Notas iniciais
Gostaria de agradecer a todos por estarem acompanhando esta história. Estou me dedicando a ela de coração e espero estar a cada cap. agradando vocês.
Boa leitura,nyahticos! =)
Voltamos para casa em um navio, desta vez sem a companhia da jovem loira e amiga de Lucinda, que chorou bastante ao se despedir da amiga mas me deu um rápido abraço com uma expressão enojada que não conseguira disfarçar.Durante todo o percurso até Bruxelas, ela me ensinara a ter um vocabulário impecável,a comer, beber, me vestir e me maquiar, e os nomes dos mais diferentes tipos de animais e plantas.Contudo,eu também observara que quando Lucinda não estava me ensinando, ficava boa parte dos dias debruçada na proa do navio,a olhar para o horizonte onde se via o oceano até a vista ser alcançada.Sempre assumindo um papel de uma ''recém criada'' que ainda mantinha sua inocência, perguntei-lhe com a voz mais adocicada possível o que a incomodava.
''Estive por tanto tempo entusiasmada com a sua criação que somente agora dei-me conta de que não dei qualquer valor a Ian. Esqueci-me do amor durante todos esses meses e receio de que talvez não irá mais me querer quando voltarmos.'' -- Ela disse com um ar triste mas sem olhar nos meus olhos alaranjados.
''Desculpe-me a curiosidade,Senhorita Lucinda, mas quem seria Ian ?'' --Mantive a doçura em minha voz.
''Oh, Ian é o único homem que amei e ainda amo em toda minha vida. É um criado de meu pai, responsável por cuidar dos animais em nosso estábulo mas meu pai jamais pode saber que temos um romance ...ou melhor tínhamos. Já expliquei a você que moças de família rica não podem casar-se com homens pobres.''
''Compreendo.''-- Afaguei-lhe os cabelos e aproveitando que ela não olhava para mim um só momento , um sorriso discreto escapou pelo canto esquerdo da minha boca. Ian...então o coração de minha querida humana já fora laçado pelo amor. Eu já começara a arquitetar um plano perfeito em minha mente com as informações que obtive em nosso curto diálogo. Ian seria uma das ferramentas que me levariam à queda de Lucinda. Minha intenção é deixá-la sozinha no mundo, sem todos aqueles que a amam e se importam com ela, nem que para isto eu teria que arrancar-lhes a vida e em seguida, arrancar a dela. Sim,Lucinda pagaria caro por ter tirado a minha vida e me transformado num monstro.
Após alguns meses de puro fingimento de inocência da minha parte e suspiros apaixonados de minha criadora, desembarcamos em Bruxelas. Uma carruagem aguardava-nos para nos levar para casa e Lucinda ficou surpresa ao se deparar com seu segundo irmão Simon,que estava aguardando ao lado do cocheiro para receber-nos.
''Oh,Simon! A quanto tempo não o vejo! Como você está bonito e parece importante ! A universidade fez bem a você !'' --Lucinda sorria enquanto abraçava o irmão. De fato o humano era belo e lembrava muito minha criadora em alguns aspectos : seus cabelos,sobrancelhas e sua barba por fazer também eram negros como um corvo e a pele muito branca como a dela.Usava uma cartola cor de grafite,com um terno da mesma cor e um relógio de bolso de prata preso ao colarinho indo até o bolso direito do terno. Ele parecia tão jovem quanto a irmã.
''De fato,querida irmã !Você também está com ótima aparência! Lamento muito não termos os visitado com frequência desde a morte de nossa mãe mas Jeannie e eu estávamos tão felizes com a adoção da nossa filha que esquecemos de escrever!'' --Ele beijou a testa de Lucinda e se deu conta da minha presença.Quando Lucinda me apresentou a Simon,notei que ele ficara assombrado com a minha estranha beleza. E de fato eu era motivo de admiração por todos no porto, pois eu era a única mulher loira,alta e com olhos luminosos de um gato no local.
