Evangelion: Shattered Thresholds

19 Episódio 19: Individuação


Capítulo 158: Fios Dourados / A Segunda Manhã

A luz da manhã entrava suave pelas cortinas do apartamento de Asuka, pintando o cômodo com tons dourados. O mundo lá fora começava a despertar—o zumbido distante do trânsito, pássaros cantando ao longe, e o sussurro do vento contra as janelas. Mas ali dentro, naquela pequena bolha de silêncio e respiração, tudo ainda parecia suspenso.

Kai abriu os olhos devagar—não por um alarme ou por um chamado da NERV, mas pelo peso tranquilo da paz.

Asuka ainda dormia ao lado dele no sofá, encolhida sob um cobertor, com os cabelos ruivos desgrenhados em todas as direções. A respiração era lenta, profunda, despreocupada. A lembrança do dia anterior pesava suave e quente no peito dele. Não só o ato de sabotagem. Não só a vitória silenciosa sobre o sistema Dummy Plug. Mas o jeito como ela o olhou no escuro—provocadora, mas sem esconder mais nada. Os silêncios que agora diziam mais do que qualquer constrangimento.

Ele a observou por mais um instante, sem ousar se mover.

Ela se mexeu. Um resmungo baixinho. Os cílios tremeram.

E então aqueles olhos azuis tão familiares se abriram, turvos de sono.

A testa se franziu na hora. "Ugh... Por que você tá me encarando, idiota?"

Kai não resistiu. Um sorriso torto surgiu no rosto. "Você tava tão fofa e tranquila... e agora estragou tudo."

Ela congelou.

Só por um instante.

E então, de repente, as bochechas ficaram vermelhas. "Tch! Não fala essas bobagens logo de manhã, Selvinha!"

Um travesseiro voou direto no rosto dele.

Kai deixou acertar e abafou a risada atrás dele.

Asuka cruzou os braços com exagerada superioridade, o nariz empinado. "Como se eu fosse parecer fofa dormindo. Você tá delirando."

Mas já estava ajeitando o cabelo. Endireitando a camisa. Alisando rugas invisíveis com precisão cirúrgica.

Kai sorriu ainda mais.

Ele virou o rosto para cima e soltou um suspiro. O teto girava devagar acima dele, mas os pensamentos já estavam longe. A expressão foi ficando mais séria.

O que o Kaji quis dizer quando falou ‘as consequências podem ser piores do que o esperado’?

Asuka piscou. "Hã? Essa cara de novo. O que você tá pensando agora?"

Era impressionante como ela lia ele com tanta facilidade.

"A sabotagem. A gente fez a coisa certa... né?" Ele falou, os olhos vagos.

Houve uma pausa.

Depois, mais suave que o normal, a voz dela chegou até ele. "Não se preocupa com a sabotagem. Correu tudo bem. Se o plano do Kaji funcionar como prometido, o sistema não vai só travar—vai esconder qualquer vestígio do que fizemos."

Kai olhou para ela. A dúvida ainda pairava.

Ela suspirou e se aproximou, apoiando-se com um dos cotovelos. "A gente fez tudo certo. E se der ruim? A gente lida com isso. Juntos."

Ele a olhou. De verdade. A dúvida não sumiu totalmente—mas estava sendo empurrada pela segurança quente dela.

"Tá bom, então. Já que você disse todas as coisas certas..." Ele se espreguiçou, gemendo como um velho. "...está prestes a comer meus ovos mexidos pela segunda vez."

Asuka piscou, pega de surpresa pela mudança de assunto.

Depois, claro, estreitou os olhos. "Tsc. Tá. Mas se estiver ruim dessa vez, nunca mais deixo você chegar perto do meu fogão."

Kai riu, já quebrando os ovos na frigideira. "Segunda vez que cozinho pra você... quando é que você vai cozinhar pra mim? Ou será que é um desastre na cozinha?"

Asuka bufou, jogando o cabelo para o lado. "Com licença? Para sua informação, eu cozinho muito bem."

Pausa.

"...quando eu quero."

Ela se mexeu de novo, provavelmente ainda observando ele. "Além disso, por que eu cozinharia pra você se você claramente adora fazer comida pra mim?"

A provocação estava de volta.

"Qual o próximo passo? Vai começar a levar bentô pra mim na escola? Me dar comida na boca como se eu fosse uma princesa?"

Ele nem virou.

Só colocou os ovos no prato e entregou pra ela. "Desculpa, princesa. Tudo que você vai conseguir de mim são ovos mexidos. Mas pelo o menos café da manhã tá garantido."

Ela olhou pro prato. Depois pra ele.

Por um instante—silêncio.

Depois—

Um suspiro dramático. Ela pegou o prato e se sentou como se estivesse sendo forçada a algo doloroso.

Mas deu uma mordida.

Mastigou.

Engoliu.

Os lábios se contraíram. "Hmph. Você tem sorte disso estar realmente bom."

Mas ela já estava na metade antes de perceber.

Kai se sentou à frente dela, comendo tranquilamente, um leve sorriso se formando.

Na última garfada, ainda sentindo o calor do café da manhã no estômago, Kai esticou o braço sobre a mesa e gemeu, olhando para si mesmo.

"Merda. Ainda tô com a mesma roupa de ontem."

Asuka parou, o garfo a meio caminho da boca.

E então—

"Pfft—"

Ela mal conseguiu engolir antes de soltar uma gargalhada tão forte que quase perdeu o ar. Botou a mão na boca, os olhos arregalados em descrença, encarando ele entre lágrimas de tanto rir.

"Meu Deus. Idiota!"

Tossiu, rindo contra a mão.

"Você nem pensou em trazer uma muda de roupa?! O que foi, ficou tão hipnotizado pela minha presença que esqueceu da higiene básica?"

Ela se recostou com um ar vitorioso, braços cruzados, se esquentando ao sol como uma gata.

"Tsc. Típico."

Mas então—

Os olhos dela desceram para a própria roupa.

Ela congelou.

"...Merda."

Pausa.

Um silêncio que se esticou.

E então—

A mesma constatação bateu nos dois.

Eles estavam prestes a ir para a escola. Juntos. Com as mesmas roupas do dia anterior.

Os olhos de Asuka se arregalaram em horror, o rosto ficando num tom de vermelho que nem fogo igualava.

"Ah. NEM PENSAR."

Ela se levantou como um míssil, puxando Kai pelo pulso em direção à porta.

"A gente NÃO vai aparecer assim!!"

Antes que ele pudesse falar, ela o empurrou com uma força surpreendente.

"Vai. Pra. Casa. AGORA. Troca de roupa, arruma esse cabelo ridículo e me encontra na escola. E nem ouse aparecer com cara de quem passou a noite aqui!"

A voz dela subiu com uma fúria nervosa, mas o pânico era real.

Resmungando xingamentos, empurrou de novo, as bochechas em chamas:

"Selvinha idiota... ovos mexidos idiotas... idiota me fazendo passar vergonha..."

Kai tropeçou porta afora, mal conseguindo recuperar o equilíbrio. Mas em vez de sair correndo, ele parou. Virou. Olhou nos olhos dela. Com suavidade.

"Eu sei, eu sei, você tá certa. Mas antes de eu ir..."

Ele se inclinou.

E a beijou.

Só um beijo suave e tranquilo. Breve, mas certo. Sem pressa. Sem brincadeiras.

Caiu como um meteoro.

Asuka congelou por completo. A mão ainda levantada do empurrão—agora só pendia no ar.

Os olhos arregalados. Os lábios entreabertos. A respiração presa.

Ele se afastou com um sorriso. "Te vejo lá."

E correu.

Escada abaixo, na luz da manhã, o coração batendo com algo mais brilhante que pânico.

Atrás dele, a porta ainda estava aberta, e Asuka paralisada.

Capítulo 159: Tensão Vazia / O Limite da Escolha

Kai correu como se sua vida dependesse disso—e, para ser justo, talvez dependesse mesmo.

As ruas de Tokyo-3 começavam a se agitar, o sol subia por trás das torres de vidro reforçado e aço silencioso. Ele se esquivava entre pedestres, desviava de bicicletas e drones de entrega zumbindo, ignorando a queimação nas pernas. Cada batida do coração ecoava com urgência—não pelo risco de chegar atrasado na escola, nem pela fúria da Asuka se ele a deixasse esperando, mas pelo medo insistente de que, se relaxasse por um segundo, tudo desmoronaria.

A sabotagem podia dar errado. O programa do Kaji podia ser uma armadilha. O sistema Dummy Plug podia ainda estar funcionando e substituí-los. A SEELE podia estar observando tudo. Outro Anjo podia aparecer a qualquer momento, e eles estavam ficando mais fortes. Tudo podia desabar. Não só para ele. Para ela. Para todo mundo.

Ele balançou a cabeça, lembrando das palavras da Asuka.

Não pensa demais.

Mas o pressentimento apertava o peito, frio e sufocante.

Arrombou a porta do próprio apartamento, já tirando a camisa, pegando a toalha com uma mão e ligando o chuveiro com a outra. A água jorrou quente, vapor subindo ao encontro do rosto.

Sem tempo para pensar.

Sem tempo para parar.

Porque algo estava vindo.

Ele podia sentir.

E não era só adrenalina.


Após um banho rápido e roupas limpas, Kai checou o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma notícia. Nada de Shinji desde o dia anterior. Uma pontada de preocupação se espalhou pelo peito.

Digitou rápido:

"Fala, Shinji. Só passando pra ver como você tá. Tudo certo?"

Ficou olhando para a tela por alguns segundos. Nada de resposta.

Mais uma mensagem, dessa vez para Asuka:

"O Shinji não responde. Vou passar lá antes de ir pra escola, beleza?"

