Evangelion: Shattered Thresholds

6 Episódio 6: Território Desconhecido


Capítulo 45: Encontro Inicial / Ingresso no Campo de Batalha Social

A luz da manhã atravessava a janela de Kai, o calor suave o puxando lentamente do sono. Ele piscou para o teto, a mente lenta, o corpo relutante em se mover. Virou-se de lado, soltando um suspiro. Talvez estivesse mais nervoso com o dia de hoje do que queria admitir.

Com um gemido, se levantou e foi direto para a cozinha, quebrando ovos na frigideira. O som familiar do óleo, o movimento de mexer, o cheiro no ar — era uma rotina reconfortante, algo normal antes de encarar um ambiente que prometia ser tudo menos isso. Começou a comer, tentando não pensar demais no que o aguardava na escola. As pessoas o veriam apenas como mais um piloto? Iriam compará-lo ao Shinji ou à Asuka? Será que se importariam?

Quando terminou de comer, não tinha respostas — apenas uma energia inquieta fervendo sob a pele. Tomou banho, vestiu-se e deu uma última olhada no espelho. O uniforme escolar até que servia bem, mas ainda parecia estranho. Respirou fundo. Agora não tinha mais volta.

Pegou a mochila e saiu de casa, o ar fresco da manhã o recebendo. Checou o celular. Nada.

Odiava o quanto havia torcido por uma mensagem, mesmo sabendo que ela apareceria de qualquer forma.

Com um sorriso de canto, digitou uma mensagem:

"Bom dia! Ainda dormindo? Estou a caminho da escola! Te vejo na sala?"

A resposta veio quase instantaneamente:

"Hah! Como se eu fosse me atrasar no seu primeiro dia. Já estou indo. Tenta não me envergonhar muito, tá?"

Kai riu. Lá estava ela de novo, prevendo que ele faria besteira. Dava até pra ouvir a arrogância no tom dela. Pelo menos ele não estava indo sozinho.

Caminhou até a escola, os nervos à flor da pele. Cada passo apertava mais o nó no estômago. Aquilo não era exatamente um campo de batalha, mas parecia. Estava ansioso para ver o Shinji e a Rei. E a Asuka, claro. E então todas as outras pessoas que ela tinha mencionado — nomes que ele mal lembrava.

Os portões da escola surgiram à frente, uma multidão de alunos em grupos, conversando e rindo. Respirou fundo e entrou. Algumas cabeças se viraram, cochichos se espalharam. Sentiu o peso dos olhares imediatamente.

Perto dos armários, uma figura familiar — Shinji, parecendo meio perdido em pensamentos. E a poucos passos dali, Asuka, de braços cruzados, esperando.

"Olha só quem resolveu aparecer," ela provocou, com um sorriso de canto. "Não fugiu no fim das contas, hein?"

Kai abriu um sorriso confiante e acenou brevemente antes de se virar para Shinji.

"E aí, Shinji! Meu parceiro!"

Alguns alunos próximos se viraram ao ouvir o cumprimento alto. Ele se encolheu por dentro. Talvez entusiasmo demais.

Shinji devolveu um sorriso pequeno, um pouco envergonhado. "Oi… uh, como você tá? Depois de, sabe… tudo aquilo?"

"Ah, tranquilo. Eu podia comer monstros-pirâmide bizarros no café da manhã todo dia."

As palavras saíram antes que ele pudesse pensar nelas. Houve um breve silêncio, e então Shinji deu uma risadinha desconfortável. Asuka balançou a cabeça com um sorriso.

"É, é, fortão. Mas tenta não perder mais nenhum membro, tá? Deu um trabalho danado arrastar seu traseiro inconsciente pra fora do campo de batalha."

Antes que ele pudesse responder, o sinal tocou, cortando o burburinho.

Ela se virou para a entrada. "Anda logo, novato. Hora de ver se você aguenta algo ainda pior que um ataque de Anjo — o ensino médio."

No momento em que Kai entrou na sala, sentiu o peso de dezenas de olhos sobre ele. As conversas cessaram, cochichos se espalharam. Ele percorreu o ambiente com os olhos rapidamente. Rei estava sozinha no fundo, perto da janela. Kai assentiu em sua direção e, após um breve atraso, ela retribuiu o gesto com um leve movimento de cabeça — quase imperceptível, mas intencional. O restante da classe claramente o observava.

Shinji sussurrou. "Parece que você já é popular."

Asuka sorriu. "Ora, claro. Ele anda comigo."

Um garoto de óculos se inclinou em direção a Shinji, cochichando algo antes de olhar para Kai — Ken-alguma coisa,não era? — Ao lado dele, um cara mais alto e atlético — devia ser o Toji — observava Kai com uma expressão neutra, mas avaliadora.

Na frente da sala, uma garota — provavelmente Hikari, a representante de classe — pigarreou. "Certo, certo! Silêncio, pessoal. Temos um novo aluno hoje."

Ela se virou para ele, esperando.

"Pode se apresentar."

Kai congelou. Não tinha pensado nessa parte. Olhou ao redor, encarando todos os rostos atentos.

Só preciso dizer: Oi, eu sou Kai. Oi, eu sou Kai...

"...Koi."

Silêncio.

Depois, risadinhas. Kensuke deu uma gargalhada, e Toji sorriu. Hikari suspirou, esfregando a ponte do nariz.

"Kai. O nome dele… é Kai."

Kai manteve o olhar para frente, o rosto queimando. Asuka, sentada perto da janela, apoiava a cabeça na mão, visivelmente tremendo de tanto segurar o riso.

Hikari apontou para uma carteira vazia perto de Shinji. "Pode sentar ali, Kai. Vamos começar."

Enquanto caminhava até seu lugar, ouviu Kensuke cochichar para Toji: "Ele falou ‘Koi’? Pareceu um robô com defeito."

Toji deu uma risada. "O cara já é lenda."

Kai afundou no assento, resistindo ao impulso de enterrar o rosto nas mãos. Queria sumir. Talvez um ataque de Anjo não fosse uma má ideia agora.

Shinji se inclinou um pouco. "Ei, relaxa. Não foi tão ruim assim."

Atrás dele, Kensuke sorriu. "Não mesmo, foi hilário. Um clássico instantâneo."

Toji assentiu. "Você basicamente virou inesquecível em tempo recorde. Respeito."

Hikari lançou um olhar severo para os dois, que imediatamente se endireitaram. Quando a aula começou, Kai arriscou olhar para Asuka. Ela mordia o lábio, tentando segurar o riso. Então, muito deliberadamente, ela articulou:

"Koi."

E sorriu.

Kai suspirou, afundando mais na cadeira. Primeiro dia, e já tinha começado com o pé direito.

Capítulo 46: Táticas de Sala de Aula / Sociabilidade Estratégica

A aula se arrastava, as palavras se embaralhando enquanto Kai lutava para se concentrar. Seus pensamentos voltavam sempre à apresentação constrangedora, mas ele sabia que podia reverter a situação. Sempre conseguia. Conquistar as pessoas não era um conceito estranho para ele — só exigia tempo.

Lá na frente, o professor continuava, a voz monótona e ensaiada. "O Segundo Impacto ocorreu quando um meteorito colidiu com a Antártida. Isso fez com que as calotas polares derretessem, mudou o eixo da Terra e levou à morte de metade da população mundial."

Kai mal ouvia o resto. Já conhecia essa história. Todo mundo conhecia. O meteoro, a catástrofe, as consequências. A explicação padrão — ensinada em todas as escolas do planeta. E ainda assim, algo nela sempre pareceu... certinha demais. Simples demais. Como um roteiro entregue para pessoas que não deviam fazer perguntas.

Ele olhou ao redor da sala. Shinji tomava notas diligentemente, Kensuke rabiscava algo que com certeza parecia um Evangelion, e Toji já estava quase dormindo. Quando tentou voltar a prestar atenção, um pequeno pedaço de papel dobrado deslizou até sua mesa. Olhou discretamente em volta, mas ninguém parecia observá-lo. Com cuidado, desdobrou o bilhete.

"Levou dois segundos pra se envergonhar. Novo recorde. — A."

Seus olhos buscaram Asuka, que enrolava uma mecha de cabelo no dedo casualmente, fingindo prestar atenção na aula. O canto da boca dela se contraiu num sorriso contido.

Kai sorriu, balançando a cabeça enquanto rabiscava uma resposta e devolvia o papel quando o professor não olhava.

"Vou virar o jogo, como virei com você. :P -K"

Ele a viu olhar para o papel. Por um momento, ela apenas o encarou, expressão indecifrável. Então, bem devagar, seus lábios se curvaram num sorriso. Sem olhar para ele, amassou o bilhete e o jogou na mochila como se não fosse nada.

Mas seus dedos demoraram um segundo a mais no papel.

Satisfeito, Kai recostou na cadeira, se sentindo um pouco mais confiante. Um passo de cada vez.


O sinal tocou, tirando todos do transe da aula. Assim que a classe acabou, a sala ganhou vida com conversas. Asuka se espreguiçou na cadeira, Kensuke puxou uma câmera enorme como se estivesse prestes a registrar uma zona de guerra, e Toji estalou os dedos antes de se virar para Kai com um sorriso tranquilo.

"Então, novato," disse Toji, de braços cruzados. "Você é o piloto marrento vindo do Brasil, né?"

Antes que Kai pudesse responder, Kensuke enfiou a câmera na cara dele, praticamente tremendo de empolgação. "Cara, tenho tantas perguntas! Como é pilotar um Eva? Vocês ganham privilégios secretos do governo? Posso ver o interior do seu plug de entrada um dia?!"

Kai mal teve tempo de reagir antes que Asuka se aproximasse, de braços cruzados e com o sorriso costumeiro. "Cuidado, meninos, ele pode acabar achando que é especial mesmo."

Shinji apenas suspirou, claramente acostumado com aquilo.

Kai virou-se para ela primeiro, dando um pequeno sorriso torto antes de encarar Toji. "Isso mesmo. E você é o Toji, né? Me avisaram sobre você! Algo sobre ser bruto e sem noção?"

Toji soltou uma risada curta, balançando a cabeça. "Te avisaram sobre mim, é? Aposto que foi a Asuka. É, posso ser direto, mas pelo menos não sou metido e insuportável."

Kai então se virou para Kensuke. "E você! É o nerd da câmera, né? Como era... Kentucky?"

A expressão de Kensuke se contorceu de indignação. "Kentucky?! É Kensuke! Cara, é bom começar a lembrar os nomes, senão vão começar a te chamar de `Kai do Peru' ou sei lá."

Shinji abafou uma risada enquanto Asuka parecia entretida demais.

"Então, você realmente acha que pilotar é legal?" insistiu Kensuke, ajustando os óculos. "Porque eu trocaria de lugar com você num segundo! Me dá um Eva e eu derrubo um Anjo sozinho."

