Evangelion: Shattered Thresholds
5 Episódio 5: Alvo Travado em Marés Turbulentas
Capítulo 37: O Deus de Cristal / Operação Yashima
Kai dormiu profundamente naquela noite, o tipo de sono que só vem depois de algo bom. Não perfeito — ele sabia que perfeição não existia —, mas real. Aquele tipo de calor não aparecia com frequência. Ele acordou com um leve sorriso, sentindo a calma ainda persistente em seu peito.
E ainda assim, em algum lugar por baixo, sentia uma tensão. Como se algo precioso sempre pudesse escorregar por entre seus dedos no instante em que acreditasse que aquilo duraria. Parte dele tinha medo de confiar. Como se o universo tivesse uma regra: sempre que as coisas ficam boas, algo ruim aparece rugindo pra equilibrar tudo.
Seu celular vibrou antes mesmo do alarme tocar.
Misato: "Kai. Vá para a NERV. Agora."
Sem piadas. Sem emojis piscando. Só urgência.
Kai sentou na cama, esfregando o sono dos olhos, já sentindo o coração apertar. Se Misato estava chamando tão cedo, só podia significar uma coisa: um Anjo.
Vestiu-se rápido, no automático. Sem tempo para café da manhã. Pegou um sanduíche meio embrulhado do dia anterior e saiu comendo no caminho.
Outra notificação.
Asuka: "Você recebeu o chamado também, né? Não se atrasa dessa vez, tonto."
Ela já estava em modo de combate. Dava pra ouvir isso no tom direto.
A cidade parecia diferente. Sem sirenes, sem alarmes, mas o ar estava pesado. O zumbido constante de Tokyo-3 havia sumido, como se tudo tivesse pausado. Ele se apressou pelas linhas de acesso, tentando não deixar o pavor alcançá-lo.
Quando chegou, o centro de comando já estava em plena atividade. Monitores exibiam imagens de satélite, dados rolando e projeções. Misato estava no centro, como um campo gravitacional próprio, braços cruzados, olhar firme. Asuka já estava lá, com o plugsuit vestido, alongando-se como se fosse só mais um treino. Shinji pairava próximo a Misato, visivelmente tenso. E Rei, como sempre, permanecia por perto, quieta e calma, sua presença como um sussurro no meio do caos. Kai não teve nem tempo de cumprimentar.
"Ótimo. Você chegou," Misato disse assim que o viu. "Temos uma situação."
A tela principal piscou. Imagens de satélite ampliaram um ponto sobre o Pacífico. Uma enorme forma azul-esbranquiçada deslizava pelas ondas — não nadava, não voava, apenas se movia. Sem esforço. Aterrorizante.
"Esse é o Oitavo Anjo. Codinome Ramiel," disse Misato. "Detectamos ele sobre o oceano durante a noite, e ele já está entrando no espaço aéreo japonês."
Kai ficou olhando. A coisa era um octaedro perfeito, como uma adaga de cristal flutuante de outra realidade. Sua superfície reluzia, girando lentamente, emitindo uma frequência que fazia os alto-falantes zumbirem como vozes de coro.
Seu estômago se revirou. Aquilo nem parecia vivo. Apenas um pesadelo geométrico que flutuava como se nunca tivesse ouvido falar de gravidade ou piedade. Olhar por muito tempo fazia a visão de Kai se embaralhar, como se a simetria perfeita do Anjo zombasse da própria biologia da vida.
"Nossa, que monstro psicodélico... Do que é feito isso? Vidro?" murmurou.
"Não sabemos," respondeu Ritsuko pelo intercomunicador. "Ele repele todas as armas convencionais. Mas essa nem é a pior parte."
As imagens mudaram. Um drone de reconhecimento se aproximava do Anjo. Antes de chegar a um quilômetro, o Anjo pulsou — e o drone foi obliterado por um feixe de energia. Nem mesmo parecia derreter. Foi praticamente vaporizado.
"Ele dispara um feixe de pósitrons altamente concentrado," explicou Misato. "Precisão cirúrgica. Morte instantânea."
A voz de Hyuga soou pelos alto-falantes, tensa, mas firme. "Com base nos dados que coletamos, presumimos que o alvo ataca automaticamente qualquer oponente dentro de um determinado raio. A chance de ele acertar qualquer coisa que entre em sua zona com o feixe de partículas é de 100%."
Asuka cruzou os braços, entediada. "Então não dá pra chegar perto. Ótimo. Vamos tacar pedras de longe, é isso?"
"Não. Vamos atirar nele," disse Misato. "De muito longe."
Kai sorriu, forçando coragem na voz. "Ah, então parece fácil! Temos armas, certo? É só atirar e derrubar o bicho!"
A voz de Misato veio seca, com um toque de ironia. "Não vai ser tão fácil assim."
Aoba completou: "O Campo A.T. dele está sempre ativo. E é tão forte que os deslocamentos de fase espacial são visíveis a olho nu."
Hyuga reforçou rapidamente: "Usar mísseis teleguiados, artilharia ou bombas vai causar mais danos em nós do que nele."
Ritsuko interveio, com calma, trazendo um mínimo de alívio. "Felizmente, conseguimos detectá-lo ainda sobre o oceano."
Aoba informou, alerta: "Neste momento, o alvo está passando sobre Tonosawa."
Asuka suspirou irritada, a sobrancelha se contraindo. "Então, pelo menos isso quer dizer que tiveram tempo de bolar alguma coisa parecida com uma estratégia de verdade?"
Misato deu um leve sorriso, aceitando o desafio implícito. "Claro que sim."
Ela ativou a tela principal, revelando o esquema de um rifle imenso. "Vamos iniciar a Operação Yashima. Levamos quase 9 horas para adaptar tudo, mas é nossa melhor opção. Esse rifle foi emprestado pela JSSDF: o Rifle Positrônico de Precisão Tipo Protótipo-20. Vai usar a energia de toda a rede elétrica japonesa — de uma vez — para um disparo. Talvez dois."
Kai estreitou os olhos, confuso. "JSS—o quê?"
Misato descartou rapidamente. "Força de Autodefesa Estratégica do Japão. Mas isso não importa agora."
Asuka bufou, os olhos cheios de confiança. "Então me dá logo esse rifle. Eu dou conta daquele cristal flutuante."
"Shinji vai fazer o disparo," esclareceu Misato, firme.
Todos os olhares se voltaram imediatamente para Shinji. Sua boca se abriu, o pânico invadindo seu rosto. "E-eu?"
Misato assentiu. "O sistema de mira da Unidade-01 já está calibrado para essa arma. Recalibrar outra unidade levaria tempo demais. Você é o único que pode fazer isso a tempo."
Ritsuko deu um passo à frente, clara e precisa. "Essa operação exige precisão absoluta. Como o feixe de pósitrons será influenciado pela gravidade, campo magnético e rotação da Terra, ele não seguirá uma linha reta. É necessário compensar essas variações. Você precisa atingir o núcleo com precisão."
Os olhos de Shinji se arregalaram com o medo crescente. "Eu... não sei se consigo. Eu nunca treinei para isso na minha vida..."
Ritsuko tentou sorrir, suave. "Não se preocupe, é como está no seu manual. Quando os indicadores se alinharem no centro, puxe o gatilho. O computador fará o resto. Depois do disparo, haverá um tempo de recarga — para resfriamento, recarga e troca de fusíveis."
Shinji empalideceu ainda mais. "Então, se eu errar e depois o inimigo atirar de volta..."
Misato suavizou o tom, um raro momento de gentileza. "Não precisa ser justo. Só precisa funcionar."
Shinji olhou de Misato para os esquemas do rifle, depois voltou. Então, com hesitação, assentiu devagar. "Tá bom. Eu vou fazer."
Kai deu um passo à frente, a preocupação visível no rosto. "Mas é seguro? Pelo menos ele vai atirar de longe, certo?"
Ritsuko respondeu com frieza cirúrgica. "Ele estará o mais distante possível, mas ainda dentro do alcance do Anjo. Nossa única vantagem é que, aparentemente, esse Anjo só pode atirar em uma direção de cada vez."
Misato assentiu com seriedade, encarando Kai e Asuka. "É aí que vocês entram. A Unidade-01 será posicionada perto do Monte Futago, na posição de disparo. As Unidades-02 e 04 serão lançadas na cidade para chamar a atenção do Anjo enquanto o rifle carrega."
"Asuka e Kai," continuou firme, olhando-os nos olhos com determinação, "vocês serão as iscas. Ramiel só pode atirar em uma direção por vez. Movam-se de forma errática, imprevisível. Atraiam sua atenção. Se ele travar em vocês, movam-se — imediatamente."
Asuka cruzou os braços, a raiva brilhando nos olhos. "É só isso? Nenhum plano B?"
A voz de Misato era firme, mas tensa.
"Vocês precisam manter o foco do Anjo longe do Shinji. Se ele atirar no Shinji—"
Ela parou, depois se virou para Rei com intensidade.
"Seu papel nessa operação é absolutamente crítico, Ayanami," disse, tocando um esquema na tela. "A Unidade-00 será posicionada à frente da Unidade-01 como escudo frontal. Você vai usar um escudo composto protótipo, resistente ao calor — reaproveitado do casco inferior de um antigo transporte orbital. É massivo e reforçado, mas não vai durar para sempre. Seu papel é bloquear o feixe de partículas de Ramiel tempo suficiente para que Shinji tenha um disparo limpo. A margem de erro é praticamente zero. Se você se mover, ele fica exposto. Então, uma vez na posição, mantenha-a. Custe o que custar. Entendido?"
Rei assentiu em silêncio, a expressão impassível.
"Entendido."
Sem cerimônia, voltou-se para seus preparativos, já concentrada — já deixando todos os outros para trás.
Kai lançou um olhar rápido para Asuka, respirou fundo e voltou a encarar Shinji. "Vamos ganhar tempo pra você, Shinji. Só... acerta esse tiro."
Asuka bufou. "Tsc. Claro que somos as iscas. Por que arriscar a preciosa Primeira Criança quando nós já estamos aqui fazendo o trabalho sujo?"