Quase instantaneamente:

"Tá bom. Já tô no caminho. Mas não demora. Não quero ser a única tentando animar a Hikari sozinha. Eu sou péssima nisso."

Kai sentiu o peso da mensagem. Pegou a mochila e saiu novamente.


Por fora, o apartamento da Misato parecia estar igual a sempre. Mas algo parecia diferente.

Ele tocou a campainha.

A porta se abriu devagar.

E lá estava ela.

"...Kai?"

"Misato!" Ele sorriu, os olhos se iluminando ao vê-la. "Você tá aqui! Que bom!"

Ela estava recostada no batente, o braço direito enfaixado do ombro até o punho. Mais alguns curativos cobriam a testa e as costelas sob a jaqueta meio aberta, mas ela estava de pé. O cabelo ainda úmido—provavelmente de um banho apressado—e a expressão cansada. Mas viva.

Ele quase quis abraçá-la.

"Nossa, olha pra você," disse ele, o sorriso apenas um pouco mais contido. "Você tá bem? De verdade?"

Misato soltou um meio suspiro, meio riso. "Define `bem'. Tô de pé. Tô respirando. E tomei café. Isso é o mais perto que chego."

Ela deu um passo para o lado e fez um gesto para ele entrar.

"Mas falando sério—obrigada por se preocupar. Tô bem, garoto. Poderia ter sido pior."

Kai assentiu, entrando com cuidado. "Fiquei bem preocupado mesmo."

Olhou para o corredor.

"Na verdade... eu vim ver o Shinji. Mandei mensagem mas ele não respondeu. Ele tá...?"

"No quarto," respondeu Misato, com a voz suavizando. "Não quis comer nada. Não falou muito. Mas resolvi dar um tempo pra ele."

Ela olhou para Kai—de verdade.

"Ainda bem que ele tem alguém como você, sabia?"

Kai parou.

O elogio parecia mais pesado do que deveria. Ele assentiu em silêncio e seguiu para o fundo.

A mão pairou na porta de Shinji por um segundo antes de ele bater suavemente.

Nenhuma resposta.

Ele abriu.

O quarto estava escuro, as persianas apenas entreabertas. Sombras suaves se espalhavam pelo chão.

Shinji estava sentado na beira da cama, de cabeça baixa, as mãos soltas entre os joelhos. Parecia menor. Mais quieto.

Não se mexeu.

Uma mala meio arrumada estava num canto. Kai notou na hora. Os passos desaceleraram. Ele entrou no quarto.

Por um instante longo, nada.

Então—

"...Oi, Kai."

A voz era fraca. Baixa. Como se estivesse silenciada há tempo demais.

Kai sorriu de leve, sentando ao lado dele.

"Oi, Shinji. Como você tá... lidando com tudo?"

Shinji se encolheu—quase imperceptível—como se não estivesse acostumado a ser recebido com tanto carinho. Os dedos se fecharam um pouco mais.

"Eu... não sei," disse ele suavemente. "Fiquei pensando muito. No Toji. No que eu fiz."

A voz falhou no fim.

"E em... se eu devia mesmo continuar aqui."

O peito de Kai apertou, mas ele não hesitou. "Eu sei, cara. Aquilo foi... foi horrível. Mas não foi culpa sua. Foi o Gendo. E aquele maldito sistema Dummy Plug."

Shinji fez uma careta.

"Eu sei," murmurou. "Mas... eu ainda tava lá. Eu senti tudo. Mesmo sem controle... eu ainda tava lá."

As mãos se fecharam em punhos.

"Eu devia ter lutado mais. Devia ter impedido."

Virou levemente, os olhos buscando os de Kai.

"...Você acha mesmo que não foi culpa minha?"

Kai sustentou o olhar sem piscar.

"Olha... eu entendo. Se fosse comigo, eu provavelmente me sentiria igual. Talvez até pensasse em desistir. E isso é seu direito. De verdade."

Pausa.

"Mas... você não tá sozinho nisso. Nenhum de nós tá. Todo mundo sabe o risco quando entra naquele plug. E se... se um dia alguma coisa me possuísse, se eu perdesse o controle... eu ia querer que você me matasse. Sem hesitar. Ia ficar puto se você deixasse eu machucar alguém inocente."

Shinji o encarou.

Kai continuou. "E eu sei que o Toji pensaria igual. Ele iria preferir se machucar a deixar outra pessoa morrer por causa dele."

Shinji abaixou o olhar.

A voz saiu pequena.

"...Você acredita mesmo nisso?"

Kai assentiu. "Cada palavra."

Silêncio de novo.

De outro tipo.

Kai soltou o ar devagar, se recostando levemente.

"Cara... tanta coisa aconteceu desde então. A gente... achou um jeito de tentar lutar de volta. De não deixar o Gendo sair impune. Mas eu entendo se você precisar de tempo. Ele é o seu pai. Ninguém entende o quanto isso pesa pra você."

Ele estendeu a mão e pousou levemente no ombro de Shinji.

"O que quer que você decida fazer. Quando decidir, eu vou apoiar. Beleza? A escolha é sua. Não vou te dizer o que fazer."

Shinji piscou.

Os olhos brilhavam—não de lágrimas, mas de algo mais pesado.

Depois abaixou a cabeça de novo, soltando o ar lentamente.

"Valeu, Kai."

A voz era quase um sussurro.

"Eu... ainda não sei o que quero. De verdade. Mas..."

Olhou pra cima, só um pouco. O rosto não tão pálido agora.

"Fico feliz que você esteja aqui. Mesmo sem saber o que fazer... ajuda. Só saber que alguém... que você entende."

Uma pausa.

"Só... não faz nenhuma besteira, beleza?" Shinji disse, coçando a nuca. "Se você e a Asuka estão enfrentando meu pai, isso quer dizer que é perigoso. Não quero perder mais ninguém."

A voz carregava preocupação de verdade. Não só pelo que aconteceu. Mas pelo que ainda podia acontecer.

Kai se levantou, o coração pesado, mas um pouco mais leve do que antes.

Enquanto voltava para a porta, gritou com um sorriso:

"Por que todo mundo sempre acha que eu vou fazer alguma besteira?"

Atrás dele, Shinji deixou escapar um leve sorriso.

"Porque você sempre faz," respondeu, suave—mas quase... carinhoso.

Não era muito.

Mas, por agora, era o suficiente.

Capítulo 160: Mantendo a Posição / Os Que Ainda Caminham

Quando Kai chegou à escola, avistou Asuka perto da porta da sala, braços cruzados, claramente desconfortável enquanto Hikari falava ao seu lado. Mas no instante em que Asuka o viu, sua postura mudou.

"E aí?" perguntou ela, levantando uma sobrancelha. "Conseguiu finalmente enfiar juízo na cabeça daquele idiota ou ele ainda tá preso naquela espiral de auto-piedade?"

"Asuka!" Hikari franziu o cenho.

"O quê? Só tô dizendo—"

Asuka parou no meio da frase, os olhos se estreitando levemente ao notar a expressão de Kai. Sua postura relaxou.

"...Hm."

Kai assentiu devagar. "Ele vai... ficar bem. Eventualmente."

Então se virou para Hikari com um sorriso caloroso. "Espero que você não esteja pegando no pé da Asuka por ter faltado ontem. Foi tudo culpa minha, tá?"

Hikari bufou e cruzou os braços. "Ah, eu sei que foi culpa sua. Ela nunca falta—a não ser que alguém arraste ela pra confusão."

"Tsc. Como se eu tivesse escolha," murmurou Asuka.

"Você teve, sim," rebateu Hikari.

"É, bom—mas eu apareci hoje, não apareci?" Asuka respondeu, jogando o cabelo com uma indiferença teatral.

Hikari suspirou, mas algo suavizou em sua expressão. "Só não façam disso um hábito, tá? Seja lá o que vocês dois estavam aprontando... espero que tenha valido a pena."

Uma pausa.

Então Asuka sorriu de lado. "Ah, não se preocupa." Ela deu de ombros. "Com certeza valeu."

Hikari piscou, captando algo, mas decidiu não insistir.

Em vez disso, ficou séria.

"Me deixaram ver o Toji ontem..."

Kai e Asuka imediatamente ficaram imóveis.

A voz de Hikari baixou. "Ele tá acordado... mas tá mal."

Asuka descruzou os braços. O sorriso sumiu.

O olhar de Hikari se abaixou. "Ele tá tentando fingir que tá tudo bem... Mas ele perdeu uma perna, Kai. E por mais que diga o contrário, eu vejo. Ele tá com medo. Tá fingindo que tá bem, mas não tá."

As mãos dela se apertaram um pouco, segurando a barra da saia.

"Eu não sei o que dizer pra ele. Não sei como ajudar."

Ela olhou de Kai para Asuka.

"...Nem sei se tem como."

Kai deu um passo à frente, a voz baixa e firme. "Isso é... difícil." Engoliu seco. "Mas é bom que ele tenha você, Hikari. Faz uma diferença enorme saber que a gente não tá sozinho."

Os dedos de Hikari tremeram, mas ela assentiu, os olhos ainda cheios de medo. "Eu só queria poder fazer mais."

Ela olhou para os dois de novo. "Não sei se ele vai querer ver mais alguém agora, mas... quando quiser, acho que devia ser vocês dois."

Asuka piscou, surpresa. "A gente?"

Hikari assentiu. "Vocês são pilotos. Sabem como é. As coisas que ele tá enfrentando... ele não consegue falar disso com a maioria das pessoas. Mas com vocês? Talvez ele escute."

Ela deu um pequeno sorriso tenso. "Pra ser honesta? Talvez ele precise."

Kai olhou para Asuka, depois de volta para Hikari. "Claro que sim. Só avisa quando achar que ele tá pronto, tá? A qualquer hora."