Após nós três embarcarmos na carruagem,chegamos a mansão onde Lucinda morava com sua família e mal descemos da carruagem quando ouvimos uma música alta e alegre. O céu estava em um tom de azul bem escuro, anunciando a noite próxima e todas as janelas estavam acesas. Atravessamos a vasta campina e pude ver como a propriedade da família era imensa. Ao longe, a leste, apesar da pouca luminosidade da noite, pude distinguir a silhueta do estábulo que Lucinda me falara. ''É lá que deve estar o humano,não creio que ele deva se misturar com os Leonheartz em um evento comemorativo'',pensei. Mas meu plano seria posto em prática ainda esta noite.
Ao chegarmos na sala principal ,ela estava tomada de convidados que comiam, bebiam, riam alto e dançavam ao som de uma orquestra ao canto. Pude distinguir com clareza o pai de minha criadora, cuja filha herdara parte das feições, e que conversava com um homem de aparência intelectual. Lucinda abriu espaço entre a multidão e correu para abraçar o pai, não me apresentando ao resto de sua família ou ao homem em si, então fiquei encostada em uma parede em um canto isolado da festa ,identificando cada familiar em meio a multidão. Foi um trabalho extremamente fácil pois todos possuíam as feições parecidas, a mesma palidez de rosto e os mesmos cabelos negros.Ela me mostrara imagens dos seus familiares em nossa volta de navio e percebi que Ceasar, o mais velho e o mais alto dos irmãos, segurava um bebê no colo e beijava a testa de uma mulher de cabelos ruivos. O irmão que nos buscara no porto estava se servindo de uma taça de vinho ao mesmo tempo em que conversava com outro rapaz não tão belo com grande entusiasmo. Benjamin, que em minha opinião era o mais belo dos irmãos de Lucinda, cumprimentava todos aqueles que certamente o estavam parabenizando pelo nascimento de sua primeira filha. Não consegui ver sua esposa e a tal criança. De repente, em meio a tanto barulho, o mesmo bateu levemente em sua taça de bebida com um garfo , pedindo o silêncio de todos, que aconteceu na mesma hora.
''Quero agradecer a todos os que estão aqui presentes e vieram com bom gosto prestigiar o nascimento de minha tão esperada filha, Adela. Dana,minha esposa e eu estamos muito felizes em comemorar este batizado com uma grande festa, mas acho que já perdemos tempo demais com discursos ensaiados'', ele comentou em um tom de humor o que fez todos rirem e pude ver afinal sua esposa, que era um pouco menor do que ele mas bonita, com os cabelos da cor da casca de uma árvore e a pele morena como uma avelã. Ela segurava algo pequeno envolvido em uma manta branca com bordados, o que me fez deduzir que fosse a criança adormecida. ''Portanto, que continuemos a festa, pois hoje é uma noite para celebrar.''-- Benjamin levantou sua taça e todos fizeram o mesmo , dando gritos de alegria e a orquestra começou a tocar uma música ainda mais animada que a anterior. Andei um pouco pela multidão tentando encontrar Lucinda e notei ao longe que um círculo de homens de meia idade e vestidos com importância amontavam-se ao redor dela, que falava e gesticulava como se estivesse revelando alguma coisa importantíssima e os que ouviam seu discurso mostravam-se impressionados assim como o pai. Minha raiva cresceu rapidamente, pois deduzi que ela estivesse me exibindo para aqueles homens , falando de como me matara e como me transformara em um ser morto-vivo.Controlando-me ao máximo para não matar todos ali presentes , fui para o jardim com muita raiva e vi ao longe, encostado em uma árvore o rapaz Ian que eu tanto ouvira falar. Ajustei meu corpete de forma que aumentasse o volume nos meus seios e com um sorriso perfeito, ao mesmo tempo em que carregava uma garrafa de vinho que encontrara fechada em uma das mesas,caminhei em meio à escuridão e aproximei-me do belo rapaz de ar triste.
