MEU AMIGO JOHN.

Não demorou muito para que eu percebesse que os seus nomes não estavam na lista telefônica.

Passei muito tempo procurando vocês duas.

Era como uma tortura, uma busca interminável.

Eu nem ao menos sabia se vocês ainda estavam na cidade.

Só espero, com todas as forças, que o endereço que John conseguiu para mim esteja certo.

Bem, se vocês duas estiverem lendo isso é graças a ele.

Acho que merecem conhece-lo.

Me ajudou mais do que ele mesmo poderia imaginar.

Eu o conheci na minha primeira noite neste novo inferno enquanto folheava as páginas amarelas e lia os nomes e números minúsculos lá escritos.

Troquei tudo que eu tinha no bolso por dois uísques baratos e um revólver velho, sim, você deve estar pensando em como eu sou burro e estúpido, gastei exatamente tudo o que eu tinha e em menos de uma hora eu já estava muito bêbado.

Bem, foi aí que o McGarthy apareceu, ou pelo menos é o que eu acho.

Eu caí de bêbado e acordei no sofá da casa dele. Com uma lista telefônica no peito e uma arma apontada pra mim. Ele é bem peculiar.

Morei no seu apartamento durante alguns meses até que eu encontrei uma maneira de ganhar dinheiro.

Eu não quero lhe assustar mesmo sabendo que você é bem mais forte do que eu penso.

Eu não tive escolha quanto a esse emprego e se caso eu tivesse recusado, Júlia, esta carta nunca chegaria aí.

Será que ao menos chegou mesmo?

Decidi viver nas sombras desta cidade para me manter inteiro e conseguir alguma grana enquanto eu procurava por vocês, mas esse lugar te obriga a ser o que não quer.

John me disse que posso estar paranoico, sabe? Aquela doença da guerra.

Eu não acredito.

Assim que Ele te entregar isto, fuja.

CALIBRE 12.

É meu oitavo dia aqui.

Estou quase perdendo a sanidade e se não fosse pelo tal McGarthy eu já teria perdido a vida.

Ele me deu um pouco de dinheiro pra comprar cigarros pra ele, bem, eu tenho que fazer alguns favores em troca de um lugar pra dormir e pra usar o saco de areia que ele prende no teto quando sai.

Não é o melhor dos lugares, mas tenho onde treinar e me mantem longe dos ratos, das baratas e do pior de tudo, dos vermes que moram por aqui.

É, eu deveria tomar cuidado com o que eu falo, afinal estou morando aqui, não é mesmo?

No caminho para a venda no final da rua eu sinto o puxar das fibras dos meus braços.

Fazia um bom tempo que eu não treinava.

Na verdade faziam anos.

O frio me faz lembrar das noites que e eu e os outros caras corriam no meio da rua de madrugada para nos aquecer. Nosso treinador era bem rude, mas era o mais próximo de um pai pra mim e para os outros guris que largaram as casas, os familiares e as drogas.

Merda, ele era como Jesus.

Ele foi o único a me fazer ver que ser canhoto não era bem um problema.

Chego na venda.

O dono é um senhor simpático, existem ainda seres como este, escondidos por aí tentando se manterem vivos.

— Boa noite, Senhor. Uma carteirra de cigarros, por favor.

Ele me responde com um sorriso.

Enquanto ele abre a caixa registradora para guardar o dinheiro eu aproveito para dar uma olhada ao redor.

Talvez eu consiga comprar uns biscoitos com o que sobrar.

a simplicidade das prateleiras de frutas logo ao lado do freezer me traz flashes da minha infância.

Eu sempre saía ganhando uns doces desses lugares.

— LIMPA O CAIXA E PASSA TUDO PRA CÁ, SEU BOSTA.

Ouço uma voz, um grito, que me assusta.

No caixa, um moleque de no máximo Quinze anos aponta uma escopeta para o rosto do senhor.

Ele parece estar com pressa, com raiva, talvez só esteja tentando meter medo.

O caixa já tava aberto, ele não precisa de pressa, o velho não é tão rápido assim.

Ainda mais sob pressão.

Porra, talvez nem tenha bala nessa arma.

Pode nem ser de verdade.

“EU NÃO TO BRINCANDO, PORRA.“

Tá se auto afirmando demais.

Tá com medo, com pressa.

Com medo de alguém aparecer.

Ponho lentamente os biscoitos no lugar.

