Evangelion: Shattered Thresholds
18 Episódio 18: Sorvete e Sabotagem
Capítulo 151: Manhã da Resistência / Prontos e Mexidos
A luz dourada e suave da manhã se infiltrava pelas cortinas, traçando linhas quentes pelo chão do apartamento. Iluminava o cômodo com um brilho calmo e sonolento—daqueles que faziam o mundo parecer imóvel por um instante. Esse silêncio pairava no ar, quebrado apenas pelo zumbido lento da cidade despertando lá fora.
Então—
"ACORDA, SELVINHA!"
Os olhos de Kai se abriram num susto puro, o coração martelando no peito.
"AAAAAAAHHHHHH!!!! MAS O QUÊ?! Você tá tentando me matar antes mesmo da missão começar?!"
A risada dela preencheu o ambiente, alta e impiedosa. "HAHA! Você precisava ver a sua cara!"
Asuka estava em pé sobre ele, triunfante, um pé apoiado ao lado do corpo dele no sofá como se estivesse posando para uma foto de vitória, as mãos agarradas em sua gola enquanto o sacudia sem a menor piedade.
"É DE MANHÃ! DIA DE MISSÃO! LEVANTA, VAMOS!"
Ainda tonto, Kai gemeu, sentando-se e esfregando os olhos. "Meu Deus... tá bom, tá bom, já levantei. Mas não consigo fazer nada antes de comer alguma coisa. Acho que chegou a hora de você provar meus clássicos ovos mexidos. Topa?"
Ela parou, olhando para ele com suspeita. "Espera. Você sabe cozinhar mesmo? Ou vai botar fogo na minha cozinha?"
Ele se espreguiçou e levantou, ainda se sacudindo do sono. "Sabe, todo dia eu faço a mesma coisa de manhã. Eu acordo e faço meus ovos mexidos. É tipo... minha rotina. Ok, é a única coisa que eu sei fazer, mas... eu gosto disso."
Ele hesitou por um instante, lançando um olhar para ela antes de se virar para o fogão. Sua voz baixou um pouco.
"...e você vai ser a primeira pessoa que vai provar isso. Além de mim. Então... pois é."
Asuka piscou.
Algo no ar mudou. A provocação deu uma leve trégua.
Ela o encarou, os dedos tamborilando contra o braço, pega de surpresa.
Então se recostou bruscamente na cadeira e bufou, braços cruzados. "Tsc. Agora você só aumentou a pressão. Se for ruim, vai ser mais humilhante ainda."
Ela tamborilou os dedos com uma casualidade forçada, depois murmurou:
"...Acho que isso me torna especial, né?"
Imediatamente, se endireitou. "NÃO interpreta isso! Só faz logo esses malditos ovos!"
Kai não respondeu. Não provocou. Só se voltou para o fogão, com o sorriso escondido atrás do som da frigideira chiando.
"Bom... em breve você vai morar com a Misato, então se eu realmente incendiar sua cozinha, não vai ser o fim do mundo, né?"
Asuka soltou um gemido alto, passando a mão no rosto. "Ugh, nem me lembra! Ainda não acredito que vou morar com eles. A Misato deve estar adorando isso."
Cruzando os braços de novo, ela desabou sobre a mesa. "Tsc. Tanto faz. Eu sobrevivo. Mas se o Shinji começar com aquele jeitinho silencioso e irritante dele? Vou dormir no seu sofá."
Uma pausa. Depois, mais baixo: "Não que eu esteja dizendo que ir para o seu apartamento ia melhor ou algo assim! Só... opções. Gosto de ter opções."
Kai riu baixinho. A tensão entre eles estava diferente naquela manhã—menos fricção, mais eletricidade. Uma corrente estranha e quente que ele começava a entender.
O cheiro de ovos tomou o pequeno apartamento.
Asuka aspirou o ar. Sua expressão mudou, surpresa. "...Ok, Selvinha. Tenho que admitir—até agora, nada pegou fogo."
Kai serviu os ovos e colocou o prato diante dela com cuidado, tentando parecer casual mesmo enquanto o coração dava cambalhotas.
"Tá aí. Espero que goste."
Sentou-se do outro lado da mesa, tentando não se mexer demais.
Asuka encarou o prato como se ele fosse explodir. Depois, com o garfo na mão, cutucou a comida uma vez. Depois outra.
E finalmente—deu uma garfada.
Mastigou.
Pausou.
Mastigou de novo.
Seu rosto não entregava nada. Olhar neutro. Expressão impassível.
Então—ela olhou para ele.
"...Hã."
Mais uma mordida.
Depois outra.
E por fim—braços cruzados, recostada na cadeira—ela sorriu de lado.
"Nada mal, Selvinha. Nada mal mesmo."
Deu de ombros como se não fosse nada demais.
"Melhor que a comida lixo da Misato, pelo menos."
Foi só isso.
Mas enquanto falava, já tinha comido metade do prato.
Kai sorriu, um peso que ele nem sabia que estava carregando saindo de seus ombros. Exalou como se tivesse passado por uma prova impossível.
"É claro que tá bom! Nem sei por que eu tava tão nervoso. Que bobagem. São só ovos."
Começou a comer o próprio prato, ainda sorrindo.
"Tsc. Você tava agindo como se tivesse preparado um banquete gourmet cinco estrelas," ela zombou, balançando a cabeça. Mas o garfo continuava em movimento, limpando o prato.
Depois, numa voz mais baixa—sem encará-lo diretamente—ela murmurou, "Mas… faz sentido. Primeira vez cozinhando pra alguém e tal."
Deu de ombros como se não fosse nada, tentando manter o sorriso de canto.
"Só não começa a achar que é um chef de classe mundial agora, Selvinha. São ovos. Não exagera."
Mas o prato estava vazio.
Ela se espreguiçou com um longo bocejo, depois se levantou, estalando o pescoço.
Eles ficaram em silêncio por um momento.
Então Kai falou, mais baixo agora. "Você acha que a Misato tá bem?"
Asuka parou no meio do movimento de vestir a jaqueta. A testa se franziu.
"Eu… Eu não sei. Disseram que ela estava estável, né? Mas a gente não ouviu mais nada desde então."
Uma pausa. Depois, Asuka se endireitou. "Ela é forte. Vai ficar bem."
Kai assentiu. "É. Só queria saber com certeza."
"Vamos saber," ela disse, com mais firmeza do que realmente sentia. Então forçou um sorriso. "Agora para com esse sentimentalismo. Temos trabalho a fazer."
Ele devolveu o sorriso. "Sim, senhora."
"Pronto, agora que o café da manhã acabou… hora de sabotar uma instalação do governo, né?" Ela sorriu e bateu na mesa. "Só mais um dia normal nas nossas vidas perfeitamente saudáveis."
Kai riu ao se levantar também, pegando a jaqueta.
"É, tranquilo. Só mais uma revoluçãozinha casual de pilotos que querem mudar o mundo. Depois tomamos um sorvete."
Asuka revirou os olhos, jogando a jaqueta sobre o ombro. "Ah, claro. Super normal."
Ela parou ao chegar à porta.
Então—quase casualmente—olhou por sobre o ombro.
"...De que sabor?"
A luz da manhã a atingia no ângulo certo enquanto caminhavam—cabelos em chamas, olhos brilhantes, o traço de um sorriso que ela não conseguia esconder. Ela estava cheia de energia, viva, radiante de um jeito que fazia o tempo desacelerar por um segundo. Só um segundo.
Asuka notou o olhar dele, e o sorriso vacilou.
Suas bochechas coraram. "O-o quê?!"
Cruzou os braços na hora. Defensiva. Desnorteada. "Por que você tá me olhando assim, seu esquisitão?!"
Kai não respondeu.
Ela mudou de postura, claramente abalada. "Tsc! Não fica encarando os outros como um idiota apaixonado!"
Então, sem nenhuma cerimônia, agarrou o pulso dele e o puxou com força. "ANDA LOGO! A gente tem uma missão, lembra?! Menos babação, mais sabotagem!"
Mas a mão dela permaneceu no pulso dele só um pouquinho a mais do que precisava.
A cidade já estava acordada. As ruas vibravam suavemente com a atividade matinal, sirenes ao longe, o zumbido estático da eterna vigilância de Tokyo-3.
Kai a seguiu, balançando a cabeça, tentando reorganizar os pensamentos. "Eu só queria... um segundo pra..."
Asuka desacelerou o passo.
O aperto dela suavizou.
Ela não olhou para trás de imediato. Quando falou, a voz era mais baixa do que antes.
"...É."
Sem sarcasmo. Sem provocação. Apenas compreensão.
O silêncio entre eles era pesado—mas não frio. Nem constrangedor. Só real. O tipo de silêncio que significava algo.
Então, pouco a pouco, ela recuperou o fogo.
"Tsc. Você tá ficando meloso, Selvinha," disse, cutucando o braço dele. "Anda logo antes que eu mude de ideia sobre deixar você sabotar coisas comigo."
Ela olhou para frente de novo, olhos afiados.
"Mas... a gente vai ter esse segundo. Um dia."
Ele sorriu. Isso era tudo que ele precisava para se motivar. "Vou cobrar, hein."
Então, com os olhos firmes adiante, a voz decidida:
"Vamos destruir alguns planos malignos agora."