Toji revirou os olhos. "Ah, claro que sim. E eu seria o próximo comandante da NERV."

Asuka bufou. "Por favor. Se deixassem você pilotar um Eva, o Anjo nem precisaria atacar. Os próprios técnicos da NERV iriam matar você de tão chato."

Kensuke ignorou a provocação e se inclinou mais para perto de Kai. "Falando sério agora, vocês ficam com alguma lembrança das lutas? Tipo restos de Anjo? Um pedaço do núcleo? Isso seria muito irado!"

Kai pensou por um segundo antes de sorrir. "Guardar restos de Anjo como troféu de batalha? Pior que seria bem legal! Vou ver o que consigo na próxima!"

Os olhos de Kensuke se arregalaram. "Cara! Se você realmente conseguir um pedaço, tem que me mostrar! Imagina — um fragmento real de Anjo! Eu seria o primeiro civil a ver um de perto!"

Toji balançou a cabeça. "Cara, você tá empolgado demais. Você sabe que essas coisas tentam matar a gente, né?"

Kensuke deu de ombros. "É, é, mas fala sério, Toji. Já que a gente vive num campo de guerra, melhor aproveitar!"

Asuka revirou os olhos. "Tanto faz. Você provavelmente se mijaria se visse um Anjo de verdade."

Kensuke ignorou a provocação e voltou-se para Kai. "Fechado então, Kai. Próxima luta, quero ver uma lembrança da batalha!"

Shinji, que estava quieto até então, finalmente falou. "Só... toma cuidado, tá?"

Kai hesitou, notando a empolgação de Kensuke. A imagem do raio de Ramiel rasgando suas pernas voltou à mente — o quanto doeu, o quanto foi real. Mas ele ainda assim sorriu. "Olha, não prometo nada, tá? Só disse que seria legal."

O sinal tocou de novo, sinalizando o fim do intervalo. Hikari bateu palmas. "Certo, pessoal, de volta aos seus lugares!"

Enquanto Kai voltava para sua carteira, Asuka se inclinou e sussurrou, "Cuidado com esse papo de lembrança. A Misato vai te dar sermão por uma hora."

Ela sorriu antes de escorregar de volta para sua cadeira.

Kai se sentou, ainda um pouco distraído. As coisas estavam indo bem com Kensuke e Toji, o que era um alívio. Mas ainda havia uma pessoa com quem ele precisava falar — Hikari. Ela era a melhor amiga de Asuka, o que significava que era importante. Se quisesse manter tudo tranquilo com a Asuka, precisava impressionar a Hikari também.

Mas isso podia esperar até o almoço. Por ora, só precisava sobreviver a mais uma aula.

Capítulo 47: Pertencer / Na Mira

A aula se arrastava, mas a mente de Kai vagava. Ele observava Hikari de relance enquanto ela tomava notas meticulosamente, ocasionalmente lançando olhares severos aos alunos que cochichavam ao redor. Ela exalava uma vibe séria—organizada, precisa. Não exatamente intimidante, mas definitivamente alguém que esperava que tudo fosse feito do jeito certo. Se ele queria causar uma boa impressão, teria que escolher o momento certo.

O sinal do almoço finalmente tocou. Kai se levantou imediatamente, observando enquanto Hikari juntava suas coisas. Ela parecia pronta para mergulhar nas funções de representante de classe, o que significava que aquela podia ser sua única chance antes que ela sumisse em meio às responsabilidades.

Agora ou nunca.

Ele fez sua jogada.

Hikari levantou os olhos quando ele se aproximou, surpresa por um instante antes de se recompor, como sempre. "Sim?"

"Oi. Hikari, certo? A Asuka falou coisas ótimas sobre você. Eu sou o Kai. Desculpa por mais cedo. Aquela apresentação foi... tensa."

Hikari arqueou uma sobrancelha, claramente cética. "Ah, é? A Asuka falou coisas boas sobre alguém? Isso é raro."

Ela o estudou por um segundo antes de suspirar e relaxar um pouco. "Bem, prazer, Kai. Você realmente causou uma impressão hoje de manhã, hein?"

O tom dela era neutro, mas Kai não tinha certeza se ela estava brincando ou apenas afirmando um fato. De qualquer forma, ela estava lhe dando uma chance.

"Representante de classe, não é isso? Lá de onde eu vim, não tem isso. Pelo menos não desse jeito. Qual exatamente é o seu trabalho?"

Hikari inclinou levemente a cabeça, como se tentasse descobrir se ele estava tirando sarro ou realmente curioso.

"Meu trabalho?" ela repetiu, antes de suspirar. "Basicamente, manter esses idiotas na linha."

Ela apontou para Toji e Kensuke, que imediatamente fingiram estar muito interessados em outra coisa. Mas Kai percebeu que o olhar dela demorou um pouco mais do que o necessário sobre Toji.

"Eu garanto que as pessoas sigam as regras, façam o dever de casa e não causem encrenca. E se causarem, eu denuncio."

Ela estreitou os olhos levemente, testando a reação dele. "Então... tá planejando causar encrenca, Kai?"

Kai sorriu. "Não de propósito, com certeza!"

Hikari o observou por um momento antes de assentir, aparentemente satisfeita. "Bom. Só não dificulta meu trabalho, tá bom?"

Kai assentiu, captando um leve brilho de aprovação no olhar dela. Ela não era exatamente calorosa—mas ele não precisava de calor. Só precisava que ela não fosse hostil. Uma preocupação a menos.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela, mas antes que Kai pudesse dizer mais alguma coisa, Asuka apareceu ao lado dele, apoiando-se na carteira com um olhar de quem já tinha entendido tudo.

"Ora, ora, ora... tentando conquistar o lado bom da Hikari, é? Jogada esperta."

Hikari revirou os olhos, mas não negou. "Se ele vai estar por perto, é melhor que não seja um completo incômodo."

Kensuke e Toji, à distância, trocaram olhares com sorrisos contidos, enquanto Shinji parecia discretamente aliviado.

Kai riu. "Ah, até parece! Só tô garantindo que a melhor amiga da Asuka não vai me fritar pelas costas!"

Hikari sorriu de lado. "Garoto esperto. Pegou o jeito rápido."

Asuka bufou. "Por favor, como se eu precisasse da Hikari pra me avisar se você fizer besteira. Eu mesma veria."

Toji e Kensuke riram, enquanto Shinji balançava a cabeça com um pequeno sorriso. Com isso, Kai sentiu que pelo menos tinha passado no primeiro teste para se enturmar.

Ele se aproximou de onde Shinji e os outros estavam reunidos e suspirou. "Poderia ter sido pior, né?"

Kensuke riu, ajustando os óculos. "É, você podia ter tropeçado e caído na carteira dela ou algo assim. Ia ser hilário."

Toji sorriu de canto, cruzando os braços. "Ou ela podia ter te odiado de verdade. Acredita, você não quer ver a Hikari brava. Ela parece boazinha, mas acredita—ela pode ser assustadora."

Kai captou algo no tom de Toji. As palavras pareciam casuais, mas havia algo... diferente. Um pequeno desvio na expressão dele, o jeito como evitava olhar para Hikari. Uma suspeita se formou na mente de Kai.

Ele sorriu. "`Parece boazinha', né? Tem... alguma coisa entre vocês dois? Eu meio que senti um clima quando ela olhou pra você."

Toji ficou tenso na hora, o rosto ficando um pouco vermelho. "O quê?! Nada a ver, cara! Ela só vive mandando em mim, só isso. Ela faz isso com todo mundo!"

Kensuke sorriu com ar de quem sabe das coisas, cutucando Toji com o cotovelo. "Aham, sei. E mesmo assim, você nunca parece se incomodar quando é ela que tá mandando."

Toji resmungou, claramente sem graça. "Tch, cala a boca, Kentucky!"

Kai caiu na risada. "Ei, não tem nada de errado em gostar de uma garota que seja um pouco mandona, sabe."

Toji cruzou os braços, ainda constrangido. "É, é, fala isso pra você mesmo, Sr. `Deixa a Asuka passar por cima de mim'."

O sorriso de Kai sumiu na hora.

Kensuke quase se dobrou de tanto rir, enquanto Shinji lançava a Kai um olhar que claramente dizia ele tem um ponto.

Toji balançou a cabeça. "Além disso, não tem nada a ver, tá? Ela só é... sei lá, legal, eu acho."

Kensuke sorriu. "Isso foi praticamente uma declaração."

Toji gemeu, murmurando, "Vocês são um saco."

Kai, rindo de novo, deu uma cotovelada nele. "Vocês são gente boa. Ei, Toji! Posso pedir pra Asuka dar um empurrãozinho na Hikari!"

Os olhos de Toji se arregalaram em puro pânico enquanto ele agitava as mãos desesperadamente. "Não! Não! De jeito nenhum! Nem pense em envolver a Asuka nisso!"

Kensuke, ainda rindo, acrescentou, "É, isso é caminho certo pra passar vergonha, cara. Você sabe como ela é!"

Shinji, entretido mas esperto o suficiente pra não se meter, apenas deu de ombros.

Toji gemeu, esfregando o rosto. "Olha... só não faz nada, beleza? Se acontecer, aconteceu. Não precisa dar uma de cupido maluco!"

Kai sorriu de lado. "Tá bom, tá bom. Vou deixar nas mãos do destino."

Mas, no fundo, sabia que ficaria de olho naquela dinâmica. Era divertido demais pra ignorar.

A conversa se dividiu em bate-papos menores enquanto bandejas eram empurradas e cadeiras arrastadas.

O almoço estava animado, cheio de risadas e provocações amigáveis. Enquanto Kai olhava ao redor, viu Asuka sentada com Hikari e outras garotas. Ela parecia envolvida na conversa, mas por um breve segundo, seus olhos se voltaram na direção dele antes de rapidamente se desviar, como se não tivesse olhado.

Kensuke, sempre atento, sorriu. "Já tá com saudade da namorada? Vocês dois tem alguma coisa?"

Toji se recostou, rindo. "É, dou uma semana até ela te beijar ou te jogar pela janela na frente da escola toda."

Shinji suspirou com conhecimento de causa, enquanto Kensuke mantinha o sorriso. "E aí? Vai até lá ou vai ficar só encarando igual um cachorrinho apaixonado?"

Kai bufou, cruzando os braços. "Deixa ela lá com as amigas. Eu falo com ela depois, beleza? Não tenho medo de garota."

Kensuke riu, balançando a cabeça. "Tá bom, valentão. Mas todo mundo viu você checando ela."

Toji sorriu de canto, cutucando Shinji. "Cara, acho que nunca vi a Asuka realmente... tipo, gostar de alguém. Normalmente ela só inferniza a gente."