Vamos, Duke. Ele ainda nem te viu.

Olha como ele tá segurando a arma, tá segurando errado.

Qualquer porrada nessa arma faria ele soltar do gatilho.

Vamos, Duke, vamos.

Apenas um movimento.

Me aproximo om passos cuidadosos. Não é a primeira vez que faço algo assim, eu sei como fazer.

Estou há menos de dois metros do maldito, preparo minhas mãos.

O senhor me olha como uma grande placa de pare.

Ele sussurra, não preciso ouvir, vejo pelos seus lábios.

Ele diz: “Não.“

Eu travo um instante.

Tento questioná-lo com o olhar, contraindo o cenho, enfatizando uma dúvida.

Não tenho tempo de ser respondido.

Como um cão que te ataca numa rua escura, um homem pula pela porta em direção á arma.

Por um momento penso que ele deva ter pensado o mesmo que eu, mas só por um momento.

O estrondo acontece.

Um relâmpago vermelho manchando toda a calçada.

Aquela arma cospe fogo em cima do pobre coitado.

Um peso de 80 e poucos quilos atinge o chão.

Sem vida, sem rosto.

O senhor grita.

Talvez de medo, talvez conhecesse aquele pobre demônio.

Eu travo. Mas dessa vez por mais que um momento.

O vagabundo tava com muita pressa.

Não era medo, ele tava muito louco.

O grito do velho o assusta.

Rapidamente ele é silenciado.

O dedo no gatilho é uma sentença de morte injusta exercida por esses ratos.

Metade da cabeça do velho pinta a parte detrás do caixa.

Miolos caem sobre os potes de balas.

O dinheiro está completamente vermelho.

“EU NÃO TO BRINCANDO, PORRA.“

O maldito nem percebeu que o velho tava morto.

A mandíbula balança junto á língua solta enquanto o corpo cai.

Saco minha pistola de dentro da jaqueta e ponho três buracos na cabeça do viciado.

Ele cai no chão como um saco de batata.

Nem viu o que o acertou.

Fui mais misericordioso do que ele já fora.

Veja.

Três corpos mortos no chão.

Está vendo, deus? Era isso que eu queria evitar.

Essa maldita doença do homem. Esse gosto amargo de sangue e lágrimas que escorre pela boca. Essa fúria tão bem justificada, o suicídio justo, era isso seu deus mesquinho.

Nós não conseguimos ver paz sem querer pintá-la de vermelho.

Merda. Tem sangue em toda parte.

Três corpos mortos no chão porque alguém decidiu interromper, o velho sabia que não daria certo.

Três corpos mortos no chão por que alguém tentou quebrar o ciclo, o sistema.

É, é isso que acontece.

Pego a escopeta da mão do defunto.

Acho que quebrei um ou dois dedos dele para isso.

Pego a carteira de cigarros, mas deixo os biscoitos.

Eu não estou na lista telefônica, nem eu nem minha família, não temos endereço ou registro geral.

Não existimos.

Estamos fora do sistema e provavelmente em perigo.

Eu vivi sete anos no inferno para passar o resto da minha vida o vendo.

Deixo o lugar ao som das sirenes que lutam com o sangue para colorir o chão cinza.

Volto para casa.

Mas não a minha casa.

PÉSSIMA IDEIA, DUKE.

São umas Onze e meia da noite.

É meu primeiro mês aqui.

Deixei o cabelo e a barba crescerem e, mesmo que John tenha me aconselhado sobre o quão perigoso é sair já que devem estar me caçando como uma praga para me apagar completamente, eu arranjei um emprego.

Trabalho numa oficina.

Tenho que chegar onde moro com as mãos sujas e ouvir John reclamar do quão chato é meu sotaque fajuto.

Já disse a ele que não consigo largá-lo, é o mesmo com a graxa.

Fico feliz que isso não se repita com sangue como antigamente.

Quando você faz demais algo esquece o motivo para ter feito por muito tempo e esquece como você era antes disso.

São quase meia-noite e saio parar beber no bar mais perto de casa.

Penso em minha esposa e em minha filha.

Talvez ambas já estejam mortas e eu estou procurando por um caso perdido.

Talvez meus esforços para me manter na surdina seja apenas um reflexo do meu medo de enfrentar minha perca.

Talvez esses... Malditos já saibam tudo sobre mim e não me mataram simplesmente por que estou me comportando.

