Eu sou apenas um pobre garoto.
1 Bem vindo de volta.
Embora minha história raramente seja contada, sinto como se já tivesse feito isso.
Bom...
Eu sou Donald Romero.
E eu provavelmente estou morto.
Tenho Vinte e Cinco.
Dezoito de liberdade, sete de serviços ao meu país.
Sou branco, cabelos pretos, algumas garotas me acham bonito.
Mas não sou.
Sou conhecido por ser intimidador. Dependendo do ângulo, dependendo da luz.
Dependendo de mim.
Não sou gordo nem sou magro, não sou alto nem baixo.
Sou tão neutro que não me percebo.
Tão neutro que chego a não ter cor, cheiro ou aparência.
Passo pelas ruas escuras, pelas bocas, pelos becos e ninguém me olha.
Eu sou neutro.
Não bagunço ainda mais esta lixeira e ela não me suja com seus excretos.
É como um relacionamento de um casal desgastado.
Eu não levo as amantes pra casa e ela não me deixa achar as camisinhas usadas por alguém que não sou eu.
Que não sou eu.
Quem sou eu?
Eu sou o meio termo.
Se assaltam uma velha na minha frente, eu levanto a gola e sigo na maciota. Dessa forma eu não apanho dando uma de Bruce Wayne nem corro o risco de levarem o pouco que tenho.
Entende agora?
O lance das amantes e das camisinhas?
Sei que pode parecer difícil de imaginar, mas eu sou mesmo um fantasma.
Eu sou um coadjuvante nesta tragédia intragável de estupros aplaudidos e policiais linchados, sou o pontinho branco no meio de uma folha branca, eu caminho dentre os que matam e os que morrem, os canos aquecidos das pistolas, as lâminas enferrujadas com o próprio sangue das vítimas, os pés de cabra tortos pelos golpes na cabeça, prostitutas viciadas que fazem sexo em troca de drogas e pervertidos que trocam drogas por um pouco de sexo.
Eu não importo, eu não conto, eu não ajo ou reajo, eu não expresso e eu não manifesto, não agrado nem dou desgosto, nem salgado nem insosso, nem cheiro nem fedo.
Ando como se flutuasse sob estes absurdos, sou bom demais pra isso.
Ou pelo menos era o que eu pensava ser.
Bom demais.
Vivo estes dias sem gosto como se fossem realmente importantes mas sinto como se eu já estivesse morto.
Bem, talvez eu realmente já esteja.
Eu não peço que me entenda e pode me julgar como você desejar.
Mas juro, que fiz o possível.
VÁ PARA CASA, DUKE.
O exército me disse adeus.
Um adeus frio e firme, sem flores, abraços ou pedidos de perdão.
Senti um beijo no rosto ao apertar a mão de um soldado qualquer que veio me entregar um peso de papel que eu não sentiria orgulho de carregar comigo.
Não recebi agradecimentos verdadeiros ou aplausos, festas ou algo do tipo, apenas uma garrafa de bebida barata e uma lembrança de como somos por dentro. Literalmente.
Me senti usado de certa forma, mas estive no inferno por tempo demais para ignorar o quão feliz eu estou por sair dele. Foram dias, meses, anos de cão.
Eu não vou e não quero repeti-los.
Nunca.
Passo pela portaria e vejo como tudo está diferente.
Não lembro deste salão ter cores tão atraentes.
Um garoto, deve ter seus Dezoito anos, passa por mim. Olha minha farda e acena.
Eu não me movo.
Ele está alegre e provavelmente está indo se alistar.
Pelo rosto pesado e derretido dos pais que o acompanham vejo que a propaganda tem feito seu trabalho. É como ver um boi alegre caminhando na esteira do matadouro.
Estas portas de vidro já foram de metal.
Minha única alegria é saber que minha moto ainda está no mesmo lugar.
Suja, empoeirada, cansada de esperar. Me vejo no retrovisor, não estou muito diferente dela.
Ela demora a pegar assim como demorei a entender que eu estou voltando pra casa, ela grita, chora, não sei se de dor ou saudade, mas aqui estamos.
Tentando voltar á vida antiga.
Ela liga, sinto seu ronco, o calor. Era como antigamente, ela nunca me decepcionou.
Passos pelas ruas e avenidas que conheço melhor, as mesmas que costumava andar quando não tinha para onde ir. Estão diferentes, algumas casas novas, lojas que mudaram de nome, novas grades, novos bares... E antigos lugares que eu costumava frequentar.