Kai olhou para Asuka, depois de volta para Misato. Ele não estava convencido — mas ninguém precisava saber disso. "Sem problema. A gente dá conta."
Misato deixou o silêncio durar, depois balançou a cabeça, um toque de ironia voltando. "E eu achando que você ia estar cansado demais hoje, Kai."
Kai sorriu. "Pra sua informação, eu dormi muito bem essa noite, tá?"
Asuka congelou, claramente pega de surpresa.
Misato ergueu as sobrancelhas. "Oooh, me desculpa. Uma noite bem dormida e o coração cheio? Alguém tá nas nuvens."
Kai tossiu na mão, escondendo o rosto enquanto Asuka fulminava os dois com o olhar.
Misato suspirou, o peso do plano estampado no rosto. "Concentrem-se, pombinhos. Isso não é um jogo. Ramiel já está se aproximando do perímetro externo de Tokyo-3."
Começaram a se preparar. Kai trocou um olhar com Shinji enquanto caminhavam.
"Ei. Valeu de novo por ontem. Me ajudou mais do que pensa."
Shinji sorriu de leve. "Foi bom. Você parecia mesmo que precisava. E, uh... obrigado por ouvir."
Kai notou o jeito como o olhar do amigo passou rapidamente pelo armário de Rei antes de desviar.
Asuka, à frente, gritou: "Tsc. Espero que vocês dois não estejam planejando um bromance antes da gente ser vaporizado."
"Nem sonhando," disse Kai, sorrindo.
Por um instante, Shinji pareceu se desligar. Olhou para o chão, mãos cerradas. Sua voz saiu baixa. "A gente... pode acabar morrendo hoje."
Antes que Kai respondesse, outra voz cortou o silêncio.
"Você não vai morrer," disse Rei, calma como se estivesse falando sobre o tempo. "Porque eu vou te proteger."
Kai piscou. Não esperava que ela falasse. Mas o jeito como ela disse — suave, firme — o tocou.
Era só dever? O jeito que ela falou parecia sincero. Como se estivesse pronta para morrer por ele. Ou pelo plano. Era difícil saber.
Ao se levantar, passando os dedos pela lateral do armário, Kai lançou um olhar a Asuka — já se alongando, fingindo desinteresse. Ele pensou:
Se fizermos nosso trabalho, Rei não vai precisar.
Entraram na baia de lançamento. Os Evangelions aguardavam como deuses adormecidos.
Asuka já subia no plug de entrada da Unidade-02, estalando os dedos enquanto o olhava. "Não congela, novato. Essa vai ser uma briga de verdade."
Kai percebeu que ela estava praticamente fingindo que nada tinha acontecido no dia anterior. Talvez fosse o melhor. Forçou um sorriso, tentando afastar o nervosismo.
Os plugs se selaram. O LCL preencheu seus pulmões. A ardência familiar. A mente do Eva tocou a dele.
Era real.
"A Operação Yashima começa agora," ecoou a voz de Misato.
Contagem regressiva.
5...
Kai apertou as mãos nos controles. Os dedos tremiam um pouco, mas era só adrenalina. Forçou-se a respirar.
4...
Sentia a Unidade-04 sincronizando com ele, a ressonância mais profunda agora. Silenciosa. Como se o Eva estivesse esperando.
3...
A voz de Asuka surgiu no rádio: "Vê se não estraga tudo."
2...
Shinji permaneceu em silêncio. Mas Kai podia imaginá-lo de olhos fechados, centrado. Focado.
1...
LANÇAR.
Os Evangelions foram lançados à luz da manhã. O vento rugiu ao redor.
No horizonte, Ramiel pairava em perfeita imobilidade — um deus inumano de simetria e morte.
AVISO: LEITURA DE ALTA ENERGIA DETECTADA.
A forma de Ramiel começou a brilhar.
Um pulso gigantesco estava se formando.
Kai travou o maxilar, o coração disparado enquanto os sensores da Unidade-04 ficavam vermelhos.
Chapter 38: Até o Limite / Disparo Decisivo
No momento em que atingiram o nível do solo, os cabos umbilicais se esticaram atrás deles — linhas grossas e enroladas sendo alimentadas pela energia da rede elétrica da cidade. Linhas de vida temporárias. Teriam cinco minutos se fossem cortados. Kai tentou não pensar nisso.
Um feixe de energia azul ofuscante rasgou o céu, atingindo com uma velocidade aterradora.
Kai mal teve tempo de reagir antes que o disparo atingisse as docas atrás dele, derretendo o aço como se fosse cera. Se ele tivesse hesitado um segundo a mais…
"Droga! É rápido demais!" A voz de Asuka estalou no comunicador. seu Eva-02 atravessava uma passarela elevada, depois saltava para o nível da rua a tempo de evitar outro feixe letal. "Não vou ficar aqui parada esperando virar alvo!"
No topo da colina perto do Monte Futago, a Unidade-00 permanecia absolutamente imóvel. Kai viu que Rei já estava em posição à frente do rifle de pósitrons — escudo travado, joelhos ligeiramente flexionados, como uma sentinela silenciosa, o escudo fixado no lugar. Ela não dizia nada. Apenas esperava. Se Ramiel virasse, mesmo que por um segundo, ela certamente estaria lá para interceptar o disparo.
Misato interrompeu com urgência: "OUÇAM! Se vocês se moverem de forma previsível, ele vai ajustar a mira e acertar. Alternem a direção dos movimentos, saltem, rolem — façam o que for preciso para atrapalhar a pontaria dele!"
Kai rangeu os dentes, tentando ler o campo de batalha. Ramiel pairava sobre a cidade como um espectro, seu corpo cristalino girando com uma serenidade maliciosa. O ar vibrava com sua energia — um zumbido antinatural que pressionava contra seu crânio.
Ele se abaixou atrás de um edifício parcialmente destruído justo quando o Anjo pulsou novamente.
BOOM!
Um feixe incandescente atravessou os prédios à sua frente, vaporizando-os em um único disparo. A Unidade-04 cambaleou com o impacto da onda de choque.
A voz de Misato estalou nos fones com força: "Shinji, desative as travas! Libere os sistemas de segurança finais! Agora!"
"Asuka! Vamos nos separar!" gritou Kai. "Ele não vai conseguir travar a mira em nós dois ao mesmo tempo!"
"Certo!" respondeu Asuka com firmeza. "Vou tentar contornar pelo lado oposto e atacá-lo por trás. Se você continuar atraindo o fogo, faz valer a pena, Kai!"
"Entendido," murmurou Kai, já em movimento. O núcleo do Anjo pulsou novamente — mirando nele. De novo.
Ele correu em direção a uma colina de fundações quebradas, tentando afastá-lo.
BOOM!
Outro feixe caiu atrás dele, vaporizando uma torre inteira. A onda de choque bateu como um martelo. O quadro da Unidade-04 vibrou como um diapasão.
A voz de Misato surgiu com intensidade: "Kai, Asuka — ouçam! Shinji vai poder atirar em breve. Vocês dois precisam manter o foco de Ramiel em qualquer coisa que não seja ele. Asuka, continue pressionando pelos flancos. Kai, continue atraindo a atenção dele!"
"Pode deixar comigo," respondeu Asuka, a voz mais tensa. "Contornando o bloco norte. Vou tentar me aproximar pelas costas enquanto ele mira em você."
Kai expirou bruscamente. "Misato! Quanto tempo falta pro tiro? Tá pronto?"
"Ainda está carregando — sessenta segundos," retrucou Misato com urgência. "Shinji está preparando o disparo. Só mantenham esse monstro ocupado!"
Ritsuko interrompeu abruptamente, sua voz clínica e tensa: "Esperem—temos novas informações. Parece que a estrutura do Anjo muda dinamicamente quando ele ataca ou se defende. Seu núcleo fica brevemente exposto durante essas transições. Se conseguirem forçá-lo a manobras de combate, abrirão uma brecha para o Shinji."
Misato reforçou com determinação: "Ouviram ela! Façam o Anjo reagir, exponham o núcleo, e o disparo do Shinji terá um alvo claro."
"Entendido!" disse Kai, sentindo a adrenalina subir. "Vou manter ele me olhando. Asuka, veja se consegue um bom ângulo para expor o núcleo!"
"Não me dá ordens, novato!" respondeu Asuka, irritação misturada à tensão. "Só não estrague tudo!"
Kai correu entre escombros, deliberadamente provocando outro disparo — BOOM! — que obliterou um trecho inteiro de via elevada atrás dele. A força destrutiva de Ramiel era absurdamente avassaladora. Um erro significava a morte, hesitar não era uma opção.
À distância, Rei apertou sutilmente as empunhaduras do escudo. Não disse nada — mas em seu cockpit, o HUD piscava com cada pico da assinatura de energia do Anjo. Ela observava. Calculava. O momento em que falhassem, ela agiria.
A voz de Asuka surgiu mais próxima: "Estou em posição nos telhados, lado nordeste. Posso ver o núcleo! Está totalmente focado em você agora."
Kai apertou o controle com força. Esse era o momento crucial.
"Perfeito," murmurou. "Vamos manter assim."
Asuka abriu fogo com seu rifle de onde estava, os tiros ricocheteando na casca do Anjo. A estrutura cristalina os absorveu completamente — mas inclinou, levemente, com o impacto. Distraído.
Kai aproveitou o momento. "Vem, seu maldito cristal ambulante! Tô bem aqui!"
Ele ergueu seu próprio rifle e disparou três rajadas — não para causar dano, mas para provocar. O núcleo de Ramiel voltou a girar em sua direção, travando novamente.
"TRINTA SEGUNDOS!" gritou Misato. "Mantenham o foco dele!"
Outro pulso começou a se formar — mais rápido agora.
"SE MEXE, KAI!" gritou Asuka. "Ele tá carregando de novo!"
Ele se lançou com força, e um novo feixe rasgou a colina onde estivera escondido. Poeira e fogo o envolveram. Os sensores gritavam em protesto. A visão, turva.
"Não vai dar pra ficar pulando pra sempre!" grunhiu. "Asuka, pode tentar tirar um pouco do foco de mim?"