Asuka rolou os ombros, como se estivesse se preparando para uma luta. "Pode apostar que vamos."
Ela sorriu. "Tá na hora de colocar esse seu cérebro de `anomalia' pra funcionar, Selvinha. Você vai distrair a Ritsuko com sua ladainha existencial esquisita, e eu cuido da parte importante."
A voz dela baixou um pouco, mas só o suficiente para ele perceber.
"E depois disso? Sorvete."
Ela virou-se e acelerou o passo, liderando o caminho.
Direto para a sede da NERV.
Kai a seguiu.
Preparado.
Capítulo 152: Paredes Brancas / Respirações Que Não Curam
Os corredores estéreis da NERV pareciam mais frios naquela manhã. Mais brilhantes também—como se as luzes estivessem trabalhando dobrado para apagar os rastros de sangue que ninguém comentava.
Kai caminhava ao lado de Asuka, os passos de ambos ecoando alto demais no piso polido. Mas o verdadeiro barulho era interno—uma tensão silenciosa zumbindo no fundo de sua mente.
"Certo," murmurou ele ao dobrar um corredor. "Hora de colocarmos nossas caras de ‘coitadinho do Shinji’. Lembra: viemos só ver como ele está, e é certo ele vai estar um caco. Se der, também checamos o Toji. Depois, eu distraio a Ritsuko e você faz a sua parte."
Asuka assentiu, sua expressão mudando para algo mais frio, mais contido. "É… entendi."
Ela cruzou os braços, o tom quieto mas focado. "O Shinji provavelmente vai estar completamente inútil, quase sem falar nada. E o Suzuhara..."
Ela parou, soltando o ar. "Mesmo se deixarem a gente ver ele, a coisa vai estar feia."
Um olhar. Um lampejo de vulnerabilidade. "Tsc. Tanto faz. A gente resolve."
Então ela voltou a sorrir—só o suficiente para esconder as rachaduras. "E não se preocupa comigo. Eu vou saber quando for a hora."
Ao se aproximarem da entrada da NERV, ela o cutucou levemente com o cotovelo.
"Agora coloca logo sua melhor cara de piloto depressivo, Selvinha. Hora de encenar."
Kai respondeu com um leve sorriso—e logo em seguida adotou uma expressão melancólica tão dramática que beirava a paródia.
Asuka o imitou de imediato, revirando os olhos ao assumir um ar de tristeza contida, ombros caídos o bastante para sugerir exaustão emocional.
As portas se abriram com um chiado.
Começou o jogo.
Lá dentro, o zumbido das máquinas os recepcionou. A sede da NERV estava estranhamente silenciosa, o vai-e-vem habitual substituído por algo contido e pesado.
Uma enfermeira levantou os olhos de um console, os olhos cansados.
"Vieram ver os pilotos?"
Asuka assentiu. "Sim."
A enfermeira suspirou. "Suzuhara ainda está sob observação. A condição dele é... delicada. Ele está estável, mas é melhor não sobrecarregá-lo."
Ela hesitou antes de acrescentar, "Shinji está acordado. Mas quase não fala."
Asuka apenas inclinou a cabeça. "Tsc. Sabia."
Eles seguiram pelo corredor. O ar ficou mais frio. Mais estéril.
Ao chegarem à porta de Toji, um segurança da NERV estava postado como uma estátua do lado de fora.
"Apenas pessoal autorizado pode entrar," disse ele sem emoção.
Asuka se irritou. "Ah, qual é. Somos amigos dele!"
"Ordens são ordens."
Mas então Kai ouviu. Uma voz suave por trás da porta. Familiar.
Hikari.
Não conseguia distinguir as palavras, mas o tom era inconfundível. Calmo, próximo. Ela estava lá dentro com ele.
Kai sorriu levemente. "Ele tá em boas mãos. Eu imaginei que ela estaria aqui, sabe? Os dois... definitivamente combinam."
Asuka arqueou uma sobrancelha, olhando para a porta de novo. Depois bufou.
"Tsc. É, nem me fale. Até em coma o Suzuhara recebe mais atenção dela do que metade dos idiotas da escola."
Mas o sorriso dela suavizou.
"Pelo menos ele não tá sozinho."
Ela apontou com a cabeça de volta para o corredor. "Certo, Selvinha. Um já foi. Falta o outro."
A voz dela baixou. "Vamos ver a Terceira Criança."
Kai respirou fundo. Essa seria a parte difícil.
"Isso vai ser pesado. Temos que tentar animar ele."
Asuka soltou o ar com força. "É..."
Estalou os dedos, como se precisasse se preparar fisicamente.
"O Shinji deve estar naquele modo ‘sentado no escuro e se culpando por tudo’ de sempre."
Ela olhou para Kai. Não com desafio. Mas com confiança.
"Mas você tá certo. E se a gente fizer isso direito, ele nunca mais vai ter que lidar com aquele maldito Dummy Plug."
Ela inclinou a cabeça. "Beleza, Selvinha. Você é bom em falar essas coisas esquisitas. Acha que consegue fazer ele falar?"
Kai sorriu, a voz leve.
"Vou tentar. Mas se prepare. Talvez eu precise te zoar um pouco. Sua cara de esquentadinha fica hilária. É um quebra-gelo natural."
Asuka travou.
"COMO É QUE É?!"
Ela se virou para ele, olhos em chamas.
"VOCÊ TÁ ME—?!"
Apontou o dedo na cara dele. "EU JURO POR DEUS, KAI—SE VOCÊ—!!"
Então—
Uma voz. Fraca. Baixa.
"...Asuka? Kai?"
Eles pararam na hora.
A voz do Shinji. Acordado.
A postura de Asuka mudou por completo. As costas se endireitaram, a raiva se dissolvendo em algo cru e indecifrável.
"Tsc. Ótimo. Agora ele tá acordado pra ouvir as suas besteiras."
Ela se virou para Kai com um último olhar de advertência. "NÃO exagera, Selvinha."
E com isso, empurrou a porta.
A porta se abriu com um chiado suave, e Kai entrou primeiro, forçando um sorriso largo e desajeitado.
"Eeeei, Shinjiii… tudo bem??? Seus amiguinhos chegaaaram!"
Mesmo antes das palavras saírem por completo, ele já se arrependia.
Shinji piscou.
Estava recostado na cama do hospital, pálido e imóvel. As mãos repousavam no colo, os olhos desfocados e opacos. Havia um vazio nele que não existia antes. Um silêncio mais intenso que o som emanado por Kai.
Asuka se virou lentamente para Kai, o olhar afiado como uma lâmina.
"Ai, MEU DEUS," gemeu, passando a mão no rosto. "‘Seus amiguinhos chegaram’? QUE DIABOS FOI ISSO?!"
Ela se virou para Shinji, jogando as mãos para o alto. "IGNORA ELE. ELE TÁ COM DEFEITO."
Shinji piscou de novo, completamente perdido. "...O quê?"
Kai pigarreou e balançou a cabeça, se aproximando com uma expressão mais sincera.
"Shinji! A gente ficou preocupado com você. Como você tá se sentindo?"
Shinji olhou para as próprias mãos, a voz pequena. "...Não sei."
Os dedos tremiam levemente sobre os lençóis brancos.
"Eu continuo... ouvindo. Os sons. Os gritos."
A voz dele falhou.
"Eu não queria. Eu tentei parar. Mas..."
Engoliu seco, os ombros desabando. "Aconteceu do mesmo jeito."
O silêncio que se seguiu era sufocante.
Asuka se mexeu. Os dedos tremiam próximos aos braços, mas ela não os cruzou dessa vez.
"Tsc. Não foi você, idiota."
Shinji se encolheu. "...Mas foi a Unidade-01. E eu..."
A voz dele falhou.
"Eu só fiquei lá parado."
Ele apertou os lençóis com força.
"Eu deixei acontecer."
Kai se aproximou, a voz baixa e gentil.
"Desculpa, cara. A culpa foi minha. Eu fui imprudente. Devia estar lá. O que aconteceu... foi errado. Mas você não podia fazer nada."
Shinji balançou a cabeça lentamente. "...Não. A culpa não é sua. É minha."
Respirou fundo, curto e trêmulo.
"E-eu podia ter parado. Devia ter parado. Mas eu só... eu não queria lutar. Não daquele jeito."
Os olhos se ergueram, mirando o nada. Assombrados.
"Mas quando o Dummy Plug ativou... não importava mais o que eu queria."
A mandíbula de Asuka se contraiu. Sua voz saiu baixa, cortante.
"Bem-vindo à NERV, Terceira Criança. Aqui ninguém tem escolha."
Ela deu um passo à frente, os braços se cruzando dessa vez—mas não com arrogância. Era armadura.
"Aquele não era você naquela luta, Shinji. Era o seu maldito pai garantindo que você não tivesse opção."
Shinji balançou a cabeça novamente, as lágrimas brotando nos cantos dos olhos.
"Mas o Toji... ele..."
Tentou terminar.
"Eu machuquei ele. E não posso mudar isso."
A voz dele quebrou.
"Vocês deviam me odiar."
Kai não hesitou.
Deu um passo à frente, colocando uma mão firme no ombro de Shinji.
"Toji vai ficar bem. Ele tá se recuperando. E quanto a nós... a gente tá com você. E..."