O que fizeram contigo?
Paro a moto em frente á uma antiga banca de revistas, ainda é cedo para estar fechada.
As antigas vidraças se foram e no seu lugar estão pedaços de madeira velha pregadas pelo lado de dentro, nada da pintura azulada, apenas pichações de xingamentos e rabiscos estúpidos de pênis por todo o lugar.
O que fizeram contigo?
Eu costumava matar aula lendo gibis por vários dias consecutivos aqui.
O gerente sabia disso, mas permitia que eu pegasse qualquer coisa pra ler, ele sabia que eu não era como os outros arruaceiros que roubavam bíblias e usavam as páginas para bolar baseados.
Muitos velhos testamentos sumiram nessa época.
Ter onde me esconder foi um dos principais motivos de ter abandonado a escola aos Quinze.
E foi aqui que conheci a pessoa mais importante da minha vida.
Toco uma das madeiras, olho ao meu redor, sinto o cheiro de merda que vem dos becos próximos e ouço gemidos estranhos, parece que fiquei fora por um século.
Parece que não abandonei o...
Este não é o meu lar, não é a minha cidade.
Como ratos ao primeiro sinal de uma migalha, vejo estranhos se aproximarem lentamente da moto.
Não perco mais tempo.
Tudo pode ter mudado, mas eu ainda tenho um lugar para ir.
Minha casa, minha família.
Júlia e Marrie.
CASA NÃO HÁ MAIS.
Conheci Júlia aos Dezesseis.
Justamente naquela banca. Á única coisa que me impediu de me afundar como os outros.
Isso e o Boxe.
Eu estava lendo quadrinhos dos X-men e mascando goma quando ela entrou.
Era mais alta, mais velha e muito mais bonita que eu.
Fui andando devagar. Tentando ouvir sua voz passei pelo Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e Hulk até poder ouvir sua conversa com a moça do caixa.
“As bíblias ficam na seção dos religiosos, do lado dos livros de história.”
Se eu tinha alguma micro chance, ela foi embora.
Eu não tinha nenhuma religiosidade, minha família louvava mais aos apresentadores dos programas aos domingos do que á alguma divindade.
Bom, eu tinha que fazer algo.
Eu sabia tanto de sedução quanto sabia de física quântica, então busquei algo no que eu mais conhecia... Quadrinhos.
Foquei no personagem que, se não me falha a memória, era o mais galanteador de todos.
A segui até seu destino e com um tímido e trêmulo toque no ombro tentei dizer algo que não soasse imbecil.
— É... – Limpei a garganta como se fosse discursar para uma multidão. – Com licença, Mon Chéri, Eu... Acho o velho testamento muito... muito... Interressante.
Todos aqueles Erres puxados que deslizavam tanto quanto o suor em minha face acompanhado de um sotaque francês fajuto já me davam a certeza de que o fracasso era tão certo quanto o riso que eu, contraindo o cenho, esperava.
Surpreendentemente... Isso não aconteceu.
Ela se virou pra mim.
Seus olhos claros eram como lâminas brilhantes que me cortavam ao meio.
Tão claros quanto o cabelo cor de madeira de ipê.
Havia uma pequena pinta marrom no canto da boca.
Não evitei olhá-la enquanto falava.
— Eu sei... – Ela disse se aproximando mais de mim e num sussurro completou. – São as melhores pra enrolar um.
Num riso despreocupado e encantador ela rasga algumas páginas e as esconde no bolso da calça jeans.
Ela anda acenando para a moça do caixa.
Ambas sorriem.
Ela se vira, para minha surpresa.
“Desculpa, não perguntei seu nome.“
Não diga “Duke“. Não diga “Duke“. Não diga “Duke“.
— É Duke... merda... – Eu sussurro olhando o chão branco de cerâmica. Esse foi o nome que eu ganhei no meio da galera que matava aula. Achavam que Donald não era um nome muito legal, e tinham razão.
“Ok, Duke... Meu nome é Júlia. A gente se vê.“
Meus conceitos morais foram jogados no chão e pisoteados junto com o meu coração por aquela garota que eu nunca havia visto na banca que ia todo dia. Júlia.
Tudo começou a ser diferente naquele dia.
Nunca fiquei tão feliz por meu apelido e fiz questão de dizê-lo sempre.
Repeti tantas vezes o maldito sotaque fajuto que consegui e não consigo mais abandoná-lo.
De certa forma não me arrependo.
Ele me ajudou com o nome da segunda mulher da minha vida.
