era como escapar da gravidade.

Ela se endireitou com um sorriso de canto. "E então? Acha que aguenta um pouco de paz e silêncio comigo?"

Kai sorriu. "Você? Querendo paz e silêncio? Essa é nova! Aposto que vai me desafiar a pular do prédio ou algo assim. Mas tô dentro!!!"

Asuka sorriu. "Hah! Veremos. Primeiro, vamos sobreviver à manhã sem levantar suspeitas."

Agora, Kai esperava que Misato não ligasse.

Porque, se ela não ligasse, aquilo ia ser ainda mais divertido.

Capítulo 54: Alarmes Falsos / Sinais Não Ditos

Quando Kai e Asuka entraram na sala, ele sorriu de lado. "Tô curioso pra ver como você vai tirar a gente daqui no intervalo sem a Hikari perceber."

Asuka bufou, cruzando os braços com confiança. "Tsc, tsc, você me subestima, Kai. Eu passo pelo radar da Hikari desde o primeiro dia. Já tenho tudo planejado."

Ela se inclinou, voz baixa e conspiratória. "Primeiro, a gente sai separado. Vou dizer pra Hikari que tenho um `assunto muito importante do conselho estudantil' pra resolver, e você... bem, você dá o seu jeito."

Ela cutucou o peito dele levemente, provocando. "Acha que consegue ou vou ter que segurar sua mão o caminho todo?"

Kai sorriu. "Não me provoca..."

Asuka sorriu, claramente se divertindo. "Ah, mas provocar você é metade da graça!"

Ela se encostou na própria carteira, braços cruzados, cabeça inclinada enquanto observava a sala como se fosse um tabuleiro de xadrez. "Tá bom, tá bom, vou ser boazinha... por enquanto. Só não vacila e acaba sendo pego, tá? Não quero ouvir sermão da Hikari sobre `responsabilidade' pelas próximas duas semanas."

Seus olhos se voltaram para o relógio. "Quando o intervalo começar, espera dois minutos e sai discretamente. Te encontro no portão dos fundos. Entendido?"

Kai assentiu com firmeza. "Entendido."

Foi até sua carteira, avistando Shinji, Toji e Kensuke. "E aí, beleza? Como é que tá?"

Shinji assentiu sonolento. "Bom dia. Nada demais. Só mais um dia."

Kensuke sorriu, ajustando os óculos. "É, nada demais por enquanto. Mas conhecendo vocês três, alguma coisa maluca vai acontecer."

Toji riu, dando uma cotovelada nele. "Quer dizer conhecendo a Asuka. Aposto que ela já tá arrastando o Kai pra algum plano doido."

Kensuke se inclinou à frente, olhos brilhando. "E aí... tem alguma coisa que a gente deva saber?"

Kai manteve a cara mais neutra possível. "Não. Não estamos planejando nada. Nada mesmo."

Pra reforçar a inocência, encarou reto pra frente, como se estivesse hiperfocado — em absolutamente nada.

Toji e Kensuke trocaram olhares céticos. Kensuke ergueu a sobrancelha. "Aham. Se você estivesse mais suspeito, estaria segurando uma placa dizendo `Com certeza estou aprontando alguma coisa'."

Toji se inclinou. "Só garante que não seja algo que vai fazer a Hikari pegar você. A garota tem olhos em todo lugar, cara."

Quando Kai ia responder, uma presença silenciosa próxima chamou sua atenção.

Rei estava sentada duas fileiras atrás, perto da janela, calma e imóvel como sempre. Não tinha olhado nem uma vez.

Kai hesitou, então acenou discretamente. "Oi, Rei. Bom dia!"

Ela olhou para ele, o olhar indecifrável, e fez um leve aceno com a cabeça. Depois voltou os olhos para a carteira, como se a interação nunca tivesse ocorrido.

"...Certo," murmurou Kai, voltando a se sentar.

Asuka se inclinou da carteira ao lado e sussurrou, divertida, "Ainda tentando arrancar uma frase inteira dela, hein?"

Kai deu de ombros, sussurrando de volta, "E eu vou continuar tentando. Ela é uma caixa de mistérios."

Asuka sorriu, então se virou para Rei. "E aí, garota maravilha. Dormiu essa noite ou se recarregou num tubo de vidro?"

Rei piscou uma vez. "Eu durmo."

A entrega seca fez Shinji conter uma risada.

Asuka riu. "Sei..."

Antes que a conversa continuasse, a porta da sala deslizou e um auxiliar entrou segurando um bilhete.

"Ikari, Soryu, Ayanami e..." Ele hesitou, "Kai. Foram convocados imediatamente pela NERV."

Kai piscou, sentindo a decepção pesar discretamente no peito. Adeus plano de fuga com Asuka.

Asuka sorriu, jogando o cabelo para trás. "Falei que a gente não ia durar o dia todo. Hora de mais uma rodada de `quem é o melhor piloto'."

Shinji suspirou, já pegando suas coisas. Rei se levantou sem dizer uma palavra.

Kai se aproximou de Asuka e murmurou, "Fica pra próxima, nossa fuga?"

Asuka sorriu de lado. "Tsc. Tudo bem. Mas da próxima vez, você é quem vai bolar o plano."

Enquanto caminhavam até a porta, Shinji olhou para trás. "Vocês estavam mesmo planejando matar aula?"

Asuka bufou. "Por favor. Se a Misato realmente se importasse com a escola, não tirava a gente de aula dia sim, dia não, pra testes e lutas com Anjos."

Eles saíram pelo corredor, com Kensuke sussurrando dramaticamente do seu lugar: "Cara... que inveja."

Um veículo da NERV já os aguardava do lado de fora, motor ligado. A porta se abriu.

"Entrem," disse o motorista, sem rodeios.

Asuka entrou primeiro, jogando-se no assento como realeza. "Certo, vamos ver qual desafio vai ser hoje."

Kai a seguiu, franzindo a testa. "Isso é novo pra mim. Eles sempre mandam carro pra um simples teste de sincronização?"

Asuka deu de ombros. "Tsc. Talvez tenham percebido o quão importantes a gente é." Ela sorriu de novo, mas os olhos deslizaram discretamente até ele, com um leve toque de curiosidade. "Mas é... meio estranho mesmo."

Shinji parecia desconfortável. "Talvez seja mais do que só testes. A Misato não explicou muito na mensagem que mandou."

Rei continuava imóvel, mãos no colo, olhando pela janela.

O celular de Kai vibrou. Uma mensagem da Misato:

"A gente conversa quando você chegar. Só foque em vir pra base."

Aquilo não tranquilizou nada.

Asuka ergueu a sobrancelha. "Deixa eu adivinhar — Misato sendo misteriosa de novo?"

Kai assentiu. "Aham. Ou é só um teste de rotina, ou o fim do mundo. Vai saber."

O carro acelerou pela rodovia. O céu brilhante de Tokyo-3 foi dando lugar aos túneis de acesso subterrâneos. O silêncio se estendeu, pesado e não dito.

Pouco antes de entrarem no Geofront, Kai se inclinou, tentando quebrar o clima.

"Então, se for só um teste... ainda tá valendo nossa aposta? Tem certeza que não vai chorar quando perder e eu exigir minha recompensa merecida?"