Shinji assentiu levemente, tomando um gole da bebida. "Ela fica diferente perto dele."

Kensuke se inclinou com um sorriso provocador. "Então tá, Sr. Não-Teme-Garotas. Se tá tão tranquilo assim, vamos testar sua sorte. Te desafio a acenar pra ela agora e ver o que acontece."

Toji riu. "É, vamos ver se ela fica vermelha, se te fuzila com o olhar ou se joga alguma coisa na sua cabeça."

Kai olhou pra ela, depois de volta pra eles. Arriscado, mas não resistiu. Querem me desafiar, é? Ele sorriu. "Fechado."

Ele levantou a mão e acenou casualmente para Asuka.

No meio da conversa, Asuka o viu. Por um instante, seus olhos se arregalaram, como se pega de surpresa. Então, como se decidisse ali mesmo como responder, revirou os olhos dramaticamente—mas não antes do menor sorriso surgir no canto dos lábios. Com um gesto deliberado, quase preguiçoso, ela levantou a mão e retribuiu o aceno antes de voltar à conversa como se nada tivesse acontecido.

Kensuke e Toji trocaram olhares antes de explodirem em gargalhadas.

"Ahhh, ela tentou bancar a durona, mas viu sim!" Kensuke gargalhou.

"Cara, ela sorriu," acrescentou Toji, balançando a cabeça. "Você fisgou ela."

Shinji apenas sorriu discretamente, olhando para a bandeja.

Kensuke se inclinou de novo, olhos brilhando. "Beleza, você passou no primeiro teste. Agora, o próximo desafio—"

Toji interrompeu, balançando a cabeça. "Não, deixa o cara respirar. Ele já venceu."

Kai se recostou, vitorioso. "Pode apostar que venci! E quer saber? Tô orgulhoso, não foi fácil!"

Kensuke o cutucou de brincadeira. "Tá bom, tá bom, Sr. Conquistador. Você domou a fera. Só não deixa isso subir à cabeça—a Asuka tem um jeitinho de virar o jogo quando você menos espera."

Toji sorriu e cruzou os braços. "É, e se vacilar, ela te destrói. Mas por enquanto, aproveita a volta da vitória."

Shinji riu baixo. "Ela realmente parece diferente com você. De um jeito bom."

Kensuke sorriu. "Beleza, próximo desafio—fazer ela acenar primeiro na próxima vez. Duvido que você consiga!"

Toji gemeu. "Cara, agora você tá só inventando desafio!"

Kai riu, mas desviou. "Tô fora! Conheço meus limites! Mas, agora que já sei quem é a garota do Toji, me diz você, Kentucky! E a sua?"

Kensuke levantou as mãos dramaticamente. "Opa, opa, calma aí! Primeiro, eu não tenho `uma garota' tipo o Toji aqui—"

"Ei!" protestou Toji, mas Kensuke ignorou e continuou.

"—Segundo, eu até poderia ter, sabe, se quisesse. Mas as garotas não valorizam o gosto refinado de um verdadeiro homem de cultura como eu."

Toji riu. "Aham. Continua se enganando, Kentucky. Talvez se você largasse a câmera de vez em quando, alguém até lembrasse que você existe."

Kensuke bufou. "Pffft, até parece. Meu futuro está em documentar a história! O que você acha que as pessoas vão querer ver daqui a alguns anos? Um romance colegial ou imagens exclusivas de batalhas dos Evas?!"

Shinji inclinou levemente a cabeça. "Você, ah... você não tem mesmo gravações disso, né?"

Kensuke sorriu de forma maliciosa, mas não respondeu.

A curiosidade queimou no peito de Kai enquanto ele se inclinava em direção a Kensuke. "Agora fiquei curioso! Tem mesmo?? Eu só estive em duas batalhas contra Anjos, e uma nem foi bem uma luta. Queria muito ver a última. Teve algo... estranho nela."

Kensuke sorriu de canto e abaixou a voz, como se fosse revelar segredos de estado. "Bom, tecnicamente falando... talvez eu tenha conseguido capturar alguma coisa. As câmeras de vigilância estavam praticamente todas desligadas durante a luta, mas eu, ah... posso ou não ter deixado uma câmera portátil indetectável estrategicamente posicionada pra pegar um pouco da ação."

Toji arqueou uma sobrancelha. "Tá dizendo que tem gravação daquela luta? Cara, se a Misato descobrir, ela vai arrancar tua cabeça."

Kensuke deu de ombros. "Ela já confiscou a maioria das minhas melhores gravações. Por isso que agora eu sou extra cuidadoso. E essa aqui... eu nem assisti ainda. Tive que esconder para a NERV não apagar tudo."

Shinji parecia desconfortável. "Algo... estranho, Kai?"

Kensuke se virou pra Kai. "É, o que você quis dizer com `estranho', afinal? Você tava lá. O que aconteceu?"

Kai hesitou. Pensou no interrogatório da Misato após a batalha contra Ramiel—o jeito como ela o pressionava, tentando entender por que o Anjo havia se focado apenas nele. Mas ele ainda não queria dizer nada. Queria ver se a gravação confirmava essa suspeita primeiro.

"Eu... não sei se posso falar," ele admitiu. "Mas deixa eu ver a gravação. Só não aqui, no meio da sala. Tem algum lugar onde a gente possa ir? Talvez o telhado?"

Os olhos de Kensuke brilharam de empolgação. "O telhado? Sim, tá certo! Quase ninguém vai pra lá na hora do almoço."

Toji sorriu de canto. "Você só quer se sentir numa reunião militar ultrassecreta, né?"

Kensuke deu um sorriso largo. "Obviamente."

Shinji ainda parecia hesitante, mas assentiu. O grupo rapidamente pegou suas coisas e saiu discretamente da sala, subindo as escadas. Quando chegaram ao telhado, Kensuke tirou uma pequena tela portátil da mochila—provavelmente algo que ele `pegou emprestado' da NERV.

"Certo, hora da verdade," disse ele, preparando o equipamento.

Ele avançou rapidamente por uma sequência de estática até a imagem surgir. Estava tremida e de longe, mas capturava claramente a luta—as manobras evasivas, a defesa desesperada. Kai assistiu enquanto ele atraía o Anjo, Asuka flanqueava e Shinji preparava o disparo do canhão de pósitrons. Então veio o momento crucial.

O Anjo atirou diretamente nele. Várias vezes. Mesmo com Asuka mais próxima e Shinji já mirando.

Toji franziu a testa. "Hã... isso é... estranho. Ele devia ter mirado em quem fosse a maior ameaça, certo? Mas ficou travado em você o tempo todo."

Kensuke voltou a gravação, reproduzindo o momento em câmera lenta. "Viu? Tinha chance clara de acertar a Asuka aqui, ou o Shinji ali... mas não. Só você. Quase como se ele quisesse você."

Shinji olhou para Kai, preocupado. "Kai... o que isso significa?"

Kai soltou o ar. "Não sei... a Misato praticamente me interrogou, tentando entender por quê."

Ele se virou para Kensuke. "Avança um pouco. Até o momento em que o Shinji ia atirar com o canhão. Se lembro bem, o Anjo ainda escolheu me atacar em vez da Asuka. Ela até ficou frustrada. Foi quando eu mal consegui escapar—e ele explodiu meus pés."

Kensuke assentiu e avançou a gravação. O momento se repetiu. Shinji tinha um tiro certeiro. Asuka distraía o Anjo pelo flanco. Mas em vez de virar para qualquer um dos dois, o Anjo atirou em Kai de novo.

Toji soltou um assobio baixo. "Caramba... isso não é só estranho, é bizarro. O Shinji tava com o tiro pronto, mas ele nem ligou. Só queria te apagar."

Kensuke reproduziu de novo, os olhos se estreitando. "Não foi aleatório. Ele ficou fixado em você a luta inteira. Tipo... tipo se tivesse ordens ou algo assim."

Shinji parecia abalado. "Mas por quê? Isso não faz sentido. Os Anjos não pensam assim, né? Eles deveriam ser irracionais... certo?"

Kensuke murmurou, "A não ser que você fosse a prioridade por algum motivo."

Toji cruzou os braços. "Olha, cara... não sei o que a NERV tá escondendo, mas se eu fosse você, ficava de olho. Aquele bicho queria você morto, de verdade."

Kensuke suspirou, encostando-se na grade. "Isso é nível conspiração, mano. Tem certeza que a Misato não te contou nada?"

Kai balançou a cabeça. "Não, ela parecia tão confusa quanto eu. E pensando bem... talvez também não tenha sido coincidência o Anjo anterior cair direto na minha cabeça..."

Kensuke coçou o queixo. "Beleza, então são dois Anjos seguidos agindo estranho com você. Um tenta esmagar tua cabeça, o outro ignora um canhão pra te atingir. Isso não é coincidência, cara."

Toji se inclinou, voz baixa. "Tem certeza de que não tem nada de especial em você? Nenhum passado secreto, experimento esquisito? Você não é algum tipo de Anjo adormecido, né?"

Shinji lançou um olhar sério pra ele. "Toji!"

"O quê? Só tô dizendo!" Toji levantou as mãos defensivamente. "É só que... se eles tão atrás dele, tem que ter um motivo."

Kai bufou. "Se eu fosse um Anjo, pelo menos esperava vir com uns poderes legais."

Kensuke cruzou os braços. "E não é só nas lutas. Pensa bem—a NERV fez um escarcéu pra te trazer até aqui. Te deram a Unidade-04, aquela que supostamente foi destruída naquele acidente americano, certo?"

Kai piscou. "Destruída? Como assim? Só me disseram que ela era baseada num projeto experimental americano."

Os olhos de Kensuke se arregalaram levemente. "Espera, ninguém te contou? Cara... então, houve um incidente sério na Segunda Sede da NERV em Nevada. O complexo inteiro simplesmente... sumiu. Tavam fazendo uns testes malucos com a Unidade-04, e aí um dia—boom. Comunicação cortada. O Eva, a instalação, a equipe... tudo desapareceu."

Toji franziu a testa. "Tipo, explodiu?"

Kensuke balançou a cabeça. "Não exatamente. Não houve explosão. Os sensores simplesmente pararam. Sem destroços, sem corpos. O local inteiro sumiu. É um dos desastres mais secretos da NERV. Chamaram de acidente, mas acho que ninguém sabe ao certo o que aconteceu."

Kai ficou olhando para ele, atônito. "Nossa... eu não fazia ideia... Então tudo desapareceu... mas de algum jeito, tá aqui. E eu tô pilotando. Caramba, isso pesou agora."

Shinji olhou para Kai, visivelmente preocupado. "Talvez a Misato esteja investigando porque... talvez nem ela saiba o que está acontecendo."