O sorriso de Hikari cresceu, só um pouco. "É... vou avisar. Valeu, Kai."

Ela olhou para Asuka de novo. "E... obrigada, Asuka."

Asuka se remexeu, desconfortável. "Tsc. Tanto faz."

Mas não negou.

Hikari respirou fundo e olhou para o prédio da escola. "Tá... melhor a gente ir pra aula."

Ela se virou brevemente para eles. "Vocês estão... diferentes hoje."

Sorriu de leve. "Não sei se é bom ou ruim, mas... é alguma coisa."

Outra pausa. Depois um sorriso provocador:

"Só tentem não arrumar mais encrenca, tá?"

Asuka gemeu. "Ugh, você tá parecendo a Misato."

Hikari riu enquanto se afastava. "Vejo vocês na sala."

Quando desapareceu no meio da multidão, Asuka soltou um longo suspiro ao lado de Kai e olhou para o céu.

"Bom. Isso foi divertido."

A voz era neutra, mas havia algo a mais ali embaixo.

A conversa no pátio se dissolveu atrás deles, deixando seu peso na poeira dos passos. Enquanto caminhavam em direção ao prédio, Kai olhou para ela com um sorriso.

"Então... quer dizer que valeu a pena, é?"

Asuka piscou, pega de surpresa.

Então—previsivelmente—lhe deu um empurrão no ombro. "Tch! Cala a boca!"

Não foi forte. Só o suficiente.

O rosto dela ficou levemente corado, e ela virou um pouco de lado, cruzando os braços como escudo.

"Você é tão irritante," murmurou. Mas sem veneno. Só calor. Só nervos à flor da pele.

Então—mais baixo—ela olhou de novo, a voz quase sumindo no barulho do corredor.

"...Mas é."

A suavidade no tom pegou Kai de surpresa.

Mas ela logo se recuperou, abrindo um sorriso largo e convencido.

"Mas não deixa isso subir pra sua cabeça estúpida, Selvinha. Um dia bom não te transforma em príncipe encantado."

Ela jogou o cabelo para trás com um movimento dramático e seguiu rumo às portas da escola.

"Agora anda. Antes que a gente leve bronca por atraso."

Mas dessa vez, ela não saiu na frente.

Ela caminhou ao lado dele.

Capítulo 161: Carteiras Silenciosas / Padrões em Mudança

O corredor fervilhava com o barulho matinal de sempre—portas de armário batendo, estudantes conversando, passos ecoando nos azulejos limpos demais. Mas quando Kai e Asuka entraram juntos, as cabeças se viraram.

Olhares. Sussurros.

"Eles estão... juntos?"

"Não é possível. A Asuka? Com ele?"

"Mas eles têm passado muito tempo juntos ultimamente..."

"Faltaram aula juntos..."

Kai ouviu.

Asuka com certeza ouviu.

Ela estremeceu, as mãos se contraindo como se quisesse espantar os boatos do ar.

Em vez disso, deu uma cotovelada nele.

"Isso é culpa sua," sibilou. "Você é óbvio demais."

As bochechas estavam levemente vermelhas, mas ela atravessou os sussurros como se fossem indignos de atenção.

Entraram na sala de aula no exato momento em que o primeiro sinal tocou.

Kai se jogou na carteira. Asuka caiu na dela ao lado, resmungando sobre "idiotas sem nada melhor pra fazer".

Kai se inclinou na direção dela, abaixando a voz:

"Eles são todos um bando de Arschloch Miststück, não é?"

Asuka congelou.

Depois—

"PFFT—"

Ela não aguentou.

Riu.

De verdade. Não foi encenação. Não foi de provocação.

Riso solto, incontrolável, que sacudiu seus ombros e a fez tapar a boca.

"Meu Deus!" arfou. "Você—você realmente disse isso?! Você lembrou?!"

Kai tentou manter o semblante sério, mas acabou rindo também.

Ela se apoiou na carteira, ainda rindo, limpando os cantos dos olhos.

"Meu Deus, você soa tão idiota em alemão," provocou. "Nem consigo ficar brava!"

O sorriso dela estava desarmado.

Brilhante.

Quente.

"Ugh. Você é o pior," disse ela—de forma leve, brincalhona.

E, como num estalo, os sussurros cessaram.

A tensão se quebrou.

O peso sumiu.

O sinal tocou.

O professor entrou, pedindo silêncio.

Asuka se recostou na cadeira, os braços cruzados com preguiça, lançando um último olhar de lado para Kai antes de focar à frente.

Ela não estava de cara fechada.

Não estava resmungando.

Ela estava apenas... ali.

E ele também.


Kai tentou se concentrar.

De verdade.

A sala vibrava com o zumbido baixo da voz do professor, o barulho de papéis, o chiado das luzes fluorescentes. Ele olhava o quadro, acompanhava as fórmulas, anotava algumas coisas.

Mas tudo parecia distante—como se estivesse vendo o mundo por trás de um vidro grosso.

Mesmo assim, forçou-se a permanecer presente. Porque mesmo que seu coração não estivesse ali, aquilo importava. De algum modo, ainda importava.

Do outro lado da sala, a carteira de Shinji estava vazia.

Assim como a de Rei.

Kai sentiu essa ausência mais do que esperava.

Olhou para Kensuke—silencioso hoje. Sem câmera. Sem comentários sussurrados sobre tensões geopolíticas entre a NERV e a SEELE. Estava estático diante do livro, sem virar a página. Sem se mexer.

A carteira de Toji ao lado dele—agora vazia.

Toji...

A imagem do Eva-01 erguido como um carrasco—ensanguentado, ou seja lá o que fosse aquele líquido viscoso—invadiu sua mente como uma lâmina.

Kai desviou o olhar.

O lápis de Hikari riscava a folha com precisão mecânica. Os lábios cerrados, os olhos atentos, embora claramente a mente estivesse longe dali.

E ao lado dele—

Asuka.

Focada. Alinhada. Sem inquietação. Sem resmungos. Sem provocações. Apenas tomando notas. Afiada. Precisa. No controle.

E Kai percebeu, em silêncio, que talvez Hikari estivesse certa. Talvez algo realmente tivesse mudado nela. Talvez ele tivesse conseguido mostrar que ela importava para além da função de piloto.

E conforme o dia se arrastava, ele se permitiu acreditar nisso. Nem que fosse por um instante.


O intervalo passou sem incidentes. Uma refeição tranquila. Alguns olhares dos colegas. Alguns cochichos. Nada novo.

Em certo momento, Asuka o chutou por baixo da mesa e resmungou: "Você tá viajando de novo, idiota," mas sem raiva. Não insistiu. Apenas ficou perto.

Depois, de volta às aulas.

O fim do dia chegou rápido. O sinal tocou. Cadeiras arrastadas. Estudantes se esvaindo em ondas barulhentas.

Kai se levantou, espreguiçando as costas.

E então—

Bzzzt.

Misato: "Apresentem-se imediatamente na sede. Vocês dois. Agora."

Sem piadas. Sem emojis. Sem rodeios. Apenas as palavras. Apenas urgência.

Asuka puxou o celular da bolsa ao mesmo tempo. Leu a mensagem.

O cenho se franziu. "Tsc. Isso não é bom."

Kai assentiu. "Definitivamente não."

A paz—sumiu.

Moveram-se juntos, seguindo pela rua que levava para fora da escola.

E esperando logo além do portão—

Um sedã preto da NERV, motor ligado. Eles trocaram um olhar. Nenhuma palavra. E entraram no banco de trás.

Rumo direto à central.

Rumo direto ao que quer que estivesse por vir.

Capítulo 162: Zeruel Desce / O Dia em que Ficamos Sós

No momento em que as portas da sala de controle principal se abriram, Kai sentiu.

O ar estava pesado. Misato estava à frente da sala, braços cruzados, o sorriso habitual substituído por uma máscara dura e exausta. Ela não estava ali para brincadeiras. Não hoje.

Ao lado dela, Ritsuko mantinha a expressão impenetrável de sempre—mas até ela parecia tensa. No nível inferior, Maya, Aoba e Hyuga digitavam freneticamente nos consoles, a sala pulsando com uma urgência silenciosa.

E no andar superior—Gendo Ikari. Sentado com os dedos entrelaçados. Observando-os entrar. Observando-o.

Asuka enrijeceu ao vê-lo, o corpo em alerta, mas não parou de andar. E Kai também não.

O momento era frágil. Como algo pressionado contra o vidro, pronto para se estilhaçar.

Misato ergueu o olhar.

"Ótimo. Vocês chegaram," disse—sem humor. Apenas cansaço.

Ela tocou o console. A mesa brilhou e uma projeção holográfica irrompeu.

Uma forma. Descendo do céu. Maciça. Imparável.

Um Anjo.

Sua forma era um híbrido monstruoso de carne e fortaleza. Um torso humanoide colossal sob camadas de armadura muscular—faixas de tecido denso e trêmulo envolviam um núcleo que pulsava com luz derretida. Cada respiração fazia suas camadas se retorcerem de modo antinatural, como placas tectônicas rangendo sob a pele.

Dos ombros surgiam dois membros enormes—não braços, mas lâminas metálicas em forma de fitas, impossivelmente finas e longas. Dançavam pelo ar com graça letal, se dobrando e estalando como guilhotinas vivas, cortando concreto e aço como se fossem papel.

O rosto era uma máscara branca sem traços, lisa e vazia como osso polido até parecer vidro. Sem olhos, sem boca—apenas buracos inumanos que encaravam de volta.

Do abdômen exposto, um núcleo vermelho brilhava violentamente, protegido apenas por dobras espasmódicas de tecido e o brilho abrasador do Campo A.T.. Sob a armadura, veios de tecido bioluminescente se contorciam como vermes sob a pele, vazando icor luminoso por veias rompidas.