Minha filha.
Marrie.
MALDITAS FOLHAS AMARELAS.
Minha moto reclama.
Está há muito tempo sem cuidados, embora eu tenha exigido uma atenção á ela.
Atenção que só perdia para a que deixei clara, por escrito, á minha família.
Eles disseram que as manteriam com a casa, contas pagas e qualquer auxílio durante o tempo que passei fora, vendo toda essa mudança, realmente espero que tenham cumprido com o que foi dito.
Pensei que receberia algo que me ajudasse ao sair de lá, mas tudo que carrego nos bolsos é uma carta de recomendação, alguns trocados e o peso dourado de papel.
Tento encontrar nossa antiga casa.
Meu peito está tão acelerado que minha moto sente inveja.
Penso em acelerar mais á cada segundo para chegar mais rápido em casa, mas não quero problemas, ainda mais agora que voltei.
Não vejo carros de polícia, guardas de trânsito, apenas velhos nas calçadas e mulheres seminuas olhando pelas janelas. Falta pouco para a minha casa. A nossa casa.
Alguns semáforos vermelhos me fazem ter receio de parar, tento não demorar muito por essas ruas, me sinto uma minhoca rastejando entre anzóis.
Dobro na esquina depois do final da avenida.
Meu coração mantém um ritmo tão rápido que duvido que vá aumentar.
Entro na travessa.
O ritmo aumenta.
Minha rua... Minha casa... Minha casa?
Minhas mãos tremem e a moto estanca.
Quase derrapo.
Não me preocupo com o capacete e o jogo de qualquer jeito no chão.
— Meu deus... não, não.
As janelas se foram e pelo que parece, faz muito tempo.
O número na parede está pela metade e a cor amarela da frente está completamente descascada.
Por deus, eu posso ver os tijolos.
Giro algumas vezes com as mãos na cabeça e decido entrar.
Com um chute arrombo a porta.
A luz do que sobra do dia entra no que sobra da minha casa.
Os ratos corem junto ás baratas.
O cheiro de sujeira, o cheiro podre do esgoto é insuportável.
Não há móveis, eletro domésticos, não há minha família.
Entro com passos rápidos.
Duas linhas brilhantes cortam minha face, apostando corrida.
Embaixo de uma roupa íntima suja de algo verde amarelado encontro um porta-retratos.
Tem uma foto das minhas garotas.
Eu a guardo no bolso enquanto jogo fora a carta de recomendação.
— JÚLIA!
Grito, mas tudo que ouço é minha própria voz ecoar na imundice.
Piso sob o que deveria ser minha sala de estar.
Mas no lugar da madeira marrom existem apenas papéis sujos, lixo amontoado, colchões sujos de sangue de só deus sabe o quê, ratos mortos e... Um homem jogado no meio daquilo, de bruços sobre tudo.
Não me importo com quem ele seja ou o que diabos faz aqui, o que ele fez com a minha casa?
— O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA FAMÍLIA? O QUE FEZ COM ELAS? ME RESPONDA SEU...
O corpo se vira enquanto o puxo para chamar sua atenção.
Um sorriso torto e esverdeado no rosto.
Os olhos fundos quase não dão expressão á carcaça.
Está morto.
No seu braço direito, um cinto prendendo acima do bíceps e uma injeção ainda fincada.
Não me faço sofrer mais subindo no segundo andar.
Elas não estão aqui.
Saio tão rápido quanto entrei e tento respirar nos intervalos dos soluços.
Vomito na calçada e vejo quase uma dezena de ratos me esperando sair.
Esta não é minha casa.
Não mais.
Monto na moto e sigo acompanhando o pouco que sobra da tarde, fugindo do céu azul que cresce atrás de mim.
Meu peito ainda grita tão alto que não escuto meus pensamentos.
Deve haver alguma explicação.
O bairro se tornou perigoso e então mudaram elas de casa, é, faz sentido sim, elas talvez tenham vendido a casa.
Espera.
— Minhas carrtas...
Isso.
Eu enviava cartas todo mês e sempre me disseram que por algum problema com os correios Júlia não poderia me responder. Ela talvez tenha tentado entrar em contato e se tiver, seu endereço deve estar nesta correspondências ou qualquer coisa que me leve á ela.
Como um entregador que percebe que pegou o caminho errado, marco o asfalto e dou meia volta, indo em direção ao que eu espero ainda serem os correios.
Está escurecendo e cada vez mais me sinto um estranho nisto que mais parece um cativeiro.