Kensuke suspirou, desligando a tela. "De qualquer forma, cara... é melhor você tomar cuidado. O que quer que esteja rolando, é grande. E eu duvido que os Anjos parem de vir atrás de você tão cedo."

Kai expirou, absorvendo aquelas palavras. Depois, deu um leve sorriso. "Valeu mesmo, gente. Foi bom conversar sobre isso com alguém. Acho que nem o Shinji sabia de nada disso, né?"

Shinji balançou a cabeça. "Não... quer dizer, eu sabia que os Anjos eram imprevisíveis, mas não que estavam te mirando especificamente. A Misato nunca falou nada assim pra mim."

Kensuke suspirou. "Cara, isso é insano. Primeiro, o Shinji tem problemas com o pai e precisa salvar o mundo, agora você é tipo um ímã de Anjo? Não dá pra vocês serem adolescentes normais?"

Toji riu, mas seu rosto estava sério. "Tsc... Só os mais quebrados são escolhidos pra pilotar aquelas coisas. Os Evas não querem heróis—querem os ferrados que não têm mais nada a perder."

Shinji olhou para Kai, pensativo. "Kai... se você precisar de apoio, sabe que a gente tá aqui, né?"

Kensuke assentiu. "É. Mesmo que a gente não possa pilotar, tamo com você."

Toji cruzou os braços, sorrindo. "E se algum Anjo tentar te ferrar de novo, dá um soco na cara dele por mim."

Kai riu, olhando para Toji. "Valeu, cara. Vou lembrar disso. Agora... vamos voltar? Antes que sua namorada faça um relatório contra a gente."

Toji gemeu. "Ela não é minha namorada, cara!"

Kensuke riu de canto. "Ainda."

Enquanto desciam de volta, Kai sentia um estranho senso de pertencimento. Mas... também um frio na espinha.

Capítulo 48: Pousos Suaves / Passos Compartilhados

Assim que voltaram para a sala de aula, Kai instintivamente olhou para o lugar de Asuka. Ela estava no meio de uma conversa com Hikari, mas no instante em que o viu, sua expressão mudou—apenas um leve lampejo de curiosidade, como se quisesse saber onde ele tinha estado. Mas não disse nada. Em vez disso, jogou o cabelo por cima do ombro e continuou falando com Hikari, como se não estivesse nem aí.

Kensuke cutucou Kai com o cotovelo, sorrindo de lado. "Alguém foi notado."

Toji riu baixo. "Cara, não entendo vocês dois. Parece uma guerra fria."

Shinji apenas deu de ombros. "É assim que a Asuka é."

Kai se sentou, ainda sentindo a presença de Asuka a poucos lugares de distância. Ele olhava o celular de vez em quando, fingindo ver mensagens.

A aula se arrastou, mas eventualmente o sinal tocou. Os alunos começaram a arrumar suas coisas, cadeiras raspando no chão. Kai instintivamente se virou para Asuka, mas antes que dissesse algo, ela se espreguiçou, braços para cima, e sorriu de lado para ele.

"E aí? Sobreviveu ao primeiro dia?"

"Sobrevivi! Começo difícil, mas acho que deu tudo certo."

"Eu te disse. Era só não agir como um idiota... a maior parte do tempo."

Ela jogou a bolsa no ombro, o sorriso de canto permanecendo por um segundo a mais. Ela parecia satisfeita, mesmo que não fosse admitir diretamente.

Toji e Kensuke já discutiam sobre alguma coisa, Shinji estava por perto parecendo meio perdido, e Hikari juntava seus livros. Asuka inclinou a cabeça para Kai. "Vai me acompanhar até em casa ou tá ocupado demais bancando o popularzinho agora?"

"Claro que vou te acompanhar! Se importa se eu chamar o Shinji e a Rei também?"

Asuka revirou os olhos, mas não parecia haver irritação real em seu tom. "Tsc. Tudo bem, se faz questão. Só não deixa eles atrasarem a gente."

Kai se virou para Shinji. "Ei, Shinji! Vai a pé pra casa?"

Shinji levantou o olhar, um pouco surpreso, e então assentiu. "Ah, claro!"

Kai olhou em volta da sala. "Eu ia chamar a Rei também, mas..."

Shinji acompanhou o olhar, depois balançou a cabeça. "Ela já foi embora. Tinha que passar na NERV esta tarde—algo sobre testes de acompanhamento."

Kai piscou. "Ah... faz sentido."

Asuka apenas deu de ombros. "Essa aí é sempre assim."

Kensuke e Toji tinham seus próprios planos, já imersos num debate sobre tecnologia militar. Hikari acenou para Asuka antes de ir embora. Com isso, os três deixaram a escola juntos.

Enquanto caminhavam, Kai soltou um suspiro dramático. "Finalmente! Isso parecia durar uma eternidade!"

Ele se virou para Shinji. "Então, o que tá rolando com a Rei? Quase parece que ela tá me evitando."

Shinji assentiu. "Ela não falou com ninguém, só ficou no lugar de sempre e saiu mais cedo pra ir pra NERV. Acho que você não precisa se preocupar."

Asuka deu de ombros. "Coisas de favorita, ela é tãão requisitada."

Kai se virou para Shinji de novo. "E você... conseguiu falar mais com ela, como a gente combinou?"

Shinji quase tropeçou, o rosto ficando vermelho na hora. "O-o quê? Quer dizer..."

Ele lançou um olhar nervoso para Asuka, claramente sem saber se devia discutir isso na frente dela.

Kai se inclinou com um sorriso de canto. "Pois é, eu contei pra ela... Mas relaxa, ela disse que ia ser legal. A gente tá do seu lado, né, Asuka?"

Asuka cruzou os braços e fez um som entre suspiro e grunhido. "Não faz parecer estranho. Mas é, estamos com você. Alguém tem que te ajudar a aprender interação humana básica, já que você claramente não faz ideia do que tá fazendo."

Shinji piscou e depois sorriu timidamente. "Acho que estamos bem. Eu levei ela pra casa ontem," murmurou, olhando para qualquer lugar que não fosse Kai e Asuka.

Asuka bufou, cruzando os braços. "Ugh, você é tão entediante, Terceira Criança! Só `bem'? Pelo menos conversaram sobre algo interessante?"

Shinji coçou a nuca, hesitante. "Bom... ela falou mais do que o normal. E ela até ficou um pouco na frente do prédio antes de entrar... Então, talvez?"

Kai sorriu. "Isso é progresso! Ela tá começando a se abrir pra você, cara!"

Asuka sorriu de canto. "Ou ela só queria garantir que ele não se perdesse feito um idiota."

Shinji protestou, "E-ei!", mas não conseguiu esconder o pequeno sorriso satisfeito.

Kai pensou por um momento. "Tô torcendo por vocês. Sério, é só pedir se precisar de alguma coisa."

Shinji deu um pequeno sorriso agradecido, visivelmente sem jeito. "E-eu não sei. Não quero forçar nada. Mas... valeu."

Asuka revirou os olhos, mas sorriu de canto. "É, vamos tentar não traumatizar a garota, tá? Ela não é exatamente do tipo que se derrete por gestos românticos exagerados."

Shinji coçou a cabeça. "Acho que... só queria conversar mais com ela. Mas ela só fala quando quer."

Asuka suspirou. "Então faz ela querer falar, gênio. Pergunta algo que não seja sobre pilotar ou o Gendo, e talvez ela comece a te ver como uma pessoa de verdade."

Kai sorriu. "Viu? Até a Asuka tá investida agora! Imagina nós quatro num encontro duplo. Ia ser insano."

Asuka bufou, cruzando os braços. "Tch, não se empolga, idiota. Não é como se eu—" Ela se interrompeu no meio da frase, desviando o olhar, de repente muito interessada nos prédios por onde passavam.

Shinji parecia como se Kai tivesse sugerido pular de paraquedas sem paraquedas. "Um-e-encontro duplo?? E-eu nem sei se a Rei me vê assim! Ela mal reage a qualquer coisa!"

Asuka suspirou dramaticamente. "Você é um caso perdido. Olha, descobre do que ela gosta. O que faz ela reagir. E talvez, só talvez, ela pare de te olhar como se fosse um experimento científico na próxima vez que falarem."

Ela se virou para Kai com um olhar exigente.

Ele sorriu e olhou para Shinji. "Ela tá absolutamente certa! Essa foi exatamente a estratégia que eu usei com ela!"

Asuka se virou na hora, o rosto ficando vermelho. "O QUÊ—COMO É QUE É?! Você NÃO `usou uma estratégia' comigo, seu idiota!"

Ela deu um tapa no braço dele, forte, mas talvez não tão sério quanto ele fez parecer.

Shinji, por sua vez, parecia estar presenciando algum tipo de técnica secreta sendo revelada. "E-então... do que a Rei gosta? Quero dizer... sei que ela lê muito, e tá sempre na NERV. Mas ela não é do tipo que fala sobre si mesma."

Kai sorriu. "Tudo que você precisa é estar presente. Fazer ela se sentir confortável o bastante pra dizer o que pensa."

Shinji ficou pensativo. "Estar presente... fazer ela se sentir confortável..." repetiu em voz baixa, como tentando convencer a si mesmo.

Asuka revirou os olhos. "Ugh, você já tá complicando demais. Relaxa, idiota. Não transforma isso numa missão. Se você for muito travado, ela vai fechar a cara na hora."

Kai sorriu. "Pelo menos agora você sabe o que quer. Isso já é metade do caminho. Precisou de um novato vindo de outro continente pra te fazer enxergar o óbvio, mas... fico feliz de ter ajudado."

Shinji riu. "É... acho que você tem razão. Valeu, Kai."

Quando chegaram ao apartamento da Misato, Asuka sorriu de lado. "Certo, chega de papo meloso. Chegamos."

Shinji hesitou e depois deu um raro sorriso de canto. "Então... vocês querem ficar um pouco? Ou vão estar... ocupados?" O tom dele era incomumente sarcástico—claramente provocando, mas ainda desajeitado o bastante pra fazer Kai rir.

Kai olhou entre os dois e sorriu. "Shinji! Olha ele ficando ousado! Que língua afiada! Claro que sim. Vamos ficar um pouco."

Shinji riu, sem jeito mas divertido—claramente não acostumado a estar no ataque.

Asuka cruzou os braços com um suspiro exagerado. "Tudo bem, mas se os dois melosos começarem a bancar o casalzinho colorido, eu tô fora."

Capítulo 49: Deriva de Sincronia / Ecos da Entrada

Os três entraram, largando suas mochilas enquanto Misato acenava preguiçosamente do sofá, já com uma lata de cerveja na mão.

"Uau, os três pilotos juntos e sem brigar? Isso sim é um milagre."