Mesmo como holograma, parecia algo que não deveria existir.

A voz de Misato cortou o silêncio:

"Agora é pra valer. Zeruel, o 14º Anjo. Já rompeu nosso perímetro de defesa externo. Sem qualquer aviso."

Kai cerrou o maxilar. "Ele simplesmente destruiu tudo no caminho?"

Misato assentiu, sombria. "Rápido e direto no coração."

A imagem mudou—filmagens de Zeruel descendo como julgamento, vaporizando camadas defensivas, fatiando bunkers e torres com facilidade. Em um dos clipes, partia uma montanha inteira ao meio.

"Torretas, canhões positrônicos, interceptadores—tudo destruído em segundos," disse Misato. "Ele nem diminuiu a velocidade."

Ritsuko avançou, a voz precisa. "O Campo A.T. dele é quase impenetrável, comparável ao de Ramiel. Mas ao contrário de Ramiel, Zeruel é altamente móvel e brutalmente direto. Ele não testa. Não hesita. Apenas destrói."

Ela tocou a tela. O núcleo do Anjo foi ampliado—pulsando, distorcendo o espaço ao redor.

"Não há margem para erro. Mesmo com a força combinada de vocês, um único erro significa morte."

A voz de Aoba ecoou do console. "O alvo atravessou dezoito camadas defensivas com um único disparo! Estimativa para penetração no Geofront: sete minutos!"

Kai encarou a imagem. Depois virou-se para Misato.

"A gente vai parar ele."

A voz de Asuka veio logo depois, baixa e carregada de intensidade. "A gente vai matar esse desgraçado. Vamos garantir que ele nunca chegue perto daqui."

Misato assentiu, tensa. "Ótimo. Estamos contando com vocês."

Ela se voltou para os técnicos. "Posicionem as Unidades 02 e 04 para combate direto em frente ao Quartel-General!"

Asuka lançou um olhar de lado para Kai e deixou um sorriso afiado surgir.

"Hora de mostrar o que acontece quando essas coisas se metem com os pilotos errados."

Misato assentiu em direção à porta. "Vão. Vocês devem interceptá-lo assim que ele entrar no Geofront."

A sala explodiu em movimento. E o peso do momento caiu sobre eles.


NERV – Vestiário, Minutos Depois

Kai corria ao lado de Asuka pelos corredores da NERV, os passos ecoando forte.

Ao alcançarem os armários, ele abriu o painel de comunicação e virou-se para Misato. "O Shinji... está vindo? E a Rei?"

Misato acompanhava o passo, a voz apertada. "Shinji não respondeu. Enviei o chamado, mas ele está travado. De novo."

Ela olhou o celular. Nada.

"E não podemos esperar por ele."

Um suspiro. Então—

"Quanto à Rei— a Unidade-00 ainda está em reparo. Ela está aqui, mas não pode ser lançada."

Misato hesitou por um instante, desviando o olhar. "Tentamos sincronizá-la com a Unidade-01 por ordem do Comandante Ikari. Mas foi como se o Eva a rejeitasse por completo."

Ela encarou os dois. "Isso significa que só temos vocês."

Asuka rosnou, digitando o código do armário com mais força do que o necessário.

"Tsc. Claro que sim." Puxou o armário e agarrou o plugsuit.

"Como se a gente já não estivesse carregando essa equipe faz tempo."

Misato não contestou.

"Eu sei que não é o ideal. Mas vocês já fizeram mais com menos. E agora, são tudo o que temos."

Ela se virou para os dois. "Zeruel está vindo direto pra cá. Se ele romper as defesas, é colapso total. Sem contenção. Sem segunda chance. Todo mundo morre."

O olhar dela firmou-se.

"Mas se alguém pode pará-lo... são vocês dois."

Ela virou-se e desapareceu pelo corredor. Deixando o silêncio.

E o zumbido dos plugsuits se preparando.

Kai ficou parado por um momento. Deixando tudo assentar.

Depois olhou para Asuka.

"Claro que a Terceira Criança não respondeu," murmurou ela, agora mais baixa. Sem amargura. Apenas cansaço.

Sem dizer mais nada—se prepararam para lutar.


O som do vestiário sumia enquanto o último selo do plugsuit de Kai se fechava. Sua respiração embaçou levemente o forro da gola. Cada batida de seu coração era um tambor agora.

É isso. Não posso falhar de novo.

Ele virou-se para Asuka, que se alongava como uma lutadora antes da luta.

Ele saltava nos calcanhares—para espantar o nervosismo. Para manter o corpo em movimento.

"Esse parece... o pior de todos até agora," disse, tentando rir da tensão. "Como você tá?"

Asuka fechou o zíper do plugsuit, jogando o cabelo para trás num movimento ensaiado.

"Tsc. Como se eu fosse uma dançarina de fita gigante me abalar."

Mas Kai viu. O maxilar travado. Os braços se sacudindo uma vez a mais. O sorriso que não alcançava os olhos.

"...Mas sim. Esse é ruim," admitiu, mais baixo.

Então—como sempre—endireitou-se com um suspiro e o queixo empinado com arrogância.

"Não que importe. Já vencemos piores. Tenho certeza que damos conta sozinhos dele, sem o Shinji. Vai ser fácil, fácil!"

Ela cutucou o braço dele.

"Melhor me acompanhar, Selvinha."

Kai sorriu. "Pode deixar! Somos só dois, mas somos os dois melhores. Contra um. Gosto das nossas chances."

Asuka piscou.

Depois—sorriu.

"Isso aí."

O momento firmou-se. Quente. Estável. Real.

Até que—

Os comunicadores ganharam vida com um chiado.

"Pilotos, dirijam-se imediatamente às baias de lançamento."

Asuka bufou, afastando um fio de cabelo.

"Chegou a hora."

E então—antes de virar—ela roçou a mão na dele. Leve. Rápido. Talvez por acidente. Talvez não.

E então já estava andando.

"Vamos! Hora de mostrar pra esse Anjo quem são os verdadeiros monstros aqui."

Os olhos de Kai se acenderam.

"Ooooh, isso sim foi foda! Vambora!"

Asuka riu. "Pode apostar que foi. Agora anda logo, Selvinha!"


NERV – Baia de Lançamento

Eles correram.

Alarmes soavam. Luzes vermelhas piscavam. O centro de comando rugia com ordens e instruções finais.

E no centro de tudo—

Unidade-02.

Unidade-04.

Colossais. Aguardando.

Os Evangelions.

O plug de entrada abriu. Kai entrou, coração disparado, dedos firmes.

"Plug de entrada inserido. LCL preenchendo."

O líquido quente o envolveu. O gosto metálico invadiu sua boca. A sincronização começou.

"Kai, Asuka—todos os sistemas estão no verde," a voz de Misato estalou. "Lançando agora. Fiquem prontos."

A voz de Asuka veio logo depois. "Pronta? Eu nasci pronta."

"Lançamento em 3... 2... 1..."

As catapultas os lançaram para cima.

O Geofront já era um campo de batalha.

Uma fenda colossal rasgava o céu artificial, a luz do sol invadindo em feixes irregulares. Abaixo, a planície subterrânea se estendia em tensão—florestas perfeitamente cuidadas balançando num vento contido, rios serpenteando sob a luz fragmentada, e a pirâmide da sede da NERV se erguendo do solo como um sentinela solene.

À distância, pássaros fugiam das árvores—tarde demais.

Fumaça. Fogo. Aço despedaçado.

E à frente—

Zeruel.

Imenso. Imponente. A caveira branca de ódio mirando-os. Braços-lâmina oscilando como relâmpagos.

Ele se moveu.

Rápido demais.

—BOOM—

Num piscar de olhos—uma colina inteira vaporizada. A onda de choque partiu concreto e céu.

O HUD de Kai tremeu.

A voz de Asuka gritou no comunicador. "QUE MERDA! Esse bicho não tá de brincadeira—Kai, foco total!"

Zeruel não esperou. Não pausou. Não hesitou.

Já estava vindo.

A batalha de verdade havia começado.

Capítulo 163: Sem Margem para Erro / Sangue e Osso

Zeruel avançou contra eles.

A Unidade-04 correu à frente, rifle erguido, mira travada no núcleo exposto do Anjo.

Kai apertou o gatilho.

O rifle cuspiu uma rajada, cada projétil iluminando a névoa em estalos curtos e nítidos. Eles atingiram o revestimento de Zeruel, mas só produziram faíscas—marcas de queimadura que se apagavam, deixando o Anjo completamente ileso. Sem penetração.

Não tá funcionando. Merda.

Do outro lado, a Unidade-02 surgiu da fumaça—os movimentos de Asuka eram precisos, cirúrgicos. Ela disparou sua própria rajada, mirando o núcleo. Em vão. As balas desapareciam no Campo A.T. do Anjo como papel numa tempestade.

"Sem efeito?! Ótimo. Só faltava essa!" resmungou Asuka pelo comunicador, a frustração fervendo na voz.

Então o Anjo se moveu, rápido demais para seu tamanho colossal. Seus braços—fitas laminadas e mortais—se contraíram. Um chiado cortou o ar e, de repente, um feixe de energia disparou de seus olhos.

Kai jogou a Unidade-04 para o lado, bem a tempo de evitar a explosão incandescente que devorou o chão onde ele estivera. A onda de choque o desequilibrou, mas conseguiu manter o Eva em pé.

O Anjo atacou de novo.

Os braços longos se abriram—um para cada Eva. Cortando o ar como guilhotinas de luz.

"Campo A.T.!" gritou Kai.

Ele se firmou e expandiu sua barreira—mas o braço do Anjo a atravessou como se não existisse.