É como se as periferias tivesse engolido o resto da cidade e vomitado tudo isso.
Como alguém consegue viver aqui?
Minha última parada.
Desço da moto e vejo minha última esperança.
Entro pela porta sem me importar se já está muito tarde para atender mais alguém.
Não há ninguém para ser atendido além de mim. Não pego ficha ou fila alguma.
— Senhorra, por favor. Pode me dizer se há alguma carrta ou corrêspondência parra Donald Romero?
Minha voz está trêmula.
Estou nervoso.
E a velha no balcão está Irritantemente calma.
“Um instante... “ ela diz sem nem piscar.
Estou suando tanto.
É como se esperasse o resultado de algum sorteio.
Tremo tanto que quase não me aguento em pé.
Me ergo sobre o balcão na tentativa de vê-la voltando.
Eu a vejo, mas a maldita se move sem pressa alguma.
Em suas mãos uma caixa grande e visivelmente pesada.
Ela a põe na minha frente.
Uma dúvida estúpida vem á minha mente, mas eu a abro.
Há um amontoado, tenho certeza que mais de cinquenta cartas ali.
Meus olhos dançam carta por carta como se eu as memorizasse.
São as minhas cartas.
Não as que Júlia poderia ter mandado para mim, mas sim as que eu mandei para ela.
— Por que... Por que não entregarram minhas carrtas? Por que? – Ela se mantém parada, como se eu não fosse ninguém. Como se não me ouvisse. – Olha, por favor, eu não sei onde minha família está ou o que está acontecendo, você poderria... – Sem expressão alguma a velha toca a campainha que está ao seu lado esquerdo. Um cara de uns Dois metros aparece do mesmo lugar de onde ela trouxe as cartas.
— É melhor você ir embora, amigo. Agora. – Ele está vestido de preto como uma espécie de segurança. O sangue esquenta por dentro de mim, que merda tá acontecendo?
— Quem é você? Por que não entregarram a porra das minhas carrtas? Me responde. Por que ninguém me responde?
“Agora. “
O brutamonte tira uma pistola da parte detrás da calça e aponta pra mim.
Eu não levanto as mãos.
Por que diabos estão me ameaçando?
Meus olhos rondam o lugar.
Gravo bem os seus rostos.
Do lado esquerdo da velha, perto da campainha, há uma lista telefônica.
Finjo dois passos para trás... E avanço para ela.
Um disparo.
Me protejo ao me abaixar na altura do balcão.
Vejo o buraco se formar no chão amarelado.
O cano aparece logo acima da minha cabeça.
Acerto a lista na arma e mais um disparo atinge o chão.
Corro quão rápido posso e ao chegar na porta ouço um último disparo.
Um empurrão em meu braço me faz quase escorregar.
Pegou de raspão.
Malditos sacanas. Pensaram que iam me matar?
Eu vivi sete anos no inferno só pra descobrir que eu não posso ser morto, seus putos.
Subo novamente na minha moto, sinto os amortecedores morderem os dentes, mas ela aguenta, sempre aguenta.
Com todas essas ruas diferentes, bancas de quadrinhos trocadas por puteiros, eu não sei onde ir.
Uma avenida longa me faz pensar que terei que andar muito nesta noite.
Meus olhos estão cansados e meus músculos suspiram a cada movimento meu.
Vejo o brilho do sinal vermelho quase que de última e paro bruscamente.
Estou perdendo o foco, vou acabar caindo em um desses cruzamentos.
Meus olhos se erguem.
O sinal está verde.
O brilho rubro do asfalto vem de um bar, logo á esquina, tem um Olho grande e vermelho na frente.
Não é uma má hora para uma bebida.
Desço da moto e a deixo em um lugar... seguro.
Com a lista telefônica nas mãos entro bar a dentro. Passo pelas garçonetes seminuas e pelos bêbados fedorentos até o balcão.
Me sento num dos bancos pregados ao chão.
— Amigo. – Chamo a atenção do gordo de barba e cabelos brancos enquanto procuro algo no bolso. – O que você pode me darr porr isso?
Ponho meus trocados e meu peso de papel merecido por bravura, ou seria mesmo pelo fracasso em morrer?
O Homem conta tudo, coça a cabeça grisalha e com um sorriso banguela me faz sentir que ele não apenas serve as bebidas.
—Duas garrafas de uísque... – Ele pega minha medalha e a morde como se certificasse algo. – Uma arma, Amigo.
— É exatamente do que eu preciso.
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