Ela se endireitou um pouco, olhando para Kai com um sorriso de canto. "Então, Kai, como foi seu primeiro dia? Alguém tentou brigar com você?"

Kai sorriu, sentando-se. "Foi basicamente igual ao meu primeiro dia na NERV. Vergonhoso e socialmente desastroso no começo, mas me recuperei depois."

Misato riu e ergueu a lata num brinde brincalhão. "Parece certo. Vocês pilotos são, acima de tudo, um bando de desastres sociais ambulantes."

Asuka bufou, jogando a bolsa no sofá e se acomodando. "Fale por você. Eu fui perfeitamente bem no meu primeiro dia. Não é culpa minha se o resto do mundo é incompetente."

Shinji suspirou, claramente já acostumado com as provocações dela.

Misato sorriu, tomando um gole de cerveja antes de apontar para Kai. "E aí, fez amigos, ou ficou só com essas duas peças aí?"

Kai assentiu. "Na verdade, sim! Acho que fiz novos amigos. Toji e Kentucky? São legais. E acho que a representante de classe não me odiou."

Misato arqueou uma sobrancelha, entretida. "Kentucky? Ah, você quer dizer o Kensuke? Pobre garoto, nunca mais vai se livrar desse apelido, né?"

Asuka sorriu de lado. "A Hikari é minha melhor amiga. É bom que ela não te odeie. Mas também não me surpreenderia se achasse você esquisito."

Shinji deu de ombros. "Se você passou o primeiro dia sem entrar na lista negra dela, já é uma vitória. Só... não vacila nas aulas. Ela leva isso a sério."

Misato se espreguiçou com um suspiro satisfeito. "Bem, parece que você sobreviveu. E fazer amigos é bom. Você precisa de pessoas que estejam do seu lado fora do campo de batalha também, sabia?"

Kai se virou para Asuka, curioso. "Falando em campo de batalha, você me deixou curioso! Você também veio de outro país, né? Como foi seu primeiro dia na NERV? Aposto que chegou com estilo."

Asuka jogou o cabelo com um movimento dramático, sorrindo de lado. "Hah! Claro que cheguei! Ao contrário de certas pessoas, eu não tropecei até chegar lá—eu dominei tudo desde o primeiro dia!"

Misato riu, tomando mais um gole. "Ah, eu lembro bem. Você fez questão de deixar todo mundo sabendo que era a melhor. Nada sutil, Asuka."

Asuka cruzou os braços, com ar de superioridade. "Por que eu deveria ser sutil? Eu era a melhor. Sou a melhor. Minha chegada foi espetacular. Ao contrário de vocês fracotes, eu não fui jogada na batalha—eu escolhi lutar. E cheguei num porta-aviões com o Eva-02, pronta pra guerra!"

Shinji suspirou, balançando a cabeça. "É, e aí um Anjo marinho gigante tentou engolir a frota toda."

O sorriso de Asuka vacilou por um segundo antes de lançar um olhar mortal para ele. "E eu derrotei ele, muito obrigada! Enquanto você só ficou lá, de boca aberta."

Kai piscou. "Espera, me conta! O que aconteceu?"

Shinji coçou a nuca. "Bem... o Anjo apareceu enquanto a gente ainda estava em trânsito. Gaghiel. Começou a afundar tudo."

Misato assentiu. "E a Asuka—sendo a Asuka—pulou direto no Eva-02 e arrastou o Shinji junto. Literalmente."

Kai olhou para ela, surpreso. "Sério? Você forçou ele a entrar no plug com você?"

Asuka deu de ombros, com um sorriso orgulhoso. "Claro. Ele precisava ver como se pilota de verdade. O Eva-02 nem estava completamente pronto—sem armas, sem equipamento aquático—mas eu não ia ficar sentada assistindo."

Shinji suspirou. "É... ela me puxou pra dentro do plug de entrada. Dois pilotos espremidos no mesmo espaço, e os dois tentando controlar o Eva. Foi um caos."

Kai ergueu a sobrancelha. "Eu não sabia que dava pra duas pessoas entrarem no mesmo plug. Isso funciona mesmo?"

Misato assentiu. "Funciona, não é comum, mas é possível. O LCL se ajusta pra acomodar mais de um piloto, se necessário. Mas, na maioria das vezes, não é o ideal—as taxas de sincronização podem sair do controle se os dois não estiverem perfeitamente alinhados. E eles estavam mais brigando do que pilotando."

Shinji fez uma careta. "É... definitivamente não estávamos em sincronia naquela época."

Ele ergueu a sobrancelha. "Lembra de sermos arrastados até metade do fundo do oceano?"

Asuka fez uma careta. "Eu sempre tive tudo sob controle!"

Ela bufou. "Tsc. Enfim. O importante é que eu cheguei e dominei—diferente de certo alguém que não conseguiu falar duas palavras na apresentação, `Koi'." Ela lançou um olhar provocador para Kai.

Kai piscou. "Ei! Essa veio do nada."

Misato sorriu. "Tivemos que improvisar. o Eva não ia vencer debaixo d'água, então dei a ordem de usar dois navios de guerra como projéteis. A gente atraiu o Gaghiel, disparou os canhões de dentro da boca dele, e boom—explodiu por dentro."

Kai arregalou os olhos. "Que loucura."

Asuka sorriu, claramente orgulhosa de novo. "Loucura eficiente. E funcionou."

Shinji comentou secamente, "Por pouco. A gente quase morreu lá dentro."

Misato riu. "Foi por um triz. Mas foi a primeira vez que percebemos o quanto essas máquinas—e seus pilotos—tinham que ser flexíveis."

Kai balançou a cabeça, impressionado. "Caramba. Queria ter estado lá."

Misato lançou-lhe um olhar compreensivo. "Você apareceu quando devia, Kai. Acredite—saber chegar na hora certa também é uma virtude."

Asuka sorriu. "Hah! Você nem ia conseguir me acompanhar de qualquer jeito. Eu já estava anos-luz à frente de todo mundo naquela época."

Shinji suspirou. "Tá bom, tá bom, a gente entendeu. Você foi incrível. E mesmo assim a gente acabou precisando de reforço."

Misato riu. "Certo, chega de nostalgia. O que importa é que vocês estão aqui agora, e Tokyo-3 ainda de pé graças a vocês. Então, que tal aproveitar uma tarde normal pela primeira vez?"

Kai mal conseguia conter a empolgação ao ouvir a história. "Ah, agora tô animado! Quero ouvir mais histórias!"

Ele se virou para Shinji e Misato. "E você, Shinji? Como foi a primeira vez com o Eva-01? Detonou algum Anjo?"

Shinji se remexeu desconfortável. "Ah... não exatamente."

Misato sorriu de canto, apoiada no balcão com os braços cruzados. "Isso é pouco. Ele basicamente foi jogado no cockpit sem nenhum treinamento e a gente esperava que ele enfrentasse um Anjo na hora. Foi um milagre ele acertar qualquer coisa."

Shinji suspirou. "É... eu meio que apaguei no meio da luta. Quando percebi, acordei no hospital."

Asuka bufou, cruzando os braços. "Tsc. Típico. Claro que seu Eva teve que ficar descontrolado e lutar por você. Que conveniente."

Shinji franziu a testa, mas não discutiu. Misato, porém, deu de ombros. "Pra ser justa, foi a primeira vez que vimos do que um Eva era capaz por conta própria. Assustador."

Ela olhou para Kai. "Ainda bem que isso não aconteceu com você, né?"

Kai pareceu surpreso. "O que você quer dizer com `ficar descontrolado'?"

Misato se inclinou, apoiando os braços nos joelhos. "Literalmente isso. O Eva-01 parou de responder aos comandos do Shinji, mas em vez de desligar... bem, agiu por conta própria."

Shinji se remexeu, desconfortável. "Foi como se tivesse vontade própria. Eu não lembro de nada, mas quando acordei, o Anjo estava destruído."

Misato suspirou. "Foi a primeira vez que percebemos que as Evas não são só máquinas. Elas estão vivas, de certo modo."

Ela olhou para Kai com curiosidade. "Seu Eva-04 nunca fez isso, fez? Nunca agiu sozinho?"

Kai balançou a cabeça. "Nunca! Eu sinto que ele é meio... vivo... mas se mover sozinho? Isso é assustador. Todos os Evas podem fazer isso, ou só o Eva-01?"

Misato cruzou os braços e se recostou. "Até onde sabemos, só o Eva-01 fez isso completamente. Mas..." Ela lançou um olhar para Asuka antes de continuar. "Os Evas são imprevisíveis. Já houve... incidentes. Não iguais ao do Shinji, mas com sinais de que há algo mais por baixo da superfície."

"Não seja ridícula," cortou Asuka, a voz mais afiada que o normal. "Isso é desculpa de piloto que não consegue manter o controle. Nós somos os pilotos. Eles são as máquinas. Esse é o ponto. Se elas começam a `agir sozinhos', então o problema não é o Eva—é o piloto."

Ela lançou um olhar cortante para Shinji antes de acrescentar, "Pra que estamos aqui, afinal, se não for pra ter controle total?"

Misato deu um meio sorriso. "Boa pergunta. Uma que ainda não conseguimos responder direito."

Ela voltou a olhar para Kai. "Mas ainda assim, seu Eva-04 nunca fez nada estranho? Nenhuma reação esquisita, movimento que não pareceu seu?"

Kai hesitou antes de responder. "Estranho, sim, claro. Mas nada assim."

Ele odiava a ideia de perder o controle... e de que ele pudesse machucar alguém. "Acho que ele é do bem. O Eva-04, quero dizer."

Misato o observou com curiosidade, mas assentiu. "Vamos torcer pra que continue assim. Mas fique atento. Se algo parecer... fora do normal, me avisa, tudo bem?"

Shinji olhou para as próprias mãos, pensativo. Asuka, por outro lado, revirou os olhos, mas não disse nada. Kai podia ver que ela estava pensando sobre isso. Talvez lembrando de algo que não estava pronta para contar.

Misato se espreguiçou, esticando os braços para trás. "Enfim! Chega de papo sinistro sobre Evas por hoje. Vocês sobreviveram à escola, e nenhum Anjo apareceu pra estragar a tarde. Isso já é uma vitória pra mim. E agora, qual o plano pro resto do dia?"

Kai olhou para Asuka, procurando uma desculpa para ficarem a sós, mas não conseguiu pensar em nada.

Asuka olhou pra ele, captando sua hesitação, e sorriu de lado, como se lesse sua mente. "Bom, não sei quanto a vocês," disse, apontando para Shinji e Misato, "mas eu tive um dia bem cansativo. Tô precisando de um pouco de ar fresco."

Ela se espreguiçou de forma dramática e se levantou, jogando o cabelo por sobre o ombro antes de olhar diretamente para Kai. "Quer me acompanhar?"