Kai olhou discretamente ao redor do quarto, depois se inclinou e sussurrou.
"A gente tá cuidando disso."
Shinji congelou.
A respiração travou.
Pela primeira vez desde que entraram, ele olhou de verdade—os olhos encontraram os de Kai, e algo brilhou ali. Não clareza. Mas esperança.
Asuka estreitou os olhos, observando os dois.
Ela não disse nada, mas sua postura mudou. Atenta. Alinhada.
Os lábios de Shinji se entreabriram. A voz era frágil, quase um sopro.
"...Como assim?"
Os dedos dele se moveram sobre o cobertor, quase involuntariamente.
Kai manteve o tom baixo, com um leve sorriso na voz.
"Se concentra em melhorar. Pode ter seu momento de autopiedade depressiva. Você merece. Mas se recupera logo, tá? Precisamos de você de volta com a gente lá fora."
Shinji o encarou.
Então, depois de um longo momento—
Ele exalou.
Os punhos se abriram aos poucos.
"...Vocês são terríveis," murmurou.
Mas o tremor na voz dele não era mais luto.
Asuka bufou. "Tsc. É, bom, alguns de nós não têm tempo pra ficar chorando o dia todo."
Ela lançou um olhar a Kai, depois se aproximou mais de Shinji.
"Só não faz a gente se arrepender disso, Terceira Criança."
Shinji assentiu. Foi pequeno. Fraco. Mas foi real.
Ele ainda estava quebrado. Ainda se afogando. Mas não estava mais afundando sozinho.
Kai não precisou dizer nada. Bastou um olhar para Asuka, e ela entendeu. Os olhos se encontraram—e naquele pequeno segundo sem palavras, o sinal foi dado. O momento chegou.
Ela fez um leve aceno com a cabeça, depois se espreguiçou com um suspiro alto e teatral.
"Ugh. Pronto. Já deu de drama trágico pra mim hoje."
Ela olhou de volta para Shinji, o tom leve e cruel na medida certa.
"Não se acomoda muito aí, Terceira Criança. Não vai escapar de pilotar só porque teve uma crisezinha."
Shinji soltou um som baixo que poderia ser um riso ou um suspiro. "...Você é uma pessoa horrível."
Asuka sorriu. "Pode apostar que sou."
Se virou para a porta, acenando com uma das mãos por cima do ombro. "Vou pegar uma bebida. Tenta não matar o Selvinha de tédio enquanto eu estiver fora."
Ela se foi. E o palco estava montado.
Kai a observou sair, depois voltou o olhar para Shinji, ainda deitado na cama.
"Ela é... intensa," murmurou Kai com um leve sorriso, balançando a cabeça.
Depois, a voz suavizou.
"Mas fico feliz que você esteja bem. Fisicamente, pelo menos. E, bom, só lembra que você não tá sozinho nisso. Eu tenho que resolver uma coisa, mas qualquer coisa que você precisar... é só chamar, beleza?"
Shinji o olhou. Sem suspeita. Sem medo. Só uma curiosidade tranquila.
"...Você tá tramando algo, né?"
A voz não era acusatória. Se algo, era confiante.
Kai não confirmou nem negou.
Shinji assentiu de leve, como se aquilo bastasse. "Tá bom."
Depois, mais suavemente:
"...Valeu, Kai."
Com isso, Kai fez um último aceno de cabeça e saiu do quarto hospitalar, entrando de volta nos corredores brancos e estéreis da sede da NERV.
A missão havia começado.
Capítulo 153: Lógica de Labirinto / A Forma Que Não Devia Existir
O zumbido das luzes fluorescentes vibrava sobre a cabeça de Kai enquanto ele percorria os corredores sinuosos. A NERV sempre pareceu um labirinto: pisos polidos, paredes brancas, anonimamente deliberadas. Como se o próprio prédio tentasse apagar toda emoção, todo traço de humanidade.
Mas ele não seria apagado.
Ele examinava cada corredor com atenção.
Então—ele a viu.
Dra. Ritsuko Akagi.
Ela estava parada perto de um console central, concentrada em conversa com dois técnicos. Uma mão segurava uma prancheta, a outra, um copo de café descartável. Sua postura era relaxada, mas os olhos, afiados como lâminas. Calculistas.
Kai se aproximou devagar, inspirando fundo.
"Ahn... senhora, quer dizer, senhorita, digo... Doutora Akagi..."
Meu Deus. Que estranho.
Ritsuko parou no meio do gole. Seus olhos se voltaram para ele com a precisão de um falcão.
"...Kai."
O tom era neutro. A expressão, indecifrável.
Ela abaixou o café lentamente e lançou um olhar aos dois técnicos. Sem dizer nada, eles se afastaram, percebendo de imediato a energia estranha no ar.
Agora estavam só os dois.
A sobrancelha dela se arqueou.
"Essa foi... uma bela introdução."
Ela tomou mais um gole lento de café, depois abaixou o copo novamente.
"Algo em mente?"
Kai se recompôs, dando de ombros. "Na verdade... sim. Primeiro... você está bem? Depois do acidente, quero dizer. Disseram que foi sério."
Ritsuko levantou ligeiramente a sobrancelha. "Estou bem. Ferimentos leves. Só algumas contusões, queimaduras, uma costela fraturada—nada comparado à Misato."
O tom de Kai mudou, mais preocupado. "Você sabe como ela está?"
Ritsuko assentiu levemente, colocando o café sobre a mesa. "Ainda está se recuperando em Matsushiro, mas os médicos dizem que provavelmente terá alta amanhã e voltará pra casa."
Kai soltou o ar. "Bom. Isso é... bom."
Ela o estudou por mais um segundo.
"Então. O que você queria conversar?"
Kai pigarreou de novo.
"Eu estava querendo... digo, eu gostaria de conversar com você."
Ritsuko não sorriu.
Mas algo em sua expressão se alterou.
Os dedos tamborilaram levemente na prancheta.
"É mesmo?"
Ela inclinou a cabeça, agora estudando-o como um prontuário. "Você normalmente me evita, a não ser em combate. O que mudou?"
Kai hesitou por um segundo, tentando escolher as palavras com cautela.
Mais um gole lento.
"Pode falar. Estou ouvindo."
Kai se aproximou com cuidado, forçando a mente a entrar no papel que haviam atribuído a ele. A anomalia. O estranho fora do lugar.
"Eu... queria entender melhor algumas coisas. Sobre mim," disse, desajeitado, mas sincero. "Eu sei que a Misato e os outros querem ajudar, mas... sabe... eu queria falar com alguém que realmente entende das coisas. Alguém inteligente."
Ritsuko parou o gole no meio. Depois abaixou o copo lentamente, os lábios curvando-se num leve sorriso de canto.
"Bajulação, é?" disse ela, o tom divertido mas calculado. "Uma abordagem inteligente. Mas receio que isso não vai te dar tratamento especial, Kai."
Ela se encostou no console próximo, cruzando os braços, olhos afiados.
"Ainda assim... admito que estou intrigada. Você tem sido... peculiar... desde o primeiro dia. E agora, vem até mim em busca de respostas?"
Ela inclinou levemente a cabeça.
"Certo. Vamos brincar disso. Caminhe comigo."
Ela fez um gesto sutil para um corredor mais tranquilo.
Kai a seguiu, ajustando o passo ao dela.
"Ninguém mais parece chegar a lugar nenhum," disse. "Só ouço que sou uma variável imprevisível, ou que não deveria estar aqui, ou até que talvez nem pertença a essa realidade, mas... isso não faz o menor sentido! Será que é loucura minha pensar assim?"
Ritsuko caminhou em silêncio por um momento, depois respondeu com voz pensativa.
"Loucura? Nem tanto."
Eles entraram numa sala de pesquisa vazia—silenciosa, exceto pelo zumbido ambiente das máquinas.
Ela se virou para ele, a porta se fechando atrás dos dois.
"A verdade, Kai... é que não temos dados suficientes pra dizer se você pertence a esta realidade ou não. A pergunta de verdade é—"
Ela tomou mais um gole, depois fixou o olhar nele.
"Você é um erro? Ou é intencional?"
Kai ficou em silêncio.
Ela abaixou o copo.
"E mais importante—quem tem te falado essas coisas?"
Kai coçou a nuca, pensativo.
"Bom, não sei quem começou com isso. Talvez... você? Depois teve aquela vez esquisita em que o Gendo me chamou e falou das ‘anomalias’. Ah, e aquele Anjo, o Leliel. Eu tive uma crise existencial completa dentro do vazio. E... claro... aquela voz da Unidade-04."
Ele parou, depois perguntou em tom mais baixo:
"Você disse que não temos dados suficientes? Que tipo de dados estamos falando?"
Ritsuko exalou lentamente, tamborilando um dedo contra a prancheta.
"Gendo, um Anjo e seu próprio Evangelion. Um trio e tanto."
Ela andou alguns passos.
"Não pertencer a essa realidade... Se Gendo reconheceu algo assim, é porque ele teve razões. Se sua experiência com Leliel e com a Unidade-04 corroboraram, significa que algo dentro da estrutura do Campo A.T. também percebe você como um intruso."
Ela se calou por um momento antes de voltar ao foco.
"O problema não é falta de teorias—é falta de prova verificável."