''Que bela noite , não é mesmo ? A festa está muito agradável.'' --Sorri para ele,e como todos os humanos, ele encarou meus olhos e minha beleza com leve curiosidade. ''--Meu nome é Anna e sou uma... grande amiga de Lucinda.Certamente ela está feliz pelo nascimento de sua sobrinha''.
''Lucinda''--Ele riu de forma fraca,fitando o chão.''--Lucinda não me ama mais, atravessou correndo os jardins para ir logo para festa e nem se lembrou de mim. Vi quando a carruagem de vocês chegou.''
''Entendo. De fato Lucinda não o ama mais, ela mesma em pessoa me disse.''--Comecei a mentir,tentando esconder minha satisfação ao perceber que o rapaz acreditava em cada palavra que eu dizia , me olhando com expressões de tristeza. ''-- Lucinda manteve relações com um homem que conhecera em sua viagem e disse-me que você é um tolo por ter acreditado por tanto tempo em suas mentiras. Ela jamais ficará com um homem tão pobre quanto você .''
''Como ela pode fazer isso comigo... como eu queria beber algo que me ajudasse a esquecê-la. Lamento tanto ter caído em suas mentiras ao ponto de me apaixonar! ''
''Coincidência , não? Pois eu justamente pretendia beber esta garrafa não apenas em comemoração a esta festa maravilhosa! Porém não pretendo continuar na festa. Há algum lugar onde possamos ficar em paz ? Gostaria que se juntasse a mim, não gosto de ficar só. '' -- Perguntei expressando inocência.
''Só o celeiro onde durmo.Não posso entrar na mansão do senhor Leonheartz.''--Ele me disse sem emoção , ainda abalado.''Deixe-me ir na frente e eu arrumo tudo, chamarei você depois, senhorita Anna.'' E ele se afastou na escuridão. Quando eu me preparava para seguí-lo, independente do seu chamado, fui surpreendida pela esposa de Benjamin, que segurava a filha.
''Olá, você deve ser a amiga de Lucinda que ouvi falar. Muito prazer ! Vim aqui fora pegar um pouco de ar, acho que já bebi muito.''--Ela sorriu para mim , com as bochechas avermelhadas, enquanto a criança dormia.''Oh céus, preciso ir ao toalete, pode segurar minha filha para mim ? '' -- Ela praticamente jogou a criança no meu colo enquanto entrava às pressas dentro da casa.Ao passar para minhas mãos a criança olhou para mim com seus olhos cor de oliva e começou a chorar com violência. O choro da criança era alto e chegava a se misturar com o som da música alta que acontecia na casa, o que me deixou muito irritada. Avistei ao longe um poço na propriedade , distinguindo seu formato em meio ao escuro da noite e uma ideia brotou-me na cabeça. ''Esta criança pode ser o primeiro passo para arruinar Lucinda'' pensei e sorri para a pequena com malícia. Caminhei com ela em meus braços lentamente até o poço, acariciando seu rostinho rosado e feliz por não ter ninguém nos observando, afinal, praticamente todos já estavam embriagados.
Ao chegarmos diante do poço, beijei-lhe a testa com meus lábios frios e sussurrei-lhe em seu pequeno ouvido : ''Em breve sua tia se encontrará com você, querida,no inferno.'' e arremessei a criança no poço. A água mal cheirosa fez um grande barulho com o baque do pequeno corpinho mas não fiquei para ver o que aconteceu,afinal eu não precisava. A criança já morrera. Voltei lentamente para a árvore onde Ian marcara de se encontrar comigo e olhei para o poço com satisfação, que agora se tornara um túmulo. Ouvi o assobio do meu belo rapaz e ajustando ainda mais o corpete, peguei minha garrafa que estava no chão e atravessei a campina ao encontro da segunda ''chave'' do meu plano, que era belíssima por sinal.
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