Ela não respondeu com palavras.
O Eva-02 saltou de um lado destruído da ponte e lançou uma rajada de fogo direto no ápice de Ramiel. O Anjo hesitou — ligeiramente — mas ainda assim continuava mirando em Kai.
"Tch — tá de brincadeira?! Nem olha pra mim?! Eu tô aqui, maldito!"
Ela rosnou pelo comunicador: "Tô acertando ele direto e não faz diferença — o que você tem de tão especial, hein?!"
O feixe desviou apenas um pouco, errando Kai por alguns metros.
"De nada," disse Asuka, ofegante. "Da próxima vez, tenta não morrer antes de acabarmos com ele."
"QUINZE SEGUNDOS!" alertou Misato. "Mantenham o núcleo exposto!"
"Entendido!" gritou Asuka. "Shinji-idiota, espero que esteja pronto pra fazer sua parte."
"Tô pronto!" Shinji respondeu, voz trêmula. "Já tô com ele na mira!"
"Novato-idiota! Para de correr feito louco pro meio do perigo!" esbravejou Asuka. "Tá se tornando um alvo maior do que devia!"
Kai girou com força, correndo o máximo que podia, desviando de destroços e ruas destruídas. "Relaxa. É mais fácil desviar dos ataques do que das suas broncas histéricas."
Asuka bufou. "Tsc. Eu mesma te mato se você não morrer se achando."
Kai sorriu tenso. Então, para Shinji, mais firme: "Vai, Shinji! Você consegue!"
Ramiel virou de novo. Seu núcleo brilhou em branco ofuscante.
Dez segundos.
Alarmes soaram quando o Anjo travou a mira.
Kai se preparou para se lançar de novo — mas de repente seu Eva foi puxada com força. O cabo umbilical havia se enrolado em suas pernas, fazendo-o tropeçar no pior momento possível. Ele caiu, se estatelando sobre os escombros.
O feixe do Anjo cortou o ar.
BOOM!
A explosão iluminou o céu.
A dor explodiu na mente de Kai. Ambos os pés do seu Eva foram obliterados instantaneamente, vaporizados pelo disparo. O plug de entrada brilhou em vermelho com alertas urgentes.
AVISO — FUNÇÃO DE MEMBROS PERDIDA
O LCL fervia violentamente contra sua pele com o retorno neural, uma agonia dilacerante em cada nervo. Kai gritou — a dor era real demais.
Ele não esperava doer tanto. Não de verdade. Seu primeiro golpe real. A taxa de sincronização amplificava cada sensação, e agora, a dor atravessava seu corpo como se fosse a própria carne sendo consumida.
"KAI!" A voz de Asuka rachou, tomada por algo cru.
"Estou vendo o alvo!" A voz de Shinji tremia, mas era firme. "Mira travada — ATIRANDO AGORA!"
O canhão de pósitrons disparou com um rugido estrondoso, lançando um feixe de energia azul-branca sobre o horizonte.
O disparo atingiu o núcleo de Ramiel em cheio.
O tempo pareceu parar.
Então—
O Anjo uivou.
Sua geometria perfeita rachou, depois se despedaçou. Toda a forma se desestabilizou e detonou em uma explosão de estilhaços vermelhos e violetas. Uma luz carmesim intensa irrompeu do núcleo rompido enquanto uma explosão maciça em forma de cruz sacudia os céus.
Um segundo depois, silêncio.
Apenas a respiração irregular de Kai preenchia seu plug de entrada.
Misato soltou um suspiro trêmulo. "Foi um tiro limpo. Anjo neutralizado."
Asuka foi a primeira a falar. "Shinji… não é que você conseguiu?!"
Kai exalou, mal conseguindo falar: "Ótimo… trabalho… pessoal…"
"Acabou?" perguntou Shinji.
Kai se largou no assento. O corpo latejava. Os braços, dormentes. Já não sentia mais as pernas.
A voz de Misato voltou, agora com preocupação aguda: "Kai! Fica comigo! Vamos tirar você daí!"
O Eva desligou. O vínculo neural foi desfeito. Tudo ficou espesso e lento, como mel.
A luz invadiu o cockpit quando o plug de entrada foi ejetado.
Vozes ao redor. Mãos o alcançavam.
Asuka foi a primeira que ele viu.
Ela agarrou seus ombros, inclinando-se sobre ele, olhos arregalados.
"Idiota," ela sussurrou. "Você me deu um susto de verdade."
Então — sem dizer mais nada — sua mão apertou a dele. Forte.
Kai tentou sorrir… mas tudo já estava escurecendo.
A voz de Misato ecoou de novo, agora distante: "Vamos levá-lo pra ala médica. Rápido."
Kai estava perdendo a consciência.
E tudo ficou preto.
Capítulo 39: Sala de Recuperação / O Que Não Dizemos
Escuridão. Silêncio. Então... um bipe fraco.
Os sentidos de Kai voltaram devagar. O zumbido rítmico de equipamentos médicos. A maciez de uma cama de hospital sob seu corpo. Sua cabeça parecia pesada, mas a dor insuportável havia diminuído.
Uma voz — aguda, familiar, mas mais suave que o normal.
"...É bom você acordar logo, idiota. Não vou ficar aqui o dia todo."
Ele reconheceu aquela voz na hora. Asuka.
Piscando contra as luzes fracas, forçou os olhos a se abrirem.
Ela estava sentada ao lado dele, braços cruzados, postura defensiva — mas os olhos fixos nos dele. O fogo habitual ainda estava lá, mas mais brando. Como se algo tivesse se quebrado por dentro.
"Tsc. Demorou, hein," resmungou.
Kai soltou um suspiro lento, olhando ao redor do quarto. "Ah não... o que aconteceu... quantos dias eu fiquei inconsciente...?"
Asuka arqueou a sobrancelha. "Vinte minutos."
Kai piscou. "Espera. O quê?"
Ela revirou os olhos. "É. Você desmaiou da dor. O retorno neural te pegou em cheio, mas não tem nenhum ferimento real. Os hematomas que você tem? Isso é só do acidente de kart ontem à noite, gênio."
Kai gemeu, cobrindo o rosto. "Ah, meu Deus..."
Asuka deu um leve sorriso, mas não chegou a se tornar um deboche completo. "É, bom, talvez se você parar de se jogar na frente dos ataques dos Anjos feito um completo idiota, não vai acabar na enfermaria toda hora."
Apesar do sarcasmo, sua voz não tinha dureza. Apenas uma preocupação quieta que ela não conseguia esconder.
Ela se mexeu na cadeira. "A Misato disse que você vai ficar bem. Sem danos permanentes. Você só sobrecarregou a taxa de sincronização. E desmaiou feito um idiota dramático."
Ela desviou o olhar brevemente. "O Shinji também está bem. Ele realmente se saiu bem dessa vez."
Kai virou-se para ela, tentando ler o subtexto na voz dela.
Rapidamente, ela olhou de volta para ele, como se tivesse percebido o olhar analítico dele, e perguntou, tentando soar casual:
"...Como você tá se sentindo?"
Ele tentou dar um olhar tranquilizador. "Ei! Tô bem. Não se preocupa. Só fiquei um pouco enrolado naqueles cabos malditos. E... não esperava que fosse doer TANTO assim."
"Idiota," Asuka rebateu de imediato. "Tinha que ser você pra tropeçar em si mesmo. Que vergonha."
Ela deu um leve soco no ombro dele — como se quisesse ter certeza de que ele ainda estava ali.
"É claro que doeu, imbecil," murmurou. "Você devia ter ouvido a Misato gritando quando aconteceu. Achei que ela ia surtar."
Então, a voz dela suavizou de novo — quase um sussurro.
"...Achei que a gente fosse te perder."
Ela pigarreou, desviando o olhar. "Mas tanto faz. Você sobreviveu. Só... da próxima vez, nada de bancar o herói inconsequente, entendeu?"
Kai sorriu, alcançando a mão dela. "Obrigado. Significa muito você estar aqui."
Asuka revirou os olhos. "É, bom... alguém tinha que garantir que você não fosse fazer mais besteira."
Uma pausa.
"...E não é como se eu fosse te deixar sozinho depois daquilo."
A expressão dela suavizou por um momento antes que cruzasse os braços novamente. "Enfim! É bom você se recuperar logo, porque eu não vou ficar carregando você por aí se não conseguir andar."
Kai riu. "Confia. Tô bem. Na verdade, confesso... foi bem melhor lutar contra esse Anjo do que contra o último."
Asuka se recostou na cadeira, olhos ainda fixos nele. "É, eu entendo. Pelo menos esse foi uma luta de verdade. Você podia fazer alguma coisa. Não só ficar sentado enquanto ele caía na sua cabeça."
Ela hesitou, depois murmurou quase inaudível: "...Mesmo assim. Você me assustou, seu idiota."
Ela pigarreou de novo. "Mas tanto faz! Você teve sorte. Só não transforma isso num hábito, entendeu?"
Kai sorriu. "Nada de perder os pés de novo. Prometo."
Asuka bufou. "Ótimo. Porque eu não vou começar uma rotina de visitas semanais ao hospital."
Depois, após uma pausa, ela cutucou o braço dele. "Mas olha... até que você mandou bem lá fora. Até o Shinji também. A gente até parecia um time de verdade."
Ela sorriu de lado. "Não tão bem quanto eu, obviamente, mas ainda assim."
Os olhos dela encontraram os dele — só por um segundo — antes de se desviar novamente.
"Enfim, vou deixar você descansar. Mas se tentar bancar o imprudente de novo, sou eu que vou te arrebentar da próxima vez."
Kai inclinou a cabeça, sorrindo. "Você devia ir pra casa e descansar também. Vamos sair mais tarde, que acha? Sei que ainda te devo aquela aposta."
Asuka ergueu uma sobrancelha. "Tsc. Isso mesmo que deve. Ainda não decidi como usar meu dia inteiro de servidão do Kai."
Então, quase casual demais, ela acrescentou: "...Talvez eu só te faça passar o dia inteiro carregando minhas compras. Ou mande você limpar meu quarto."