Asuka se virou pra ele, os olhos cheios de fogo. "Hah! Sonha! O único que vai chorar aqui é você, quando perceber que nunca vai me superar num teste de sincronização." Ela virou o cabelo. "Aposta ainda de pé, novato. Se prepara pra se decepcionar."

Shinji gemeu baixinho. "Vocês dois são inacreditáveis..." Mas sua voz estava mais calorosa agora. Um leve sorriso surgia no canto de sua boca.

Até Rei os observou por um segundo antes de voltar a olhar pela janela.

O carro parou na sede da NERV, junto a uma entrada segura.

Uma voz veio pelo interfone: "Pilotos, apresentem-se à Dra. Akagi na ala principal de testes imediatamente."

Asuka foi a primeira a sair, se espreguiçando. "Certo, vamos acabar logo com isso. Não que eu precise me esforçar pra te destruir, Kai."

Ela lançou um sorriso desafiador antes de seguir à frente.

Shinji olhou para Kai, um pouco preocupado. "Você acha mesmo que é só um teste de sincronização?"

Kai hesitou. "Não sei. Mas seja o que for... a gente enfrenta junto. Certo?"

Shinji assentiu lentamente. "É... junto."

Atrás deles, Rei foi a última a descer, já caminhando na direção da ala de testes — silenciosa, enigmática, sozinha.

E ainda assim... não despercebida.

Capítulo 55: Ressonância / Sussurros no Núcleo

Com isso, Kai e Shinji seguiram Asuka para dentro da instalação. A atmosfera na NERV estava mais tensa do que o normal—técnicos se moviam com urgência, vozes baixas, oficiais de segurança posicionados em pontos estratégicos.

Rei caminhava alguns passos atrás, silenciosa como sempre. Mesmo agora, sua presença era estranhamente reconfortante… ou perturbadora. Talvez os dois.

Quando chegaram à sala principal de testes, a Dra. Ritsuko Akagi já os aguardava, braços cruzados, a expressão indecifrável. Misato estava ao seu lado, com um semblante mais sério que o habitual.

"Muito bem," começou Ritsuko, folheando seu prancheta. "Este não é um teste de sincronização rotineiro. Vamos conduzir uma análise neural extensa—tentando identificar anomalias nos padrões de ondas cerebrais durante a sincronização."

Ela ergueu os olhos, olhar afiado.

"Precisamos determinar se há qualquer irregularidade que possa explicar o comportamento incomum dos Anjos ao escolherem alvos. Especialmente depois do último incidente."

Misato deu um passo à frente, o tom calmo mas firme. "Estamos sendo cautelosos por causa do que aconteceu com o Kai e o Quinto Anjo. Se houver qualquer indício de contaminação, precisamos saber."

Asuka bufou. "Tsc. Contaminação? Por favor. Minha taxa de sincronização vai estar perfeita, como sempre."

O olhar de Rei se desviou brevemente para Asuka, mas ela nada disse.

Shinji olhou para Ritsuko, tensão na voz. "E se tiver algo errado? O que acontece?"

Ritsuko não respondeu de imediato, e esse silêncio disse mais do que provavelmente pretendia.

Ela então se virou para Kai. "Kai, dadas suas… experiências únicas, quero rodar um escaneamento mais profundo em você. Tudo bem?"

Kai hesitou. Ritsuko sempre o deixava um pouco desconfortável. Ainda assim, forçou um aceno confiante.

"Claro, doutora. Pode escanear à vontade."

Lançou um olhar para Asuka, com um sorriso provocativo—tá valendo.

Asuka entendeu e devolveu o sorriso. "Hah. Só não vá culpar o scanner quando eu esmagar sua pontuação." Mas algo em seu olhar vacilou. Preocupação, talvez? Sumiu logo atrás da habitual arrogância.

Ritsuko apontou para a câmara de testes. "Entrem no plug. Esse escaneamento vai durar mais do que o normal—tentem não se mover."

Os plugs de entrada se abriram. Shinji subiu na Unidade-01 em silêncio. Asuka alongou os ombros de forma exagerada antes de entrar na Unidade-02.

Kai parou diante da Unidade-04. Rei já estava no Eva-00, observando calmamente os monitores. Por um segundo, seus olhares se cruzaram.

"...Boa sorte," disse ela, quase inaudível. E então desviou o olhar.

Kai piscou. Aquilo talvez fosse a primeira vez que ela lhe desejava algo.

Ele entrou no plug de entrada.

À medida que o LCL preenchia e o sistema era ativado, Kai recostou-se, soltando o ar. O zumbido da sincronização começou—uma interface neural envolvendo seus pensamentos.

Vamos nessa, pensou. Vou provar que não tem nada de errado comigo.

Focou mais do que nunca. Queria vencer Asuka. Mas, mais do que isso—queria provar que pertencia àquele lugar.

Então—

Um lampejo.

Sua visão distorceu. Uma ondulação estática passou pelo LCL. Fraca, mas perceptível.

Como se algo pressionasse sua mente.

A voz de Ritsuko estalou nos comunicadores. "Kai? Está se sentindo bem? Estamos detectando algumas flutuações incomuns no seu padrão de sincronização."

A voz de Misato veio em seguida, mais afiada. "Fala com a gente, garoto. O que está acontecendo aí?"

Kai cerrou os dentes. "Estou sentindo… algo. Está pressionando minha mente… Não consigo entender o que é…"

No console, os dedos de Maya pausaram. Ela ergueu o olhar para a leitura de Kai.

O tom de Ritsuko manteve-se clínico, mas a urgência transparecia. "Estamos detectando um retorno neural anormal. É semelhante ao incidente anterior."

Misato, com a voz firme: "Você ainda está no controle da sincronização? Ou algo está tentando assumir?"

Kai se concentrou. A presença não era agressiva—não era violenta. Mas estava ali. Pressionando. Esperando.

Parecia… sensível. Demais. Como se o Eva não estivesse apenas recebendo—mas respondendo.

Quase como se estivesse tentando… alcançar.

A voz de Asuka cortou: "Kai, nem pense em surtar de novo aí dentro."

Shinji, mais calmo: "Se tiver algo errado, fala. A gente tá aqui."

Kai não respondeu de imediato. Sentia a presença—calma, paciente. Como se esperasse ser reconhecida.

E então…

Ouviu.

"...incompleto..."

Uma voz? Um sussurro? Não era claro. Mas estava lá. No limite da compreensão.

Kai hesitou. "Tem algo... É como se o Eva-04 estivesse tentando me alcançar. Mas eu não tô deixando. Não vou deixar."

A voz de Ritsuko voltou, mais analítica. "Pressão neural aumentando... mas não é hostil. Está respondendo—emocionalmente, não mecanicamente. Interessante..."

Misato: "Se ainda estiver no controle, não vamos te puxar. Mas não seja herói. Se piorar, avisa."

A respiração de Kai desacelerou. O peso na mente permaneceu. Não pressionava mais.

Esperava.

"...incompleto..."

O sussurro novamente. Mais forte. Dentro de sua mente. Começando a dominar seus pensamentos. Sua visão piscava. Algo estranho estava começando a acontecer.

O medo que sentiu pela manhã voltava à tona. Se continuasse, talvez entendesse mais sobre tudo isso. Mas… valia a pena?

Kai cerrou os dentes. Nem ferrando.