Misato sorriu de canto, sabendo bem o que estava acontecendo, mas não disse nada. Shinji apenas piscou, olhando de um lado para o outro.

Kai assentiu, mas suas palavras saíram atropeladas. "Sim! Você quero—digo... claro."

Asuka ergueu uma sobrancelha diante da frase, mas sorriu, claramente achando graça. Não disse nada, apenas se virou e seguiu em direção à porta, esperando que ele a acompanhasse.

Quando os dois saíram, o ar fresco da noite os envolveu. A cidade zumbia ao fundo, os sons distantes do trânsito e das cigarras preenchendo o silêncio entre eles.

Depois de alguns instantes, Asuka o olhou com aquele jeito que ela sempre tinha quando já sabia a resposta.

"Então... o que realmente você tem em mente?"

Capítulo 50: Sob o Pôr do Sol / Intrigas e Fragilidades

O momento em que a porta se fechou atrás deles marcou uma mudança em Kai. A pressão do dia, o desconforto que ele insistia em ignorar, se assentava sob sua pele como um peso que carregava desde o amanhecer. Ele não queria admitir, nem para si mesmo, mas estava cansado. Não fisicamente. Era algo mais silencioso. Mais profundo.

E, no entanto, ao caminhar ao lado de Asuka agora, sem ninguém por perto... ele finalmente podia respirar.

Kai olhou para Asuka, um sorriso surgindo nos lábios. "Sabe de uma coisa? Conhecer gente nova hoje foi legal e tal... mas eu estava meio que sentindo falta de ficar sozinho com você."

Ele não tinha percebido o quanto precisava daquele silêncio — até agora. Manter o clima leve perto dos outros era cansativo. Seus pensamentos insistiam em voltar para o Eva-04, os Anjos, o silêncio de Rei, as suspeitas de Misato... tudo isso estava lá, atrás do sorriso, como um ruído estático.

Asuka parou por um instante, sua expressão indecifrável. Então, ela deu um leve sorriso e cruzou os braços, olhando adiante. "Demorou pra admitir."

Ela continuou andando, mas havia uma leve mudança em sua postura — um pouco mais relaxada, um pouco mais confortável. Depois de alguns passos, ela diminuiu o ritmo só o suficiente para que Kai a alcançasse.

"Então... agora que me tem só pra você, o que pretende fazer com isso?" provocou, lançando um olhar de canto, entretida e curiosa.

Kai checou o horário. "A gente não tem muito tempo hoje, então... que tal só dar uma volta? Talvez no parque."

Asuka ergueu uma sobrancelha. "Um passeio no parque, é? Isso é... surpreendentemente comportado da sua parte."

Ela sorriu de lado, inclinando a cabeça levemente. "Tá bom, vai. Mas só porque sei que você ainda tá tentando me impressionar."

Ela começou a andar, mantendo o passo ao lado do dele. "E qual é o plano, senhor romântico? Só andar sob as árvores ou tá escondendo alguma carta na manga?"

Kai sorriu, com a energia um pouco mais baixa que o normal. "Ah, claro que não vou parar de tentar te impressionar. Mas hoje vou poupar seu ego de uma surra. Tô meio esgotado. Foi muita coisa."

Asuka lançou um olhar de lado, o sorriso suavizando um pouco. "Tsc. Tá, eu deixo. Você perdeu os pés na batalha, afinal. É uma desculpa aceitável pra pegar leve."

Ela cutucou seu lado com o cotovelo enquanto seguiam andando. O sol começava a se pôr, pintando o céu com tons quentes de laranja e roxo. O parque estava tranquilo, com poucas pessoas passando. Um momento de paz rara.

"Sabe... até que eu gosto disso," admitiu, olhando à frente. "Só andar. Sem explosões. Sem monstros gigantes. Sem treinos idiotas."

Depois, lançando um olhar provocador, acrescentou: "Mas não se acostuma, tá? Na próxima vez, vou acabar com você em alguma coisa. Só pra constar."

Kai sorriu, percebendo que ela estava, de algum jeito, tentando animá-lo. "Mal posso esperar pra te ver tentando, e falhando lindamente."

Asuka revirou os olhos, mas ele notou o pequeno sorriso que ela tentava esconder. "Hah! Você tá sonhando. Eu vou te esmagar, igual na corrida de kart. E nada de apostas suspeitas da próxima vez, entendeu?"

Ela balançava os braços de leve ao andar, o vento brincando com seus cabelos. A troca de provocações era familiar, confortável — como se fizessem isso há muito tempo.

Depois de um momento, sua voz suavizou um pouco. "Mas... é. Hoje foi legal. Mesmo com você sendo um idiota metido e irritante às vezes."

Ela encostou o ombro no dele novamente, dessa vez de forma mais leve. Só o suficiente pra dizer: `estou aqui'.

Kai sorriu. "Ah, espera aí... você ficou com ciúmes de eu ter passado tanto tempo com os caras hoje? Eu ia falar com você, mas parecia tããão entretida conversando com a Hikari."

Asuka bufou, cruzando os braços e acelerando um pouco o passo, como se quisesse andar na frente. "Ciúmes? Pffft, tá se achando demais!"

Ela o olhou de canto, tentando avaliar sua reação. A arrogância habitual estava lá, mas havia algo mais — algo que ela não dizia em voz alta.

"Eu só tava te dando espaço pra fazer amigos, já que você é tão tragicamente novo e perdido por aqui. Diferente de mim, que comanda essa escola desde o primeiro dia."

Ela jogou o cabelo por cima do ombro, mas ele notou seus dedos se movendo de leve contra o braço. Talvez ela tenha mesmo reparado no tempo que ele passou com os garotos. E talvez isso tenha incomodado — só um pouco.

"E além disso," acrescentou logo, "Hikari é minha melhor amiga. Claro que eu ia conversar com ela. Você não pode ter toda a minha atenção, sabia?"

Mas ela não acelerou mais. Continuou ali, ao lado dele, caminhando em silêncio.

Kai não ia dizer nada. Mas Asuka tinha ficado quieta por tempo suficiente, e parte dele queria ver uma reação dela — qualquer coisa pra quebrar aquela máscara que ela usava quando não sabia bem como se sentia. Então, ele sorriu. "Falando nisso... acho que descobri algo sobre a Hikari que você vai adorar saber..."

Os olhos de Asuka se estreitaram, a curiosidade despertando na hora. "Ah, é? E o que a minha melhor amiga fez que é tão interessante assim?"

Ela se aproximou um pouco mais, os olhos fixos nele agora, ansiosa por qualquer fofoca. Mas não queria parecer fácil — inclinou-se levemente pra trás, braços cruzados, esperando ele ceder primeiro.

"E aí? Vai falar logo!"

Kai fingiu pensar. "Hmmm, não sei. Talvez eu não devesse dizer."

Asuka estreitou os olhos, claramente irritada com a hesitação dele. Ela se inclinou, a voz baixando pra um tom perigosamente doce. "Ah, qual é. Não me provoca assim e depois foge. Isso é pura maldade, Kai."

Ela cutucou o braço dele, mas ele percebeu que ela estava se controlando pra não pressioná-lo de verdade. Queria saber — mas queria que ele dissesse por vontade própria.

"Além disso," acrescentou, jogando o cabelo de forma dramática, "eu sempre descubro tudo eventualmente. Então é melhor me contar agora do que me obrigar a arrancar à força."

O sorriso dela era puro Asuka — confiante, provocador, praticamente desafiando ele a resistir.

Kai sorriu de volta. "Tá bom, tá bom... eu conto."

Asuka cruzou os braços, levantando uma sobrancelha com expectativa. "Então? Tô ouvindo."

Kai se inclinou um pouco, abaixando a voz como se fosse confidenciar um segredo. "O Toji tá afim da Hikari."

Por um segundo, Asuka só piscou. Depois, um sorriso lento se formou em seu rosto. "Oooh, é mesmo?"

Ela inclinou a cabeça, olhando pro alto como se processasse cem possibilidades de uma vez.

"Hã. Na verdade faz sentido. Ela vive mandando nele. E ele é burro o bastante pra gostar disso."

Ela riu sozinha, depois estreitou os olhos de forma brincalhona. "E como exatamente você descobriu isso dele?"

Kai sorriu. "Ué, já falei! Eu tenho um dom! As pessoas simplesmente se abrem comigo!"

Asuka bufou. "Ah, por favor. Aposto que você ficou enchendo o saco dele até ele confessar."

Ela levou o dedo ao queixo, visivelmente tramando algo. "Sabe... a Hikari nunca falou que gostava de ninguém. Mas agora que sei que o Toji tá na dela... talvez eu deva dar um empurrãozinho."

Ela olhou pra ele com um sorriso malicioso. "O que acha, parceiro de crime? Vamos nos intrometer?"

Kai sorriu. "Mas é claro!!! Tô dentro! Primeiro Shinji e a Rei, agora Hikari e Toji. Meu plano final é fazer todo mundo ao nosso redor virar casal só pra você não ter medo de ser também."

Ele sentiu como se tivesse soltado uma bomba, o sorriso estampado no rosto.

Asuka parou no lugar e estreitou os olhos pra ele. "Ah, então esse é o seu plano genial, é?"

Ela cruzou os braços, fingindo desdém, mas o leve tom avermelhado em suas bochechas a denunciava. "Pois fique sabendo, gênio, que eu não preciso de pressão externa pra fazer o que eu quiser."

Então, ela sorriu de lado, se aproximando um pouco, a voz caindo para um desafio brincalhão. "Se quiser me conquistar, vai ter que fazer melhor que isso."

Kai riu. "Sério? Melhor que isso? Poxa, isso foi bom!"

Ela inclinou a cabeça, sorrindo. "Foi decente. Mas não no nível Asuka de bom."

Chapter 51: Variáveis Ocultas / Os Riscos do Afeto

Enquanto caminhava, Kai olhava para o céu noturno, a mente ainda girando com as provocações de Asuka. Ele já tinha saído em encontros com ela, vivido momentos incríveis no parque de diversões, no karaokê... E mesmo assim, havia algo nela. Algo intrigante. Sempre ficando mais interessante. Sempre o mantendo alerta.

E ele adorava isso.

Kai sorriu. "Tá bom, me dá mais um encontro. Mais uma chance de te impressionar. Que tal?"

Ela parou, inclinando a cabeça como se estivesse considerando a proposta seriamente. Então, com um sorriso de canto, olhou para ele. "Hmph. Mais uma chance, é? Você é mesmo insistente, hein?"

Cruzou os braços, fingindo pensar por um momento, então deu de ombros. "Tá bom. Mas tem que ser bom. De primeira linha. Inesquecível. Senão, você vai se arrepender pro resto da vida."