O golpe atingiu o ombro da Unidade-04 com um estalo seco. O metal gritou. O Eva foi lançado para trás, faiscando. Mesmo com o amortecimento do LCL, o impacto reverberou nos ossos de Kai.

Ele estremeceu. O ombro latejava com dor—um eco psicossomático. O console piscou com alertas:

ARMADURA DO OMBRO ESQUERDO: RUPTURA

DANO NA JUNÇÃO: FUNCIONAL

SINAIS VITAIS DO PILOTO: ESTÁVEIS

"Essa coisa quase arrancou meu braço..." rosnou Kai, tremendo com o choque que percorreu seu corpo.

Enquanto tentava se recuperar, viu Asuka. Do outro lado do campo, a Unidade-02 gritou quando o segundo braço de Zeruel rasgou seu antebraço. A armadura cedeu. Fluido hidráulico jorrou como sangue arterial.

"MERDA—!" O rosnado de Asuka ecoou nos ouvidos de Kai. "Esse desgraçado é rápido!"

Ela puxou a Unidade-02 de volta, o braço danificado tremendo com a perda parcial de função.

Zeruel não recuou. Ambos os braços se reconfiguraram, prontos para outro golpe.

O estômago de Kai se revirou.

Ele é esperto. Não tá focando só em mim como os outros, tá pressionando nós dois.

Precisava atrair a atenção. Tornar-se o alvo mais fácil. Só por um instante.

Deu um passo à frente, olhos fixos no pesadelo diante deles.

"Misato," gritou no comunicador, a voz crua de adrenalina, "as armas são inúteis. Tem alguma estratégia? Ou é só improviso mesmo?"

A voz dela surgiu no canal, rápida e sombria.

"Negativo. Sem tempo pra preparar nada. É com vocês. Improvisem, ataquem forte—façam o que for preciso. Só não deixem ele entrar na NERV!"

Ritsuko entrou na linha, a voz fria e técnica. "O núcleo está completamente exposto, mas se aproximar diretamente é suicídio. Aquele feixe neutraliza qualquer alvo instantaneamente, e os membros dele cortam campos A.T. com facilidade."

"Não ajudou, Ritsuko!" rosnou Misato, deixando a frustração vazar.

O núcleo de Zeruel brilhou. Outro feixe escaldante prestes a disparar—uma rajada de destruição mirando direto na Unidade-04.

O coração de Kai martelava nos ouvidos.

Isso é loucura.

Ele forçou a Unidade-04 a correr—direto contra o feixe.

"Kai, o que você tá—?!" A voz de Misato soou em alarme.

Ele não respondeu.

Hora da minha jogada.

"Desconectando cabo umbilical!"

Um estalo. Um chiado. O cronômetro começou—5:00.

"Ah não..." murmurou Misato. "Ele tá fazendo isso de novo..."

O raio de Zeruel atravessou o campo como uma lâmina solar.

Mas a Unidade-04 já estava no ar.

No último segundo, Kai ativou os propulsores.

A Unidade-04 decolou.

O feixe passou logo abaixo, obliterando o solo com uma explosão em forma de cruz tão poderosa que lançou destroços como folhas ao vento.

Kai estava no ar. Fumaça. Vento. Luz. Bem acima do Anjo.

"TOMA ESSA, DESGRAÇADO!"

A Unidade-04 caiu com tudo—calcanhar primeiro—atingindo a máscara óssea de Zeruel com toda a força que Kai pôde colocar.

O impacto rachou algo. A cabeça do Anjo jogou-se para trás, o equilíbrio vacilou pela primeira vez.

Ele rugiu.

"SEU IDIOTA IMPRUDENTE—!" gritou Asuka, ofegante. "MAS EU NÃO VOU TE DEIXAR COM TODA A DIVERSÃO!"

Kai a viu surgir da fumaça, a Unidade-02 mancando, mas ainda veloz. Ela avançou, ignorando o dano. Usou o braço ferido como apoio, concentrando toda a força na faca progressiva da outra mão.

Ela mergulhou, cravando a lâmina no flanco de Zeruel.

Uma chuva de faíscas. A armadura cedeu—quase. A lâmina afundou, abrindo uma fenda irregular, mas não o bastante para atingir o núcleo.

Zeruel gritou.

Não com som. Com pressão.

Todo o campo de batalha vibrou. O ar tremeu. Escombros ruíram atrás deles.

Kai pousou com força, os joelhos cedendo levemente enquanto a Unidade-04 derrapava para trás.

A energia de Zeruel voltou a crescer. O corpo dele faiscou. Ambos os braços se ergueram—e resetaram.

"Ainda não acabou," murmurou Kai, olhos arregalados. "Ele tá só começando."

Do cockpit, Asuka soltou um suspiro rápido.

"Tsc... A diversão nunca acaba, né?"

Kai deu uma risada seca.

O HUD piscou—o vídeo dela mostrava o rosto ofegante, claramente em dor.

Mas os olhos estavam firmes. Vivos.

"Você tá bem?" perguntou ele.

"Cala a boca e foca, Selvinha!" ela retrucou. "Esse monstro ainda tá de pé—e a gente também!"

Acima deles, Zeruel se retorcia em fúria. Os braços realinhados, pulsando com energia letal.

Sem tempo para planos. Sem tempo para respirar.

Kai firmou as mãos no controle.

Eles tinham ferido a criatura.

Mas essa luta estava longe do fim.

E se alguém podia encerrá-la—eram eles.

Capítulo 164: Linhas Quebradas / O Ponto de Colapso

Zeruel não estava mais cambaleando.

Sua máscara rachada, fraturada pelo chute anterior de Kai, ainda fumegava. Mas aquele rosto esquelético e vazio se voltou para ele com uma velocidade antinatural, as cavidades oculares queimando com uma calma sinistra.

Então—

O Anjo se moveu. O ar ao redor vibrava com um zumbido grave e contínuo que subiu pela espinha de Kai. Os sensores do seu Eva dispararam, alarmes vermelhos piscando. O poder de Zeruel estava aumentando.

"Merda... lá vem ele de novo," murmurou.

SWOOSH!

Os dois braços de Zeruel explodiram para os lados, um em direção a ele, o outro a Asuka. Um borrão de morte laminada.

A mente de Kai gritou alertas antes que sua boca pudesse acompanhá-los.

Campos A.T. são inúteis. Esquiva é a única opção.

A Unidade-04 recuou com os propulsores rugindo. Mas não foi o bastante. A lâmina de Zeruel atravessou seu lado direito, rasgando a armadura sem esforço.

A dor foi imediata. Não real—não de verdade—mas tão intensa que acendeu cada nervo como fogo.

"AAAHHH!"

⚠ AVISO: INTEGRIDADE DO BRAÇO DIREITO COMPROMETIDA ⚠

Ele arfou, a visão tremeluzindo com estática. Era como se algo tivesse rasgado seus próprios ossos, o corpo ecoando os danos do Eva.

Mas ainda estava vivo. Ainda consciente.

Torceu a Unidade-04 de volta—e viu a Unidade-02.

"Asuka—!"

Ela lançou seu Eva para o lado, escapando por um triz de um golpe direto.

"VOCÊ NÃO VAI ENCONSTAR EM MIM DE NOVO, SEU DESGRAÇADO!"

A lâmina cortou a lateral da Unidade-02, pulverizando fluido hidráulico, mas ela se manteve de pé.

Kai sentiu o peso crescer. Estavam perdendo terreno. Perdendo tempo. Perdendo força.

"A gente não pode ficar só na defesa!" ela esbravejou. "Precisamos de uma abertura de verdade!"

Kai cerrou os dentes. O braço direito da Unidade-04 estava pendendo, inútil, atrapalhando. Ele segurou a faca progressiva com a mão esquerda e cortou o resto.

O braço caiu com um estrondo.

⚠ BRAÇO DIREITO INOPERANTE ⚠

"Merda... isso doeu."

Forçou a respiração.

"Asuka... precisamos atacar juntos de novo."

Um segundo de silêncio.

"Tá," ela rosnou. "Vamos juntos."

Kai assentiu, os dentes trincados.

"Mesma tática. Eu venho de cima. Ele fica vulnerável logo depois do disparo—os braços não interceptam a tempo."

A resposta veio feroz e imediata. "Ótimo. É a nossa única chance."

Zeruel começou a se mover.

Recolhendo-se. Os membros retraídos, a energia se condensando.

Estava se preparando para atirar de novo.

Kai olhou para o cronômetro—00:59.

"Merda! Não posso usar os propulsores de novo! Sem eles, não escapo do disparo!"

Asuka não hesitou.

"Vamos trocar! Eu forço o tiro pra mim, e você flanqueia! Quem precisa de jatinhos nos pés?!"

A cabeça de Kai virou pro monitor. "Asuka—espera—!"

Mas ela já tinha ido. A Unidade-02 corria pelo campo de batalha, desviando entre escombros e destroços. Chegou perto o bastante pra atrair a atenção do Anjo—mas longe o bastante pra escapar dos braços.

Zeruel virou. Travou nela.

Então—

O disparo veio.

Um feixe incinerante de pura destruição.

Eva-02 saltou. Não tão alto, não tão rápido—mas o suficiente. Ela voou por cima, aterrissando com um chute brutal na face do Anjo, rachando ainda mais a máscara.

Kai não perdeu a chance. Seus dedos se apertaram no punho da faca, cada centímetro do ombro esquerdo gritando enquanto ele cravava a lâmina no núcleo do Anjo.

CLANG!

A lâmina penetrou na rachadura. Faíscas explodiram.

Mas não foi fundo o bastante.

Não o suficiente pra matar.

Não com um braço só.

Kai rangeu os dentes e forçou. Mas o ombro esquerdo ardia, tremendo sob o esforço.

Só mais um pouco. Vai... VAI!

WHAM!