"CALA A BOCA!"

Por um segundo, silêncio.

Então—

A pressão desapareceu. Instantaneamente.

Seus índices de sincronização estabilizaram. Completamente.

Rei estreitou os olhos levemente diante da tela.

Ritsuko piscou. "Ele… obedeceu."

Misato soltou o ar. "Isso é bom… certo?"

Ritsuko franziu a testa. "Significa que Kai manteve o comando da conexão. Melhor do que ser dominado… mas também confirma que há uma interação acontecendo."

Asuka bufou. "Ou seja, ele mandou o Eva sentar. A mesma coisa que a gente faz, só que sem todo esse drama. Nooossa, que impressionante."

Shinji, mais calado: "Mas se o Eva obedeceu… quer dizer que pode decidir ignorar também?"

Um longo silêncio.

Kai viu o olhar de Rei no HUD — profundo, analítico. Como se enxergasse além de sua alma. Aquilo deu calafrios.

Então Ritsuko, retomando a compostura: "Kai, diga exatamente o que sentiu. E se acha que vai acontecer de novo."

Kai firmou a voz. "Foi como a Asuka falou. Como se estivesse tentando me alcançar… mas eu recusei. Agora se foi."

Esperava soar mais confiante do que realmente estava.

Ritsuko o analisou por um momento, então assentiu. "Vamos continuar monitorando. Por ora… vejamos os resultados."

As pontuações apareceram na tela principal:

Asuka: 62%

Rei: 59%

Shinji: 58%

Kai: 42%

Asuka virou-se imediatamente, triunfante. "Parece que você ficou em último, novato. Acho que não vou precisar chorar feito bebê, afinal."

Kai gemeu por dentro, esfregando as têmporas enquanto o gráfico desaparecia da tela. "Então era isso, né? Podemos ir embora agora?"

Misato arqueou uma sobrancelha da sala de observação, claramente impaciente. "Qual parte de `análise neural extensa' você não entendeu, Kai? Ainda estamos só começando." A voz tinha um tom brincalhão, mas os olhos eram sérios. "Vocês vão ficar aqui o resto do dia—testes, avaliações e treinamento mental intensivo. Seu Eva pode estar em manutenção, mas você não está dispensado."

Kai afundou no plug, a frustração crescendo conforme absorvia as palavras de Misato. Olhou para Asuka, que apenas revirou os olhos no próprio plug, embora seu leve sorriso tenha aliviado um pouco a irritação dele.

O dia virou uma sequência entediante de testes de isolamento, escaneamentos cerebrais, exercícios de tempo de reação e calibração mental. Kai sentia sua mente se transformando numa geleia enquanto encarava telas infinitas, ouvia instruções monótonas e respondia mecanicamente a perguntas repetitivas.

O almoço não foi melhor—cada piloto comeu sozinho, como prisioneiros em turnos rotativos. Kai se pegou desejando até alguns minutos de conversa. A cada momento, esperava por uma trégua, ou ao menos um diálogo breve, mas a precisão clínica de Ritsuko negava até isso.

Ainda assim, houve momentos fugazes. Cruzar com os outros pilotos no corredor entre testes, captar seus olhares através dos vidros reforçados; trocas breves de frustração com Shinji, reconhecimento silencioso com Rei, ou um sorrisinho encorajador de Asuka que tornava toda a monotonia suportável.

Já no fim da tarde, quando o último monitor se apagou, Kai recostou-se pesadamente, os músculos doendo, a cabeça latejando. O zumbido silencioso do laboratório vazio envolvia tudo, interrompido apenas por sons distantes de técnicos recolhendo equipamentos para a noite.

Suspirou fundo, o cansaço pressionando como um peso físico. Apesar de tudo, os momentos que compartilhou com Asuka e os outros permaneciam em sua mente, um pequeno brilho reconfortante de conexão em meio à frieza dos testes. Pelo menos isso—algo em que se agarrar quando a rotina ameaçava engoli-lo.

Ao sair para o corredor principal, alongando os membros rígidos, viu Misato e a Dra. Akagi conversando ao lado da sala de observação, de costas para ele. Pareciam achar que os pilotos estavam fora do alcance de audição.

Ouviu a voz de Misato, baixa e séria. "Conseguimos o que precisava?"

Dr. Akagi ajustou os óculos, o olhar fixo num datapad. "É um começo. Aquele padrão de ressonância durante a flutuação dele... é único. Ao menos agora temos uma linha de base."

Kai congelou por um instante, as palavras provocando um arrepio na espinha. Algo no modo como Ritsuko falava sobre ele. Fazia com que se sentisse menos como um piloto sendo avaliado e mais como um rato de laboratório sendo eletrocutado. Talvez a NERV escondesse mais do que ele havia percebido até agora.

Ele se espreguiçou, tentando aliviar os músculos rígidos. O dia tinha sido um lixo. Mas ele tinha aguentado—e talvez o dia ainda não tivesse acabado.

Chapter 56: Interferência / Redirecionamento Tático

Quando os últimos testes tediosos do dia finalmente terminaram, as pesadas portas do laboratório se abriram com um chiado, e a voz cansada de Misato ecoou pelos alto-falantes. "Certo, crianças—estão livres. Obrigada por aguentarem firme."

Kai soltou um longo suspiro, sentindo o alívio tomar conta. A rigidez nos músculos e a dor de cabeça persistente já pareciam mais leves. Ele olhou em volta enquanto os outros pilotos emergiam lentamente de suas câmaras de teste, todos com a mesma expressão de gratidão cansada.

Alongando os braços duros, Kai sentiu uma presença familiar se aproximar. Asuka estava ali, sorrindo com triunfo, os olhos brilhando apesar do cansaço do dia.

"Você não esqueceu, né?" ela provocou, se inclinando um pouco. "Você perdeu a aposta da sincronização, perdedor. Hora de pagar."

Kai gemeu, revirando os olhos dramaticamente. "Ah, qual é… Eu estava indo bem antes daquela… coisa."

Ele se conteve. As palavras travaram na garganta. Talvez, se não falasse sobre o que aconteceu, se não desse peso, aquilo simplesmente sumisse.

Asuka sorriu, mãos na cintura. "Desculpinhas, desculpinhas. Tudo bem, servo pessoal—primeira tarefa: carregar minha bolsa. Anda logo!"

Kai suspirou teatralmente, mas um pequeno sorriso escapou apesar de tudo.

O que quer que aquela presença tivesse sido… não importava. Ele não queria saber. Tudo o que queria era isso: manter tudo normal. Leve. Pé no chão.

E, de alguma forma, mesmo depois de tudo aquilo, ele se sentia bem.

Espantando os pensamentos, Kai avistou Shinji secando os últimos resquícios de LCL do cabelo. Lembrou-se da conversa sobre a Rei—como Shinji estava quase pronto para fazer algo, se ao menos tivesse coragem. Tudo o que ele precisava era de um empurrãozinho. E aquele? Aquele era o momento perfeito. Não apenas para ajudar Shinji, mas para tirar sua própria mente de outras coisas.

Kai se aproximou com um sorriso casual.

"Então?" ele perguntou, em voz baixa o suficiente para apenas Shinji ouvir. "Está pronto? O plano vai rolar ou não?"