Ela continuou andando, mas havia uma pontinha de animação na voz. Ele tinha acabado de garantir mais um encontro.

Kai sorriu. "Inesquecível, é... quer dizer então que já esqueceu o nosso primeiro?"

"Que tipo de pergunta é essa? É claro que eu—"

Ela se interrompeu, desviando o olhar, de repente muito interessada nas árvores ao redor. Então, com o movimento mais suave (e totalmente suspeito) do mundo, ela ajustou a alça da mochila, como se tentasse esconder algo casualmente.

Ele conhecia aquele olhar.

"Tsc. Tanto faz. Não significa nada," murmurou.

Ela revirou os olhos, mas um pequeno sorriso ameaçava escapar. "Tsc. Quero dizer que você vai ter que se superar. Continuar aumentando o nível, entendeu?"

Kai sorriu. "Tá bom, tá bom—já que você insiste taaanto, você acabou de ganhar outro encontro."

Ela estalou a língua, mas havia um sorriso quase imperceptível no canto dos lábios.

"Certo. Mas é bom que seja bom," disse, apontando o dedo para ele como se estivesse estabelecendo uma regra.

Começou a andar na frente, mas não sem antes dar uma leve cotovelada no ombro dele. Kai não conseguiu segurar um sorriso ainda maior.

É. Com certeza vou ter que fazer isso valer a pena.

Depois de mais alguns minutos caminhando, Asuka apontou para uma colina gramada. "Pronto, vamos sentar aqui."

Kai se jogou na grama onde ela indicou, os olhos se voltando para as estrelas. Ela se sentou ao lado dele, pernas esticadas, braços atrás do corpo para se apoiar.

"Sabe... Eu não costumo fazer isso," admitiu depois de um momento. "Só... ficar parada assim. É meio estranho."

Ela o olhou de relance, a expressão difícil de decifrar, mas havia uma suavidade nos olhos. Talvez, só talvez, ela estivesse começando a gostar daquilo.

Kai sorriu. "Eu sei. Também gosto de coisas mais... agitadas, tipo o que a gente tem feito nos últimos dias. Mas hoje..." Ele hesitou e olhou rapidamente para ela. "...ou você só aceita o Kai animado e divertido?"

Ela ficou em silêncio por um instante, como se ponderasse a resposta. Então suspirou de leve e se deitou na grama ao lado dele, os braços dobrados atrás da cabeça.

"...Eu entendo, seu idiota."

Virou ligeiramente a cabeça para encará-lo, com um sorriso provocador nos lábios. "Mas nem vai pensando que vai começar a escrever poesia, tá? Se você ficar muito sério, vou ter que te tirar dessa vibe na marra."

Ela esticou o braço e deu um peteleco leve na testa dele. Sem força. Só um toque. Só o jeito dela de dizer que estava ali, não importava qual versão dele aparecesse.

Kai riu. "HAH! Poesia! Você sempre sabe me fazer rir. Como diabos você faz isso?"

Ela deu uma risadinha, voltando a olhar para o céu com um sorriso satisfeito. "É um dom. Do mesmo jeito que você conseguiu se enfiar na minha vida e se tornar impossível de ignorar."

Ela se aproximou um pouquinho, quase imperceptivelmente, como se não quisesse admitir que estava fazendo isso. Então suspirou baixinho e acrescentou: "Mas não deixa isso subir à cabeça, tá?"

Kai hesitou por um momento e então disse: "Sabe... tenho um grande problema pra resolver agora... não sai da minha cabeça..."

Ela virou um pouco a cabeça, olhando pra ele com leve curiosidade. "Ah, é? E que crise mundial está atormentando essa sua mente hiperativa agora?"

Kai olhou para as estrelas, pensando, refletindo... depois de um longo silêncio, finalmente disse: "Tenho que pensar muito bem... não posso errar..."

Asuka se virou levemente ao lado dele, se apoiando num cotovelo, o olhar agora fixo nele. "Você tá enrolando demais... Fala logo!"

Kai sorriu de lado, e então se virou de repente para ela. "O problema é... onde te levar no nosso próximo encontro."

Asuka o encarou, piscando surpresa, antes de gemer e empurrar o ombro dele de leve. "Idiota! Achei que você ia dizer algo sério!"

Kai sorriu, mas por dentro, estava em pânico. Já tinha usado todas as cartas no primeiro encontro. E mesmo fora dos encontros, já tinham vivido tantos momentos bons. Mas agora Asuka esperava algo ainda melhor.

Ela o observou atentamente, com um sorriso nos lábios. "É bom mesmo que seja bom. Algo digno de ser `inesquecível', lembra?"

Cruzou os braços, fingindo pensar seriamente, mas o brilho divertido nos olhos a entregava. "Hmmm, é, você tem um problema. Você se superou tanto no primeiro encontro que agora, se vier com qualquer coisa menos do que aquilo, eu vou ficar decepcionada."

Se recostou na grama, olhando para as estrelas. "Mas, ó, sem pressão, tá?"

Virou a cabeça levemente para ele, com um pequeno sorriso provocador nos lábios.

Kai suspirou dramaticamente. "É... acho que eu pedi por isso, né? Podia estar tendo uma vida triste, lenta, quieta, eventualmente lutando contra um Anjo e voltando pra casa pra chorar no travesseiro... mas naaaada disso, eu tive que ser enfeitiçado pela ruiva mais explosiva e ameaçadora da cidade!"

Asuka deu uma risada curta e divertida, virando o rosto para ele agora. "Bom, pelo menos você tem bom gosto, isso eu admito."

Ela se aproximou um pouco, apoiando a cabeça nos braços. "Mas, olha, você não teria aguentado outra vida. Imagina que tédio seria sem mim. Sem apostas, sem desafios, sem expectativas ridiculamente altas..."

Inclinou levemente a cabeça, com um sorriso maroto. "Horrível."

Kai sorriu. "Não me arrependo de nada. Que venham as expectativas ridiculamente altas!"

Ela devolveu o sorriso, claramente se divertindo com o desafio que ele mesmo estava impondo.

"Ótimo. Não queremos você relaxando, né?"

Esticou os braços atrás da cabeça, voltando a encarar o céu.

"Mas tenho que admitir..." Ela pausou por um segundo, como se escolhesse as palavras. "Você tem sido... surpreendentemente decente até agora..."

E então, sem perder o ritmo, virou-se para ele com um olhar convencido. "Ainda não é incrível, mas... tá chegando lá."

Kai virou-se também, encontrando o olhar azul intenso dela. De repente, soltou o ar num suspiro, percebendo o quanto realmente estava envolvido nisso. Nela.

Ela piscou, notando o olhar dele. Seu sorriso vacilou por um segundo. Então, ela gemeu dramaticamente, cobrindo o rosto com a mão.

"Argh! Você é tão meloso! Para com isso!"

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Mas mesmo reclamando, ela escondia um pequeno sorriso envergonhado. Quando voltou a encará-lo, havia uma suavidade na expressão—algo que ela só deixava ele ver.

"Você é impossível, sabia?"

Kai riu. "Mas eu não falei nada!"

Ela balançou a cabeça, revirando os olhos com um suspiro dramático. "Você não falou... mas isso não torna menos meloso."

Ainda assim, não se afastou. Na verdade, se inclinou um pouco mais, o ombro roçando no dele enquanto voltava a olhar para o céu.

Depois de alguns momentos de silêncio, Kai falou de novo. "Então... o encontro... que tal esse sábado?"

Ela inclinou a cabeça ligeiramente, como se fingisse pensar, mas o sorriso no canto dos lábios a entregava.

"Sábado, é? Hmmm... acho que posso te encaixar na minha agenda incrivelmente ocupada."

Ela o olhou de lado, claramente se divertindo com a provocação, antes de dar um pequeno aceno. "Tá bom, sábado então. Mas é bom que seja inesquecível."

Kai assentiu. "Beleza! Hoje é... quinta. Então tenho um dia inteiro pra planejar tudo."

Ela ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. "Ah, é? Só um dia? Tem certeza de que é tempo suficiente pra alcançar os meus padrões impossíveis?"

Ela sorriu. "Então tá, senhor `eu-não-desisto-nunca'. Vamos ver se você consegue superar o último."

Se recostou na grama, olhando para as estrelas novamente. "Você sabe que, se aumentar a barra demais, vai ter que se superar sempre, né?"

Kai suspirou. "É... eu sei..."

Pausou, depois olhou para ela novamente. "Mas você vale o esforço."

Ela bufou, revirando os olhos, mas um leve rubor apareceu nas bochechas. "Ugh, você é realmente impossível."

Virou o rosto, mas ele sabia que ela estava sorrindo.

"Tá bom, tá bom. Você venceu. Mas só pra você saber, espero ser impressionada. E nem pense que vou pegar leve só porque você tá todo fofo, entendeu?"

De repente, virou-se para ele, os olhos azuis fixos nos dele. "Então... eu vou ganhar uma dica do que você tá planejando ou isso é alguma operação ultra-secreta?"

Kai sorriu de lado. "Completamente, totalmente, absolutamente confidencial de altíssimo nível. Vai ver o encontro já começou e você nem percebeu."

Asuka bufou, mas havia curiosidade nos olhos. "Ah, por favor. Só lembra que, se não for incrível, eu nunca vou deixar você esquecer."

Kai assentiu, confiante. Não faço ideia do que vou fazer.

Manteve o sorriso no rosto, mas por dentro, já estava entrando em pânico. Não fazia ideia de como planejar esse encontro, e Asuka estava esperando perfeição.

Ela se recostou na grama, um sorriso confiante nos lábios. "Então, senhor ultra-secreto, pelo menos me diz uma coisa—você tá planejando algo divertido ou algo... meloso?"

"Melosidade está terminantemente proibida. Vai ser tudo sobre diversão! Um dia inteiro de empolgação! Você vai sorrir tanto que suas bochechas vão doer."

Na verdade, não tenho ideia nenhuma do que fazer nesse encontro. Mas não me importa, isso não vai me impedir de criar expectativa.

Asuka bufou. "Tsc. Agora é que você não pode mesmo estragar tudo."

Ela esticou os braços atrás da cabeça e sorriu. "Certo, vou cobrar. Um dia inteiro de emoção, hein? Então é bom estar pronto pra me acompanhar. Eu não aceito nada pela metade, Kai. Se eu não estiver exausta no final, você falhou."

Ela o olhou de lado, analisando qualquer hesitação. "Você tem um plano mesmo, né?"

Kai assentiu, confiante. "Com certeza."

Mentira. Tô ferrado.

"Ótimo," disse ela, completamente alheia ao caos na mente dele. "Então não preciso me preocupar. Você planeja, eu aproveito. Esse é o acordo."

