Eu vejo além do monstro
21 Capítulo 21
Notas iniciais
*Xena*
– Alkanthys, eu preciso da minha sósia.
– Senhora, sabe que se arriscará correto?
– Você me conhece Alkanthys, eu preciso ir até ela e me certificar de que ela esteja bem.
– Sim senhora. Irei encontrar sua sósia e trazê-la.
– Sem levantar suspeitas. Ok?
– Sim senhora.
Minha sósia era a pessoa que mais podia desfrutar dos meus “bons” momentos, ela e toda sua família tinha minha proteção, sem que nenhum inimigo tivesse conhecimento.
Muitos diriam que ela é uma irmã gêmea, de tão parecidas que somos, até mesmo na arte da luta, eu lhe ensinei tudo o que sabe, para que ela possa fingir que sou eu.
Além de mim, somente Alkanthys sabe de sua localização. Katrina sabe de seu valor, mas sabe também do meu temperamento, ela sabe que eu poderia fazê-la se passar por mim a força, mas preferiu ser de bom grado. Ela sabe que pode morrer a qualquer momento, pois apesar de se parecer comigo ela não é tão boa assim a ponto de enganar a morte como eu já fiz diversas vezes.
Resolvi preparar tudo o que precisaria para esta viagem. Até mesmo os disfarces necessários, pois não queria correr o risco de ser reconhecida sob nenhuma hipótese.
Demorou dois dias para que Alkanthys trouxesse Katrina, logo eu estava de saída do acampamento, eu tinha bons soldados, mas eu era mestre em fugas, consegui passar por eles sem ser notada, não que eles fossem incompetentes, se algum deles tivesse me visto ou desconfiado de algo eu o promoveria a ocupar meu lugar no comando.
O caminho a Amphipolis estava cheio de obstáculos, muitos ladrões, alguns bárbaros, todos mortos por minhas mãos, por vermes como estes que eu me consagrei, há situações em que o mundo não precisa de um herói e sim de um monstro, eu sou este monstro, me orgulho disto, eu sou o que fizeram de mim, fui ingênua até invadirem minha terra, fui protetora até tirarem Lyceus de mim, fui guerreira até M’lyla aparecer, me transformei no monstro depois de César, e não mais parei, toda a minha dor, meus pensamentos, medos e anseios repousam quando tenho sangue nas mãos, é algo libertador.
Quando Gabrielle apareceu eu achei que poderia ter um pedacinho do Campos Elísios, leso engano meu, alguém que vive como eu não tem qualquer paz, lembro de Lyceus me dizendo: Não é isso o que todos sonham? Alguém que penetre tão profundamente em nossa alma, que possa encontrar ali algo pelo qual faça valer a pena morrer!
Hoje quando me recordo destas palavras à única imagem que vem em minha mente é de minha escrava. Perdida em meus pensamentos consigo chegar a Amphipolis, a vila está se reconstruindo aos poucos, os corpos amontoados nos arredores aguardando suas piras, ou enterros, eu estava em alerta, a longos verões que eu não colocava meus pés naquele local, porém não queria correr riscos.
Fui a pensão de Cyrene, minh mãe, todos olhavam-me abatidos, eu havia pintado o rosto, mudado o cabelo, com um pouco de lama, fiquei aliviada ao ver que minha mãe estava viva, mas ao mesmo tempo desapontada por ela não me reconhecer.
– O que ocorreu? – perguntei a um dos homens que estava sentado numa mesa ao lado.
– Homens de Éculos, aquela vadia da conquistadora não está mais dando conta de proteger nossas terras. – Ele falou elevando o tom de voz.
– Backos, eu já te falei que não quero que se refira a senhora conquistadora desta forma, ela está fazendo o que pode para nos proteger, e muitas coisas boas estavam acontecendo antes desta invação. – ouvir aquela voz trouxe uma emoção sem igual, fechei meus punhos para tentar me controlar.
– Mamãe, estou com fome.
– Calma filha, vamos.
– Fale isso para sua filha que perdeu o pai, não sei como consegue se mantiver assim sendo que perdeu seu marido também. – Backos falou baixo procurando privar que a menina loira, cópia de Gabrielle ouvisse o que era dito.
Saí do lugar e fui para meu quarto, mal olhando Gabrielle, deixei minhas coisas e saí por uma passagem que tinha no corredor, indo para um lugar que eu e Lyceus costumávamos fugir quando mais novos, havia uma montanha ali, para me aliviar da raiva e ciúmes eu comecei a esmurra-la, coloquei tudo para fora, eu já tinha respostas, poderia ir embora, mas eu queria que ela me explicasse, como se casou, respiro fundo, estou sendo egoísta, fui eu quem mandou ela seguir com sua vida, e ainda havia me defendido e pela conversa não era a primeira vez.
Ao retornar para a pensão eu vi que Gabrielle estava indo embora com a criança e as segui, observando de longe, vi que ela entrara, dera de comer e banho a filha, logo a criança dormiu, vi ela se banhar na mesma tina, eu a olhava encantada, apesar da maternidade ela estava linda, pelo que percebi até mesmo com o corpo em forma, não parecia mais aquela garota frágil que chegará a meus aposentos.
Ela se trocou e pegando uma lança fora para fora logo ouvi sua voz:
– Eu sei que tem alguém aí, senti você me seguindo, apareça se tiver coragem, para ter qualquer coisa daqui terá que lutar.
Eu me assustei como ela pode saber, será que eu havia dado alguma dica. Ou algum movimento em falso. Quando dei por mim já estava sem capuz, me aproximando, ela empunhou a lança e me atacou, acabou cortando minha manta, sorri, ela aprendera alguma coisa, tirei a espada e resolvi brincar, com alguns movimentos, ela pareceu surpresa e baixou a lança.
– Xena, é você? – Senti o choro em suas palavras.
– Sim minha pequena.
Ela abraçou-me mesmo comigo suja e colou nossos lábios de forma necessitada e urgente e eu correspondi da mesma fora.
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