Shinji piscou, pego de surpresa. Olhou em volta antes de se inclinar um pouco. "H-Hã? Ah… você quer dizer—" A voz dele foi sumindo, a incerteza crescendo.

Asuka surgiu por trás deles, braços cruzados, já sorrindo com superioridade. "Ah, não me diga que ele já vai desistir. Típico."

Shinji ficou tenso, mas soltou o ar, olhos baixos. "...Eu só não sei o que dizer pra ela."

Kai deu um tapa de leve nas costas dele. "Esse é o ponto, cara. Você não precisa dizer nada `especial'. Só conversa. Vocês já têm uma conexão, é só deixar acontecer."

Asuka revirou os olhos, mas, surpreendentemente, não rebateu. "Honestamente? Só tenta não ser um completo idiota e talvez você sobreviva."

Kai tentou conter um sorriso e se virou para Shinji de novo. "Viu? Até a Asuka disse que você pode sobreviver." Ele abaixou o tom. "Só fica tranquilo."

Suspirou logo em seguida. "Ok, péssimo conselho. Mas falando sério—você não precisa forçar nada. Lembra do que conversamos ontem. Vai dar certo."

Shinji assentiu hesitante, não muito convencido, mas disposto.

Kai apontou para Asuka. "A gente vai levar a Rei junto e deixar vocês dois sozinhos no momento certo."

Ela sorriu. "Sim, sim, pode deixar. Quando chegar a hora, eu me certifico de deixar os pombinhos a sós."

O rosto de Shinji ficou vermelho. "N-Não chama assim!"

Kai se virou para Asuka. "Sabe, tô começando a achar que a única razão pra você ajudar é pra ter algo pra usar contra o Shinji depois."

Asuka bufou. "Por favor. Como se eu precisasse de mais munição. O cara é uma fonte infinita de material."

Kai riu. "Mesmo assim, você tá sendo estranhamente cooperativa."

"Ei, eu tenho meus momentos," ela disse, fingindo ofensa. "Além disso, ver a Terceira Criança tentando conversar com uma garota já é um show à parte."

Kai olhou para Shinji, que parecia concordar com Asuka. "Como assim cara, você literalmente mora com uma garota. Já devia ser um especialista!"

Shinji piscou, depois deu de ombros, constrangido. "É que... com ela é diferente. A Misato é um desastre... e além disso, ela nunca está em casa— ah, falando nisso" Shinji obviamente tentava mudar de assunto. "—A Misato vai pegar um vôo hoje à noite. Algo sobre representar a NERV numa demonstração da ONU de um novo sistema de armas automatizado. Ela disse que só volta amanhã à noite."

Kai parou por meio segundo. "Sistema de armas automatizado?"

Ele riu, incrédulo. "O quê, eles vão se livrar dos pilotos justo agora que eu cheguei?"

Mas algo se encaixou em sua mente. Algo que, no momento, parecia mais importante.

Espera… a Misato vai estar fora até sábado à noite? Isso significa que…

De repente, a peça que faltava se encaixou.

Agora eu sei exatamente como transformar esse encontro em algo inesquecível.

"Boa tentativa, Shinji." Kai riu. "Agora vamos fazer isso acontecer."

Ao saírem da área de testes, Rei estava por perto, terminando sua rotina pós-sincronização. Movia-se com aquela serenidade costumeira—presente, mas distante.

Kai se inclinou na direção de Asuka, voz baixa. "Então… talvez você devesse ser a encarregada de convidar ela?"

Asuka arqueou a sobrancelha e sorriu. "Tsc. Tudo bem. Mas se isso der errado, a culpa é sua, entendeu?"

Ela caminhou até Rei com confiança, mãos na cintura. "Ei, garota prodígio. Vamos voltar pra casa a pé hoje, e você vai com a gente."

Rei piscou. "Tem algum motivo?"

Asuka deu de ombros. "Preciso de um?"

Rei a observou por um momento, depois seus olhos se voltaram para Shinji. Ele parecia prestes a evaporar, mas antes que dissesse qualquer coisa, Rei assentiu levemente.

"Tudo bem."

Shinji ficou tenso. Kai e Asuka trocaram um rápido olhar—missão cumprida.

Agora vinha a parte difícil: deixá-los a sós.

Enquanto caminhavam pela cidade, a tensão era quase cômica. Shinji andava um pouco à frente de Rei, sem saber como acompanhar seu ritmo. Kai suspirava dramaticamente carregando a bolsa de Asuka, fingindo que pesava uma tonelada.

Asuka sorriu. "Ah, por favor. Ninguém está acreditando nisso."

Shinji suspirou. "Tenta não destruir completamente a dignidade do Kai, ok?"

Asuka deu de ombros. "Ele perdeu a aposta. Sabia no que estava se metendo."

Depois de alguns quarteirões, Kai deu um olhar sutil para Asuka. Hora de agir.

Kai deixou a conversa seguir por mais um tempo antes de reduzir o passo. Asuka acompanhou. Não foi nada forçado—apenas um afastamento natural, criando espaço entre eles e os outros dois.

Continuando o ritmo, Kai lhe deu um rápido olhar e um aceno discreto. "Chegou a hora. Sua deixa."

Asuka revirou os olhos, mas sorriu. Com um suspiro dramático, ela parou. "Ugh, espera. Acabei de lembrar de uma coisa. Kai, a gente precisa passar naquela livraria que vimos antes. Eu vi algo que quero."

Shinji parou no meio do passo, piscando. "Hã? Viu mesmo?"

"Sim, vi. E não, vocês dois não precisam esperar," ela acrescentou rapidamente, fazendo sinal com a mão. "Podem ir na frente. A gente alcança."

Rei se virou para Shinji. "Vamos continuar?"

Shinji hesitou, olhando para Kai, que lhe deu um aceno encorajador. Depois de um momento, ele engoliu seco e continuou andando com Rei ao seu lado.

Indo na direção oposta com Asuka, Kai não conseguiu conter a gargalhada. "Aquilo foi maravilhoso! Viu a cara do Shinji?"

Asuka riu, balançando a cabeça. "Sim, impagável. Parecia que jogamos ele num vulcão ativo."

Ela cruzou os braços, ainda sorrindo. "Mas olha, se ele não consegue lidar com uma simples caminhada com a Rei, como vai aguentar um encontro de verdade?"

Ele cutucou Asuka de leve. "Acho que fizemos a coisa certa. Ele só precisava de um empurrão. Se não der certo, bem…" Ele fez uma pausa. "…você tinha razão. Pelo menos nos divertimos."

Então ela inclinou a cabeça, sorrindo. "E agora, o que a gente vai fazer de verdade? Ou isso tudo era só uma desculpa pra ficar a sós comigo?"

Kai sorriu, irônico. "Espera um segundo. Você não estava falando sério sobre a livraria?"

"Ah, claro que estava. Nada diz `diversão' como folhear livros de filosofia numa sexta à noite," ela respondeu sarcasticamente, revirando os olhos antes de lançar um olhar irônico para ele.

Capítulo 57: Fingimento / Ecos de Paz

Kai sorriu de lado. "Ei, ainda temos o resto do dia. Que tal irmos naquele lugar que você mencionou mais cedo? Aquele que a gente ia se tivesse conseguido matar aula?"