O braço de Zeruel se moveu de novo.

O golpe atingiu a Unidade-04 em cheio no peito, lançando-o como um projétil. Ele atravessou uma colina próxima.

⚠ SISTEMAS COMPROMETIDOS ⚠

⚠ MOBILIDADE: REDUZIDA ⚠

Tudo girou. Faíscas iluminaram o plug em flashes. A visão embaralhou. Depois duplicou. Triplicou.

"KAI!" A voz de Asuka perfurou a estática.

Ele tentou se mover. Os controles gemeram. A Unidade-04 estava caída, pernas torcidas, sistemas lentos para responder.

Pela névoa, viu Zeruel virar.

Em direção a Asuka.

Ela estava exposta.

"Não... não não—!"

Zeruel atacou.

Ambos os braços avançaram para ela—rápidos, cegantes.

Ela reagiu, alerta, feroz—o bastante pra entortar o corpo da Eva-02 num desvio dramático que escapou de uma das lâminas. Mas não das duas.

Impacto.

O peito da Unidade-02 explodiu em metal e fluido vermelho. O som da armadura se rompendo ecoou como um grito. O próprio grito de Asuka veio um segundo depois, visceral e cru.

"AAAHHH!!!"

A voz de Misato explodiu no comunicador.

"ASUKA! NÃO!"

A Unidade-02 foi arremessada como um boneco, atravessando árvores, rolando pelo solo até parar.

A respiração de Kai travou.

O mundo congelou.

Ele não conseguia se mover.

Mal conseguia pensar.

Mas podia sentir.

O Eva de Asuka se mexeu.

Ela tentou se levantar.

Mas Zeruel já se movia.

Se aproximando dela.

Pronto pra matar.

Capítulo 165: Proximidade / A Voz Interior

Algo se partiu dentro de Kai.

Não em seu corpo—mas mais fundo.

Kai não pensou. Recusou-se. Recusou-se a deixar tudo acabar assim. Recusou-se a deixar Asuka morrer.

Quando os braços de Zeruel começaram a se abrir para atacar a Unidade-02, ainda se contorcendo—ele se levantou.

Além das taxas de sincronização. Além da dor. Além do que qualquer humano deveria sentir. Ele alcançou.

E algo o alcançou de volta.

"Nossa—pico no Campo A.T.!" A voz de Maya cortou a ponte de comando, subindo com pânico. "A taxa de sincronização dele está... expandindo! Está—espera—isso não é normal, isso não é normal—"

"O QUE ESTÁ ACONTECENDO?" gritou Misato, de pé.

"É a Unidade-04—acabou de sobrecarregar os sensores—um pico massivo de energia!"

A tela distorceu. A energia disparou. Todos os indicadores paralisados no vermelho.

O Campo A.T. explodiu da Unidade-04 como uma onda sônica, distorcendo o ar em uma esfera de pressão viva e bruta. Ele deformou o mundo ao redor. O pavimento rachou e se ergueu. A própria terra recuou.

Ele estava se movendo.

Mais rápido do que antes. Mais rápido do que deveria ser possível.

Ele não sentia mais os danos. Não sentia a dor ardente no ombro ou o fogo corroendo suas costelas. Só havia uma coisa à sua frente:

Ela.

Ele se lançou contra a Unidade-02 com toda a força de um trem de carga, afastando-a do golpe mortal de Zeruel. O Eva vermelho tombou para longe, deslizando pelos campos destruídos—mas salvo.

O braço em forma de lâmina de Zeruel, destinado a Asuka, desceu.

Sobre ele.

O impacto foi como um meteoro. Mas não o cortou ao meio.

Porque seu Campo A.T. resistiu.

A pressão era insuportável. As juntas do Eva gritavam. As placas se dobravam. Os sistemas falhavam.

Mas resistia.

O braço de Zeruel forçava contra ele. Pressionava. Vibrava. Mas não conseguia atravessar completamente.

Os sistemas da Unidade-04 rugiam em protesto, metal rangendo contra si mesmo, articulações travando, armadura se rachando sob a pressão.

Dentro do plug, os olhos de Kai ardiam. Sua respiração era rasa. Mas ele ainda estava ali.

E dentro de sua mente, algo estava mudando.

O Eva não estava apenas sincronizando com ele. Estava puxando-o para dentro.

E ele sentiu. Aquela presença.

A voz. Mais próxima do que nunca.

"Você está perto," ela sussurrou. Não nos ouvidos. Nos ossos. No sangue. Na alma.

E então tudo desapareceu.


Sem cockpit. Sem cidade. Sem Eva.

Apenas—sombras.

Um mundo arruinado. Familiar de um jeito que fez seu estômago afundar. Um horizonte destruído. Cinzas no ar. Ecos de gritos que já tinham acontecido.

Aquela presença.

"Você ainda não está completo," a voz disse novamente. "Mas logo estará."

E ela o alcançou.

Kai sentiu sua respiração parar. Sentiu-se começar a cair.

Então—

A voz de Asuka. Crua. Afiada.

"KAI!!!"

A estática se rompeu.

O mundo voltou.

Ele estava no plug. De volta.

O peso de Zeruel pressionava contra ele de novo—mas ele estava resistindo. Segurando a linha.

Ele arfou. O LCL inundou seus pulmões como fogo. Tossiu, piscando com força. Os olhos buscaram o cronômetro.

0:13

De novo, não.

Ele girou a Unidade-04 para o lado, desequilibrando Zeruel por tempo suficiente para se libertar.

Então—

Correu.

Correu até o cabo umbilical.

O mundo girava ao seu redor—até que a voz dela cortou outra vez, cheia de dor e determinação.

"Você ainda tá aí, né?"

Ela tentava soar irritada. Clássica Asuka. Mas ele ouvia. A respiração trêmula por trás das palavras.

"Tô aqui! Quase fui... mas... você me trouxe de volta. De novo."

Uma pausa. Depois um suspiro.

"Tsc. Isso mesmo. Não ouse fazer isso de novo, Selvinha."

Ele encaixou o cabo na Unidade-04. A energia voltou. O cronômetro reiniciou.

5:00

Mal conseguia se manter de pé, cada músculo tremendo. Mas o simples fato de vê-la ali, ainda desafiando tudo, reacendeu um fogo dentro dele. Endireitou-se, como se fosse erguido pela pura força de vontade—mais firme agora, forjado na resolução.

"Nem pensar. A gente vai terminar isso."

Um esboço de sorriso surgiu em seus lábios.

Mas não durou.

Uma voz rompeu o comunicador. Fria. Medida. Sem emoção.

"Esses dois são inúteis. Lancem a Unidade-01 imediatamente."

A voz de Misato veio em seguida—urgente e confusa. "Comandante, o Shinji ainda não voltou. Ele nem sequer—"

"O piloto é irrelevante," Gendo a interrompeu. "A Unidade-01 irá ao campo de batalha. Preparem o Dummy Plug."

Ali estava. Frio. Calculado. Desumano.

Uma pausa. Depois a voz de Ritsuko, seca e clínica.

"...Entendido."

O canal mudou. Uma nova conexão se abriu.

"Autorização confirmada," disse Maya, em voz baixa. Quase anestesiada.

"Carregando o Sistema Dummy Plug. Preparando lançamento."

Capítulo 166: Não Como Nós / A Besta Que Chama

As palavras acertaram com mais força do que qualquer golpe de Zeruel.

O corpo de Kai se tensionou. Seus dedos cravaram nos controles da Unidade-04 até os nós dos dedos doerem.

Ele não precisava dizer—sabia que Asuka estava pensando o mesmo.

O Dummy Plug.

Claro que Gendo tentaria. Claro que mandaria uma cópia sem alma para o campo. O Eva de Shinji—sem o Shinji.

Mas não funcionaria. Não dessa vez.

O silêncio reinou.

Então—

"Erro detectado no sistema Dummy Plug!"

As palavras de Maya romperam os comunicadores como um trovão.

A respiração de Kai falhou. Ele quase podia sentir o sorriso de Asuka.

Misato foi a primeira a reagir. "O quê?!"

Ritsuko respondeu—mas havia algo em sua voz que Kai nunca ouvira antes. Não pânico. Medo.

"Comandante," disse ela com rigidez, "o sistema não está respondendo. A Unidade-01 está rejeitando o Dummy Plug."

Silêncio de Gendo. Imobilidade.

"Entendido."

O canal ficou em silêncio.

Mas Ritsuko não se mexeu. Ela encarava sua tela. Os dedos pairavam. Congelados.

Então algo mudou. Seu rosto—rachou.

"Não... não não não—isso não é só rejeição," sussurrou. "Isso não é uma falha—algo está interferindo no sistema—"

Ela se levantou de um salto.

"Maya! Saia da minha frente!"

"O quê—Doutora?!"

"Sabotagem—há um gatilho—está ativando um colapso em cadeia! O sistema—ele foi programado para se autodestruir!"

Sua voz subiu mais do que qualquer um jamais ouvira.

"Preciso parar isso—agora!"

Ela se virou e correu, disparando para fora da sala de comando enquanto sirenes soavam na grade do Dummy Plug. Maya ficou paralisada, observando-a.

"Violação de segurança na sub-rotina... erros em cascata... Comandante, ela está certa! Está colapsando!"

O vírus de Kaji tinha funcionado.

Kai não teve tempo para pensar. Encarou Asuka através do monitor. Mesmo com interferência estática, o olhar entre eles dizia tudo—alívio, orgulho... e certeza sombria.

Mas só por um segundo.

Porque Zeruel gritou. Não de dor. De ódio.

O Anjo avançou novamente—lâminas abertas, uivando em direção a Kai.

Mais rápido que antes.

Kai ergueu o braço da Unidade-04 e o lançou à frente—desviando o golpe com um bloqueio parcial que sacudiu seu cockpit.

