Eva
10 Cap.9
Notas iniciais
–Anna fala
Estou acorrentada pela cintura, tornozelos e pulsos, todos de ferro e aço reforçados e ligados a uma parede de pedra fria e cinzenta.Mesmo tendo uma força sobre-humana, os humanos espertos conseguiram preparar um ambiente especialmente feito para minha força. O problema é que certamente eu não queria estar aqui. Fui informada de que minha criadora estava do outro lado da minha cela,também presa, e isso me frustrou, pois a minha vontade era matá-la com minhas próprias mãos. Porque essa desgraçada me criou e fez da minha vida um verdadeiro inferno !? Porque tirou tudo o que eu tinha para apenas tirar vantagem de mim ? Sinto-me muito nervosa e descontrolada, com uma vontade colossal de quebrar e matar todos os que atravessarem o meu caminho, mas não posso. Estas correntes diferenciais, esta cela totalmente diferente das outras nesta masmorra, foram projetadas especialmente para mim. Até porque não sou humana, mas eu já fui... a muito tempo atrás. O carcereiro esteve aqui agora pouco para me trazer comida e perguntou (duvido que seja por pena) se eu por um acaso gostaria de solicitar um último desejo, uma vez que o dia da execução se aproximava.Como eu não tinha parentes para me visitar, uma vez que não tinha família que chorasse por mim e sinceramente Lucinda não é a minha família ,mas sim o verdadeiro monstro, resolvi pedir uma pena e uns papéis para correspondência, para que eu simplesmente escrevesse o pouco que me sobrou das minhas memórias. Dessa forma eu não poderia enlouquecer como os outros presos e ter um pouco de distração para não passar o resto de meus míseros dias apenas pensando na morte. Já chorei alto, ao ponto de soluçar , pois não quero morrer, mas não há o que fazer. Devo enfrentar o carrasco em uma semana e duvido que ele não vá expor em praça pública minha cabeça pregada em algum lugar. A única coisa que me conforta é que Lucinda também morrerá. Essa desgraçada ...Ainda hoje lembro-me como meu inferno de vida começou...
Acordei com água invadindo meus pulmões e estranhos fios de cobre em meus braços, pernas e pescoço, ligados a um estranho equipamento. Eu me encontrava com dificuldades em respirar uma vez que eu estava totalmente submersa em uma estranha caixa de vidro e água entrava em minhas narinas. Levantei-me no mesmo instante ainda zonza , sem saber aonde estava, quando vi uma jovem diante de mim com aspecto cansado mas maravilhado.Seus cabelos negros como um corvo estavam presos em um coque desfeito, com mechas caindo pelo rosto e sua pele era tão alva quanto a neve.E era bonita, apesar de seu estado. Não fazia ideia de quem seria essa dama e também não fazia ideia de o porquê eu não ter nenhuma lembrança. Como eu viera parar lá ? Porque eu não conseguia me lembrar do meu nome, quem era a minha família, quem eram os meus pais ou ao menos quantos anos eu tinha ? Era tudo tão confuso ! A estranha me fez perguntas e eu tentei respondê-las com cuidado , pois não sabia quem era ela . Não sabia se era ela a minha mãe e estranhei muito quando a mesma jovem me disse que eu poderia chamá-la de ''minha criadora'' ou Lucinda, que era seu nome. Minha criadora ? O que ela queria dizer com isso ?
Enquanto ela me ajudava a sair daquele lugar escuro e com cheiro desagradável , que provavelmente deveria ter vindo da fumaça que ainda exalava a estranha máquina e do cheiro estranho que a água que me molhava emitia , vi encostado ao fundo, ao lado de um espelho sujo, um estranho objeto encurvado de duas pontas e cabo comprido , com respingos em diagonal de coloração marrom escura. Aquilo me pareceu estranhamente familiar mas como eu não conseguia me lembrar de absolutamente nada e estava com fome, deixei aquela visão passar.