Asuka ergueu uma sobrancelha, pega de surpresa — mas só por um segundo. Em seguida, retribuiu o sorriso com um de seus clássicos sorrisos de canto. "Hah. Então você realmente prestou atenção em mim hoje de manhã?"

Ela pensou por um instante. "Tudo bem, vai. Você merece um pouco de paz e tranquilidade comigo. Mas se ficar todo meloso de novo, eu te empurro do telhado."

Ela se levantou, se espreguiçando levemente, antes de cutucá-lo com o cotovelo. "Vamos logo, antes que eu mude de ideia."

Eles começaram a caminhar pelas ruas de Tóquio-3 no fim da tarde. O céu estava pincelado com tons dourados, a cidade vibrava suavemente ao redor. Aquilo fazia bem—era simples, até—sem planos, apenas o objetivo de chegar àquele jardim no terraço e assistir ao mundo desacelerar.

Asuka entrelaçou os braços atrás da cabeça enquanto liderava o caminho. "Claramente vou ter que te treinar pra ser útil, já que você continua perdendo toda hora."

Kai deu uma risada. "Ok, ok... mas tenta não me deixar falido. Tenho que economizar pra sair com você amanhã, lembra?"

O sorriso de Asuka se alargou. "Tch, devia ter pensado nisso antes de me desafiar."

Ela o cutucou de leve. "Mas tudo bem, vou mostrar um pouco de misericórdia—dessa vez."

Enquanto andavam sem pressa, Asuka o observou de relanço. "E então? Vai me dar uma dica sobre esse `grande encontro' ou vai manter o segredo até o fim?"

Kai sorriu com malícia. Ele já tinha um plano—ousado, talvez até meio imprudente. Do tipo que ela provavelmente iria gostar. "Dica? Nem pensar. Só se prepara pra amanhã."

Asuka semicerrrou os olhos. "Hmph. Tá querendo bancar o misterioso, é?"

Ela pediu uma bebida num vendedor de rua e lançou a Kai um olhar presunçoso enquanto apontava para que ele pagasse. E então veio o sorriso debochado. "Tudo bem. Mas isso tem que valer a pena, Kai. Se for entediante, você vai pagar caro."

Observando sua reação, ela completou: "E você já sabe: se estragar esse `grande encontro', não vai ter outro."

Kai quase engasgou com a pressão extra, mas sorriu. "Ah, como se você conseguisse viver sem mim agora."

Asuka quase engasgou com a bebida antes de franzir a testa e cutucá-lo. "Tch! Não fique se achando, Quarta Criança!"

Ela desviou o olhar, claramente corada. "Mas... talvez eu ficasse um pouco entediada sem você."

Recuperando o controle num piscar de olhos, ela voltou a sorrir. "Não que isso importe, porque obviamente eu sou a melhor coisa que já te aconteceu."

Ela o observou com um sorriso convencido, braços cruzados. "Mas não pense que isso significa que estou ficando mole com você, Kai."

Kai sorriu. "Você? A grande Asuka? Ficando mole? Jamais ousaria pensar isso." Ele fez uma pausa, com o tom suavizando levemente. "...Mas se estiver, seu segredo está seguro comigo."

Asuka estreitou os olhos, mas havia um brilho ali. "Tsc. É bom que esteja." Ela apontou o dedo pra ele. "Mas se começar a ter ideias, vou ter que te lembrar com quem está lidando."

Ela se recostou levemente, braços ainda cruzados. "Então? Últimas palavras antes do seu tal `grande encontro'? Tem certeza que está pronto, ou quer que eu comece a preparar meu discurso de vitória?"

Kai sorriu. "Esperaí, você quer o melhor encontro de todos ou quer me ver fracassar pra rir da minha cara?"

Asuka levou a mão ao queixo, fingindo pensar. "Hmmm... escolha difícil."

Ela sorriu. "Acho que quero os dois!"

Ela se inclinou um pouco, os olhos brilhando. "Quero que você se esforce ao máximo, dê tudo de si, faça o mais `perfeito' possível..."

E então, com um sorriso afiado: "...pra que, se errar mesmo que um pouquinho, eu possa rir de você pra sempre."

Ela o observou com ar satisfeito. "Mas olha, se você realmente conseguir me impressionar, talvez eu deixe você aproveitar também."

Kai caiu na gargalhada. "Você realmente me faz esquecer todos os meus problemas, sabia? Não sei se é porque você me dá problemas ainda piores... ou só porque você é... você mesmo."

Asuka parou no meio do passo, seu sorriso vacilando por um segundo antes de desviar o olhar e revirar os olhos. "Tsc. Você realmente não consegue se controlar, né?"

Ela manteve o olhar à frente, braços cruzados. "Talvez sejam os dois," disse, ainda em tom provocador, mas agora mais suave. "Eu dificulto a sua vida... mas admite vai—você gosta."

Continuaram andando.

O sol descia devagar, projetando sombras compridas sobre a calçada. Kai olhou para frente, imaginando o terraço, o céu, a vista que teriam.

Sim. Aquilo soava perfeito mesmo.

Capítulo 58: Impacto / Confissões em Ruínas

A porta se fechou com um clique abafado. Os degraus rangeram suavemente enquanto Asuka subia, o cabelo balançando a cada passo. Kai vinha logo atrás, ainda carregando sua mochila como um símbolo da aposta perdida. Ele não se importava.

O ar no terraço era mais fresco, com um leve cheiro de ozônio e ferrugem. Uma brisa suave passava entre as grades, bagunçando os cabelos escuros de Kai e roçando seu rosto como um suspiro. Dali de cima, Tokyo-3 se estendia sob a luz dourada e enevoada do entardecer. Os prédios, o aço, as cicatrizes das batalhas — tudo parecia distante. Pacífico. Como se o mundo tivesse pausado só para eles.

Asuka foi direto até a beirada, apoiando os braços no parapeito. "Nada mal, hã?" disse ela, lançando um olhar por sobre o ombro. "Eu costumava vir aqui quando queria fugir de todo o barulho."

Kai parou a alguns passos dela, observando sua silhueta recortada contra a cidade. Era como um momento esculpido no tempo. Ele não teve pressa.

Então, com um movimento casual, Asuka se jogou no chão e se esticou no terraço, mãos atrás da cabeça, pernas cruzadas. "E aí? Isso faz parte do seu grande plano pra me fazer cair de amores por você ou algo assim?"

O tom era provocativo, mas os olhos dela... havia algo mais suave ali.

Kai sorriu, sentando-se ao lado dela com um ar despreocupado. "Com certeza. E aí, tá funcionando? Tô jogando no longo prazo."

Asuka bufou, rolando de lado para encará-lo, apoiando a cabeça em uma das mãos. "Tsc. Longo prazo? Você acha mesmo que é tão esperto assim, é?" As palavras eram afiadas, mas o sorriso no canto dos lábios a entregava.

Ela o observou em silêncio por um momento, então deu um peteleco leve na testa dele. "Você é persistente, tenho que admitir. Mas é melhor estar preparado. Eu não facilito as coisas."

Kai apenas deu de ombros, olhando para o horizonte. "Se fosse fácil, não ia ter graça."

Ela desviou o olhar, o sorriso desaparecendo um pouco. "Ainda assim... acho meio legal ter alguém se esforçando tanto assim," disse ela, quase num sussurro.