Contra-atacou com um soco desesperado—depois outro. Cada golpe conectou. Mas, com apenas um braço, ele não era forte o suficiente.

Cada golpe não fazia nada.

Zeruel era massivo demais. Seu ímpeto não diminuía.

Kai recuou derrapando. Faíscas voaram. A armadura se rasgando.

Do outro lado do campo, a Unidade-02 ainda lutava para se levantar.

Asuka cerrava os dentes, rosnando de dor, forçando as pernas de seu Eva a responder.

"Anda, droga—ANDA!"

A estrutura danificada cedeu, tombou, e se ergueu novamente.

"Não acabei," ela rosnou. "Eu ainda não acabei!"

Kai mal conseguia ficar de pé quando viu Zeruel preparando o próximo golpe.

"Talvez seja o fim—"

O ar tremeu. Não por Zeruel. Por trás.

Uma onda de choque rasgou o céu. E uma voz, pequena mas firme, cortou a estática.

"Tô aqui!"

O coração de Kai deu um salto. Aquela voz…

Shinji.

A Unidade-01 caiu no campo de batalha como um martelo divino—roxo e verde atravessando fogo e poeira. Aterrissou entre Kai e Zeruel com força titânica.

"Isso aí, Shinji!!!" Kai gritou. "E que se dane aquele Dummy Plug!"

Asuka meio riu, meio chorou. "Já era hora, Shinji-idiota!"

Zeruel hesitou. Só por um segundo.

A Unidade-01 se ergueu do agachamento. Cada movimento mais preciso. Afiado. Controlado.

A voz de Shinji cortou os comunicadores. "Não vou deixar esse monstro vencer."

Sem medo. Sem hesitação.

"Shinji! Seu Eva está totalmente operacional—dê cobertura para Kai e Asuka agora!" A voz de Misato explodiu nos comunicadores.

Zeruel gritou. E então atacou.

Ambos os braços—um em direção a Kai, outro a Shinji.

A Unidade-04 cambaleou para trás, desviando por pouco. Faíscas explodiram onde a fita de Zeruel roçou sua lateral—mais um ferimento para a coleção. A respiração de Kai falhou. Sua visão embaçou. Cada movimento gritava em protesto.

Mas a Unidade-01—em plena capacidade, intacta—deslizou sob o ataque com graça sobrenatural. Shinji não hesitou. Moveu-se como se o Eva fosse extensão de sua vontade. Um estrondo ecoou pelo campo quando a Unidade-01 encurtou a distância e desferiu um soco no crânio de Zeruel. O Anjo recuou, pego de surpresa pela precisão e fúria do golpe. Outro soco seguiu—depois outro. Shinji não lutava mais como um garoto.

Kai rangeu os dentes, forçando a Unidade-04 a se estabilizar. A dor não significava nada. Não agora.

Sua voz saiu baixa. "Asuka... você consegue se mover?"

"Tch! É claro que consigo!" A voz dela rachou, a dor evidente—mas ela estava de pé. "Não vou deixar vocês dois acabarem com isso sem mim!"

A voz de Shinji se somou, calma e firme. "Vamos fazer isso juntos. Todos nós."

Zeruel estremeceu—preparando-se.

Kai sorriu de lado. "Somos três. Ele só tem dois braços."

Asuka bufou. "Olha só você fazendo conta sob pressão."

"Vamos acabar com isso," disse Shinji.

"AGORA!" gritou Misato.

Eles avançaram.

O braço esquerdo de Zeruel se lançou contra Kai—ele se abaixou e escorregou por baixo, desviando o foco.

A fita direita foi em direção a Asuka—ela desviou à esquerda, a lâmina roçando sua armadura sem impedir sua investida.

E Shinji—

Ele não esperou. Estava quase irreconhecível.

Da ponte de comando, a voz de Maya subiu em alarme. "A taxa de sincronização do Shinji está disparando—ele está ultrapassando os níveis seguros!"

A Unidade-01 avançou como um míssil.

A faca progressiva afundou fundo no núcleo de Zeruel antes que o Anjo pudesse disparar.

Acerto direto.

O Anjo gritou. Seu corpo se contorceu, braços girando em espirais de energia em colapso. Estava morrendo.

Mas ainda não tinha acabado.

A cabeça da Unidade-01 se ergueu. Os olhos brilharam.

Um som emergiu. Não um grito. Não uma máquina.

Um rosnado. Alto. Bestial.

RRAUUUUUGGHHHH!

A voz de Maya gaguejou pelo canal. "S-Sinais vitais... P-Perdendo o sinal do piloto! Taxa de sincronização além do crítico—fora da escala!"

A mandíbula da Unidade-01 se abriu. Shinji gritou.

E o Eva—avançou e cravou os dentes no núcleo do Anjo.

Não foi um golpe limpo. Foi selvagem.

A armadura semelhante a carne se rompeu. Tecidos biomecânicos se rasgaram em pedaços úmidos e fibrosos. Um estalo grotesco ecoou pelo Geofront enquanto presas—de metal e músculo—rasgavam mais fundo no núcleo pulsante de Zeruel.

O Anjo gritou, não de fúria—mas de terror.

Ele não explodiu. Estava sendo devorado.

Kai congelou. Seus dedos se contraíram nos controles, mas ele não conseguia se mover.

Asuka cambaleou um passo para trás. A respiração falhou, olhos arregalados, armadura chamuscada—ainda assim, ela olhava como se visse algo além da compreensão.

A Unidade-01 dilacerava o núcleo como uma fera faminta. O metal gritava. A energia etérea se arqueava, torcia e finalmente se partia sob a pressão.

Silêncio.

Zeruel ficou inerte. Seus membros caíram como raízes cortadas.

O que restava era a Unidade-01. Ainda agachada. Ainda mastigando.

A voz de Kai mal saiu da garganta. "Shinji...?"

A tela piscou.

Sem sinais vitais.

"Shinji? SHINJI, RESPONDA!" A voz de Misato se partia. "SHINJI!"

Nenhuma resposta.

A Unidade-01 se ergueu.

Não como um soldado. Não como uma máquina.

Como um monstro.

Sua espinha se retorceu. Vapor assobiou de suas costas. A armadura se partiu nas juntas, revelando trechos de músculo—trêmulo, respirando.

Kai sussurrou, "Misato... o que está acontecendo?"

"E-Eu não sei," ela respondeu, com a voz rouca e vazia.

A Unidade-01 rugiu. Um som que dobrou o céu.

O núcleo de Zeruel ainda preso aos dentes, fundido à mandíbula. Os olhos brilhavam—não com luz, mas com fome.

A voz de Ritsuko escorregou pela estática—baixa, fantasmagórica.

"Começou..."

Asuka encarava à frente, sem fôlego.

"...O que diabos ele tá fazendo...?"

A Unidade-01 parou. Lentamente, virou a cabeça. Os olhos brilhantes se fixaram em Kai com uma precisão aterradora. Brilhantes. Focados. Predatórios.

E pela primeira vez em sua vida—Kai se sentiu uma presa.

Sentiu isso no instante em que o olhar pousou sobre ele. Não apenas como piloto. Como pessoa.

Uma pressão. Um peso.

Um frio percorreu sua espinha como dedos antigos arrastando-se por sua pele.

Deu um passo para trás, a voz mal escapando.

"Por que... por que ele tá me olhando assim?"

A Unidade-01 não se moveu. Mas sua presença engoliu tudo.

A sensação se aprofundou. Não estava apenas olhando para ele. Estava olhando dentro dele. Através dele.

Sua respiração falhou. Sua pele se arrepiou com um tipo de medo que não tinha nome.

A voz de Misato explodiu pelos comunicadores.

"KAI! RECUA—AGORA!"

Tarde demais.

A Unidade-01 se moveu. Não como um soldado. Como uma besta.

Ela avançou, juntas flexionando com velocidade antinatural, garras arranhando o chão enquanto investia direto contra ele.

Kai congelou. O choque o congelou.

"O—o quê—?!"

A Unidade-04 hesitou. Um segundo a mais.

E isso foi tudo o que bastou.

A Unidade-01 saltou.

A força do impacto lançou a Unidade-04 para trás, colidindo com os restos despedaçados de uma floresta em ruínas. A cabeça de Kai bateu no encosto. Os sistemas piscaram.

Ele teve um último vislumbre—a Unidade-01 avançando. Mandíbula aberta. Olhos em chamas.

Então—

Escuridão.

Capítulo 167: Luz Residual / No Lugar do Controle

Estática.

Ausência de peso.

Por muito tempo, não houve nada. Nenhuma dor. Nenhum pensamento. Nenhum som.

Só silêncio.

Mas então—um lampejo. Um batimento. Um monitor. Apitando, constante.

Kai abriu os olhos.

O teto acima dele era branco estéril, suavizado por luzes fluorescentes. Seu corpo parecia pesado, como se estivesse debaixo d'água há dias. Mas—estava vivo. Ainda preso a este mundo.

Seu braço direito se moveu quando ele quis. Isso, mais do que tudo, trouxe uma onda inesperada de emoção ao peito. Ele se lembrava da sensação de não tê-lo. Lembrava da dor.

Estava inteiro.

"Onde eu tô...?" sussurrou. "O que aconteceu...?"

Ninguém respondeu.

Pelo menos não de imediato.

Ele se sentou devagar, piscando diante da luz difusa. Paredes brancas. Uma cama dura. O frio inconfundível da ala médica da NERV.

Um clique.

A porta se abriu.

Uma sombra atravessou a luz.

Cabelos ruivos surgiram.

E naquele instante, tudo apertou em seu peito.

"Asuka..."

Ela parou na entrada, braços cruzados, confiante como sempre. Não se mexeu. Não falou.