Fui levada a um outro recinto bem maior, onde uma jovem de cabelos claros como os meus e que bebia alguma coisa em um pequeno recipiente me olhou com ar curioso. Não sabia o que dizer quando esta perguntou meu nome , mas minha criadora (se é que poderia chamar assim) acabou dizendo que meu nome era Anna e depois, quando meus cabelos estavam sendo penteados no andar de cima, disse que no dia seguinte iria me ensinar a etiqueta necessária. A seguir, me ofereceu um pequeno recipiente contendo o que meu instinto me indicou que seria comida e enquanto comia aquele pequeno alimento macio, dei-me conta de que não lembrava nem ao menos como comer, o que me levou a colocar os alimentos à boca de qualquer maneira. Deus , o que acontecera comigo ? Eu me comportava e raciocinava como um animal ! Senti vontade de chorar naquela mesma hora, pois em minha convicção eu era (ou me tornara) um ser inútil. Comecei a me sentir cansada e a jovem Lucinda me pediu para ir dormir.Como sentia-me fraca e abatida pelo sentimento de tristeza, a obedeci. Enquanto dormia comecei a ter sonhos estranhos onde havia eu como uma jovem aparentemente normal e pessoas à minha voltam que possuíam seus rostos embaçados, mas suas palavras eram de amor e me envolviam em abraços , o que tudo indicava então de que aquelas pessoas que eu não reconhecia faziam parte da minha família, provavelmente. No sonho eu também chorava,encostada em uma árvore e eu não conseguia me lembrar o porquê daquelas lágrimas.De repente algo naquele sonho aconteceu ... lembro-me que diante de mim havia um lago cuja água era cristalina ... uma mulher morena se aproximava, e eu a vi pelo seu reflexo, com um objeto estranho nas mãos ... aparentemente tentando não ser notada ... com seus lábios comprimidos ... seu olhar fixo em mim ... e quando eu me preparava para me virar e ver quem era ela , acordei assustada . Gotas de suor escorriam pela minha testa e pescoço e levantei-me da cama. A jovem na cama ao meu lado ( cujo nome consegui me lembrar, Lucinda) dormia tranquilamente e me levantei da cama , numa tentativa de tentar me acalmar em silêncio e tentar interpretar aquele sonho estranho.Acima do mesmo fogo que me secara , que era envolvido por alguma construção dura ( que só futuramente vim a descobrir que aquilo se chamava ''lareira''), deparei-me com um pequeno objeto de capa negra mas não tão lisa e quando o abri para decifrar aquelas estranhos códigos, consegui lê-los com dificuldade. O ato de ler era algo novo para mim e eu não conseguia entender como eu conseguia fazer aquilo, pois não me lembrava em ter aprendido a fazer tal coisa mas tive um grande choque. Aquele pequeno objeto era um caderno cujo aquele que escreveu certamente não se chamava Lucinda e enquanto eu o folheava e passava os olhos rapidamente naquelas mensagens, descobri que tudo aquilo na verdade era uma espécie de guia de como criar ... alguém . E esse alguém era eu ! De repente, tudo fez sentindo e um grande ''insight''** se passou pela minha mente : o que eu sonhei não era na verdade um sonho mas sim lembranças ! As últimas lembranças dos meus últimos segundos de vida antes de ter sido assassinada por ... por Lucinda . O objeto que eu vira quando fui levada para longe do local malcheiroso que eu saíra era o mesmo objeto pontudo e afiado que eu vira no sonho. Aquilo era a arma usada para me matar e certamente as manchas marrons respingadas no mesmo era o meu sangue que deveria ter secado. Até hoje não me lembro o porque de estar chorando mas agora eu sabia perfeitamente que Lucinda me assassinara . Eu passei a juntar todas as peças daquele enigma e uma coisa se ligava a outra : Lucinda me assassinara e aparentemente eu deveria estar morta. Aquelas palavras ensinavam como criar um ser humano à partir de corpos de cadáveres ... então o termo ''criadora'' passou a fazer sentido agora. Eu já não era mais uma humana mas sim um ser morto ! Uma aberração ! Como aquela mulher era hipócrita e sínica, me tratando de forma natural como se não tivesse feito nada ! Meu pavor em ler aquilo rapidamente se transformou em ódio e arremessei com toda força aquele pequeno objeto com palavras para longe ao mesmo tempo em que agarrei o objeto com o qual ela me penteara , feito de um material resistente e o quebrei com uma facilidade surpreendente. Aquilo era duro demais e como consegui parti-lo com uma mão só ? Então uma ideia brotou-me : se eu já não era humana, certamente obtive o dom da força através das maldades de Lucinda,que me construíra ,então poderia usar o dom que ela me dera para poder me vingar. Ela não acordara com o barulho do objeto se partindo na minha mão , neste caso eu poderia aproximar-me dela com cautela e quebrar-lhe o pescoço como fizera comigo. Seria fácil demais. Porém me detive : eu não lembrava mais de como me comportar como um ser humano normal e mesmo que eu a matasse naquele instante , eu não saberia como esconder seu corpo ou inventar desculpas para qualquer um que entrasse naquele recinto e me visse com o sangue da humana nas minhas mãos. Eu poderia ser morta novamente e desta vez, sem chance de retorno. '' Paciência '', pensei , ''Paciência.Agora que sei de toda a verdade, será fácil arquitetar um plano para me vingar de você, humana assassina e monstruosa . Vou continuar a fingir-me de inocente e desconhecedora do mundo ao meu redor e usar seus ensinamentos para me lembrar de tudo e reaprender como me comportar como a humana que sempre deveria ter sido , usando tudo isso futuramente a meu favor. E assim poderei me vingar e fazê-la pagar pela dor que certamente deve ter causado à minha verdadeira família. '' Fui para cama, mas virei-me para o lado oposto , para não ter que olhar mais o semblante adormecido daquela desgraçada. Sim, Lucinda mal poderia esperar. Eu iria me vingar . E com esses pensamentos de ódio, adormeci.
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