Kai se virou para ela, ficou em silêncio por um instante. Então, com um sorriso crescendo nos lábios, disse: "Ah, qual é... como se você não tivesse um monte de caras babando por você."

Asuka revirou os olhos, mas sua expressão vacilou — só por um instante. "Pfft. Claro que tem. Mas são todos uns idiotas." Ela fez um gesto com a mão, desdenhosa. "Um bando de otários que me querem só porque eu sou bonita. Como se tivessem alguma chance."

Ela o olhou de lado. "Mas você? Você é um tipo totalmente diferente de idiota." Seu pé encostou de leve no braço dele. "Persistente, irritantemente confiante... e de algum modo, não é um completo imbecil."

Kai deu uma risada, olhando a cidade com ela. "Não me entenda mal... eu também acho você bonita."

A reação de Asuka foi imediata — um bufar, um revirar de olhos, mas também um leve tom rosado nas bochechas. "Tsc. Teria que estar cego pra não achar."

Mas a voz dela agora era mais baixa. Ainda tinha acidez, mas menos.

Ela hesitou. "Você só tá tentando me fazer ficar vermelha, né?"

Kai se inclinou, deixando o vento do terraço carregar suas próximas palavras. "Mas é claro! É divertido demais pra resistir."

Asuka virou o rosto na hora. "Tsc. Você é tão irritante." Mas sua mão tocou a bochecha, como se tentasse disfarçar o calor.

Então ela se virou de novo, os olhos afiados num desafio fingido. "Se você acha que consegue me deixar sem graça, vai ter que se esforçar muito mais, Kai."

Ela se inclinou um pouco. "Mas olha... se quiser continuar tentando, manda ver. Te desafio."

Kai riu. "Ah, Asuka... você vai acabar me matando com esse vai e vem. Eu adoro isso."

Asuka ergueu uma sobrancelha, claramente entretida. "Se você não aguenta uma brincadeira, não tá pronto pra mim."

O olhar dela se voltou para a cidade de novo, as luzes de Tokyo-3 refletindo em seus olhos. "Mas..." Ela suspirou e o cutucou. "Acho divertido ver você tentando."

Passou um instante.

"Talvez eu até te deixe ganhar algum dia... mas não vai se empolgando."

O sorriso de Kai se alargou. "Nem pensar! Não quero que me deixe ganhar. Quero merecer."

Ele olhou direto nos olhos dela — agora bem próximos. "Pra esfregar na sua cara."

Asuka caiu na risada, dando um tapa leve no peito dele. "Assim que é bom! Então tá. Sem misericórdia. Se quiser vencer, vai ter que ser melhor do que eu."

Mas o riso dela suavizou, tornando-se mais sincero. "É meio divertido ter alguém que realmente tenta me acompanhar."

A voz de Kai baixou, mais honesta. "É só por isso que você me aguenta? Porque eu tento ser melhor que você?"

Asuka inclinou a cabeça. "Talvez."

Mas havia algo mais nos olhos dela — algo calado, quase relutante.

"Se você fosse um completo perdedor, eu nem perdia meu tempo." Ela jogou o cabelo para trás e murmurou, quase para si mesma: "Mas você não é um bunda mole..."

Ela fez uma careta pelas próprias palavras, depois tentou voltar atrás. "Tsc. Não deixa isso subir à cabeça, Kai."

Kai imediatamente se levantou, correndo até a beirada do terraço com um sorriso. "Sem chance! Vou contar pra todo mundo!"

Ele abriu os braços e gritou para a cidade: "ELA DISSE QUE EU NÃO SOU UM BUNDA MOLE!!!"

"KAAAI!" Asuka pulou em cima dele, puxando-o de volta do parapeito. "Você tá maluco?!"

Ele ria tanto que nem conseguiu resistir enquanto ela o agarrava pelo braço e o jogava no chão. "Você é TÃO irritante — argh!"

Ela cruzou os braços, furiosa. "Eu devia te jogar desse telhado agora mesmo."

Então ela parou. A voz caiu. "Você tem sorte que eu gosto de você..."

Percebendo o que acabara de escapar, seus olhos se arregalaram. "Esquece isso! Eu não disse nada!"

O sorriso de Kai ficou ainda maior e ele gritou mais alto: "ESQUECE ISSO! ELA DISSE QUE GOSTA DE MIM!!!"

Asuka se jogou em cima dele antes que ele chegasse à beirada de novo, montando em cima dele e o prendendo no chão. "AI MEU DEUS, KAI, NÃO!"

"Seu completo idiota!" ela sibilou, o rosto vermelho como fogo. "Você quer morrer?!"

Ele não conseguia parar de rir. "Ficou sem graça, né? Senhorita Te-desafio?"

Asuka gemeu e tapou a boca dele com a mão. "Se disser isso mais uma vez, você tá morto."

Ele continuava sorrindo por baixo da palma dela, e ela parecia odiar o quanto ele estava fofo naquele momento. "Você é um bobão!"

Ela cruzou os braços, ainda sentada em cima dele, sem sair do lugar. "É isso que eu ganho por dizer coisas legais. Você tem muita sorte que eu gosto de você, Kai."

Ela congelou. Depois tapou a própria boca com a mão. "Quer dizer—!"

Kai olhou pra ela — de verdade. "Não se preocupa... se mesmo depois de tudo ainda tiver dúvida... eu meio que gosto de você também."

Asuka inclinou a cabeça pra trás, como se pedisse ajuda ao céu. "Ughhh, cala a boca!"

Mas ela estava sorrindo. Mesmo tentando esconder.

Por fim, encontrou os olhos dele novamente. "Tá, tá bom. Talvez eu goste de você... um pouco." Ela mostrou os dedos separados por um espacinho minúsculo. "Só um pouco."

Então se inclinou, o rosto a poucos centímetros do dele. "Mas nem pense em ficar convencido com isso, entendeu?"

Kai sorriu suavemente. "A grande Asuka Langley Soryu disse que gosta de mim... e você não quer que eu fique convencido?"

O rosto dela ficou escarlate. "N-Não estraga tudo, idiota!"

Ela cerrou os punhos, ainda sentada sobre ele, incapaz de se afastar.

Então, após um longo silêncio, sua voz baixou.

"...Além do mais... você já sabia, não sabia?"

Kai hesitou, depois assentiu de leve. "Com certeza não sabia. Era isso, ou você me odiava de verdade e só queria me fazer sofrer. As chances eram iguais."

Asuka revirou os olhos, mas agora sem veneno. "Tsc. Você é mesmo um idiota, sabia?"

Ela se recostou um pouco, cruzando os braços — mas os olhos não deixaram os dele.

"Pois acredite," disse em voz baixa. "Porque eu não vou repetir."

E antes que ele pudesse responder, ela deu outro peteleco na testa dele.

"E tira esse sorriso idiota da cara antes que eu mude de ideia."

Mas ela não saiu de cima dele.

Na verdade, parecia perfeitamente feliz em ficar ali só mais um pouco.

Capítulo 59: Fissuras / Sempre Estivemos Quebrados

O terraço estava em silêncio, exceto pelo zumbido distante do trânsito e o sussurro ocasional do vento passando pelos trilhos. O momento pairava no ar — não era pesado, nem constrangedor, mas frágil. Como se algo importante tivesse acabado de ser compartilhado, e nenhum dos dois soubesse bem o que fazer com o peso disso.

