Notas iniciais
Peço mil desculpas pelo tamanho do capítulo , mas ele precisava ser grande , minha gente :( Tem muita coisa importante pra ser detalhada aqui mas prometo que no próximo não serei tão cansativa assim. Boa leitura e mais uma vez obrigada pelo apoio !

Conforme vou relatando tudo o que me aconteceu até então, confesso que há momentos em que esqueço que estou acorrentada dentro de uma cela pequena e gelada e que a morte se aproxima. Parei de contar as horas e os dias. Anna está completamente silenciosa na cela ao lado,acredito que esteja mergulhada em pensamentos,ela sempre fica muito calada quando seu cérebro está a trabalhar. Não faço ideia do que está se passando em sua cabeça mas ao me lembrar de todo o processo do seu nascimento para poder relatar aqui, sempre brotam ao mesmo tempo muitas hipóteses: e se eu tivesse desistido no meio do caminho ? Talvez não estivesse nessa atual situação e Ian e eu estaríamos juntos, provavelmente casados e com filhos. Mas já não adianta chorar sobre o leite que se derramou, é preciso encarar a realidade e o destino que me aguarda.

Segui religiosamente todas as instruções apresentadas na lista, mas haviam alguns pontos em que Victor puxara setinhas para escrever uma série de notas como : ''talvez um cérebro um pouco maior'',''verificar se os membros são proporcionais'' ou até mesmo ''não usar linhas de cozer para fazer as ligações entre os membros superiores e inferiores'' mas ao fim pude concluir que eu deveria sim seguir a base daquela lista, mas fazendo pequenas alterações visto que o projeto estava focado na criação do homem perfeito e se tratando dos meus propósitos, o meu era uma mulher. Não foi muito difícil encontrar um cemitério que eu pudesse saquear. O mais próximo era público e destinado apenas para enterrar camponeses, não era vigiado durante o dia e tampouco à noite. Assim aproveitando que Sophia e a família ficariam na casa do coronel Webster até pelo menos umas dez da noite, aproveitei boa parte da manhã para procurar um local em que eu pudesse usar como ''laboratório'' na cidade. Acabei encontrando uma biblioteca secular totalmente abandonada e cercada por trepadeiras perto de um lago, oculta por alguns pinheiros. Limpei-a externamente e acabei descobrindo em seu interior que havia um sótão, cuja portinhola estava escondida graças a um tapete desbotado. Era o local perfeito para realizar o meu trabalho e como nesse sótão havia uma grande mesa de madeira, levei todos os meus livros e o caderno para lá. Eu também precisaria de algum equipamento que gerasse eletricidade então subornei um estudante de medicina para que me fornecesse o tal aparelho e o carregasse até o sótão. O equipamento era muito pesado para um homem carregar sozinho então ele chamou mais cinco garotos para o ajudar e após todos me ensinarem como ligar a tal máquina , paguei-lhes ainda mais para que não dissessem nada a ninguém.Apesar de o andar de cima da antiga biblioteca ainda manter suas prateleiras cheias de livros empoeirados(o que aparentemente era um bom disfarce) eu ainda não tinha a total garantia de que o local não seria invadido por qualquer pessoa que acabasse por descobrir meus planos e acabar revelando tudo, colocando-me em apuros. Eu precisava então de alguém para vigiar o local e montar guarda na entrada. Frustrada e sem saber o que fazer, minha sorte mais uma vez mudou pois encontrei, caminhando pela praça um anão trajando um sobretudo castanho que concordou em trabalhar como vigia se eu lhe pagasse por hora. Como eu me servira de boa parte da fortuna do meu pai para viajar, concordei de imediato , com a desculpa de que queria usar a biblioteca para reformá-la sozinha em um negócio próprio, sem multidões. Ao ver a cor do ouro, ele não fez mais qualquer outra pergunta. Combinamos que ele chegaria para o trabalho às sete da noite, e assim, às cinco da tarde, vestindo uma capa preta com capuz e munida de um grande saco de estopa e uma picareta fui até o cemitério público próximo.