Deu mais um passo à frente, observando sua reação.
"Quer saber que tipo de dados precisamos? Simples. Seus padrões de sincronização de núcleo."
Ela bateu levemente na prancheta. "Todo piloto de Eva forma uma impressão neural única. Uma espécie de assinatura que reflete sua conexão com o Eva—e com esta realidade."
Inclinou a cabeça levemente, voz baixa.
"E a sua... não se comporta como deveria."
Foi até o console e digitou alguns comandos. Uma tela se acendeu.
Ondas surgiram. Erráticas. Instáveis. Pulsando e colapsando em laços estranhos.
Kai não entendia os números, mas sentia o desconforto.
Ritsuko apontou. "Esse é você. Esse é o seu padrão de sincronização."
Ela o encarou.
"Ele muda constantemente. Como se algo estivesse te mantendo aqui. Compensando. Como se a própria realidade estivesse abrindo espaço para algo que não devia estar presente."
Ela se virou totalmente para ele.
"Eu poderia estudar isso melhor. Fazer testes mais profundos. Se—claro—você estiver disposto a cooperar."
Kai hesitou só o bastante para parecer autêntico.
Depois assentiu.
"Acho que agora estou pronto pra cooperar e tentar entender isso a fundo. Mas..."
Respirou fundo.
"Tem tanta coisa que eu não entendo. Já tô aceitando que sou uma anomalia, porque agora parece que é puro bom senso. Mas... como isso é possível? Você sabe com certeza que outras realidades existem?"
O sorriso de Ritsuko oscilou.
Depois desapareceu.
Ela largou a prancheta sobre a mesa.
"Kai... você sabe o que é um Espaço de Números Imaginários?"
Não esperou resposta.
"É um domínio teórico além do nosso universo observável. Uma construção quântica onde existência e não existência se sobrepõem. A maioria dos físicos considera isso impossível."
Ela se virou um pouco, como se revivesse aquilo.
"Mas nós já vimos provas. E você também viu—mesmo que não tenha percebido na hora."
Encarou-o, a voz firme.
"Dentro da dimensão compacta de Leliel. O vazio. Aquilo não era só uma anomalia espacial—se comportava como uma interseção. Uma fronteira entre realidades. O que você experimentou ali não foi alucinação. Foi sua mente reagindo a um domínio onde múltiplas versões de possibilidade coexistem—ou nenhuma."
Ela tocou a tela novamente.
O gráfico se distorceu violentamente por um segundo, depois se corrigiu.
"Esse é o seu padrão de sincronização. E não importa quantos testes façamos—ele nunca estabiliza."
Ela o encarou, voz firme.
"Sua existência não se comporta como deveria. É como se estivesse sendo sustentada—remendada—por forças fora desse sistema."
Então ela perguntou:
"A verdadeira pergunta não é se outras realidades existem."
Ela tocou a tela mais uma vez.
"É por que você está nesta."
Kai encarou os dados. Pela primeira vez, nenhuma piada veio à mente.
"Isso é... realmente assustador," disse baixinho. "Passei tanto tempo tentando entender se era possível que eu viesse de outra realidade que nunca parei pra pensar... no motivo."
Ritsuko assentiu lentamente.
"Exato. A maioria das pessoas se fixa na possibilidade. Mas no seu caso? A pergunta mais importante é por que aconteceu. E talvez mais ainda—"
Ela estreitou os olhos.
"Quem—ou o quê—causou isso?"
Pegou a prancheta novamente.
"E isso... isso é fascinante."
Então, sem perder o ritmo:
"Então? Ainda disposto a fazer mais testes? Porque tem muita coisa que eu gostaria de estudar."
Kai manteve a atuação.
Mas aquilo... já não era apenas atuação.
Capítulo 154: Gatilhos da Memória / A Mulher, a Cientista, a Outra
Ritsuko havia puxado uma linha de raciocínio que Kai não ousara tocar por conta própria. Suas palavras, afiadas e metódicas, começavam a costurar uma moldura em torno de sua existência — assustadora em sua clareza.
E agora? Ele precisava mantê-la falando.
"Claro que sim, podem me testar à vontade! Agora você me pegou de vez!" Kai sorriu — mas era só meio brincadeira.
Então ela devolveu o sorriso — não zombeteiro, mas genuinamente intrigado. "Essa é a melhor parte. Parece realmente que você mesmo não sabe a resposta."
"Como assim? Você acha que eu tenho alguma ideia do motivo de estar aqui?"
Ritsuko arqueou uma sobrancelha, o sorriso crescendo levemente.
"Ah, Kai," disse ela, observando-o como um enigma vivo. "Você fala como se fosse impossível."
Ela bateu na prancheta. "Vamos ser lógicos. Se algo te trouxe até aqui, não faz sentido pensar que, em algum nível, possa haver rastros desse conhecimento dentro de você?"
Ela apontou para os dados instáveis na tela.
"Memórias. Instintos. Padrões que não pertencem a este lugar. Seu padrão de sincronização está se adaptando — compensando. Isso sugere que sua mente e seu corpo estão se ajustando a esta realidade. Mas também sugere... que algo dentro de você se lembra."
Ela se inclinou levemente, voz suave.
"Você só não acessou isso. Ainda."
Ela tomou um gole de café. Sorriso afiado. "Mas com testes suficientes? Talvez a gente desbloqueie isso."
Kai olhou novamente para as ondas tremulantes na tela, pensativo. Seus pensamentos se desviaram brevemente para Asuka — torcendo para que as coisas estivessem correndo bem do lado dela. Ainda assim, ele manteve o papel.
"A voz sempre diz que eu não estou completo... mas e se eu não quiser estar? E se eu tiver medo de deixar de ser quem sou e virar alguém que não quero ser?"
Ritsuko se imobilizou.
O sorriso desapareceu — não por desdém, mas por reflexão.
"...Esse é um pensamento interessante, Kai."
Ela pousou o café, sem tirar os olhos dele.
"Se você diz que a voz afirma que você `não está completo', isso implica duas coisas. Uma: você já foi outra coisa antes — algo que não está totalmente presente agora. Duas: o que quer que você esteja destinado a se tornar... ainda não aconteceu."
Ela inclinou a cabeça.
"O medo é natural. O desconhecido é assustador. Mas isso não é algo de que você possa fugir pra sempre."
Os olhos voltaram à tela. "Seu padrão está mudando, Kai. Talvez você não tenha muito tempo pra continuar evitando isso."
Ela se voltou para ele, a voz mais suave agora.
"...O que você realmente quer?"
Sem malícia. Sem sarcasmo. Apenas uma pergunta.
E ela atingiu mais forte que qualquer análise.
Kai hesitou. Pesando a honestidade. A confiança. A sobrevivência. Mas no fim—
"O que eu realmente quero?" disse ele, em voz baixa. "Só quero existir. E ajudar as pessoas. Só isso."
Ritsuko piscou.
Então, algo suavizou-se em sua expressão. Levemente. Quase imperceptível. Mas real.
"...É uma resposta simples demais pra alguém tão complicado quanto você."
Ela pegou a prancheta, batendo nela uma vez.
"Você quer ajudar as pessoas. Isso é admirável."
Então ela o estudou com mais atenção, a voz diminuindo novamente.
"Mas e se as pessoas que você quer ajudar são justamente as que escondem a verdade de você?"
Ela gesticulou vagamente.
"Gendo. SEELE. NERV. E se sua existência não for pra salvar ninguém... mas pra servir a um propósito que você nunca deveria conhecer?"
Ela fez uma pausa.
"Você ainda gostaria de ser quem é agora? Ou preferiria ser... completo?"
Kai sustentou o olhar dela.
"Acho que você não entendeu direito o que eu quis dizer. Eu quero ajudar as pessoas. Não o Gendo. Nem a NERV. Muito menos a SEELE. Eu piloto o Eva pra impedir que os Anjos matem todo mundo. Essa é a única coisa que eu sei que é certa. E se não for por isso que eu estou aqui..."
Deu um passo à frente, voz firme.
"Você acha que a SEELE me trouxe aqui de propósito? Pra outro motivo?"
Ritsuko balançou a cabeça. "Não. Se tivessem feito isso, não estariam te vigiando como uma ameaça. Você os confunde. Assim como me confunde."
Ela tocou a tela novamente, onde os dados da sincronização oscilavam.
"Mas isso não significa que não vão tentar te usar. Anomalias como você... são controladas. Ou eliminadas. E você já mostrou seu valor contra os Anjos."
Kai soltou o ar devagar e então sorriu — sem sarcasmo, sem arrogância. Apenas sinceridade.
"Uau... me arrependo de não ter vindo conversar com você antes. Você é mesmo tão inteligente quanto dizem."
Ela ergueu uma sobrancelha mais uma vez. Mas agora, o sorriso que veio depois era levemente divertido.
"Bajulação de novo? Cuidado. Posso começar a achar que você realmente gosta de mim."
Ele riu baixinho. E olhou o horário. Precisava ganhar mais tempo.
"Então, me ajuda a revisar tudo. Teve o experimento em Nevada, certo? Qual era o objetivo? O que deu errado?"
Ritsuko endireitou-se levemente. Depois franziu a testa.
"Essa informação é confidencial, Kai. Eu nem deveria estar falando disso com você."