Kai estava sentado ao lado de Asuka, o ombro encostando no dela, olhando para o céu onde nuvens claras deslizavam preguiçosamente pelo horizonte. Um leve sorriso dançava em seus lábios.

"Langley. Lang-ley. Laaang-ley," murmurou ele com um sorriso. "É um nome divertido de dizer."

Asuka bufou, mas não se afastou. "Ah, maravilha, agora você vai sentar aqui repetindo meu nome como um idiota?" Ela deu um peteleco no braço dele. "Você é tão esquisito..."

Ela se apoiou nas mãos, olhando para o céu. "Beleza, já que estamos só dizendo nomes agora — Kai. Kaaaai. Ka-i." Ela virou um pouco a cabeça, com um sorrisinho. "Huh. Não soa tão bem quando eu digo."

Kai riu. "Langley é muito mais legal. Faz a língua dar um nó. Langlllley..."

Ela revirou os olhos. "Você é impossível."

Lhe lançou um olhar de lado, fingindo desconfiança. "E você é o quê, um popstar que só precisa de um nome?"

Kai deu de ombros, despreocupado. "Acho que nunca pensei muito nisso."

"É meio bom..." acrescentou ela, com o olhar suavizando. "Só sentar aqui, sem se preocupar com nada."

Havia um alívio sutil na voz dela. Dois adolescentes sentados no céu, finalmente respirando.

Kai virou levemente a cabeça, observando-a pelo canto dos olhos. "Langley."

"Você tá mesmo nessa de ficar dizendo meu nome, hein?" provocou ela. "O quê foi, tentando garantir que nunca vai esquecer?"

"Eu só gosto," respondeu ele. Depois de uma pausa: "É alemão, não é? Você nunca me contou muito sobre seu passado."

Asuka se recostou, os olhos escurecendo um pouco. "É. Alemão. Minha mãe era parte alemã. Meu pai... americano. Não que faça diferença."

A voz dela tinha um tom prático, treinado.

"Cresci na Alemanha, na maior parte. A NERV me recrutou bem jovem. Treinei lá. Quando o Eva-02 ficou pronto, me mandaram pra cá."

Ela o olhou, quase defensiva. "É só isso."

Mas havia algo na voz dela que não batia com as palavras.

Kai hesitou, depois perguntou suavemente: "Você ainda... tem contato com eles? Seus pais, digo?"

A expressão dela se fechou, os olhos endurecendo. "Tsc. Não."

Ela se inclinou para a frente, os braços sobre os joelhos, olhar preso no horizonte.

"Minha mãe se foi. Meu pai? Seguiu em frente. Fez outra família. Como se ela nunca tivesse existido."

As palavras eram afiadas, mas havia fragilidade nelas. Ela virou para ele com um sorriso forçado. "Então não. Não preciso deles. Sempre me virei sozinha."

Mas os dedos se fechavam nas mangas como se cada palavra lhe custasse mais do que admitia.

Kai falou baixo. "Sinto muito pela sua mãe... e seu pai claramente é um babaca. Mas sua mãe... ela era legal?"

A postura de Asuka enrijeceu. Demorou um momento antes que respondesse.

"Ela era... brilhante."

A voz dela vacilou sutilmente. "Cientista. Trabalhava no projeto dos Evas. A pessoa mais inteligente que eu já conheci."

Ela encarou o vazio. Depois rapidamente se recostou e cruzou os braços. "Mas isso não importa mais, importa? Ela se foi. E eu não preciso de mais ninguém."

Kai não disse nada de imediato. Apenas a observou — de verdade.

E então, com um sorriso torto: "Não fala assim. Pelo que você disse, ela teria sido uma sogra bem legal..."

Asuka piscou. O rosto dela ficou vermelho num instante.

"O quê—?! I-idiota!!" Ela empurrou o ombro dele, completamente sem saber o que fazer. "De onde diabos veio isso?!"

Mas não se afastou completamente.

"Tsc. Você é inacreditável..."

Depois, mais suave: "Ela... provavelmente teria gostado de você."

Foi quase inaudível. E desapareceu assim que escapou.

"Mas nem começa a ter ideias! Você continua sendo um idiota!"

Kai colocou uma mão no ombro dela, gentilmente. "Perder sua mãe tão nova... deve ter sido terrível. Eu... entendo como é."

Asuka ficou tensa, mas não se afastou.

"...É," disse ela baixinho. "Foi."

A voz dela não tinha armadura.

"Ela era tudo pra mim. A única que realmente..." Ela parou, depois balançou a cabeça. "Mas não importa mais."

Mas importava. Kai via isso. No jeito como ela apertava os braços.

"Você disse que entende," ela disse depois de um momento, olhando para ele. "Você... também perdeu a sua?"

Kai assentiu devagar, os olhos ainda no céu. "É... perdi minha mãe também... faz alguns anos. E nunca conheci meu pai."

Asuka ficou em silêncio. Sem sarcasmo, sem julgamento. Apenas silêncio.

"Isso é uma droga," ela disse por fim. "Acho que é mais uma coisa que temos em comum, hein?"

Ela se apoiou nas mãos novamente. "Tsc. Devemos ser amaldiçoados ou algo assim. O mundo tem algo contra a gente."

Depois, em voz baixa: "Então... o que aconteceu?"

A voz de Kai baixou para um sussurro.

"Nada épico. Nada especial. Ela foi... morta. Um bandido qualquer. Assim mesmo, do nada. Nada muito fora do comum de onde eu venho."

Ele manteve o olhar para cima, para que os olhos não o traíssem. "Meu irmão e eu estávamos lá. Mas eu congelei. Como um covarde. Não consegui fazer nada."

Asuka balançou a cabeça, voz baixa. "Você era uma criança. Isso não é covardia, Kai."

Ela hesitou. "Você acha que eu fiz alguma coisa quando minha mãe...? Não conseguimos fazer nada quando somos pequenos. Essa é a pior parte."

Ela fez uma pausa. "E seu irmão... o que aconteceu com ele?"

Kai suspirou. "Não sei bem o que houve depois... eu fiquei congelado um tempo. Quando voltei a mim, ele tinha sumido. Não sei..." Ele hesitou, olhando para baixo e cerrando os punhos. "Não importa. Ele foi embora. Nunca mais o vi."

Ele voltou o olhar para ela, buscando os olhos dela. "E com sua mãe... o que aconteceu?"

Asuka fitou o horizonte.

"Ela... não estava bem."

A voz dela era plana. Controlada.

"Ela trabalhava na NERV. Mas algo deu errado. Ela simplesmente... quebrou."

Suas mãos se fecharam. "Começou a achar que uma boneca era a filha dela de verdade. Parou de me reconhecer. Eu estava lá, e ela não me via."

Ela engoliu seco. "E então... um dia, ela simplesmente não estava mais lá."

Por um instante, Kai se lembrou da casa mal-assombrada. Da reação intensa de Asuka àquela boneca enforcada.

Ele estendeu os braços, querendo abraçá-la. Consolá-la.

"Isso é... horrível," ele sussurrou. "Eu queria..."

Mas não havia palavras que melhorassem aquilo. Ela afastou os braços dele com firmeza e ficou em silêncio. Tensa.

"...Idiota," murmurou.