Ela sorriu — mas havia um brilho diferente nos olhos. Como se parte dela não estivesse brincando.
Kai riu. "Prefiro enfrentar outro Anjo."
Asuka se levantou e se espreguiçou. "Só não faz nenhuma besteira enquanto eu estiver fora, ok?"
Kai lhe deu um sorriso cansado. "Relaxa. Não pretendo ficar aqui por muito tempo. Te mando mensagem depois do almoço."
Ela hesitou por um momento — como se quisesse dizer algo mais. Mas apenas lançou o cabelo sobre o ombro.
Parou na porta, a voz mais suave que o habitual. "Até mais, idiota."
E com isso, virou-se e saiu.
Kai recostou-se lentamente, afundando na cama. O bipe constante dos monitores. O zumbido suave das luzes. Uma paz artificial e silenciosa.
Seus pés ainda doíam. Ou melhor... não doíam. A dor fantasma era mais estranha do que esperava.
Mas ela esteve ali.
Ela se importava.
Seus olhos se fecharam. E dessa vez, deixou o sono levá-lo com leveza.
Capítulo 40: Relatório de Dados / Alvo Desconhecido
O sono veio rápido, puxando Kai para um mergulho profundo e cheio de sonhos. Flashs da batalha, a energia ofuscante de Ramiel, a dor insuportável de perder os pés do seu Eva. Mas então, momentos mais suaves emergiram — a voz de Asuka, sua mão tocando a dele, risadas no parque de diversões. Em algum ponto do sono, ele sorriu.
Quando acordou de novo, o quarto do hospital estava quieto, a luz da tarde filtrando-se pelas persianas. A dor nos pés agora era suportável. Ele se espreguiçou levemente, testando o corpo. Tudo parecia estar funcionando. Uma bandeja com comida intocada estava próxima, e na mesinha de cabeceira, um bilhete de Misato junto com seu celular.
Depois de terminar a refeição insossa, mas necessária, pegou o bilhete e o desdobrou. A caligrafia casual de Misato o cumprimentou:
"Ei, dorminhoco. Você mandou bem lá fora. Tenta não se explodir da próxima vez, beleza? Os médicos disseram que você vai ficar bem. Só não força a barra. A Asuka passou aqui mais cedo. Ela parecia... preocupada, mas não diga que eu disse isso. Vai com calma e me encontra na sede quando estiver pronto. – Misato"
Kai sorriu. Típico da Misato. Pegou o celular e conferiu as mensagens:
Asuka: "É bom você acordar logo, idiota. Não me faça voltar aí pra te arrastar de novo." (Enviado uma hora atrás.)
Shinji: "Ei, soube que você tá bem. Fico feliz. Descansa aí, cara."
Misato: "Quando estiver de pé, vem falar comigo na sede. Sem pressa, mas temos que conversar."
Ele sorriu levemente. Era bom saber que se importavam.
Respondeu rapidamente a cada um:
Para Asuka: "Tô acordado! Vou passar na sede pra falar com a Misato, depois quer me encontrar no parque do viaduto?"
Para Shinji: "Tô bem sim, cara! Mandamos bem lá fora, né? Falo contigo depois!"
Para Misato: "Tô indo!"
Ele se espreguiçou mais uma vez antes de se levantar. Seus pés ainda doíam, mas nada insuportável. Ao sair, o celular vibrou novamente:
Asuka: "Demorou, hein. Não vou ficar esperando o dia inteiro só porque você tá andando feito tartaruga. E sim, te encontro lá. Não atrasa."
Shinji: "Haha, sim, foi demais. A gente se fala depois!"
A sede da NERV estava no mesmo ritmo de sempre, um labirinto de técnicos e oficiais ocupados com seus afazeres. Alguns acenaram ao vê-lo passar. Quando entrou no escritório da Misato, foi recebido por uma cena familiar — Misato recostada na cadeira, bebendo uma lata de cerveja, papéis espalhados pela mesa.
Ela levantou os olhos ao vê-lo entrar, sorrindo. "Olha só quem tá de pé! E os pés, como estão? E antes que diga ‘tô bem’, lembra que posso te tirar de combate se exagerar."
Ela apontou para a cadeira, o rosto ficando mais sério.
"Te chamei aqui porque temos umas informações da batalha que você devia ouvir. A Ritsuko e a equipe dela analisaram o comportamento do Ramiel e… bem, tem algo estranho no sistema de mira dele. Ele te priorizou."
Kai franziu a testa. "Ele queria me atingir especificamente?"
Misato se inclinou à frente, colocando a lata sobre a mesa com um baque. "Foi estranho. Demais pra parecer aleatório. Ele te travou no momento em que você entrou em posição, e mesmo depois de você desviar, recalibrava mais rápido do que o esperado pra continuar te seguindo. Alguma ideia do porquê?"
Ele tentou pensar — por que um Anjo iria querer ele morto? Ele não tinha conhecimento especial sobre Evas ou Anjos. Nada em seu passado gritava ‘alvo’. A menos que… não fosse sobre ele.
"…Talvez algo com o Eva-04?" sugeriu. "Acho que ele é um modelo americano, né? Talvez tenha a ver com isso?" Ele hesitou, percebendo que estava divagando. "Sei lá. Vai ver o esquema de cores prateado cromado chamou atenção?"
Misato suspirou, massageando as têmporas. "É, o Eva-04 foi desenvolvido na Segunda Filial da NERV. Aquele projeto teve… problemas. E agora você tá aqui, pilotando ele. É possível que tenha algo nele que chamou a atenção do Anjo. Mas essa teoria das cores? Não colou."
Ela exalou fundo. "Olha, eu não gosto de variáveis desconhecidas — e você tá virando uma. Não duvido da sua lealdade, mas preciso saber — tem certeza de que não há nada no seu passado que te tornaria um alvo? Nada que esteja escondendo de mim?"
Kai piscou. "Achei que… vocês sabiam tudo sobre mim. Não tem um arquivo ou algo assim?"
Misato se inclinou, cotovelos na mesa. "Claro que temos um arquivo. Mas os registros da NERV? Cheios de buracos. Quando te recebemos, boa parte da sua história pessoal estava classificada, ausente ou simplesmente vaga. Sabemos o básico. Mas isso não significa que sabemos tudo."
Ela o encarou. "Tem certeza de que não tem nada estranho no seu passado? Nenhuma conexão incomum com a NERV, os Evas, ou até mesmo os Anjos?"
Kai hesitou, depois falou com sinceridade. "Misato, você sempre foi gentil comigo. Quando cheguei, me sentia totalmente deslocado, mas você tornou tudo mais fácil. Agora, sinto que pertenço. Sou muito grato por isso."
Kai respirou fundo, com memórias surgindo. Suas mãos se apertaram sobre os joelhos, os nós dos dedos esbranquiçados. Finalmente, falou com a voz baixa, mas firme.
"Cresci no Brasil. Como deve saber, depois do Segundo Impacto, toda a área costeira se perdeu, mas a vida continuou no interior, nas cidades montanhosas. Não era exatamente seguro, mas era normal o suficiente pra mim. Eu morava com minha mãe e meu irmão mais velho. Era… bom. Nada pra reclamar, de verdade."
Seus olhos desceram, fixos nos punhos cerrados. "Até que, uma noite… invadiram nossa casa. Minha mãe… ela tentou proteger a gente. Eu era só uma criança, meu irmão também. Ela foi... Mataram ela. Bem na nossa frente. Não pude fazer nada. Só assisti o sangue se espalhar."
A voz de Kai falhou, ele engoliu seco, a mandíbula travada. Continuou, com amargura crescente. "Tudo ficou muito difícil depois disso. Ainda mais quando meu irmão desapareceu um tempo depois. Simplesmente… sumiu." Seus punhos apertaram mais, a raiva passando brevemente por seu rosto. "Nem sei o que houve com ele. Talvez só tenha ido embora, talvez tenha sido forçado. Eu não estava bem naquela época, e sinceramente, muita coisa daquele tempo é um borrão."
Ele voltou a olhar para ela, forçando a voz a se firmar novamente. "E é isso. Desculpa. Nada a ver com Evas, Anjos — nem com a NERV."
Misato o observou, o olhar agora mais suave. Suspirou baixinho, com pesar. "Caramba… eu não fazia ideia. Sinto muito por isso."
Ela se recostou. "Isso torna tudo ainda mais estranho. Por que você? Por que aquele Anjo ficou tão fixado em você?"
Depois de uma pausa, ela esboçou um leve sorriso. "Você não é secretamente algum experimento científico bizarro, né?"
Kai riu, depois hesitou. "…Será que eu saberia se fosse?"
Misato considerou, deu de ombros. "Provavelmente não. Mas duvido. Você tem memórias, um passado, uma família. Isso não é o tipo de coisa que a NERV inventa. Ainda assim…"
Ela se levantou e se espreguiçou. "Olha, se algum dia começar a lembrar de algo estranho, promete que vai vir falar comigo primeiro."
Kai assentiu. "Combinado."
Misato sorriu. "Bom. Agora, fora daqui. Acho que tem alguém te esperando."
Kai sorriu de leve, já seguindo para a saída. Ele tinha um lugar onde precisava estar.
Capítulo 41: Servo por um Dia / As Regras da Asuka
Quando Kai chegou ao parque próximo ao viaduto, o sol da tarde já começava a se pôr, lançando faixas douradas entre as árvores. Asuka já estava lá, de braços cruzados e pé batendo no chão, exatamente como ele imaginava.
"Até que enfim. Achei que ia me fazer esperar o dia todo."
Ela então disse: "E aí? Você tá com uma cara de quem acabou de levar uma varetada no cérebro. O que a Misato queria?"
Kai hesitou, mas suspirou, tentando afastar a frustração. "Desculpa. Tô meio... frustrado, sabe? Dei o meu melhor na batalha, passei a manhã inteira num maldito quarto de hospital, e aí a Misato..."
Ele parou, percebendo que não queria despejar tudo aquilo nela. Não estava ali pra ficar remoendo.
Asuka levantou uma sobrancelha, mas não insistiu. Em vez disso, soltou um pequeno suspiro e se aproximou, inclinando a cabeça enquanto o observava.