Mas, ao encará-lo, sua expressão mudou. A confiança habitual ainda estava lá, mas algo por trás dos olhos parecia... frustrado. Inquieto. Kai percebeu.
Então—ela tomou uma decisão.
"...Mas talvez entender sua reação seja mais importante que minhas ordens agora."
A voz dela baixou.
"O Experimento de Nevada pretendia estabilizar o Motor S² usando energia dos Anjos—pra que os Evangelions não precisassem de cabos umbilicais. A Unidade-04 era o sujeito de teste, mas não havia nenhum piloto nela. Nenhum candidato foi... bem-sucedido na sincronização. E então, no momento da ativação, toda a instalação desapareceu."
Ela se virou pra ele.
"Pouco depois — você apareceu."
Kai respirou fundo, fingindo que não sabia disso.
Ritsuko abriu mais dados.
"Quando você foi encontrado, estava dentro de uma Unidade-04 totalmente intacta. Mas a Unidade-04 original nunca foi recuperada. Nenhum destroço. Nenhum vestígio. Aquela era... outra."
Ela apontou uma seção na tela.
"Cada Eva possui uma assinatura única. Você já estava ligado àquele Eva. Antes mesmo de começarmos a estudar sua sincronização."
Ela se inclinou mais perto.
"O que significa uma de duas coisas: ou a nossa Unidade-04 foi permanentemente alterada e gerou você no experimento... ou essa Unidade-04 veio do seu mundo."
Ela o observou com atenção.
"Então me diga, Kai—"
O sorriso dela voltou.
"Qual dessas respostas você acha que é pior?"
Kai hesitou. Então decidiu agir.
"Pra ser sincero, senhora—digo, senhorita—quer dizer, doutora Akagi..."
Levou a mão ao rosto.
"...eu não estava esperando que você fosse tão gentil e aberta com tudo isso. Então... quero te contar uma coisa."
Ritsuko ergueu uma sobrancelha, visivelmente entretida com o constrangimento dele.
"Hah. ‘Gentil e aberta’?", repetiu ela, com um sorriso seco. "Digamos que eu reconheço um bom enigma quando vejo um."
Ela cruzou os braços e se recostou no console. "Certo, Kai. Você tem minha atenção. O que é?"
Não havia mais dúvida. Ela estava envolvida. Engajada. Curiosa.
Kai respirou fundo.
"Lembra quando eu estava... você sabe... preso naquele vazio?"
O sorriso sumiu.
Ritsuko se endireitou sutilmente, a prancheta mudando de posição em sua mão.
"...Sim," disse ela, voz neutra mas repentinamente alerta. "Leliel. O Décimo Segundo Anjo. Você ficou preso na sombra dele por quase doze horas."
Ela tamborilou um dedo no braço, olhar afiado. "Sua sobrevivência já era improvável. Seu estado mental depois? Ainda mais."
"O que tem aquilo?"
Kai deu um passo à frente.
"Fez eu me lembrar de coisas que... eu não lembrava antes."
A postura de Ritsuko se congelou. Os olhos se estreitaram, focados como lâminas.
Ela afastou o café. A voz agora era baixa, mas urgente.
"...Continue. Do que você se lembrou, Kai?"
Kai hesitou, depois disse:
"Lembrei de estar dentro do Eva. E... um grande clarão... e o nada. Então isso seria outro experimento, num Nevada de realidade alternativa, certo?"
Ritsuko bateu com os nós dos dedos no console, mergulhada em pensamento.
"...Faz sentido."
Os olhos estavam distantes, calculistas. "Se suas memórias forem reais—se você estava em outra Nevada—então sim. Não foi o nosso experimento. Foi um em outra linha do tempo."
Então, suavemente:
"O que nos leva à próxima pergunta... quem exatamente é você?"
Kai sentiu um calafrio percorrer a espinha.
"Bom... eu sou eu. Minha cabeça tá bem confusa quanto ao meu passado, mas, como eu disse... tenho medo de que estar completo signifique deixar de ser quem eu sou."
Ritsuko assentiu devagar. "É um medo compreensível."
Ela andou um pouco, depois olhou para os dados ainda pulsando na tela.
"Se sua presença aqui é resultado de uma transferência incompleta, então ‘completar’ pode significar restaurar o que foi perdido... ou desfazer todo o processo."
A voz dela caiu, fria e precisa.
"E isso pode significar apagar você."
Kai se enrijeceu.
"Nem pensar. Decidido, então. Desculpa, mas nada de `completar' pra mim."
Ritsuko esboçou um leve sorriso, mas os olhos não sorriram.
"Decisão inteligente. Mas você está pressupondo que tem escolha."
Ela apontou para a tela.
"Algo já iniciou esse processo. Está te alcançando, Kai. Quer você queira, quer não."
Ela o encarou firme.
"Então me diga — o que vai fazer a respeito?"
Kai cerrou os punhos.
"O que mais eu posso fazer? Vou lutar! Mas... como?"
Ritsuko se aproximou do console, os dedos digitando rapidamente.
"Comece entendendo o que está dentro de você. O padrão de sincronização, as anomalias — todos apontam pra uma coisa."
Pausa.
"A Unidade-04."
O olhar dela penetrou fundo.
"Ela te trouxe até aqui. Pode ser o que está te ancorando. Ou pode ser o que ainda tenta te completar."
Então disse claramente:
"Precisamos de testes de sincronização mais profundos. Precisamos descobrir o que seu Evangelion está realmente fazendo com você."
Kai hesitou.
Depois balançou a cabeça levemente.
"...Eu me recuso a acreditar que o Eva é a única coisa que me mantém ancorado a este mundo. Não sei explicar isso em termos científicos, mas... não acho que seja só isso que me prende aqui."
Ritsuko estreitou os olhos.
"Interessante."
Ela cruzou os braços. "Se não é o Eva, então o quê?"
Kai respondeu simplesmente:
"Não sei. Talvez tenha começado com a Unidade-04. Mas virou... algo mais."
Ritsuko ficou em silêncio por um longo momento.
Depois assentiu.
"Hipótese razoável."
Ela inclinou a cabeça. "Se seu vínculo com este mundo está evoluindo, isso pode significar que você é capaz de lutar contra isso. De permanecer."
Ergueu uma sobrancelha. "Claro... isso também implica que a recíproca é verdadeira."
Ela se aproximou, a voz baixa e cirúrgica.
"Na biologia, há um termo pra isso: enxerto contra hospedeiro. Quando algo estranho entra num corpo, o corpo nem sempre se adapta. Às vezes, ele rejeita o que não pertence."
Uma pausa. Kai ficou atônito por um segundo. "Isso é... pesado."
Então, lançou um olhar em direção ao corredor, imaginando quanto tempo Asuka ainda precisava.
Voltou o olhar.
"Ei... Já que estou me abrindo tanto aqui... posso te fazer uma pergunta pessoal?"
Ritsuko ergueu uma sobrancelha outra vez.
"Ah? Você se abrindo? Isso é perigoso, Kai. E se eu resolver me aproveitar disso?"
Mas o sorriso dela agora era brincalhão. Verdadeiro.
Então:
"Certo. Você me entreteve até agora. Manda ver."
"Qual é... sua motivação em tudo isso?" perguntou Kai.
Ele não se segurou. Não depois de tudo que ela já havia dito.
"Você é só obcecada por conhecimento? Só quer lutar contra os Anjos, como a Misato? Ou você acredita mesmo nessa loucura da Instrumentalidade Humana do Gendo?"
Ritsuko não respondeu de imediato.
Em vez disso, o encarou, a prancheta apertada na mão.
Não fria. Não arrogante. Apenas quieta. Reservada.
Então soltou uma risadinha curta. "Hah. Você realmente não mede palavras, né?"
Ela se recostou no console, braços cruzados, mas o brilho provocativo nos olhos havia se transformado em algo mais reflexivo.
"Minha motivação, é? Depende de quem pergunta."
Ela inclinou a cabeça.
"Pra Misato, sou uma colega. Alguém fazendo seu trabalho — combatendo Anjos e gerenciando dados."
Ela tamborilou no copo de café com o dedo. "Pro Gendo? Sou um recurso. Uma ferramenta útil. Descartável, se necessário. Ele acha que eu não percebo isso."
A voz dela mergulhou. "Ele está errado."
Havia amargura ali. Algo mais profundo. Mais pessoal.
Então os olhos dela encontraram os de Kai.
"E pra mim mesma? Sou uma cientista. Quero entender a verdade. E agora?"
Ela apontou o copo na direção dele.
"Você, Kai, é uma baita de uma verdade esperando pra ser descoberta."
Mas por um instante — algo vacilou na expressão dela. Uma hesitação. Um vislumbre.
Então, em voz baixa, quase pra si mesma:
"...E talvez eu só não queira ser deixada pra trás."
As palavras pairaram no ar como uma rachadura na superfície.
Então — imediatamente — o sorriso retornou. Mais afiado. Como se selasse aquele vislumbre de volta.
"Mas já chega de falar sobre mim," disse ela, inclinando a cabeça. "Diga aí, Selvinha — você fez todas essas perguntas só pra me enrolar, ou tava realmente curioso?"
Kai piscou.
"Primeiro de tudo, não. Não, não, não. Até você me chamando de Selvinha? Não dá. Maldita Asuka."