Dizer que foi um trabalho agradável seria hipocrisia, de fato era repugnante o que eu fazia e além de tudo ilegal mas a certeza da minha vitória eliminava qualquer repulsa. Eu abria as covas e arrombava os lacres dos caixões de madeira com a picareta, usando a mesma para cortar os membros do meu agrado e colocá-los no saco. Meu foco eram cadáveres que ainda não estivessem no processo de decomposição então eu cortei dois braços e duas pernas femininas que eu considerei apresentáveis e ''frescos''. Quando me preparava para vasculhar o cemitério atrás de uma boa base para prender os braços e as pernas (basicamente tórax,seios,barriga,órgão genital, um tronco vistoso no geral) percebi que,à alguns metros de distância,acontecia um enterro. Um velho coveiro terminava de jogar as últimas camadas de terra na nova cova e uma família de aproximadamente cinco pessoas estava lá assistindo e se lamentando pela morte ''da filha''. A palavra filha me interessou e fiquei bem quieta assistindo tudo atrás de um velha amendoeira.Quando todos foram embora,a noite já havia caído e um imenso nevoeiro tomou conta daquele terreno de morte, e quando todos haviam sumindo de vista, fui até a cova recém feita e arrombei o caixão. A moça que lá jazia era bonita mas não tanto quanto Sophia e eu precisava da cabeça mais bonita que eu pudesse encontrar. Como o plano no momento era apenas uma base, cortei os braços e as pernas e levei apenas o tronco. Já com tudo dentro de um saco , voltei a cobrir a cova para não dar sinais de furto e ignorando o cheiro repugnante dos pedaços de cadáveres que eu carregava, cortei caminho pela floresta para chegar até o sótão da biblioteca desativada. Despejei tudo na mesa do sótão e olhei para meu relógio de bolso de ouro: eram sete da noite e o anão já deve ter se posicionado na entrada, como combinado. Abri meus livros e comecei a estudar a anatomia do corpo feminino ao mesmo tempo em que arregaçava as mangas para colocar o projeto em prática. Todas as noites eu ia para lá e conforme o tempo foi passando eu definhava a olhos vistos, quase não comia e bebia. A razão da minha existência era dar vida àquele ser e quando Sophia me perguntava porque eu me parecia tanto com uma criatura repugnante e fedia à morte , eu simplesmente inventava que estava com saudades de casa mas que ao mesmo tempo não queria voltar. Ignorei totalmente o médico que a Sra Blass enviara para me avaliar, alegando que eu não precisava de cuidados. Ninguém daquela casa imaginava o que eu estava fazendo,eu virava as noites na construção do corpo,usando seringas para encher cada veia e artéria com sangue fresco de cadáveres recém enterrados e preservando os órgãos em baldes de gelo para que não apodrecessem tão rápido, com o objetivo de usá-los em seguida.Entrando sorrateiramente nas universidades de medicina, subornei alguns estudantes que estavam estudando o parto em mulheres para conseguirem para mim alguns baldes de líquido amniótico** das mulheres que eram convidadas a darem a luz no campus e quando estes faziam caras confusas para perguntar qual o motivo daquele pedido tão anormal, eu rapidamente estendia-lhes mais e mais sacolas transbordando de moedas de ouro e rapidamente todos faziam o que eu queria sem pestanejar.Acreditava que o líquido feminino era uma das chaves vitais para dar a vida ao corpo, que já começava a ficar do jeito que eu queria, assim como também mandei que me conseguissem alguns rolos de linhas próprios para dar pontos em cortes (para que eu pudesse ligar os membros à minha base). Eu manipulava a todos em segredo e com dinheiro e eu quando mais financeiramente eu comprava as pessoas, mais ambiciosa eu ficava. Os dias se tornaram meses e contrariando muito meu pai, já que prometera que ficaria lá por apenas um mês, eu lhe escrevia cartas avisando-lhe de que minha volta seria adiada e mesmo sem entender ele topou, mas durante toda a minha empolgação acabei esquecendo-me de Ian. Minha mente estava tão má naqueles meses , tão ambiciosa e tão repugnante quanto os órgãos que eu roubara e usara para preencher o corpo que nem mais do rosto do homem que eu amava conseguia me lembrar. Esquecera completamente de lhe escrever cartas como eu prometera e tampouco falava com Sophia. Eu estava sendo o pior tipo de amiga ,já que passava pouquíssimas horas em casa e quando estava tentava falar comigo amigavelmente eu respondia com repugnância. Hoje eu sinto nojo da pessoa que me tornei mas naquela época não me importava com mais ninguém.

Após quatro meses de trabalho árduo estava quase tudo completo , o corpo quase terminado estava deitado na mesa e eu consegui fazer com que as costuras não ficassem aparentes pois tivera a brilhante ideia de cortar tiras de pele e usando um tipo resistente de cola que eu achara em uma caixa de ferramentas abandonada no porão ,colava aquelas tiras por cima da costura e usando um pouco de maquiagem as costuras negras ficavam totalmente imperceptíveis. Deus, eu estava enfeitiçada com tamanha perversidade !

Algumas semanas depois , após cobrir o corpo com um pano branco e me dirigir ao cemitério para vasculhar,não consegui encontrar uma bela cabeça que se adequasse as minhas fantasias e completamente frustrada, me dirigi ao meu laboratório com raiva. Quando estava quase chegando , vi uma jovem extremamente bela, com roupas de camponesa,chorando sentada debaixo de uma macieira a poucos metros do meu destino. Seus cabelos eram compridos e loiros e com as pontas levemente onduladas, chegando até sua cintura, ainda mais loiros e claros que os de Sophia.Eu nunca pensara que seria capaz de cometer uma loucura dessas mas aproveitando que ela estava de costas para mim e chorava sem parar (provavelmente estava perdida ou simplesmente correra até lá para chorar em paz) aproximei-me sorrateiramente e com a picareta cortei-lhe a cabeça. Após enterrar rapidamente o corpo,coloquei a cabeça dentro de um saco e corri até meu laboratório. O anão que eu contratara como vigia estava lendo um jornal e nem percebera quando passei por ele.Limpei o sangue dos cabelos e os penteei,costurando a cabeça com perfeição e aplicando a mesma técnica para cobrir as costuras no pescoço. Suspirei de alívio e me segurei ao máximo para não dar uma risada histérica de aprovação: estava tudo pronto, após quase nove meses de trabalho por horas e noites inteiras. A tirar pela palidez, o corpo era de fato muito mais belo do que qualquer mulher que eu já vira na vida. Eu só precisava agora colocar minha máquina humana para funcionar.

Notas finais
DICIONÁRIO EXPRESSO: **Líquido amniótico:Além de preencher a bolsa, auxilia na alimentação do feto e reduz o impacto no caso de quedas. Quando está no volume normal, ajuda o bebê a exercitar movimentos e articulações. FONTE:http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI2767-10554,00.html