"Tsc. Você tem direito de não ser perfeito o tempo todo, sabia? Nem todo mundo pode ser como eu."
Ela sorriu, tentando aliviar o clima, mas havia uma suavidade em sua voz que revelava algo mais profundo. Então, sem aviso, pegou seu pulso e o puxou para um banco sob as árvores, se jogando nele e arrastando Kai junto.
"Chega de drama. Você sobreviveu, não sobreviveu? E vencemos. É isso que importa. Então para de remoer e vamos fazer algo que não envolva você se afogar em pensamentos."
"Já que estamos aqui, podíamos fazer alguma coisa." Ela levou a mão ao queixo, fingindo estar pensativa. "Hmmm... filme? Sorvete? Ou talvez... começar a cobrar aquela aposta que você perdeu ontem?"
Kai sorriu. "Hmmm... sorvete é uma boa! E sim, estou à sua disposição hoje. Eu perdi a aposta, afinal."
Asuka sorriu, claramente se divertindo com a obediência. "Ah, nem pense que vou pegar leve com você."
Aquilo, na verdade, fez Kai se sentir melhor. Talvez fosse exatamente o que ele precisava agora. De algum modo, Asuka conseguia fazer com que ele parasse de pensar tanto em seu passado.
Ela começou a andar à frente, acenando para que ele a seguisse. "Certo, servo-por-um-dia, primeira parada: sorvete. Mas não pense que isso é tudo que eu planejei pra você." Ela olhou por cima do ombro, os olhos brilhando de malícia. "Vou aproveitar cada segundo disso."
Kai olhou o relógio e sorriu. "Ok, o seu tempo está contando. Aproveita enquanto pode. Mas não se acostuma, viu?"
Asuka sorriu, entrelaçando as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava. "Pode deixar, vou aproveitar ao máximo. Vai ver, no fim do dia, você vai até gostar de me obedecer."
Eles pararam diante de uma barraca de sorvete, e Asuka bateu o dedo no queixo dramaticamente. "Certo, súdito leal, me compre um sorvete de morango. O maior que tiver. E nada pra você—lembre-se que hoje você só está aqui pra me servir."
Kai arregalou os olhos. "Sério? Nem uma casquinha pequena? Cruel."
Asuka sorriu de forma doce. "Nada disso. Você tá de serviço. Sofra pela minha diversão."
Kai suspirou dramaticamente, depois se endireitou e fez uma continência exagerada. "Sim, senhora. Darei o meu melhor, senhora."
Ele fez o pedido, tentando conter o riso. Voltando-se para Asuka com uma reverência teatral, apresentou o sorvete gigante como se fosse um artefato sagrado. "Aqui está, alteza. Apresento a você: sorvete!"
Asuka ergueu uma sobrancelha e pegou o sorvete, sorrindo. "Hmph. Nada mal. Certo, servo, você está perdoado por enquanto," ela brincou, dando uma mordida satisfeita.
Ela voltou a andar, acenando para que ele a acompanhasse. "Então, já que você está preso às minhas ordens, o que será que eu te mando fazer agora? Me carregar pra casa? Comprar uma coroa? Anunciar pra cidade inteira que eu sou a melhor piloto de todos os tempos?"
Seu sorriso era pura provocação.
Kai riu. "Não sei não, alteza... isso não é tipo o encontro que eu tinha planejado com tanto cuidado. Mas você quis assim! Vamos ver se consegue manter o controle!"
Asuka sorriu, claramente adorando a vantagem. "Ah, não se preocupe, vou fazer valer a pena." Ela deu outra mordida no sorvete, com um olhar de quem tramava algo.
Então, com um sorriso travesso, se virou pra ele. "Certo, segunda ordem: me carrega nas costas."
Ela cruzou os braços, desafiando-o a recusar. "O quê? Você mesmo disse, hoje é o meu dia de fazer o que quiser. Então, vamos lá, servo!"
Ela inclinou a cabeça. "Ou será que você é fraco demais pra carregar a grande Asuka Langley Soryu?"
Kai a avaliou de cima a baixo, fingindo ponderar. "Não, você parece leve o suficiente. Sobe nos meus ombros!"
Com uma reverência exagerada, ajoelhou-se como se prestasse homenagem à sua rainha.
Asuka ergueu uma sobrancelha, satisfeita com o entusiasmo dele. "Hah! Sabia que ia ceder!"
Ela deu mais uma mordida no sorvete e subiu com facilidade nos ombros dele. "Avante, cavalo! Rumo à vitória!" ela ordenou, apontando dramaticamente para a frente, como uma general conquistadora.
Pessoas na rua olhavam—algumas rindo, outras balançando a cabeça. Mas Asuka? Estava claramente se divertindo como nunca. Ela se inclinou um pouco, sorrindo. "E aí? Arrependido da aposta?"
Kai sorriu, firme. "Só um pouco. Aproveita enquanto pode, majestade. Vai ter volta."
Ela riu, sua voz brilhando por cima do barulho da cidade.
E assim, a tensão da ala médica, do campo de batalha, das perguntas sem resposta—tudo desapareceu. Mesmo que por um instante.
Kai tentou manter uma expressão séria, mas ver a empolgação de Asuka era contagiante. Ainda assim, ele não podia deixar que ela percebesse.
Ele gemeu de forma dramática. "As coisas seriam totalmente diferentes agora se eu tivesse vencido, sabia? Você estaria sendo mimada de um jeito completamente diferente."
Asuka bufou, mas sua expressão petulante era inconfundível. "Ah, por favor, como se você soubesse mimar uma garota de verdade." Ela deu um leve tapinha na nuca dele. "Além disso, isso aqui é muito mais divertido! Devia me agradecer por te dar uma experiência tão valiosa."
Então, sem aviso, ela mudou ligeiramente o peso do corpo. "Agora, avante, meu corcel fiel! Quero ver o quanto você consegue correr!"
Kai mal teve tempo de reagir antes de sentir as mãos dela apertarem seus ombros — metade como desafio, metade por segurança.
"Ok, você que pediu! Segura firme!" ele avisou, antes de disparar em uma corrida.
Asuka soltou um grito de surpresa, que logo virou uma gargalhada. "Kai, seu maluco!!! Diminui antes que a gente se arrebente!!!"
Mas nenhum dos dois se importava. O mundo ao redor virou um borrão, e naquele momento, era só eles dois, tomados por uma energia ridícula e eletrizante. Algumas pessoas olhavam, algumas riam, outras balançavam a cabeça, mas eles não ligavam.
"Ok, ok, você venceu! Você é o mais rápido, forte, o quadrúpede mais incrível do mundo! Agora para antes que eu derrube meu sorvete!!!" ela arfou entre risadas.
Kai parou bruscamente, ambos ofegantes. Asuka pulou dos ombros dele, ainda corada pela empolgação. Limpando uma lágrima dos olhos, ela se virou com um sorriso. "Droga... odeio admitir, mas isso foi meio divertido."
Ela cutucou o braço dele. "Mas não fica todo convencido, idiota. Você ainda tem um dia inteiro pra fazer tudo que eu mandar!"
Kai se curvou, ofegante. "Ok... ok... minha rainha... me dá um segundo pra respirar... eu não devia estar fazendo isso depois de praticamente perder os dois pés." Disse isso entre risadas e arfadas.
Asuka cruzou os braços, olhando para ele com um sorriso malicioso. "Hah! Já tá exausto? E eu achando que você era esse piloto de Eva todo durão e imparável." Ela se abaixou um pouco, dando um peteleco na testa dele de leve. "Acho que até você tem seus limites, né?"
Ela lambeu o sorvete lentamente, claramente saboreando o momento. "Certo, vou ser misericordiosa." Ela fez um gesto dramático com a mão, como se concedesse um perdão real. "Pode descansar... por enquanto."
Kai se arrastou até o banco mais próximo e despencou ali. Observou ela comer, recuperando o fôlego antes de sorrir. "Eu poderia... dar uma mordida nisso aí... não acha?"
Asuka arqueou a sobrancelha, protegendo o sorvete como se fosse um tesouro. "Ah? Quer uma mordida? Mas esse sorvete é meu, e até onde eu sei, você perdeu a aposta." O sorriso dela se alargou enquanto girava o cone levemente. "Não lembro de ter incluído `dividir' nas regras."
Ela deu uma mordida com elegância fingida, certificando-se de que ele visse o quanto ela estava curtindo. Depois de um momento teatral, suspirou e revirou os olhos.
"Tá, tá. Já que eu sou uma rainha tão gentil e benevolente, vou permitir." Ela estendeu o cone em direção a ele — mas assim que ele se inclinou para dar a mordida, ela puxou o sorvete de volta no último segundo.
"Opa! Mudei de ideia." Ela riu, os olhos brilhando de travessura. "Acho que você vai ter que se esforçar mais, servo."
Kai jogou a cabeça pra trás com um gemido. "Ha-ha-ha, você é tão cruel!"
Asuka sorriu, saboreando a frustração dele. "Tch, você sabia onde estava se metendo quando fez aquela aposta. Não venha bancar o surpreso agora!"
Então, como se tivesse uma ideia repentina, ela inclinou a cabeça. "Hmmm... talvez eu te dê uma mordida se você fizer algo divertido. Dança pra mim, plebeu!" Ela se recostou no banco, completamente no controle. "Vamos lá, você perdeu de forma justa! Eu mereço um pouco de diversão, não acha?"
Kai lançou um olhar cético. "Sério? Dançar? Dançar?? Eu sou péssimo nisso. Muito mesmo."
"Exato! É isso que torna tudo mais divertido pra mim!" O sorriso de Asuka se alargou. "Vamos, Kai, você disse que faria tudo o que eu quisesse por um dia. Vai voltar atrás agora?"
Ela deu outra mordida exagerada no sorvete, saboreando. "Hmm... que pena. Eu até ia deixar você dar uma mordida se fizesse um bom show." Ela balançou o cone de forma provocadora.
"Acho que você nunca vai saber o quão gostoso tá isso aqui."
Kai gemeu, balançando a cabeça. "Ok, ok..."
