Vesti minha humana com um de meus vestidos negros mais caros, de gola alta e com fios prateados no corpete, e finalmente contemplei satisfeita a minha criação, era curioso o contraste na aparência que nós duas fazíamos. Ela possuía um 1,80 o que a faria passar despercebida pois apesar de não ser comum mulheres nascerem altas nesses tempos não seria nada alvo de pavor. Seus cabelos estavam sedosos e bem tratados.
Após injetar em seu pescoço,braços, quadril e pernas todo o líquido de parto que eu negociara, com o auxílio de seringas com agulhas grossas, enchi com água gelada até o topo a câmara retangular geradora de eletricidade que os universitários carregaram até meu laboratório e mergulhei o corpo da minha criação lá. Conectei fios de cobre em seu corpo todo e puxei a alavanca. A máquina começou a tremer e fazer barulhos esquisitos e quando eu achava que algum problema acontecera, os fios de cobre ficaram brancos e todo o local foi invadido por uma forte luz da mesma cor devido às enormes cargas elétricas que o corpo recebera, como se o próprio Sol estivesse lá dentro. Me joguei atrás de um velho baú empoeirado, com medo de algo ter acontecido fora do previsto e ouvi um grande chiado. O silêncio retornou.
Lentamente, aspirando ao mesmo tempo um forte odor de fumaça, tossi e tentei espalhar a fumaça com as mãos que bloqueava a minha visão, e quando obtive visibilidade quase desmaiei de desgosto. Ela continuava imersa na água e seus olhos com cílios longos continuavam fechados. '' Nove meses de trabalho jogado fora e saúde sacrificada à troco de nada'',pensei, dividida entre a raiva e a tristeza.Quando abri a tampa da câmara para retirar o corpo e tentar analisar o que havia acontecido de tão errado, os olhos da minha humana abriram na mesma hora e ela se levantou e saiu lentamente da câmara, molhando o chão por toda parte e tossindo um pouco de água. Eu estava em estado de choque , meus olhos se arregalaram e minha respiração ficou tensa. Estava tão assombrada que não conseguia dizer uma frase completa. '' Eu consegui... eu consegui...'' , era tudo o que eu era capaz de murmurar.
Observei-a olhando ao redor com curiosidade , girando lentamente a cabeça para todos os lados, provavelmente se perguntando aonde estava, quando finalmente ela me olhou. Pude ver que seus olhos eram dar cor dos de um leopardo, um tom de um tipo de castanho tão claro que era praticamente semelhante à cor da casca de uma laranja. Ela se aproximou de mim lentamente, andando com dificuldade devido ao peso do vestido que estava ensopado, mas em linha reta e parou a poucos centímetros de mim. Eu tentava dizer algo para ela mas minha boca se abria e fechava como se eu fosse um peixe, tal era minha admiração pelo equilíbrio que ela já tinha, quando ela me disse : ''Você está bem ?''
Sua voz era doce, melodiosa, como a de um anjo e fiquei ainda mais espantada por ver como o vocabulário dela era perfeito. Eu imagina que , por estar usando um cérebro de alguém que eu acabara por assassinar, provavelmente quando eu o ''ressuscitasse'' ele voltaria a ser como o cérebro de um bebê e eu já estava preparada para ensinar tudo de novo à ela, mas acabei por perceber que ela já estava bem adiantada em relação a saber falar. Então eu deduzi que talvez a carga elétrica tivesse atingido algum pólo em seu cérebro responsável pela fala,reativando-o, visto que era um cérebro adulto. Ele só precisava de um pequeno empurrão para voltar ao trabalho.Devia então ser por isso que ela não tinha lembranças, e suspirei de alívio, pois achara que ela me revelaria que fora assassinada por alguém que não viu e ao ver a picareta no canto do meu laboratório fosse deduzir que eu era assassina e se vingar de mim.

''Você... você consegue me entender ? Como consegue ? Do que se lembra ?'' -- Eu estava encantada.
''Pouca coisa,não consigo me lembrar de quem eu era,ou quem deveria ser. Só sei que acordei neste lugar e você está diante de mim. E sinto que consigo falar.''
''Mas isso é impressionante! Realmente fantástico! Eu consegui, eu consegui!''--Não pude me conter e comecei a rodopiar pela sala e abracei. Ela continuava a não compreender meu comportamento mas lentamente me abraçou também. Naquele momento o ar começou a me faltar e tive que lhe fazer um sinal para que me soltasse. Acabei por criá-la forte demais, o que para mim era ainda mais fantástico. Ela então poderia carregar uma mesa com apenas uma das mãos!
''Sinto-me fraca,creio estar com fome. Foi você quem me criou? É a minha mãe?'' -- Ela perguntou de forma tímida e me choquei com a pergunta. Nunca havia me imaginado como a mãe dela,apenas como criadora, não queria dizer que não era sua mãe por não ter nascido do jeito natural,mas também não queria ser rude para ela, afinal era nosso primeiro contato. Portanto expliquei-lhe que de fato a criara e que ela saíra daquela câmara,mas que podia me chamar apenas de Lucinda ou minha criadora, como ela preferisse. Prometi-lhe que a secaria e lhe daria algo para comer e segurei sua mão surpreendentemente quente (afinal o sangue voltara a circular e o cadáver gélido não existia mais,suas bochechas estavam levemente rosadas) e ajudei-a a sair do sótão. Quando passamos pelo anão, ele ergueu umas das sombracelhas intrigado por ver uma garota completamente molhada ao meu lado, mas quando lhe apresentei uma sacola de moedas de ouro e avisei que não precisava mais de seus serviços, ele desapareceu pela floresta de pinheiros sem dizer mais nada.