Que engraçado, não?

Parece que no final eu fui mesmo só mais uma pilha para este rádio imoral, ajudando a espalhar o ódio e as bobagens sem sentido do meu país.

Bom, não há nada que uma bebida não cure ou adormeça.

Ando pelas calçadas quebradas, vejo os vermes e inseto que correm de suas tocas e tento não amassá-los com meus sapatos, me sinto cada vez mais semelhantes a eles.

Um sereno dá lugar á uma chuva.

Levanto as golas do casaco e aumento o passo.

Não estou longe do bar.

Enquanto corro me sinto envergonhado, o som da chuva mais parece um pedido de silêncio, acho que ela quer que eu me molhe.

Ando mais devagar enquanto o “shhhhh“ me persegue.

Eu dobro á minha esquerda.

Mais alguns metros e estarei no bar.

Há um homem de costas há alguns passos de mim.

Ele grita.

Parece que não dá a mínima pro pedido da chuva, mas sim, tenta falar mais alto que ela.

— Eu entendo que não foi sua culpa... Na verdade foi. Olhe, O chefe investiu muita grana em você e agora o que cê espera que ele faça? – Ele acende um cigarro. Está protegido por um pequeno toldo e seu chapéu marrom. – Agora eu tenho que te matar.

Por cima do ombro do tal homem pude ver outro cara.

Assustado, com as duas mãos pra cima.

Tão vermelhas quanto sua cara amassada.

Porra, ele levou uma baita surra.

Tento não perder muito tempo olhando aquilo, já estou me enrolando demais.

“Sinto muito, cara.“

O homem de chapéu tira uma pistola do casaco e como se tivesse um sorvete em suas mãos, a segura sem medo, sem pressa, está calmo e provavelmente já fizera isso por diversas vezes.

O seu cigarro cai ao chão e a brasa não vive muito além do que aquele outro cara vai viver.

A luz vermelha reclama ao ser apagada pelas gotas certeiras e eu me vejo na mesma situação que tenho evitado desde o que houve na venda da esquina.

Viro meu rosto para fugir da vergonha do que tenho assumido ser eu.

Um fantasma.

Apagado.

Mas para a infelicidade das minhas entranhas que se contorcem ao ver meu reflexo numa poça de água no chão... Não reconheço meu próprio rosto.

O que eu sou?

As gotas de chuva que acertam constantemente meu espelho maleável não distorcem minha face mais do que eu mesmo já fiz.

Talvez eu tenha morrido ao não ter feito nada na venda.

Morrido quando decidi me esquecer e viver escondido.

Morrido na guerra ou até mesmo na Banca de revistas.

Eu já morri muitas vezes.

Eu não vou morrer de novo.

Minha cabeça baixa dá lugar á um olhar de morte, eu encaro o pobre homem ameaçado e ele me olha de volta.

Não posso ouvi-lo, mas vejo nos seus lábios.

“Não...“ Ele diz.

Desculpe mano, não dessa vez.

— Ei, seu pedaço de bosta imprestável! – Grito me mantendo em meu lugar, esperando qualquer reação.

— Dá o fora, maluco. Não tô com tempo pra conversar com nenhuma bichinha agora. – Ele me responde sem se virar e engatilha a pistola.

— Por que? Tem medo de uma bichinha quebrar essa tua carra?

Previsível.

Malditos cheios de ego e autoridade sempre te xingam daquilo que mais detestam ser xingados.

Ele se move e tenta apontar a pistola prateada pra mim.

Eu não espero que se vire completamente e me movo como um gato na direção oposta.

Uso meu pé para jogar toda aquela poça de água, lama e terra na cara do filho da puta.

Ele não me vê chegando e pelo soco que eu acerto, não vai ver muito depois.

Ele cai apagado no chão.

Pego sua pistola e abro o tambor deixando as balas caírem no chão.

“Não! Seu idiota. Não devia ter feito isso.“

Eu esperava algo mais parecido com gratidão vindo dele.

Não vejo nada além do rosto de espanto e uma sombra crescendo por trás de mim.

Algo me acerta na cabeça.

Provavelmente o maldito que acabei de derrubar.

Provavelmente um porrete.

Tudo fica preto antes de cair ao chão.

Não vejo mais nada.

Ouço a chuva ficar cada vez mais distante.