Ela deu outra mordida lenta e dramática. "É melhor começar a se mexer, Kai, ou talvez eu aumente pra dois dias de servidão."
Kai gemeu novamente, mas por fim cedeu. Respirou fundo, levantou-se e começou a se mover desajeitadamente, os braços e pernas flutuando de forma ridícula. Era menos uma dança e mais uma tentativa desesperada de cumprir sua missão.
Asuka caiu na gargalhada, quase deixando o sorvete cair. "Meu Deus! O que é isso?! Você tá tendo uma convulsão?!"
Ela limpou uma lágrima no canto do olho, ainda rindo. "Tá bom, tá bom, vou ajudar sua desculpa patética de dança." Tirando o celular do bolso, ela rolou a playlist até encontrar a música certa e deu play. Uma batida rápida e animada começou a tocar pelos alto-falantes.
"Pronto! Agora não tem mais desculpa, Kai! Mostra o que você sabe!" disse ela, de braços cruzados, se divertindo horrores.
Kai olhou ao redor, certificando-se de que ninguém conhecido estava por perto. Então, engolindo o orgulho, começou a dançar no ritmo da música. Seu rosto ficou vermelho como um tomate.
O sorriso perverso de Asuka se alargou. "Uau, é ainda pior do que eu imaginei!" ela provocou, mal conseguindo conter o riso.
Alguns transeuntes olhavam para eles — alguns entretidos, outros confusos — mas nada disso importava. Só a reação de Asuka contava. E ela estava amando cada segundo.
De repente, sem aviso, ela se juntou a ele, dançando com muito mais confiança e ritmo. "Vamos, se vamos fazer isso, pelo menos tenta me acompanhar!" disse ela, lançando um sorriso provocador.
Kai ainda estava morrendo de vergonha, mas... ela estava dançando com ele. Talvez isso não fosse tão ruim assim.
Ele balançou a cabeça, rindo. "Agora você só quer me humilhar mais!"
Asuka girou com leveza antes de apontar para ele. "Ah, por favor! Você tá fazendo isso muito bem sozinho!" ela provocou, mas sem maldade — só diversão genuína.
Ela continuou dançando, confiante e solta, e por um momento, o mundo ao redor desapareceu. Só restaram a música, a energia e os dois mergulhados naquele instante.
Então, de repente, ela se aproximou e deu uma leve encostada com o quadril no dele. "Aí, agora você tá dançando melhor. Só me segue, bobão."
A expressão dela ainda era brincalhona, mas havia algo mais ali — como se ela realmente estivesse curtindo aquilo.
Ela segurou as mãos dele e o puxou pra mais perto, guiando seus movimentos com os dela. "Viu? Não é tão ruim quando você para de pensar demais."
A música continuava, o mundo parecia mais leve, mais brilhante. E por um instante, eram só eles dois, se movendo juntos — sem apostas, sem competições, sem Evas ou batalhas. Só eles.
Kai riu, surpreso consigo mesmo. "Uau! Não sabia que conseguia fazer isso!"
Asuka riu também, balançando a cabeça. "Tsc. Você é tão bobo," disse ela, mas sem nenhuma acidez. Em vez disso, pegou sua mão e o guiou por mais alguns passos, seus movimentos fluidos e naturais.
Ela girou mais uma vez e, dessa vez, quando voltou a encará-lo, estava sorrindo — de verdade, com tudo. A música, as luzes, a energia da cidade... tudo desapareceu naquele momento.
"Você tá melhorando," ela admitiu, apertando a mão dele rapidamente antes de soltá-la. "Acho que não preciso mais morrer de vergonha de ser vista dançando com você."
Kai tentou imitar os movimentos dela, rindo de si mesmo. "Confesso que nunca tive motivação pra isso antes! Mas agora... totalmente motivado!"
Asuka o encarou, o sorriso vacilando só um pouco antes de bufar e jogar o cabelo pra trás. "Tsc. Você realmente sabe como dizer coisas constrangedoras com naturalidade, né?"
Mas ela não parou de dançar. Na verdade, parecia estar se divertindo ainda mais agora, seus movimentos graciosos como se tivesse nascido pra isso.
"É melhor não começar a se achar só porque conseguiu me acompanhar por cinco minutos," ela provocou, girando de novo antes de voltar pra perto. "Eu podia te fazer dançar até cair," ela desafiou, os olhos brilhando de malícia. "Acha que aguenta, campeão?"
Kai, já sem fôlego depois de tanta correria e dança, recusou-se a admitir derrota. "Acho que tem jeitos piores de morrer."
Asuka riu, jogando o cabelo pra trás enquanto continuava dançando. "Nossa, você realmente não sabe a hora de parar, né?" ela provocou, mas havia carinho na voz.
Ela desacelerou um pouco, se aproximando dele. O olhar provocador suavizou por um instante. "Mas... acho que, se fosse pra morrer, dançar comigo não seria o pior jeito."
Então, num piscar de olhos, ela voltou a sorrir e deu um leve empurrão no ombro dele. "Tá bom, perdedor, vou ser legal — vamos fazer uma pausa antes que você caia duro. Não quero você desmaiando no meio da rua. Seria vergonhoso."
Kai parou na hora e respirou fundo. "Engraçado... eu costumava ter medo de passar vergonha perto de você. Agora não mais. Acho que é porque... já é garantido que eu sempre vou passar."
Asuka sorriu de lado, cruzando os braços. "Tsc. Pelo menos você tem autocrítica." Mas havia algo a mais no olhar dela — algo mais suave. Ela o observou por um segundo a mais que o normal antes de desviar o olhar, fingindo prestar atenção em algo à distância.
Então, casualmente, encostou levemente o ombro no dele, só por um momento. "Bem... você não é um bunda mole completo," murmurou.
Antes que ele pudesse responder, ela se endireitou e se espreguiçou. "Certo, seu tempo como meu servo ainda não acabou. Qual vai ser a próxima? Ou será que você finalmente cansou?"
Kai sorriu. "Nada disso... sou um homem de palavra! Você disse um dia inteiro, e eu vou até o fim. Ainda tem algumas horas. E olha, não é culpa minha se um Anjo encurtou o dia."
Asuka arqueou a sobrancelha, os olhos brilhando de diversão. "Oh? Você devia pensar duas vezes antes de me provocar." Ela tocou o queixo, claramente se divertindo com o poder que tinha sobre ele.
"Certo então, vamos aproveitar até o fim," disse ela com um sorriso. "Que tal... irmos a algum lugar divertido? Nada de parque de diversões dessa vez, algo diferente. Talvez um karaokê? Sei que você vai se humilhar lá."
Ela lançou um olhar desafiador. "Ou vai amarelar?"
Kai suspirou dramaticamente. "Dançar já não foi o bastante? Agora cantar também? Tá bom, vamos lá. Não tenho escolha mesmo."
Na verdade, ele estava até ansioso pra vê-la cantando e o que músicas escolheria.
Asuka sorriu, satisfeita com a empolgação dele — ou ao menos com a falta de resistência. "É isso aí! Vamos!"
Ela agarrou o pulso dele e praticamente o arrastou rua abaixo, sua energia era contagiante. Logo chegaram a um pequeno, mas animado karaokê, com luzes de néon brilhando sobre a entrada.
Capítulo 42: Corações em Canto / Eva e Eva
Por dentro, o lugar era preenchido por cantorias desafinadas, risos e música. Eles se acomodaram em um cômodo privativo aconchegante, as luzes de néon refletindo na mesa brilhante enquanto a porta se fechava atrás deles. Asuka não perdeu tempo para escolher um lugar, se jogando no sofá e pegando o tablet de seleção de músicas.
"Então? Quem começa? Quer que eu abençoe seus ouvidos primeiro?" — perguntou, deslizando casualmente pela lista, com um sorriso confiante.
Kai sorriu. "Hoje, quem manda é você, né?"
Asuka sorriu ainda mais, claramente se divertindo com o controle. "Pode apostar que sim." Ela continuou deslizando pela lista.
Depois de alguns segundos, ela parou e sorriu. "Beleza, se prepara pra se impressionar." Ela escolheu: "Linda Linda" da THE BLUE HEARTS no Spotify: \href{https://open.spotify.com/intl-pt/track/0cbjZV5Ttagjfn723XO5en?si=bd002c18ba844b0b}{\qrcode[height=0.7cm]{https://open.spotify.com/intl-pt/track/0cbjZV5Ttagjfn723XO5en?si=bd002c18ba844b0b}}} — uma explosão punk energética que combinava perfeitamente com ela.
E então — ela dominou a apresentação.
Sua voz era forte, cheia de atitude, perfeitamente afinada com a melodia. Ela não estava apenas cantando; estava se apresentando, completamente à vontade. Se movia com o ritmo, a confiança transbordando a cada verso.
Kai não conseguia parar de olhar. Piscou quando o refrão repetiu as palavras `Linda, linda' enquanto todo o resto da música permanecia em japonês. Provavelmente ela nem sabia o que isso queria dizer em português. Ou sabia? De todo modo, parecia certo. Barulhento. Autêntico. Ela.
Quando chegou na nota final, ele tinha certeza de que a energia na sala tinha dobrado. Ela jogou o microfone no sofá, cruzando os braços com uma expressão vitoriosa. "E aí? Falei que eu era incrível."
Ela se inclinou um pouco, provocando. "Acha que consegue seguir isso ou já vai admitir derrota?"
Kai aplaudiu de forma frenética, gritando: "Foi incrível! Mais uma! Mais uma!"
Ok, talvez estivesse tentando adiar sua vez — mas a empolgação era sincera.
Asuka jogou o cabelo para trás, com aquele ar convencido. "Claro que quer bis. Mas não vem tentar enrolar."
Ela pegou o microfone e enfiou nas mãos dele. "Sua vez, valentão. Quero ver do que você é capaz!"
Ela cruzou os braços e se recostou, observando com um sorriso. "E nem pense em fazer corpo mole. Eu dei tudo de mim, então você também tem que dar! Não foi isso que você me disse?"