Resolvi cortar caminho pela floresta no sentido oposto ao que ele fora e entramos na casa de Sophia pela porta dos fundos. Minha mais nova companheira olhava ao redor com curiosidades mas não disse mais nada e quando guiei-a até a escada que dava para o meu quarto, Sophia apareceu segurando uma xícara de chá com o dedo mínimo estendido, hábito que nunca mudava.
''Santo Deus, o que aconteceu ? E quem é essa jovem? '' -- Ela se assustara.
''Essa é... uma conhecida minha. Encontrei-a enquanto fazia uma caminhada matinal e diante de nós havia uma grande poça de água. Uma carruagem passou pela poça com grande velocidade e ...bem... acabou molhando-a. Vou levá-la até meu quarto e secá-la,se não se incomodar.''-- Eu mentia com grande facilidade, o que surpreendeu a mim mesma pois eu não tinha o hábito de mentir.
''Bem, certamente você pode secá-la. Coloque-a diante do fogo...assim secará mais rápido...''--Ela disse um tanto quanto desconfiada e pausadamente, erguendo uma das sombracelhas bem delineadas para mim, mas deu um sorriso curto à minha humana. ''E você, querida, como se chama ? ''
''Me chamo... eu me chamo...''-- Ela gaguejou confusa e eu pude me tocar que não lhe dera um nome. Era a última coisa na qual eu havia pensado e comecei a olhar ao redor desesperada em busca de algo que me ajudasse quando ao olhar , com o canto dos olhos para a mesa da cozinha, vi um envelope escrito '' De: Anna Clair Smithers Para: Sophia Blass '' e tive um estalo. Rapidamente disse que seu nome era Anna e Sophia elogiou a recém-batizada, afastando-se de nós pois chegara uma correspondência para ela e estava morta de curiosidade para ler do que se tratava.
Subimos as escadas para o meu quarto e acendi a lareira. Sentei-a devagar em uma distância cautelosa do fogo e enquanto ela secava com o calor agradável do fogo, penteei seus longos cabelos loiros e apliquei doses respeitáveis de maquiagem em seu rosto, juntamente com meu batom cor púrpura preferido em seus lábios perfeitos.Após deixá-la bem arrumada , ofereci-lhe um cestinho com pequenos pães de queijo. Ela pegou um e começou cheirar desconfiada, mas quando comeu o primeiro pão, devorou o restante com entusiasmo. Ela de fato estava com fome.
''Você ficará aqui comigo por uns tempos. A garota que você viu se chama Sophia e é minha amiga. Não se importará com sua presença aqui.Já está escurecendo e amanhã ensinarei a você toda a etiqueta necessária.Trate de descansar essa noite,certo?''-- Falei-lhe com um tom de voz calmo, olhando em seus olhos de felino. Ela assentiu com a cabeça,concordando.Enquanto ela caminhava lentamente pelo meu quarto, observando cada móvel e objeto decorativo com interesse, reparei que em minha cama haviam correspondências para mim. Duas. Uma era de Ian e finalmente meu coração revelou saudades, mas me entristeci com cada palavra. Ele estava muito triste comigo por eu não dar notícias a nove meses e que achava melhor terminarmos tudo, pois suspeitara de que a razão de eu não escrever uma só carta é porque me apaixonei por outro homem aqui em Genebra.Tive vontade de chorar ao ler essa carta e de viajar de volta para Bruxelas e explicar-lhe tudo , mas eu precisava educar Anna primeiro.Esperava que a segunda carta fosse do meu pai, mas era do meu terceiro irmão mais velho, Benjamin, o que me deixou surpresa. Ele relatara que sua esposa deu a luz à seu primeiro filho e uma festa de batizado iria acontecer na nossa mansão, a que eu morava com meu pai e meu irmão caçula. Era a oportunidade perfeita de eu mostrar meu valor para com a ciência naquela festa pois certamente meu pai convidara seus amigos cientistas, mas antes eu precisava falar com ele à sós (ocultando os furtos e o assassinato, é claro) antes de apresentar Anna ao mundo. Portanto rabisquei duas cartas rápidas: uma para Ian,inventando que eu estive tomada por uma forte febre mas que já estava me recuperando e que ainda o amava e uma para o meu irmão,alegando que estaria lá e que levaria uma ''nova amiga'' para que todos conhecessem. Prometi que embarcaria de volta para Bruxelas daqui a uma semana, tempo o suficiente para Anna aprender o básico de um bom comportamento e não se comportar tanto como um cachorrinho.
Como havia outra cama no quarto que Sophia me cedera, mostrei à Anna aonde deveria descansar e não troquei seu vestido por uma camisola, pois ela estava de fato encantadora. Desejei-lhe boa noite e após me retribuir o cumprimento, adormeceu. Fiquei contemplando-a fascinada,analisando sua pele que lembrava porcelana, perfeitamente trabalhada e eu já nem lembrava que haviam cicatrizes das costuras ocultas, tal era a beleza da minha garota. Ela era uma verdadeira pintura e virou-se de lado para dormir melhor,onde sua boca vermelha sorriu levemente pelo canto esquerdo,enquanto sua mente já produzia os primeiros sonhos.
Não fazia ideia do que se passava em sua nova mente, mas eu sabia o que se passava na minha: eu finalmente conseguira ser uma mulher não apenas à frente do meu tempo, mas a primeira e única mulher à frente de toda a história, por toda a eternidade. Anna era a garantia do meu sucesso.