Eu vejo além do monstro
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Conseguir sair dos meus aposentos nesta manhã, de longe fora a coisa mais difícil que consegui fazer desde que me tornara a senhora conquistadora.
Pedi a Gabrielle que ela ficasse em meus aposentos e não saísse por nada, não que eu não confiasse nela, mas eu tinha que pensar no que eu faria em relação a ela. Creio que ela não teria problemas, perguntou se poderia se banhar e comer e eu deixei, foi um pedido feito com receio, me senti mal, mas mantive minha postura austera e respondi como a senhora conquistadora deve responder.
Eu teria uma reunião com Alkanthys logo pela manhã, precisávamos alinhar todos os procedimentos que teríamos durante a estadia de Éracles, pensar nele me correu um frio na espinha, não que eu tivesse algum tipo de medo, mas pela primeira vez em muitos anos eu tinha por quem temer, e isso era uma fraqueza, e eu não podia ter fraquezas.
Lembrei-me de uma vez em que Lyceus me disse que na maior parte das vezes, aquilo que eu mais iria querer é aquela coisa que eu não poderia ter que o desejo partiria meu coração, me esgotaria, que talvez ele até acabasse com a minha vida. Eu fui contra o que ele disse, até discutimos, mas hoje eu entendia o que fora aquelas palavras.
Eu sentia que algo mudara, hoje era um dia como outro qualquer, eu já não era mais somente eu, não somente a senhora conquistadora, eu era também Xena, na verdade eu voltava a ser um pouco da Xena, minha vida ainda era a minha vida, mas eu não estava mais reconhecendo as coisas ao meu redor e isso me causava medo e me deixava mais alerta do que nunca.
Como saber quanto é demais? Demais, cedo demais. Informação demais. Diversão demais. Amor demais, ou demais pra se pedir de alguém? Quanto é demais de tudo pra que consigamos suportar? Eu me questionava o que seria demais para mim, e o que seria demais fazer Gabrielle suportar, creio que hoje eu estava mais introspectiva que nunca.
– Alkanthys, vamos ao que interessa. – me dirigi ao meu comandante assim que adentrei a sala de reunião.
Foi uma tarde longa, discutir estratégias era algo que eu adorava nos campos de batalha, porém dentro de uma sala, no qual eu não participaria ativamente era um pesadelo.
Retornei aos meus aposentos e percebi Gabrielle deitada em frente a lareira, em cima da mesa havia minha refeição, intocada, e foi quando percebi, que não mandei servir nada para Gabrielle, uma escrava nunca poderia fazer pedidos a cozinha, me senti extremamente mal, ela gastara uma energia enorme e ficara o dia todo sem comer, olhei seu corpo, ela dormia tão serena, apesar de tudo, em seu corpo algumas marcas arroxeadas, marcas de nossa noite e manhã juntas, uma sensação de prazer me envolveu, aquelas marcas foram feitas tanto por que eu quis quanto por ela.
– Gabrielle, acorde.
– Senhora conquistadora, me desculpe, acabei adormecendo.
– Tudo bem, você comeu algo?
– Não senhora.
– Venha, sente-se comigo a mesa e como.
– Tem certeza?
– Sim, tenho. Venha.
Observei Gabrielle comer, ela não se fez de rogada, comeu tudo o que pode e eu me peguei recordando de quando a alimentei como um cão, não adiantou nada trata-la da pior maneira possível.
– Está tudo do seu gosto escrava? – perguntei em tom de deboche.
– Desculpe senhora conquistadora, me perdoe, não quis parecer abusada.
– Terei que lhe castigar. – olhei séria.
Gabrielle logo se pôs de joelho baixando sua cabeça, tudo bem que eu estava apaixonada, é realmente isso, mas não podia deixar de ser a senhora conquistadora, ergui meu império por ser quem sou e isso não mudaria da noite para o dia.
– Irei me banhar Gabrielle e quero você na casa de banho para lavar minhas costas.
– Sim senhora. – ela levantou, porém permaneceu de cabeça baixa.
Sentir aquelas mãos delicadas esfregando minhas costas encheu-me de um prazer calmo, realmente acolhedor. E me deixei levar, aproveitando o momento, Gabrielle tinha mãos mágicas, massageou-me, e senti a tensão do dia esvair-se.
– Tem mãos muito boas Gabrielle.
– Obrigada senhora conquistadora, minha irmã sofria de dores terríveis nas costas e ombros e eu fazia essas massagens para que ela conseguisse dormir.
– Sente saudades de sua vida de antes Gabrielle? – eu não sei o que estava se passando por minha cabeça, mas eu precisava ter certeza de que ela queria estar comigo.
– Posso ser sincera? Ou terei algum castigo caso a resposta não seja de vosso agrado?
– Permito lhe ser sincera, sem castigos posteriores. – eu estava preparada para o pior.