Kai suspirou teatralmente, olhando pro microfone. "Tá, tá... minha vez... mas vai ser difícil seguir uma profissional... como é que chamam aqui? Uma idol?"
Asuka revirou os olhos, mas ele viu o canto de sua boca se curvar num sorriso. "Tch, obviamente. Mas olha, talvez eu não julgue você tão duramente... talvez."
Ela se inclinou para a frente, apoiando o queixo nas mãos. "Então? Qual a sua música, Idol-kun? Não deixa sua plateia esperando!"
Os olhos dela brilhavam de expectativa — ela estava adorando tudo aquilo.
Kai foi até o pequeno palco, rolando a lista de músicas. Talvez encontrasse alguma brasileira — algo animado e divertido. Seria mais fácil cantar algo que conhecia bem, que fosse natural.
Asuka levantou uma sobrancelha, impaciente. "Demorando muito, hein? Tá enrolando, Idol-kun?"
Finalmente, ele encontrou a música perfeita. "Minha Pequena Eva", na versão axé da Banda Eva no Spotify: \href{https://open.spotify.com/intl-pt/track/7EScnp28wyS0UH8Gybs8qq?si=5df2ef99f0e24284}{\qrcode[height=0.7cm]{https://open.spotify.com/intl-pt/track/7EScnp28wyS0UH8Gybs8qq?si=5df2ef99f0e24284}}}. Melhor ainda — ela não entenderia a letra.
A introdução começou, e Asuka se inclinou, curiosa. "Beleza, quero ver."
Kai respirou fundo e começou a cantar. No instante em que a letra saiu, tudo se encaixou. Cantar em sua própria língua, uma música que conhecia de cor, o fez soar melhor do que esperava. A melodia o carregava, sua voz firme e confiante. Ele até se permitiu dançar um pouco.
Estar com Asuka tornava tudo mais fácil. O deixava à vontade. E só porque estavam em um cômodo privado ele se permitiu se soltar de verdade. Em certo momento, apontou o microfone pra ela, convidando-a a gritar "EVA!" no momento certo do refrão — e, pra sua surpresa, ela fez isso, alto e no ritmo.
A expressão convencida de Asuka suavizou. Ela inclinou a cabeça, observando. Parecia... impressionada.
Ela recostou-se, braços cruzados, balançando a cabeça no ritmo. Quando ele começou a se mexer, entrando na dança, ela riu, balançando a cabeça. Quando ele terminou, ela estava sorrindo.
"Olha só você! Parece que sabe fazer algo além de jogar videogame e falar demais."
Kai caiu ao lado dela no sofá, ofegante. "Obrigado, obrigado!" Ele sorriu. "Ei! Vamos fazer um dueto!"
Asuka ergueu uma sobrancelha. "Dueto, é? Agora tá se achando?"
Ela folheou a lista, batucando na tela com os dedos. Então sorriu e escolheu uma: "Futari no Ai Rando", de Yuko Ishikawa & Chage no Spotify: \href{https://open.spotify.com/intl-pt/track/1McVbpFBvD6xF7SrZVgTSr?si=51907ded0ef949bc}{\qrcode[height=0.7cm]{https://open.spotify.com/intl-pt/track/1McVbpFBvD6xF7SrZVgTSr?si=51907ded0ef949bc}}}— uma música animada, divertida, que exigia química, ritmo e um pouco de humor.
"Certo, mas vamos cantar essa aqui," disse, mostrando a tela. "Você que lute pra acompanhar, Kai!"
Ela provocou quando a música começou. Então, com aquele brilho competitivo nos olhos, pegou o microfone e começou a cantar, entrando no ritmo sem esforço.
Kai achou que ficaria nervoso, mas não ficou. Estava simplesmente se divertindo com ela. E isso o fazia cantar melhor.
Asuka o olhou no meio da música, surpresa ao vê-lo acompanhar sua energia. Um sorriso surgiu em seus lábios, e ela se aproximou levemente, suas vozes se misturando perfeitamente.
"Nada mal, Kai," ela provocou entre os versos. "Talvez eu não precise carregar o dueto sozinha."
A música acelerou, e os dois mergulharam nela — rindo, harmonizando, até improvisando uns passinhos. Quando a nota final soou, estavam ambos sem fôlego, sorrindo como idiotas.
Asuka se jogou no sofá, jogando o microfone de lado. "Tá bom, eu admito — até que isso foi divertido."
Kai afundou no assento ao lado dela, exausto, mas absurdamente feliz. Estava suado, sem ar, mas não se importava. Virou o rosto pra ela, ainda recuperando o fôlego. "Você é realmente incrível."
Asuka revirou os olhos, mas seu sorriso suavizou. "Tsc. Como se eu já não soubesse."
Por um momento, nenhum dos dois disse nada. A música de fundo virou um sussurro distante, as luzes da cidade mal visíveis pelas janelas escurecidas. Ela o olhava — de verdade — e pela primeira vez, não havia provocação, nem competição. Só... algo quente.
Asuka suspirou suavemente, relaxando contra ele só um pouco. Não disse nada de imediato, apenas permaneceu ali, seu calor junto ao dele. Pela primeira vez, sem sarcasmo, sem piada — só silêncio.
Kai ficou quieto, aproveitando o momento. Mas por dentro, estava inquieto. Sentia que ela lutava contra algo. Ele teria que esperar, deixar que ela decidisse o que fazer. Não arruinaria aquilo.
Asuka se mexeu ligeiramente, o suficiente pra olhá-lo nos olhos. Seus olhos azuis buscavam os dele, hesitantes. Havia algo ali — incerteza, vulnerabilidade... mas também algo mais.
Ela ficou ali por um momento, perto o bastante pra ele sentir sua respiração. Seus dedos apertaram levemente sua camisa, como se travando uma batalha interna.
E então, tão baixinho que ele quase não ouviu, ela murmurou: "Você é o maior idiota."
Por fim, ela bufou, revirando os olhos. "Tsc... aposto que você acha isso uma vitória, né? Como se tivesse ganhado alguma coisa." Um sorrisinho tímido apareceu nos lábios dela.
Kai sorriu. "Se eu responder, talvez estrague o momento... então vou ficar quieto dessa vez."
Asuka bufou, mas não se afastou. Em vez disso, encostou a cabeça no ombro dele. "Hmph. Talvez você esteja aprendendo."
Ela soltou um leve suspiro e ficou ali, próxima, enquanto a música tocava baixinho ao fundo. E, por um instante, tudo parecia... certo.
Capítulo 43: Amanhã / A Sombra da Sociedade
Eles ficaram assim por um tempo, imóveis e silenciosos, deixando que a quietude os envolvesse. A música subia e descia, e lá fora, a cidade seguia seu curso sem eles. Kai podia sentir o ritmo da respiração dela ao seu lado, calma e constante, e, pela primeira vez, não havia lugar onde preferisse estar.
Kai se recostou no sofá, encarando o teto. "Você sabe que... as aulas voltam amanhã, né? Vai ser meu primeiro dia lá."
Ela inclinou a cabeça, observando-o. "Primeiro dia, hein? Vai ter o privilégio de encarar aulas entediantes fingindo que o mundo não está à beira da destruição. Divertido, né?"
Seu olhar permaneceu sobre ele, curiosa. "E aí, tem expectativas? Animado? Aterrorizado? Ou só vai passar o dia inteiro pressionando o Shinji por respostas?"
Kai sorriu. "Na verdade, tô animado. Vai ser legal ver como é a escola daqui. E claro, encontrar o Shinji, a Rei e..." Ele hesitou por um segundo antes de completar: "você."
O sorriso de Asuka se alargou, mas havia um leve rubor em suas bochechas. "Hah! Claro que é isso que você tá esperando, seu pervertido. Mas olha, é melhor não se distrair demais me olhando de uniforme escolar, senão vai ficar pra trás no `emocionante' currículo japonês."
Ela se inclinou mais perto, apoiando o queixo na mão. "Mas talvez nem seja tão ruim. Pelo menos você vai me ter pra te entreter. E se tiver sorte, talvez eu até deixe você sentar do meu lado." Seu sorriso suavizou um pouco, mas ela disfarçou com sua confiança habitual. "Só não me passa vergonha no primeiro dia, tá? Ou vou ter que fingir que nem te conheço."
Kai riu. "Ah, tenho certeza que é isso que você faria!"
"Exato!" ela respondeu com um sorriso. "Então é melhor causar uma boa primeira impressão. Mas se errar feio, vou te zoar o ano inteiro. Justo, né?"
Ela se espreguiçou, soltando um pequeno suspiro. "De qualquer forma, é melhor você dormir logo se não quiser parecer um zumbi na sua grande estreia. Não ia querer que as garotas da escola achassem que você é um esquisitão morto de sono, né?"
Kai sorriu. "Você sabe que eu não sou o melhor com primeiras impressões... Mas costumo conquistar as pessoas com o tempo. E mais... eu realmente não me importo com... sabe... outras garotas."
Asuka piscou, ligeiramente surpresa antes de se recompor. "Oh?" Ela ergueu uma sobrancelha, tentando soar despreocupada, mas havia um brilho diferente em sua expressão antes que o escondesse com um sorriso. "Bom, é melhor mesmo. Seria uma pena se eu tivesse que te lembrar por que eu sou a melhor companhia que você poderia ter."
Ela cruzou os braços, fingindo indiferença, mas o leve rubor em suas bochechas a traía. "Enfim, vamos ver como você se sai na escola. Senão, vou ter que te deserdar. Publicamente."
Kai riu. "Ei, relaxa. Eu não quero manchar a lenda que você deve ser por lá."
"Hah! Como se isso fosse possível." Ela bufou, de braços cruzados. "Eu sou A lenda, não ache que você pode estragar isso. Se alguém deve se preocupar com a reputação, é você. Estar andando comigo? Vão achar que você é o cara mais sortudo da escola ou completamente maluco."
Ela lançou um olhar de lado, o sorriso ainda brincando nos lábios. "Mas acho que você já provou ser meio louco, né?"
Kai sorriu. "Talvez eu seja, né? Na verdade, eu tava torcendo pra passar o primeiro dia despercebido. Não queria chamar atenção. Diferente de alguém que eu conheço..."