Ritsuko riu baixinho, mas não o interrompeu.
Kai respirou fundo.
"Segundo: eu estou curioso. E... é interessante como você se vê de formas diferentes. A cientista quer uma coisa. A mulher quer outra. E a ‘outra’ você quer algo completamente diferente."
Ele a encarou com mais intensidade.
"Talvez eu não seja o único enfrentando uma batalha interna, né?"
Ritsuko se imobilizou.
Por um segundo.
Depois suspirou, balançando a cabeça. "Olha só você, virando a análise contra mim."
Ela olhou pro café, a voz mais baixa agora. "Uma batalha interna, é? Talvez. Mas pessoas como eu, Kai..."
Os olhos se ergueram.
"A gente não tem o luxo de poder lutar contra si mesmo."
O sorriso voltou — mais fraco. Mais triste. "A gente só continua andando. Mesmo sem saber pra onde."
Ela tomou mais um gole de café.
Então, inclinando-se só um pouco:
"Então me diga — você tá mesmo tentando me entender?"
Uma pausa.
Depois, com um brilho de diversão:
"Porque se estiver... vai ter que se esforçar muito mais do que isso, Selvinha. E acho que é hora de encerrarmos isso antes que você morda mais do que pode mastigar."
Kai deu um sorriso torto.
Mas por dentro, ele sabia: a conversa precisava terminar, ou ela começaria a questionar seus verdadeiros motivos.
Ele torcia para que Asuka tivesse conseguido o que precisava.
"Desculpa," disse ele, recuando um passo. "Tô te fazendo perder tempo? Ou você só ficou envergonhada porque eu tô começando a... te entender?"
Ritsuko riu suavemente. "Envergonhada?"
Ela pegou a prancheta. "Você é ousado, tenho que admitir isso."
Depois sua voz caiu novamente. "Não. Você não está me fazendo perder tempo. Na verdade... só tornou tudo ainda mais interessante."
Seus olhos se estreitaram levemente. "E é por isso que vou manter meus olhos ainda mais atentos em você a partir de agora."
Ela levantou o último gole de café e terminou. "Mas algo me diz que você já sabia disso."
Ela se virou para o console, digitando algumas últimas teclas.
"Agora — a menos que tenha mais alguma tirada genial, recomendo que se mande antes que eu resolva agendar aqueles testes de sincronização imediatamente."
Kai sorriu de lado.
"Ok, vou te deixar em paz. Mas... você é legal, doutora. Eu percebo isso agora."
E então, pouco antes de atravessar a porta —
"E... só pra constar. No que depender de mim... você não vai ser deixada pra trás."
Ritsuko congelou.
A prancheta não se moveu. Os olhos não se ergueram. Mas os dedos apertaram com força a borda.
Um instante de silêncio.
Então — baixinho:
"Você... realmente é algo fora do comum, Kai."
Ele se virou.
Atrás dele, ela continuava digitando no console. Fingindo que a conversa havia terminado.
Mas pouco antes de a porta se fechar, ele ouviu a voz dela — suave, quase inaudível.
"...Boa sorte."
E então ela se foi.
Ele caminhou rápido pelo corredor.
Era hora de encontrar Asuka.
Capítulo 155: Ansiedade de Separação / O Preço de Ficar
Os corredores da NERV passavam borrados enquanto Kai caminhava depressa, a mente girando com perguntas que se recusavam a se calar.
Asuka conseguiu? Foi pega? Ele conseguiu enrolar Ritsuko tempo suficiente?
Dobrou um corredor—e congelou.
Lá estava ela.
Braços cruzados. Pé batendo impaciente ao lado de uma máquina de vendas.
Asuka.
Ela o viu, se afastou da parede e imediatamente agarrou seu pulso, puxando-o por um corredor lateral sem dizer uma palavra.
"Demorou, Selvinha," resmungou. A voz era baixa. Tensa. Urgente. "Aqui não. Anda logo."
Ele deixou que ela o guiasse por um corredor de manutenção silencioso. Só quando estavam a sós é que ela soltou sua mão.
Então—aquele sorrisinho.
"Está feito."
Ela cruzou os braços com satisfação. "Eu consegui entrar—"
Mas antes que ela pudesse terminar, Kai deu um passo à frente e a abraçou.
Forte.
O corpo dela ficou rígido.
Asuka não se moveu. Não falou. Não o empurrou.
Apenas inalou—curto e raso.
Depois, lentamente, hesitante, seus braços se moveram. Ela o abraçou de volta.
Sem grosseria. Sem piada.
Apenas de verdade.
"...Idiota," ela sussurrou.
Ela se afastou apenas o suficiente para encarar seus olhos. As bochechas coradas, mas a voz firme.
"Tô bem. Estamos bem. E conseguimos."
Então, do jeito Asuka de ser, ela o empurrou com força no ombro.
"MAS NEM VEM FICAR TODO MELOSO AGORA!"
Ela fez cara feia, virando um pouco o rosto. "Tsc. Você deu sorte de eu não ter sido pega, senão ia te assombrar pro resto da vida."
E mais baixo, quase num murmúrio: "...Mas é. Bom te ver também."
Kai sorriu, o coração finalmente começando a se acalmar. "Pois é... tive uma conversa longa com a doutora loira. E ela soltou umas bombas."
Asuka ergueu uma sobrancelha.
"Ah é? Ela finalmente explicou o que diabos há de errado com você?"
Ela notou a mudança na expressão dele.
A provocação sumiu.
"...Espera. Ela explicou mesmo, não foi?"
Cruzou os braços com mais força. "Fala. O que ela disse? Devo ficar preocupada de seu cérebro explodir ou algo assim?"
Kai riu.
"Meu cérebro explodir? Ha! Não, não seja ridícula... Mas ser completamente apagado? Aí sim."
Asuka parou na hora.
Os olhos arregalados. Depois, semicerrados.
"O QUÊ?!"
Ela agarrou o pulso dele de novo e o virou de frente pra ela.
"APAGADO?! Como assim, Selvinha?!"
Sem sarcasmo. Sem piada.
Apenas o pânico enterrado sob a fúria.
Kai respirou fundo.
"Ela realmente acha que eu sou de outra realidade. E aparentemente, minhas... hum... ondas de sincronização ou sei lá o quê não são estáveis. Ela disse que a Unidade-04 é a única coisa me ancorando aqui."
Ele a encarou, calmo mas decidido.
"E eu me recuso a acreditar nisso."
Asuka o encarou, depois soltou o pulso dele.
"Tsc. Claro que ela disse isso. Pra ela, tudo tem que ser sobre números, testes e teorias."
Ela fez uma careta.
"E então? O dia que seu Eva quiser, você some? Isso é idiotice. Você já entrou e saiu dele várias vezes. E continua aqui."
Ela olhou pra ele de novo.
"...Né?"
Havia uma rachadura na voz dela.
"Você não vai a lugar nenhum."
Não era uma pergunta. Era uma ordem.
Kai sorriu suavemente, os olhos fixos nos dela. "Não se preocupa. Não pretendo ir embora. Faço qualquer coisa."
Desviou o olhar por um momento.
"Não vou te deixar sozinha. Fora de cogitação."
Continuou. "Ela disse que duas coisas podem acontecer se eu me tornar completo. Ou viro uma outra versão de mim mesmo, com a memória toda restaurada, ou... desapareço completamente, sendo mandado de volta pro lugar de onde vim."
Ele se virou, o pensamento pesando. "Você sabe qual é a minha resposta pra isso, não sabe?"
Asuka não hesitou.
"...Sei."
Ela deu um passo à frente, agarrou a gola da camisa dele e o puxou pra perto.
"Você acha que eu fiz tudo aquilo hoje pra você ser apagado como um bug cósmico?!"
A voz dela tremia.
"Você é o Kai. O meu Kai. E você não vai a lugar nenhum, entendeu?"
Ela se deu conta da proximidade.
O rosto ficou vermelho.
Ela o empurrou com violência.
"Ugh! POR QUE TÁ ME OLHANDO ASSIM?! PARA COM ISSO!"
Ela se virou, os braços cruzados com força.
Então—mais baixo:
"...A gente vai resolver isso. Juntos."
Um pequeno suspiro.
"Custe o que custar."
Kai assentiu.
"Custe o que custar."
Ela o olhou de novo. E dessa vez, não havia chama no olhar—só sinceridade.
Então—o sorriso travesso voltou.
"Chega de drama! Conseguimos! O Dummy Plug está fora! A gente devia estar comemorando—com sorvete."
Ela ergueu uma sobrancelha.
"A não ser que você esteja emocionalmente abalado demais pra comer, nesse caso—eu como a sua parte também."
Kai abriu um sorriso largo.
"É isso aí! Que se dane essa baboseira de ficção científica. Hora de tomar sorvete!"
Asuka sorriu e agarrou o pulso dele, puxando-o pra frente.
"Esse é o espírito, Selvinha!"
Eles caminharam lado a lado pela rua, com as sombras da NERV ficando para trás.
E por um tempo, pelo menos—só havia risadas.
E a promessa de sorvete.
Capítulo 156: Pontos de Fusão / Problemas Indiretos
As ruas de Tokyo-3 brilhavam sob a luz suave dos neons, o zumbido do trânsito distante compondo o fundo tranquilo daquele frágil momento de paz compartilhado por Kai e Asuka. O ar estava morno, o céu uma tapeçaria de azul profundo e laranja enquanto o sol mergulhava além da cidade.