– Às vezes você faz escolhas na vida e às vezes as escolhas fazem você, nesse caso eu fiz a escolha, eu imaginei minha vida de uma forma e então, de repente, tornou-se outra. Muitas vezes, o vento sopra contra a maré e a nossa vida, vira de pernas para o ar e a gente pensa que não vai suportar. A verdade é que os momentos bons jamais existiriam e seriam bons se não fossem os ruins, creio que assim seja. Não que agora seja ruim, mas acredito que precisamos passar por dificuldades e momentos dolorosos para darmos valor a cada momento que nos faz feliz e faz bater o nosso coração mais forte. A verdade é que nunca sabemos o dia da amanhã, o minuto seguinte, nosso próximo passo. Há momentos em que desejo fazer o tempo voltar e apagar toda a tristeza, mas eu tenho a sensação que, se o fizesse, também apagaria a alegria. Assim, revivo as memórias da forma como vêm, aceitando todas elas, deixando que me guiem sempre que possível. Isso acontece com mais frequência do percebo, então sim, ás vezes sinto falta, não da vida em si, mas dos bons e raros momentos que eu tive. A minha história não pode ser resumida em duas ou três frases; não pode ser colocada em um embrulho simples e elegante, que seria entendido imediatamente pelas pessoas. Embora seja poucas primaveras, as pessoas que moraram perto a vida toda nunca conheceram de fato o que eu e Lila passamos a única coisa da que sinto falta de verdade é de minha irmã.
– Você fala com o coração Gabrielle.
– Sinto muito se a entediei senhora.
– Não, pelo contrário, gostei de ouvir o que disse agora, são raras as pessoas que se abrem verdadeiramente para mim, na verdade posso contar nos dedos às pessoas que fizeram isso.
Levantei-me e virei-me para Gabrielle, encarando aquele rosto sereno e de repente, eu sabia que nunca havia sentido algo tão forte por outra pessoa como acontecia naquele momento. Ao retribuir o olhar dela, aquela percepção simples me fez desejar pela milionésima vez que eu pudesse fazer tudo aquilo que eu era de ruim desaparecer. E, de repente, tudo o que sentia necessidade era segurar a mão dela mais do que já precisei de qualquer outra coisa na vida. Não apenas sentir que ela segurava a minha mão, mas segurar a dela também, então entrelacei nossos mãos mantendo o olhar firme. Esse tipo de magnetismo que nos unia era incrível.
Permiti-me ser somente Xena naquele momento, segurei-a bem perto de mim, com nossos olhos mantendo o contato, perguntando-me se alguma coisa na minha vida já havia sido tão perfeita, e, ao mesmo tempo, sabendo que não. Estava apaixonada, e a sensação era ainda mais maravilhosa do que eu podia ter imaginado. Uni nossos lábios, primeiro com carinho, logo passando para urgência.
Quando dei por mim já estava com Gabrielle no colo e a levando para meus aposentos, retirei sua roupa e me permiti contemplar aquele corpo que me causava sensações nunca antes sentidas. Parte de mim queria toma-la como um animal, satisfazer todas minhas vontades mais sujas e doentias, as imagens passaram por minha mente, mas ao mesmo tempo, eu só queria dar-lhe carinho, sentia em Gabrielle uma carência grande, pelo que pude perceber ela sempre estivera lá pela irmã, mas nunca a ouvi falar de ter alguém por ela.
E eu senti que gostaria de ser essa pessoa que estaria lá por Gabrielle, de todas as armas que meus inimigos tivessem para me vencer, somente uma seria eficaz e ela seria o sorriso de Gabrielle, esse mesmo sorriso que ela me dava agora, tímido e cheio de expectativas. Que pensamento irônico.
– Pode dormir aqui Gabrielle. – dei-lhe um beijo, peguei um roupão e me retirei do aposento, precisa refletir.
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Senti-me completamente decepcionada ao ver Xena se retirar do aposento, imaginei que ela fosse querer repetir a noite anterior, sem a convidada a mais, porém eu iria dormir sozinha e sem poder sentir seu toque, o que estava acontecendo comigo. Eu queria falar, gritar... — Não se afaste. Não me prive de você, da sua presença. Fique, mesmo não tendo nada pra fazer, mas fique!
Lembro-me das garotas da vila falando desse tipo de sentimento e logo depois se casando, o que era irônico pensar, eu nutria fortes sentimentos pela conquistadora, sentimentos conflituosos e que me faziam perder-me.
Na noite passada um instinto quase animal tomou conta de mim, eu queria na mesma proporção que recebia, e quanto mais eu tinha, mais eu queria, porém hoje pela manhã eu queria explorar, sentir, eu queria tudo e mais um pouco.
Eu sabia que não poderia criar esperanças, ainda mais pelas ações contraditórias da senhora conquistadora, as vezes eu tinha a impressão de dormir com Xena e acordar com o monstro, eu sou uma escrava e tenho consciência disso, mas quando eu estava com Xena na cama, eu não me sentia assim, éramos iguais.
Observei o crepitar do fogo e os poemas formaram-se em minha mente:
Meu amor, meu mais profano pecado. Eu sei que não é lógico, sei que não posso, mas não consigo.
Eu pensava que um dia viveria nos Campos Elíseos, revestida da mais perfeita graça.
Contudo os Deuses jogaram seus dados, e eu fui lança aos teus braços,
Perdi-me no pecado, conheci a luxuria dos teus lábios,
Fez-me tua, na cama, ato após ato, tirou pedaços de mim, deixando pedaços de nós,
E agora nessa fria e solitária noite, me deixas, talvez pense que eu deva cair nos braços de Morfeu ao invés dos teus,
Meu profano pecado vem e me tomas me faz sua novamente,
Não deixes que nossos momentos juntas escorram como as areais que correm nas ampulhetas...
Suspirei, era sempre assim, as palavras vinham, tomavam forma, sutileza e eram guardadas no meu intimo, quem sabe um dia talvez elas pudessem ganhar vida nos pergaminhos.
Senti minhas pálpebras pesarem, eu tinha que me acostumar afinal de contas eu por acaso pensara que a senhora conquistadora dormiria comigo todos os dias?
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