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Asuka riu, jogando o cabelo para trás dramaticamente. "Diferente de você, eu nasci pra ser o centro das atenções."
Ela cutucou o braço dele. "Além disso, comigo por perto, ninguém vai te ignorar."
Kai suspirou. "As pessoas vão ficar curiosas, né? Acho que meu plano de ficar invisível já era..."
"Ah, com certeza," ela disse com ar vitorioso. "Novo garoto, aparecendo do nada, já andando comigo? Vão morrer de curiosidade pra saber quem você é."
Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos se estreitando em brincadeira. "Quer dizer, a não ser que queira ser só `o outro piloto'. Mas mesmo assim, boa sorte tentando passar despercebido."
Ela se recostou, espreguiçando os braços. "Vai ter que lidar com isso. Mas pelo menos tem a mim pra deixar tudo mais interessante."
Kai suspirou dramaticamente. "Ah... por que a gente não podia só continuar assim? Aproveitando o dia... saindo juntos... eventualmente salvando o mundo... mas ir pra escola??"
Asuka gemeu. "Ugh, nem me fala. Qual o sentido? A gente salva o mundo e ainda tem que fazer prova de matemática?"
Ela fez bico. "Se quer saber, a gente devia ter passe livre. Tipo: `Parabéns, você pilotou um bio-mecha gigante e evitou a extinção da humanidade. Aqui está seu diploma!' "
Então ela o encarou com um sorriso. "Mas olha, pelo menos agora vou poder rir vendo você penar no primeiro dia. Já vale a pena."
Kai riu. "Cruel! Mas tudo bem, aproveite."
A expressão dela ficou um pouco mais séria, talvez com preocupação de verdade. "Tenta não se queimar muito, tá? E não fica todo perdido amanhã—não vou segurar sua mão o tempo todo."
Depois, ela deu uma pausa e voltou a sorrir. "A não ser, claro, que você implore."
Kai riu. "Fica tranquila, eu sei me virar."
Ela ficou em silêncio por um segundo, o rosto suavizando um pouco. "Mas... se alguém te encher o saco, me fala, tá? Eu resolvo."
E logo em seguida, ela deu de ombros e voltou ao tom provocador. "Não que você vá precisar da minha ajuda nem nada, né? Já que você sabe `se virar' e tal."
Kai hesitou. "Ok, alguma dica final pra amanhã? Alguém que eu deva ficar esperto?"
Asuka recostou no sofá, braços cruzados, fingindo pensar seriamente antes de sorrir. "Hmm... bom, obviamente, a representante da classe, a Hikari. Ela é minha melhor amiga, então nem pense em fazer besteira perto dela, entendeu? Ela provavelmente vai ser simpática, mas se irritar, vai ficar no seu pé até você enlouquecer."
Ela bateu o dedo no queixo, como se estivesse refletindo. "Ah, e o Kensuke—ele é obcecado por coisas militares e provavelmente vai te bombardear com perguntas sobre ser um piloto. Se ficar muito chato, só ignora."
Então, seu sorriso ficou mais travesso. "E... tem o Toji." Ela esticou as pernas, olhando para Kai com um brilho maroto nos olhos. "É melhor ficar atento com ele. Ele é amigo do Shinji, mas pode ser meio... bruto. Pode—" ela fez um gesto dramático com a mão "—tentar te `testar' ou algo assim. Só não deixa ele te tirar do sério."
Ela inclinou a cabeça para ele, provocando. "Maaaas, acho que você vai dar conta. E se não der, pelo menos vou rir bastante vendo você `se virar'."
Kai demorou um segundo pra processar tudo aquilo antes de suspirar. "Hikari, Kensuke, Toji... esses nomes japoneses já tão todos se misturando. Tô perdido."
Asuka caiu na risada, balançando a cabeça. "Ai meu Deus, você é um caso perdido!" Ela sorriu, depois deu um tapinha no ombro dele, num tom de deboche. "Relaxa, você se acostuma. Só lembra: Hikari é a responsável, Kensuke é o nerd e Toji é o barulhento que talvez tente te dar um soco. Simples, né?"
Ela se encostou no batente da porta, de braços cruzados, observando-o com diversão. "E se você errar, bom... pelo menos vai me divertir."
Kai riu. "É... pelo menos isso."
Capítulo 44: Última Luz / Mais um Desafio
Kai olhou para o relógio e deu um sorriso de canto. "Olha só... seu tempo tá quase acabando. Logo eu estarei livre das correntes!"
Asuka bufou, erguendo o queixo para encará-lo. "Tsc. Como se você realmente tivesse odiado alguma parte disso." Ela deu um sorriso convencido, mas havia uma suavidade no olhar.
Kai sorriu. "Sendo honesto? Nem foi... tão ruim."
Asuka sorriu, claramente satisfeita com a resposta. "Hah! Viu só? Eu sabia que você ia gostar. Acho que tá finalmente percebendo que o meu jeito costuma ser o melhor."
Ela hesitou por um segundo, depois murmurou:
"Eu... também me diverti."
Logo em seguida, pigarreou, como se tentasse disfarçar o que acabara de admitir. "Mas não vá se achando! Só porque sobreviveu hoje não quer dizer que vou pegar leve com você na próxima." Ela lançou um olhar provocativo. "Você pretende me desafiar de novo, né?"
Kai assentiu com um sorriso confiante. "Sem dúvida! E se prepare! Na próxima, sou eu quem vai levar o prêmio!"
Asuka bufou, mas havia um brilho animado nos olhos dela. "Tsc. Fala sério, Kai. Como se você conseguisse mesmo me vencer quando vale alguma coisa de verdade."
Ela deu um leve empurrão no ombro dele, ampliando o sorriso. "Tudo bem. Se acha que consegue aguentar, te dou outra chance. Só não chore quando perder de novo."
Ela cutucou o ombro dele de novo, rindo. "Agora vamos. Me acompanha até em casa e, com sorte, talvez eu te deixe planejar o próximo encontro."
Kai assentiu e a guiou até a saída.
As ruas de Tokyo-3 brilhavam sob luzes trêmulas, mais quietas agora sob o céu escurecido. O ar estava fresco, mas nenhum dos dois parecia se incomodar. A tensão de mais cedo—o Anjo, os medos—parecia distante agora. Só restavam os dois, caminhando lado a lado.
Chegaram ao prédio dela, a noite silenciosa ao redor. Asuka foi na frente, depois se virou, com a mão na maçaneta.
Kai disse suavemente, quase melancólico:
"Então... é isso."
Asuka hesitou por um segundo—tempo suficiente para que Kai notasse algo em seu olhar—antes de destrancar a porta e entrar. "É... parece que é."
Kai olhou para o céu, depois de volta para ela. "Então... dorme bem. E... obrigado. Por tudo."
Asuka o observou por um momento, com a expressão suavizada, antes de sorrir de leve. "É, é. Não vem ficar sentimental agora. Só lembra de não me fazer passar vergonha amanhã, tá?"
Parada na entrada, ela cruzou os braços, olhando pra ele com um ar quase... esperançoso.
Kai a encarou nos olhos, mas não disse nada. Queria, mas não iria. Era óbvio que ela ainda travava uma batalha interna.
Asuka ergueu uma sobrancelha, o sorriso ficando mais suave—quase divertido. "Hmph. Até amanhã, então."
Ela hesitou por um instante, virando-se de leve, como se ponderasse algo. "Boa noite, idiota."
E com isso, a porta se fechou, deixando Kai parado ali, com um turbilhão de emoções.
"Agora vai pra casa antes que eu mude de ideia e aumente sua pena."
Enquanto voltava pra casa, o ar noturno estava fresco contra sua pele. Asuka tinha esse jeito de bagunçar seus pensamentos—de afastar suas piores ideias sem esforço. Mas, à medida que o silêncio de seu apartamento tomava conta, as preocupações que ele havia deixado de lado começaram a voltar.
O ar estava gelado, mas o peito ainda carregava o calor de antes. Tudo o que aconteceu hoje, desde a batalha contra o Anjo até o cumprimento absurdo da aposta—foi muita coisa.
O Anjo mirando nele. Misato investigando seu passado...
Tudo o que ele queria agora era focar na escola amanhã. Mas o peso em seu peito apertava de novo.
Sentado à beira da cama, passou a mão pelos cabelos e suspirou, deitando-se e encarando o teto. Não queria pensar naquilo. Só queria focar no amanhã. Algo normal. Mas lá no fundo, sabia... aquilo ainda não tinha acabado.
O celular vibrou ao lado. Uma mensagem. Pegou o aparelho, buscando uma distração.
Misato: "Ei, sei que você provavelmente não quer ouvir isso agora, mas só queria que soubesse—vou descobrir o que está acontecendo. E não importa o que eu descubra, você não está sozinho nessa. Vai descansar. Amanhã é um grande dia, né? Tenta não ser expulso no primeiro dia. 😜"
Logo depois, outra mensagem apareceu—dessa vez da Asuka:
Asuka: "Não fica pensando demais, idiota. Só aparece lá, tenta não me fazer passar vergonha e talvez—TALVEZ—eu salve um lugar pra você. Talvez."
Kai encarou a tela por um momento. Um pequeno sorriso surgiu, apesar do peso que ainda sentia. Pelo menos ele não teria que encarar o amanhã sozinho. Deixou o celular ao lado e se virou de lado.
Antes de fechar os olhos, respondeu rapidamente:
Para Misato: "Obrigado por confiar em mim, Misato. De verdade. É muito importante saber que posso contar com você."
Para Asuka: um único emoji: "😘"
Alguns segundos depois, o celular vibrou.
Asuka: "Não força a barra, idiota."
Logo em seguida:
Asuka: "😏"
Ele não conseguiu conter a risada, sentindo o calor se espalhar por dentro. Com isso, finalmente largou o celular no criado-mudo e fechou os olhos. As preocupações ainda estavam ali, mas pareciam um pouco mais leves. O que quer que o amanhã trouxesse—escola, perguntas, talvez mais lutas—ele lidaria com isso.
Mas por agora... sono o dominou.
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