Mais uma vez, Kai não se sentia como um fantasma vindo de outro lugar.
Ele se sentia presente. Real.
E caminhando ao seu lado, de braços cruzados e fingindo não ligar, estava a pessoa que, de algum modo, tornava esse sentimento ainda mais forte.
Asuka lançou um olhar de canto para ele, só por um segundo, e logo desviou com um suspiro. Como se estivesse se certificando de que ele ainda estava lá. Como se ainda temesse que ele pudesse desaparecer se ela desviasse o olhar por muito tempo.
Eles subiram uma colina familiar e seguiram até a beira de um mirante — um lugar tranquilo acima da cidade, que cintilava com luzes distantes. Um lugar onde já haviam estado. Um lugar que parecia deles, mesmo que ninguém tivesse dito isso em voz alta.
Mal haviam parado para almoçar — alguns petiscos rápidos no caminho de saída da NERV — mas agora, com o pôr do sol e o dia desacelerando, tudo parecia ter espaço para respirar de novo.
Dois cones de sorvete nas mãos. Duas silhuetas contra o horizonte luminoso.
Asuka deu mais uma mordida no sorvete, os olhos se estreitando em satisfação. "Mmm. É. Valeu a pena."
Kai lambeu seu sorvete de manga, saboreando o primeiro toque doce e gelado. "Totalmente. Melhor sorvete de todos. Aqui, prova, tá delicioso."
Ele estendeu o cone em direção a ela.
Asuka congelou. "O quê—?!"
Ela encarou o sorvete como se ele tivesse ofendido sua família. Suas bochechas coraram violentamente. "EU NÃO VOU—!"
Então percebeu um casal próximo olhando na direção deles. Sua postura ficou rígida.
"Tch! Que idiotice!"
Resmungando, ela se inclinou e deu a menor mordida fisicamente possível. Depois recuou como se tivesse se queimado.
Mastigou. Engoliu.
Sem olhar para ele: "...É aceitável."
Imediatamente, deu uma mordida enorme no próprio cone e declarou em voz alta: "MAS O MEU É MELHOR!"
Kai fingiu enxugar o suor da testa. "Hmm... agora eu quero provar o seu. Vai, deixa eu dar uma mordida."
Asuka engasgou.
"O-O QUÊ?!"
Ela agarrou o sorvete como se fosse um artefato sagrado. "VOCÊ TÁ LOUCO?! Acha que vou deixar você morder meu sorvete assim, como se não fosse nada?!"
A voz dela baixou num sussurro ansioso:
"Isso é beijo indireto, seu tapado!"
Ela piscou. Percebendo o que acabara de dizer.
"EU—ESQUECE ISSO! EU TE ODEIO!"
Virou-se violentamente e começou a devorar o sorvete com agressividade, as bochechas ainda em vermelho nuclear.
Kai a observou de lado, sorrindo. Inclinou-se com uma risada suave.
"Beijo... indireto?" riu. "Ok... mas você acabou de morder o meu, então..."
Asuka parou no meio da mordida. O cérebro processou.
Então ela se virou.
"O-O QUÊ?! ISSO NÃO CONTA! ISSO NÃO CONTA DE JEITO NENHUM!"
Apontou pra ele, tremendo de fúria justa. "RETIRA ISSO! RETRATA ESSA AFIRMAÇÃO IMEDIATAMENTE!"
Empurrou uma colherada enorme na boca só pra se calar, o rosto ainda em chamas. Virou-se novamente.
Ele mal ouviu o murmúrio:
"...Selvinha idiota..."
Kai abriu a boca, talvez pra provocar de novo—mas o celular de Asuka vibrou. Ela piscou, tirou do bolso e olhou a tela.
"Misato."
Kai ficou mais sério. "O que ela disse?"
Asuka abriu a conversa, os olhos lendo rapidamente enquanto se inclinava para Kai também ver.
Misato: "Tá viva? Como tá tudo aí?"
Asuka revirou os olhos e digitou rápido.
Asuka: "Estamos bem. Comendo sorvete. Sendo normais. Mais ou menos. E você?"
A resposta veio rápido.
Misato: "\textit{Estamos, é? 😜"}
Asuka gemeu.
Depois, outra mensagem.
Misato: "Recebi alta. Tô pegando carona de volta pra Tokyo-3 hoje à noite. Chego tarde. E não pensa que esqueci — o pessoal da NERV vai aí amanhã cedo buscar suas coisas. Esteja com tudo pronto."
Asuka: "Sério? É amanhã?"
Misato: "Yep! Cedinho. Dá tchau pra sua torre assombrada de princesa."
Asuka suspirou pelo nariz, abaixando o celular.
"Ela volta hoje. E aparentemente vão pegar minhas coisas amanhã de manhã. Aff..."
Kai olhou pra ela. "Posso te ajudar a empacotar."
Ela piscou. "Hã?"
Ele deu de ombros, lambendo o fim do sorvete. "Quero dizer... ainda temos tempo. E não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer."
Asuka bufou, mas não pareceu irritada. "...Tsc. Tá. Mas você carrega as coisas pesadas."
Ele revirou os olhos. "Óbvio. Finalmente admitiu que eu sou o mais forte."
Ela jogou o resto do sorvete na lixeira próxima. "Então vamos logo. Antes que eu mude de ideia e jogue você no lixo também."
Kai riu. "Fechado."
Eles se viraram e começaram a caminhar de volta, agora pela trilha que levava ao apartamento de Asuka. O ar da noite estava morno e calmo, a cidade silenciosa ao redor.
E por ora, mesmo com o peso do que haviam feito e do que viria...
Havia apenas o som dos passos deles.
E a sensação de que, pela primeira vez, estavam escolhendo seu próprio caminho.
Juntos.
Capítulo 157: Linhas de Falha / A Noite em Que Ficamos
O apartamento da Asuka estava com luz baixa, caixas meio empilhadas ao longo das paredes, o dourado da tarde substituído pelo violeta profundo da noite de Tokyo-3. As janelas estavam entreabertas, deixando entrar o zunido suave de um trem distante e o ruído ocasional da cidade, agora abafado pelo silêncio lá dentro.
Kai estava sentado de pernas cruzadas, quase soterrado sob uma montanha de roupas transbordando de uma mala grande. Ele ergueu um vestido frufru, todo elaborado, com uma sobrancelha cética.
"Ok... Não sou especialista, mas você pretende usar tudo isso ou pretende abrir uma loja de roupas?"
Asuka, ajoelhada perto do armário lotado com outra caixa vazia, não olhou para ele. "Tsc. Isso se chama ter opções, Selvinha. Você não entenderia."
Ela estendeu a mão para trás e deu um tapa no braço dele sem nem se virar.
Eles empacotavam num ritmo irregular—Kai demorando demais pra dobrar as coisas direito, tentando disfarçar como aquilo era entediante; Asuka guardando tudo com a precisão de uma soldada, mas o temperamento de uma tempestade. Ainda assim, havia algo reconfortante na maneira como se moviam. Fácil. Familiar. Como se isso já fosse mais uma daquelas coisas que faziam juntos agora.
E isso o levou a falar, com a voz calma, casual, quase brincalhona.
"Sabe... eu tava pensando numa coisa..."
Asuka inclinou um pouco a cabeça enquanto tentava enfiar um uniforme escolar inteiro numa mochila claramente pequena demais.
"Tsc. Isso é perigoso," ela murmurou. "Manda, Selvinha. Qual é a idiotice que tá fazendo eco nessa sua cabeça?"
Kai sorriu. "De vez em quando eu te ouço resmungando umas palavras estranhas. Devia me ensinar uns desses palavrões em alemão. Ia ser legal demais usar isso!"
Asuka piscou.
Depois—os olhos se estreitaram com empolgação.
"Ah. AH."
Ela se endireitou, sorrindo como uma raposa.
"Quer aprender a xingar em alemão, é?" disse ela, inclinando-se. "Acha que consegue?"
E então—o sorriso se alargou num quase vilanesco.
"Certo. Repete comigo."
Ela pigarreou e disse, lenta e precisamente: "Verdammter Idiot."
"Isso significa `idiota maldito'. Deve ser fácil pra você, já que é um Verdammter Idiot."
Kai riu. "Ai! Do nada! Pra que isso?!"
Sem pausa, ela continuou.
"Próxima: Arschloch."
"Significa `idiota' ou `babaca'. Vai precisar pra quando a Misato encher o saco."
Então—ela sorriu como quem acaba de destravar uma fase secreta.
"Ah—AH! Essa é boa! Um insulto de nível avançado! Pronto?"
Ela se inclinou, cochichando como se fosse segredo de estado.
"Rücksichtsloser dummer Kopf."
Caiu na gargalhada antes mesmo de explicar.
"Significa `cabeça estúpida e sem noção'! É meu novo apelido pra VOCÊ."
Kai riu. "Ei! Isso não vale!" Sorriu ainda mais. "Mas eu tô adorando isso. Não vou esquecer!"
Ela se inclinou com seriedade fingida.
"Scheißkerl. Perfeito pro Gendo. Significa `canalha', ou `escroto'."