Ficou assim por mais tempo do que provavelmente percebeu. Depois, olhou de volta para ele.

"Você não precisa fingir que pode consertar as coisas," disse, com voz suave. "Tem coisas que simplesmente... são."

Kai sustentou o olhar dela, firme e caloroso. "Mas... você precisa saber. Eu estou com você. Certo?"

Asuka piscou. A respiração prendeu.

"...Tsc." Ela desviou o olhar. "Você é tão irritante."

Kai sorriu de leve, voltando a olhar o céu. "Talvez tenha sido isso que nos moldou. Toda a merda que a gente passou."

Ela soltou um suspiro. "É. Pode ser. Mas eu nunca deixaria isso me quebrar."

E então, em silêncio, eles apenas... ficaram ali.

Kai sorriu. "Não se preocupa. Minha fase de luto já passou faz tempo. Não me importo mais com isso. Você não vai me ver choramingando."

Ele respirou fundo. "Eu... posso fazer alguma coisa agora. E isso já me deixa feliz."

Asuka o observou por um instante, depois assentiu. "É. A gente faz alguma coisa agora."

Ela balançou a cabeça e suspirou. "Tsc. Olha só a gente. Filósofos de terraço."

Ela cutucou o braço dele. "As pessoas vão começar a achar que somos maduros ou algo assim."

Kai riu. "Fala por você! Eu sou profundo e maduro, sua criança rasa."

Asuka arfou, ofendida de brincadeira. "Criança rasa? Com licença?" Ela cutucou o peito dele. "Saiba que eu sou a pessoa mais madura que você conhece."

Depois cruzou os braços e estreitou os olhos. "Queria ver toda essa maturidade quando você se apresentou pra turma dizendo: `Koi'. "

"Ahh, golpe baixo. Que imatura."

Kai não conseguia parar de rir da reação dela.

Asuka jogou o cabelo. "Tsc. Você começou!"

Ela deu um peteleco na testa dele. "Encara a realidade, Kai. Se eu sou imatura, você tá perdido."

Mas os olhos dela... estavam quentes. De verdade.

Kai sorriu. "Aproveita esse nosso momento calmo e profundo, porque amanhã? Não vai sobrar tempo com toda a diversão que vem por aí."

Asuka se recostou com um sorrisinho. "Hah! Espero que cumpra essa promessa. Se desperdiçar meu tempo com algo chato, vai se arrepender."

Ela o cutucou. "...Mas é. Hoje foi legal. Essa parte, pelo menos." A voz dela era baixa, vulnerável — antes da máscara voltar. "Não que eu vá admitir em voz alta."

Mas a provocação agora parecia mais leve. Como se algo que já foi armadura tivesse virado outra coisa.

Ela o olhou por um momento. Depois se virou em direção às escadas. "Hmph. De qualquer forma, é melhor você ir pra casa dormir. Se aparecer cansado e imprestável amanhã, eu vou jogar isso na sua cara pra sempre."

Ela ajeitou o cabelo. "E nem pense em me mandar mais uma daquelas mensagens melosas antes de dormir."

Kai sorriu enquanto desciam para o andar de baixo. "Sem promessas."

Asuka bufou. "Tch! Você é tão convencido..."

Mas suas bochechas coraram levemente.

Capítulo 60: Expectativas / A Véspera

Quando Kai e Asuka saíram para o ar fresco da noite, ela o encarou de canto de olho. "Só garanta que você vai aparecer mesmo amanhã. Sem desculpas. E sem vacilar, entendeu?"

Ela o cutucou levemente com o cotovelo. "Afinal, esse supostamente vai ser o melhor encontro de todos os tempos."

Kai deu um sorriso de canto. "Eu sei, eu sei. Nem um Anjo vai me impedir de te levar nesse encontro amanhã. Se um aparecer, eu resolvo tão rápido que nem vou precisar de um Eva."

Asuka soltou uma risada curta, balançando a cabeça. "Hah! Isso eu gostaria de ver." Ela se virou e começou a andar de costas, observando-o com aquele sorriso confiante de sempre. "Mas falando sério... sem desculpas. Se me der o bolo, eu mesma vou te caçar, e você não vai sair vivo."

Ela parou em frente ao prédio dela, inclinando a cabeça. "Tem certeza de que não quer me dar uma dica? Uma pequena prévia de quão incrível vai ser amanhã?" A voz era provocativa, mas havia um brilho genuíno de curiosidade nos olhos dela.

Kai sorriu. "Que fofo! Está com medo de eu te dar o bolo? Não se preocupa — se eu não aparecer, é porque morri. Aí você não vai precisar nem me aguentar mais, de qualquer jeito."

Asuka bufou, cruzando os braços. "Tch, até parece. Você é teimoso demais pra morrer tão fácil."

Ela se encostou levemente na entrada do prédio, observando-o. "E nem fique se achando. Não estou preocupada — só não quero que meu sábado seja desperdiçado porque algum idiota planejou um encontro horrível ou amarelou."

A expressão dela suavizou, apenas um pouco. "Mas, sabe... é melhor você estar lá." Ela deu mais um peteleco na testa dele com o dedo antes de se virar para a porta. "E não fica pensando demais nisso, certo? Só... vamos curtir."

Ela parou, olhando pra ele como se quisesse dizer algo mais, mas balançou a cabeça e se virou para a entrada. "Certo, cai fora. Você tem expectativas altas pra cumprir, Kai."

Eles ficaram ali, na porta dela, por um segundo. Em silêncio. Então, sem aviso, ela deu um leve soco no ombro dele. "Você é tão irritante." Se algo, ela parecia... envergonhada.

Finalmente, ela suspirou, balançando a cabeça. "Tanto faz. Só... não se atrasa amanhã, beleza?" Ela hesitou por meio segundo antes de acrescentar: "Tô... ansiosa por isso."

Kai suspirou dramaticamente. "Ah, tá mesmo?!"

Ela deu um peteleco na testa dele antes de se virar para a porta. "Tsc. Vai pra casa logo, idiota."

Kai sorriu de canto. "Tchau, Asuka."

Ela parou na porta, levantou a mão em um meio aceno e desapareceu lá dentro.


Kai caminhou para casa sob o céu silencioso da noite. Seus pensamentos voltaram para tudo o que Asuka havia lhe contado sobre o passado. A mãe dela... aquilo foi mesmo terrível. Ela deve ter se sentido tão sozinha. E ele conhecia bem essa sensação.

Quando chegou em casa, estava exausto. Tomou um banho rápido, comeu alguma coisa e se jogou na cama. Mas a mente ainda estava a mil.

Ele tinha colocado expectativas tão altas nesse encontro... e agora, a dúvida começava a se infiltrar. Será que ela ia gostar mesmo do que ele planejou? Seria o bastante?

Mas então ele sorriu, pensando nas reações dela. Nas provocações. Nos sorrisos de canto. No calor por baixo de toda aquela intensidade. O que quer que acontecesse amanhã, ia ser divertido — porque seria com ela.

Ele pegou o celular e mandou uma última mensagem antes de fechar os olhos.

"😘"

Um segundo depois, o celular vibrou suavemente.

Asuka: "Esquisitão. 😏 Te vejo amanhã."

Kai sorriu, trancando a tela. Amanhã ia ser incrível.