Então—a voz dela, baixa, contida, mas inconfundivelmente dela:

"Tsc. Já era hora de acordar."

Kai soltou uma risada. Era áspera, rouca e meio dolorida—mas era real.

"Uau... nem me chamou de idiota."

Asuka revirou os olhos, mas sua postura mudou, ainda que sutilmente. Havia algo no olhar dela agora—nem frio, nem provocativo. Apenas... diferente.

"Bom, você tava um caco," murmurou. "Achei melhor te dar um desconto."

Mas os olhos dela vasculhavam ele de novo—checando, confirmando. Ele via isso no jeito que os dedos dela se contraíam na manga, no modo como o maxilar apertava mais do que as palavras deixavam transparecer.

"Você desmaiou no maldito plug de entrada," acrescentou, a voz mais áspera agora. "Deixou todo mundo em pânico, sabia."

Uma pausa.

O olhar dela caiu, a voz mais suave. "Me deixou em pânico."

Kai a encarou, o coração batendo firme sob o som do monitor. Não desviou o olhar. Não agora.

"Desculpa por isso," disse.

"Você me deve por isso, sabia. Tive que ficar sentada aqui por horas esperando seu traseiro inútil acordar."

Kai inclinou a cabeça. "...Você esperou?"

Asuka deu de ombros. "A Misato e o Shinji já estão vindo," disse rápido demais. "Eu só... queria ver você primeiro."

Um momento se passou.

"...Não que signifique alguma coisa! Eu só—ugh, tanto faz!"

Com um gemido, ela se jogou na cadeira ao lado da cama como se não tivesse ensaiado essa frase mil vezes na cabeça.

"Selvinha idiota."

Kai olhou para a porta, depois lentamente de volta pra ela. Ninguém mais tinha chegado. E ela estava ali. Mais uma vez.

"T-Tch! Nem vem ficar esquisito comigo, Selvinha!" ela rebateu, jogando os braços atrás da cabeça como se nada tivesse acontecido.

A porta se abriu.

Shinji entrou, olhos arregalados de alívio.

"Kai! Você acordou!"

Misato veio logo atrás, exausta mas sorrindo. "Graças a Deus... Como está se sentindo?"

Asuka cruzou os braços e desviou o olhar, toda cheia de confiança.

Mas Kai viu. O brilho nos olhos dela, aquele instante em que quase olhou de volta pra ele—como se quisesse ter tido mais tempo. Só os dois.

Ainda doía—suas costelas protestavam, e o adesivo do soro puxava sua pele—mas nada disso importava. Não com Shinji ali, tentando esconder o sorriso enquanto balbuciava do jeito de sempre.

"Shinji, meu parceiro!" Kai sorriu, abrindo os braços dramaticamente. "Você fez uma entrada triunfal, hein? Vai, pode sorrir. Eu sei que quer. Aquilo foi insano! E logo depois de vermos a cara do Gendo com o fiasco do Dummy Plug? Aquilo foi humilhante pra ele."

Shinji piscou, claramente pego de surpresa. Mas então—devagar, quase envergonhado—os lábios se curvaram. Pouco. Mas estava lá.

"...É. Acho que foi uma entrada e tanto." A voz era baixa, quase tímida. Mas havia orgulho por baixo. De verdade. Daquele que não se precisa dizer pra perceber.

Misato se aproximou, braços cruzados. "Vocês três salvaram toda a instalação. Estávamos a um segundo de perder tudo."

Ela se sentou ao lado de Kai, voz firme e suave.

"Mas Kai... você se lembra do que aconteceu? No final?"

A expressão dele mudou. Recostou-se, o peso voltando.

"...Lembro. Zeruel foi destruído. Mas aí... a Unidade-01..."

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Parou ali.

Misato assentiu devagar. "Quando o Shinji forçou demais a sincronização... perdeu o controle. A Unidade-01 enlouqueceu."

O tom era calmo. Mas as palavras, não. "Ritsuko diz que ela incorporou o dispositivo S2 do Anjo. Devorando-o."

O quarto silenciou.

Asuka desviou o olhar. O maxilar de Shinji se contraiu.

Kai arregalou os olhos. "...Ele comeu o Anjo?"

Misato confirmou com um gesto grave. "E depois... virou-se contra você."

Kai engoliu em seco. "Lembro. Aquele olhar. Como se estivesse olhando dentro de mim."

Misato hesitou.

"Ritsuko acha que... ele sentiu algo. Na Unidade-04. Mas bem quando saltou sobre você, antes de atacar, o Shinji voltou. Recuperou o controle."

Kai piscou e olhou para Shinji.

"...Então você impediu?"

Shinji assentiu. "Por pouco."

Kai soltou uma risada trêmula.

"Bom... valeu. Por não me comer."

Shinji corou. "E-Eu não queria—!"

Então Kai se inclinou pra frente, a voz carregada de orgulho.

"Pelo menos tivemos a chance de controlar as coisas, né? Depois do fracasso humilhante do Dummy Plug? Mostramos que só pilotos humanos fazem isso funcionar, certo?"

Misato inclinou a cabeça lentamente.

"Ahhh, isso com certeza foi algo, hein?"

Os olhos dela saltaram de Kai para Asuka.

O sorriso era leve. Mas o olhar, não.

Asuka se recostou, braços cruzados, o olhar perdido em algum ponto aleatório da mesa.

"Tsc. Mistério total, né?"

Misato se inclinou mais, cotovelos apoiados na superfície da mesa.

"Ritsuko disse algo curioso quando voltou. Que o sistema Dummy Plug não foi apenas desativado—foi destruído. E aí disse algo estranho..."

Kai franziu a testa.

"Ela disse ‘Foram todas dissolvidas’. Não faz sentido, mas o Gendo pareceu entender. Saiu furioso."

As palavras pairaram no ar como fumaça.

Shinji se remexeu desconfortável na cadeira. "E agora?"

O sorriso de Misato voltou, largo e travesso.

"Por enquanto, aproveitamos a vitória. Zeruel foi derrotado, ainda estamos de pé, e provamos que os pilotos humanos são o único caminho."

Ela se levantou, espreguiçando-se com um gemido de satisfação. A voz era leve. Mas os olhos, não.

Kai olhou para Asuka. Ela sustentou o olhar por um momento. Depois desviou, sutilmente.

Ele voltou o olhar para Misato. "Só fico feliz que aquilo explodiu na cara dele."

Asuka sorriu devagar. "É. Eu também."

Misato ficou em pé de vez, mãos nos quadris.

"Pronto! Já chega de horror existencial e conspiração por hoje."

Ela sorriu largo, o olhar suavizado ao encarar todos ao redor.

Então, lançou um olhar para o relógio.

"Vamos, Kai. Vamos tirar você daqui. Te deixo em casa no caminho."

Ela se virou para Asuka. "Ah—e você. Hoje é o dia em que você se mudou oficialmente pra minha casa. Suas coisas já estão lá. Empolgante, né?"

Asuka bufou. "Tsc. Não finge que eu tive escolha."


Quando Misato parou o carro diante do prédio de Kai, o motor ainda ligado no meio-fio, ele se virou—um último olhar antes de sair.

"Então... até a próxima."

Acenou. Mas os olhos estavam só em Asuka.

Ela sustentou o olhar. Só por um segundo.

Depois, como um reflexo, desviou. Fingiu ajeitar a manga. Como se não significasse nada. Como se não tivesse passado as últimas noites dormindo ao lado dele.

Misato deu um sorrisinho, piscando pra ele. "Até mais, Kai."

Shinji acenou de leve, expressão serena, mas difícil de ler.

E Asuka—resmungou algo só alto o bastante para ele ouvir.

"É, é. Até mais... Selvinha."

O carro se afastou.

E ele ficou ali, parado na calçada, uma estranha quietude se alojando no peito. Não era exatamente tristeza. Mas também não era contentamento.

Só... uma pausa.


Mais tarde naquela noite, depois de um banho quente e do primeiro momento real de silêncio em todo o dia, ele finalmente se enfiou sob os lençóis.

Exausto.

Tinha sido a luta mais difícil que já enfrentara. Mas, de algum modo, tudo tinha se encaixado.

Shinji estava bem. Mais forte. Mas ainda quieto.

Asuka estava... Bem, Asuka. Mas também estava diferente. Mais próxima. Mais suave, mesmo sendo áspera.

O plano de sabotar o Dummy Plug tinha funcionado. Seja lá o que significava o que Ritsuko disse, tinha valido a pena.

Ele pegou o celular e ficou encarando a tela por um momento.

Então, sem pensar demais, digitou:

"Boa noite, Asuka. Vai ser estranho não estar com você."

Enviar.

A tela escureceu.

Um minuto se passou.

Então—vibração.

Asuka: "Não fica meloso, Selvinha."

Outra notificação.

"...Mas é. Talvez. Um pouco."

E mais uma:

"Boa noite, idiota."

Ele sorriu, sem conseguir evitar.

A voz dela soou em sua cabeça, sarcástica e orgulhosa, envolta em algo mais gentil do que qualquer um dos dois jamais ousaria dizer em voz alta.

Ele encarou a mensagem. Depois, com o polegar, digitou um único emoji.

"😘"

Enviar.

A pausa foi mais longa dessa vez.

Então—vibração.

"PARA DE MANDAR COISA ESTRANHA, SELVINHA."

Mais um instante.

Depois:

"...Mas falando sério, boa noite. Não faz besteira se eu não estiver junto."

O sorriso voltou aos lábios dele, lento e sincero.

A cidade lá fora pulsava suavemente com luz.

E no silêncio que se seguiu, ele adormeceu com uma certeza estranhamente boa no peito.

Ela realmente parecia se importar.

E isso tornava tudo assustadoramente real.