O sorriso dela afiou de novo.
"E esse aqui é meu favorito. Heulsuse."
Ela disse com estilo. "Usa quando o Shinji começar a reclamar. Significa `chorão'."
Kai ergueu as mãos. "Ok, ok! Tá ficando empolgada demais com isso. Bora calmar um pouco?"
Ela se recostou, radiante. "Hah! Vai lá! Repete! Quero ver se tem talento natural."
Kai pigarreou, fez seu melhor sotaque falso de alemão e declarou:
"Dummer rücksichtsloser Arschloch Kopf, seu Scheißkerl Heulsuse!"
Depois, sorrindo: "Uau! Isso soou ofensivo."
Asuka o encarou. Depois tombou no sofá, rindo tanto que mal conseguia respirar.
"MEU DEUS. FOI HORRÍVEL."
Ela arfava, enxugando os olhos.
"O sotaque foi a parte mais ofensiva dessa frase!"
Ainda rindo, ela balçou a cabeça. "Nossa, Selvinha, seu alemão é péssimo. Mas—tch, tô tão orgulhosa. Meu pequeno dummer Kopf finalmente aprendendo algo útil."
Mais tarde, o apartamento estava silencioso.
As caixas estavam quase todas prontas. As prateleiras dela, vazias. A bagunça familiar que antes dava vida ao espaço de Asuka tinha sumido. Já não parecia mais o apartamento dela.
Kai estava sentado no sofá, ainda com a respiração um pouco ofegante de tanto rir, mas agora mais calado. Um silêncio confortável, como um cobertor depois de muito tempo no frio. Asuka estava largada sobre a mesa, um braço sob a cabeça, o outro esticado à frente. Os olhos estavam fixos nele, meio perdidos na luz que se apagava pela janela, como se os pensamentos tivessem ido parar num lugar mais calmo. O cabelo caía solto por um dos ombros, emoldurando um rosto preso entre a teimosia e o cansaço.
Ela se levantou e se sentou ao lado de Kai no sofá. Depois, inclinou-se para a frente, cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas. Sua voz tinha perdido o fogo de sempre.
"É estranho... Já passamos por tanta coisa, mas ainda sinto como se isso tudo fosse só o começo de algo maior."
Ela encostou de leve o braço no dele. "Ainda bem que eu sou incrível sob pressão, né?"
Depois se recostou de novo, se espreguiçando e soltando um suspiro. "Mas até o mundo decidir socar a nossa cara de novo..."
Ela olhou de lado, uma sobrancelha levantada.
"Será que a gente devia... só aproveitar isso?"
A cabeça dela inclinou levemente.
Kai sorriu, pego de surpresa.
A voz dela era quente. Real.
Ele estreitou os olhos. "Você tá sugerindo... o que eu acho que tá sugerindo?"
Asuka enrijeceu. Os olhos se arregalaram só um pouquinho.
E então—a cor voltou às bochechas.
"Tsc." Ela desviou o olhar. "E-eu não faço ideia do que você tá falando!"
Depois—um olhar rápido. Curioso.
"...Mas se eu soubesse. Se eu quisesse que você dissesse..."
Ela se inclinou levemente, os lábios se curvando num sorriso torto que não conseguia esconder o calor subindo pelo rosto.
"Será que você teria coragem, Selvinha?"
Kai olhou nos olhos dela. "Você tá... me desafiando?"
Ela ergueu uma sobrancelha. Os olhos cravados nos dele agora.
"Vai. Diz."
Kai não piscou.
Olhou nos olhos dela.
Depois, para os lábios.
E de volta aos olhos.
Se inclinou, a voz mais baixa, mais real.
"Tem certeza de que consegue lidar com isso? Se for só porque você tá entediada, tô fora. Tem que ser de verdade."
Asuka congelou.
O sorriso torto vacilou—só por um segundo.
Aí ela se inclinou também, acompanhando.
"Tsc. Ah, por favor."
Mas a voz não saiu tão firme quanto ela queria.
"Acha que consegue me deixar nervosa só chegando perto? Vai ter que tentar melhor, Selvinha."
Kai viu.
A mudança na respiração. O jeito como os dedos apertaram um pouco mais o tecido das mangas. O sorriso começando a falhar.
Ela inclinou a cabeça, ainda fingindo que tinha o controle.
"Vai. Me prova o contrário." A voz dela já estava mais baixa. "Tô esperando."
O silêncio caiu de novo sobre a sala.
Não o tipo estranho. Nem o tipo desconfortável.
O tipo que vem quando uma verdade finalmente se revela—sem palavras, só com um olhar. Um toque. Um beijo.
Kai se moveu sem hesitar. Os braços envolveram Asuka, puxando-a para perto—gentil, mas firme, sem deixar espaço para dúvidas. Os olhos encontraram os dela e ele manteve o olhar, cada respiração preenchendo o espaço entre os dois.
Asuka congelou.
Por um instante, o corpo inteiro parou. A respiração travou. As mãos, que estavam paradas ao lado do corpo, subiram quase sem querer, os dedos roçando o tecido da camisa dele.
Ela agarrou. Leve, mas firme. Como se não soubesse se queria empurrar ou segurar mais forte.
O rosto—já vermelho—conseguiu ficar ainda mais.
Os lábios se fecharam numa linha fina e trêmula. Um conflito travava nos olhos dela—orgulho contra algo que ela não queria nomear.
"Tsc."
A voz dela falhou um pouco.
"V-você se acha tanto..."
Mas ela não se afastou.
Só olhou para ele. De verdade.
E então—um brilho novo surgiu no canto dos lábios. Não era sarcasmo. Nem provocação. Algo mais suave.
A voz dela caiu para um sussurro brincalhão. "...E aí? Vai ficar me encarando pra sempre ou vai fazer alguma coisa, Selvinha?"
Os olhos dela desceram—rápido—para os lábios dele. Depois voltaram pros olhos.
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Kai não hesitou.
Ele a beijou.
Sem piadas. Sem sorrisos. Sem teatrinho.
Só calor.
Só verdade.
Asuka enrijeceu por um segundo—o choque da surpresa.
E então—
Ela se entregou.
Os dedos, ainda agarrando a camisa dele, apertaram como se o mundo fosse sumir sem ele. Ela o beijou de volta—intensa, cheia de fogo, como tudo que fazia. Não foi suave. Nem tímido.
Foi Asuka.
Ela se inclinou contra ele, agarrada como se o mundo fosse acabar se soltasse.
E talvez acabasse mesmo.
Quando finalmente se afastou—só o suficiente para respirar—o rosto ainda estava colado ao dele. Os olhos vidrados, perdidos em mil coisas que não se disseram.
As bochechas queimavam.
As mãos ainda presas na camisa dele.
Ela piscou. Uma. Duas vezes. Tentando encontrar o chão de novo.
Depois—soltou o ar com força e afundou o rosto contra o ombro dele, se escondendo.
"...Eu te odeio tanto."
Mal dava pra ouvir.
Mas as mãos não soltaram.
Kai a abraçou mais forte. Mais firme. Deixando claro que não ia a lugar nenhum.
"Pode me odiar o quanto quiser."
Ele encostou o queixo de leve no topo da cabeça dela.
"Eu vou continuar aqui."
Asuka não se mexeu.
Respirou fundo—trêmula, irregular.
E então, depois de um longo silêncio, uma palavra saiu dos lábios dela.
"...Ótimo."
Ela o apertou por mais um segundo. Aí, como se o corpo percebesse o que acabara de dizer, gemeu e bateu a testa contra o peito dele.
"Ughhh! Você é TÃO IRRITANTE! EU ODEIO O QUANTO EU—"
Ela parou.
Os punhos cerraram levemente nas costas dele.
Depois—ainda furiosa, ainda corada, ainda escondida.
"...Selvinha idiota..."
Mas ela não soltou.
Não agora.
Nem por nada.
Kai a segurou.
A segurou como se o mundo lá fora não importasse, como se o tempo pudesse parar, suspenso, esticado para sempre no calor entre batimentos.
E aquilo bastava.
O apartamento estava quase completamente silencioso agora.
Era noite, as luzes fracas, as caixas prontas, o cômodo irreconhecível. Asuka estava sentada com os joelhos puxados, um cobertor jogado por cima do sofá. A TV passava algo irrelevante. Só barulho de fundo.
Kai já cochilava, a cabeça pendendo, o corpo relaxado contra as almofadas, um sorriso leve nos lábios.
Asuka o observava, os olhos semicerrados, o próprio cansaço se aproximando.
"Tsc. Inacreditável," ela sussurrou. "Para de sorrir assim, idiota."
Ela se recostou devagar, deixando o ombro encostar no dele.
A respiração dele desacelerou.
Ficou regular.
Tranquila.
Ela ficou ali um tempo, só observando. Ouvindo.
Depois—bem baixinho, quase inaudível:
"...dummer Kopf."
Deixou a cabeça cair de leve sobre o ombro dele.
E não se afastou.
Nem quando os próprios olhos começaram a se fechar.
Nem quando a noite passou devagar ao redor deles.
Porque os dois sabiam…
Aquela era a última vez que dormiriam ali.
Naquele espaço.
Daquele jeito.
E por isso ficaram.
Juntos.
Silenciosos.
Apenas ficaram.
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