Ela se sentou e se espreguiçou, soltando um suspiro satisfeito. "Certo, já deu de ficar deitado. Me leva pra casa, senhor planejador. Você tem menos de dois dias pra fazer o melhor encontro da minha vida."

Ela sorriu para ele, completamente confiante de que ele daria conta.

Kai se levantou e começou a caminhar com ela, mantendo a expressão calma enquanto o cérebro corria em velocidade máxima. Gastei quase todo o dinheiro no primeiro encontro. Como vou superar aquilo quase sem grana? Ia ter que mergulhar fundo na mente de Asuka pra encontrar o encontro perfeito.

Enquanto caminhavam, ela o cutucou com o cotovelo, claramente se divertindo. "Você tá pensando tão forte que dá até pra ouvir as engrenagens girando. Não tá em pânico, né?"

Kai bufou. "Eu? Pensando forte? Há! Você não faz ideia do que te espera!"

Por quê?? POR QUE eu tô fazendo isso??? Vai ser impossível corresponder às expectativas!

Ela ergueu a sobrancelha, o sorriso se abrindo. "Ah, é? Então vou esperar nada menos que perfeição, senhor operação-ultra-secreta."

Ela se inclinou levemente. "Aposto que você nem tem plano ainda."

Kai sorriu. "Claro que tenho! Esteja pronta ao meio-dia! Vai ser o começo de um dia de aventuras! É tudo o que posso dizer."

Aventuras??? Que aventuras???

Ela estreitou os olhos, se divertindo com o jogo. "Meio-dia, é? Tudo bem, estarei pronta. Mas é melhor você não me decepcionar, senhor aventureiro."

Ela sorriu, claramente se divertindo.

"E relaxa, gênio. Se você estragar tudo dessa vez, bem... vou ter que te dispensar, e aí não vai ter mais nenhum encontro pra se preocupar."

Só uma provocação. Óbvio. Provavelmente. Ela sabia que o tinha nas mãos.

Kai congelou. Suando. Meu deus, essa é mesmo minha última chance?

Enquanto andavam, Kai lançava olhares para ela. Não queria decepcioná-la. Não ia.

Notando o olhar, Asuka sorriu de lado. "O que foi? Já tá nervoso?"

Ela cutucou o braço dele, rindo. "Ainda dá tempo de desistir, sabia? Talvez eu perdoe você. Talvez."

Ela estava testando ele. Mas não havia chance dele recuar.

"Não... sábado já tá combinado. Sem volta. Amanhã temos algo da NERV? Ou só mais um dia chato de aula?"

Ela deu de ombros. "Vai saber. Misato não falou nada, né? Talvez estejam te dando um tempo pra se recuperar."

Ela o olhou de lado, com um sorriso de volta. "Ou talvez tenham percebido que eu sou a piloto superior e que vocês só me atrapalham."

Kai revirou os olhos. "Ah, fala sério... você sabe que encontrou seu igual. A Unidade-02 agora é de fato a número dois."

Ela parou, mãos na cintura. "Hah! Sonha! Mas tudo bem, se você realmente acha que tá no meu nível, que tal isso—na próxima simulação de sincronização, vamos apostar. Quem tiver o melhor resultado manda no outro por um dia inteiro."

Estendeu a mão, os olhos brilhando de confiança. "E aí, valentão?"

Kai sorriu. "De novo isso?? Mais um dia inteiro? Você gostou mesmo da última vez, hein!"

Asuka bufou, jogando o cabelo para o lado. "Por favor, você é que tava adorando! Eu só aproveitei meu prêmio merecido."

Ela se inclinou levemente, os olhos se estreitando de forma travessa. "Mas se estiver com medo de perder, eu entendo. Quer dizer, da última vez você mal sobreviveu."

Kai apertou a mão dela, segurando um pouco mais do que o necessário. "Ah, agora é pra valer! Mas promete que não vai chorar igual uma garotinha se eu vencer."

Asuka sorriu, apertando ainda mais a mão dele. "Tch, até parece! O único que vai chorar igual uma garotinha é você, quando perceber que nunca teve chance!"

Ela manteve o aperto por mais um segundo, os olhos fixos nos dele, então puxou a mão de volta com um movimento ágil.

"É melhor descansar, Kai. Não quero ouvir desculpas quando eu passar por cima de você!"

Ela se virou e saiu andando com aquele passo confiante, deixando espaço suficiente pra ele acompanhar—mas só se fizesse esforço.

Kai logo a alcançou. "Mas fala sério, você vai conseguir conviver com o fato de não ser mais a melhor? Ser derrotada por um novato? Não tem vergonha nenhuma em desistir, sabia."

Asuka bufou. "Desistir? Por favor! Eu poderia me vendar e ainda assim vencer! Mas olha, se você já está arranjando desculpas, talvez eu devesse pegar leve com você. Não quero ferir seu frágil egozinho."

Ela sorriu de lado, inclinando levemente a cabeça na direção dele. "Você sabe o que acontece se eu ganhar de novo, né? Outra aposta, outro dia com você sendo meu servo pessoal. Espero que esteja pronto pra me carregar pelas ruas de novo."

Kai retribuiu o sorriso. "Ah é? Quero ver VOCÊ me carregar nos ombros dessa vez!"

Asuka parou e o encarou como se ele tivesse acabado de sugerir uma loucura. "Pfft—EU te carregar? Por acaso parece que eu tenho força de um Eva?!"

Ela cutucou o peito dele com um sorrisinho. "Boa tentativa, mas se você perder, já sabe quem vai estar sendo carregada. E se você ganhar—o que não vai acontecer—então... bem, vamos ver se você merece uma recompensa."

Kai sorriu. "Acho que você já sabe qual é a recompensa que eu quero. A única que eu realmente quero."

Asuka hesitou por um segundo—só o suficiente para que ele percebesse sua confiança vacilar antes de ela virar o rosto.

"Tsc. Palavras grandes pra alguém que só sabe perder."

Capítulo 52: Brilho Pós-Crepúsculo / Silêncio Entre as Estrelas

Enquanto caminhavam lado a lado, as luzes da cidade começavam a se acender ao redor deles. O ar estava fresco, e um silêncio confortável se instalou entre os dois—um daqueles que não precisava ser preenchido com palavras. De vez em quando, Asuka lançava um olhar para Kai, seu sorriso sarcástico suavizando só um pouco.

"Fico pensando... ," Kai finalmente perguntou, "o que você fazia no seu tempo livre antes de eu aparecer?"

Ela revirou os olhos, como se a resposta fosse óbvia. "Tch, eu treinava. Estudava. Aperfeiçoava minhas habilidades. Ao contrário de você, eu não ficava enrolando esperando alguém me entreter."

Depois de uma breve pausa, deu de ombros. "Sei lá... acho que eu passava mais tempo com a Hikari. Às vezes o Shinji, o Toji e o Kensuke também estavam por perto, mas não é como se eu precisasse deles. E agora..."

Ela lançou um olhar rápido para ele antes de desviar. "Bem, agora as coisas são diferentes, eu acho."

Kai sorriu de canto. "Diferente bom?"

Depois de um segundo, ela murmurou, só alto o bastante para ele ouvir: "...É. Diferente bom."

Em seguida, bufou e cruzou os braços, mas havia um leve sorriso nos lábios. "Hmph. Acho que não é terrível ter você por perto."

Kai sorriu como se tivesse vencido o dia.

Ela percebeu e imediatamente estreitou os olhos, cutucando o peito dele com o dedo. "Não se ache, idiota. Isso foi uma observação, não uma confissão."

Mas apesar das palavras, um leve rubor quase imperceptível apareceu em suas bochechas enquanto ela desviava o olhar e apressava um pouco os passos.


Quando chegaram ao prédio dela, Asuka se encostou no batente da porta, braços cruzados e um pequeno sorriso brincando nos lábios.

"Bom, acho que agora é a hora em que você fala alguma coisa melosa e vai embora."

Ela estava provocando, mas havia algo no olhar—como se esperasse algo mais. Talvez até quisesse.

Kai sorriu de canto, percebendo aquilo e decidindo fazer exatamente o contrário. "E agora eu não vou dizer nada. Perdeu a chance."

Asuka piscou, depois soltou um som de pura ofensa teatral.

"O quê?! Você não pode simplesmente—"

Ele fez uma pausa e então completou: "E agora é sua vez de revirar os olhos e dizer algo sarcástico."

Asuka bufou dramaticamente, revirando os olhos exatamente como previsto, mas o sorrisinho que tentava esconder a entregava por completo.

"Ugh, você é impossível," murmurou, balançando a cabeça. "Mas... acho que não me incomoda. Muito."

Ela ficou ali por um momento, como se estivesse ponderando algo, até finalmente dar um passo à frente e dizer: "Até amanhã, idiota."

E antes que ele pudesse responder, ela entrou e fechou a porta, deixando Kai parado ali com um sorriso que não conseguia esconder.


Enquanto caminhava de volta pra casa, as ruas pareciam mais silenciosas, as luzes da cidade piscando suavemente à distância. As palavras de Asuka ainda ecoavam em sua mente, deixando um calor que fazia o ar frio da noite parecer irrelevante. Ele olhou para o céu e soltou um suspiro profundo—aquele tinha sido um bom dia.

Mas amanhã? Amanhã era dia de pânico com o planejamento do encontro. Ele não fazia ideia de como ia dar conta de tudo. Ainda assim, não trocaria aquilo por nada. Era bom focar nisso e esquecer do resto.

Quando chegou em seu apartamento, já estava puxando o celular, meio que esperando uma mensagem dela. Mesmo que ela não admitisse, provavelmente estava pensando nele também.

Tomou um banho e foi para a cama, mas ao se deitar no silêncio, a realidade bateu. Todas as distrações do dia sumiram, e ele se sentiu... sozinho. O peso de tudo—das lutas, das expectativas, das coisas do passado—voltou com força.

Não importava o quanto se divertisse, essa sensação sempre parecia aparecer à noite.

Então, o celular vibrou.

Uma única vez.

Ele pegou o aparelho imediatamente.

Era da Asuka.

"Dorme bem, idiota. É bom mesmo não me decepcionar."

Curta. Provocativa. Mas... ela mandou. E de alguma forma, aquela pequena mensagem fez tudo parecer mais leve. Como se o dia ainda não tivesse acabado. Como se, talvez, ele não estivesse tão sozinho quanto às vezes se sentia.

Kai sorriu e digitou uma resposta.

"😘"

Sem resposta. Mas tudo bem. Ele conseguia imaginar a reação dela—revirando os olhos, talvez sorrindo de lado, ponderando se respondia ou deixava ele no suspense. De qualquer forma, a mensagem estava lá, e isso já bastava.

E assim, ele finalmente conseguiu relaxar.