“Aonde eu parei?“

Ouço a voz do maldito e um disparo que a acompanha.

Algo que mais parece um saco de terra atinge o solo.

Eu apago completamente.

NEGÓCIOS SÃO NEGÓCIOS.

Tomo consciência aos poucos e mesmo abrindo os olhos não enxergo quase nada á minha frente.

Vejo uns vultos indo e vindo na minha frente.

Tendo sentir meu corpo.

Minhas mãos estão dormentes como meu rosto, pressiono os dentes, sinto uma dor aguda.

Já me senti assim antes.

A dormência acompanhada de dores que aumentam gradativamente.

Estão me dando uma puta surra.

Tento dizer algo.

Meus pés e mãos e mãos estão provavelmente amarrados.

Percebo que estou sentado.

Uma cadeira?

Merda, eu não enxergo nada.

— Chefe, ele acordou. O que eu faço?

— Continua o serviço então, idiota.

Eu conheço uma das vozes.

Me chacoalho tentando fazer algum barulho ou até mesmo me soltar.

Sinto uma porrada forte como um martelo me acertar do lado esquerdo do meu rosto.

Sinto algo molhado e quente molhar minhas pernas e meu corpo caindo contra o ar.

Como uma marreta eu acerto o chão e apago.

Acho que apaguei.

Posso ouvir passos.

Droga, estou alucinando.

Estou coberto de sangue no antigo ringue de pugilismo que eu costumava treinar.

É minha primeira luta.

Todos faziam isso.

Lutava por um round com o melhor de lá para que O treinador pudesse nos avaliar.

Era um pouco sádico, mas quando voltavam rindo com a cara amassada e o sangue escorrendo da boca por ter aguentado sem desmaiar era bem melhor que voltar algemado ou num caixão.

Era minha vez.

Eu devia lutar por um round com o grandalhão.

“Quando você me disse que era canhoto, puta merda moleque, te vi apanhando feito um cachorro na minha frente antes mesmo de subir lá.“

Mas eu aguentei Treze rounds com aquele mamute.

Com quase dois metros de altura ele me batia com seus punhos como as marretas dos presidiários que acertam as pedreiras.

Eu senti muito medo de morrer, mas não morri.

“E você apanhou como um cachorro, garoto. Mas nunca vi um cachorro aguentar tanta porrada assim. Me senti vendo uma luta do LaMotta“

Ele me disse que eu só precisava aprender a bater e esquivar.

Por que eu apanhava como se não sentisse nada.

Mas eu sentia.

Eu sinto.

Meus nervos gritam e eu acordo.

Meus olhos se arregalam e cada músculo e tendão se contraem.

Tento gritar, mas nada sai.

Só agora percebo que estou vendo novamente.

A sala suja e escura não me permite ver o rosto de nenhum dos escrotos que estão no fundo.

A escuridão lhes serve como uma máscara maldita, mas não o bastante para esconder seus sorrisos brilhantes e charutos acessos.

Meu rosto cai.

Permaneço acordado.

Pelo sangue que goteja sem fim sobre minhas coxas e meu saco eu percebo que minha cara já não tá mais tão bonita.

Tão me torturando por ter me metido nos negócios?

Péssima ideia Duke, péssima ideia.

Vejo uma bateria de carro ser arrastada junto a cabos para longe.

A luz vermelha de um dos charutos se aproxima como um presságio do fim.

Uma grande nuvem branca ganha espaço na sala ao ser expelida pela chaminé do rosto daquele maldito.

Ele sai das sombras.

Um grande bigode grisalho acena á cada movimento da sua boca.

Um sorriso sacana, amarelado, contrai a cara cheia de rugas daquele safado bem vestido.

Sua careca brilha tanto com a oleosidade que me parece uma segunda lua a iluminar a sala.

— Bravo! – Pondo o charuto na boca ele me aplaude com palmas amargadas pelas luvas. – Você apanhou bem mais do que nós esperávamos e veja só, ainda está vivo.

— Me diz uma coisa. – Cuspo o sangue que se acumula na minha boca para poder falar. Acerto seu sapato. – É assim que você resolve seus problemas? Amarrando gente pelada numa cadeirra e mandando ver? Porra... Já vi muito velho safado por aí, mas esse seu fetiche é novidade. Vai ficar de quatro e me pedir pra te bater na bundinha, seu otário?— Sinto um leve esforço nas pessoas de fundo para conter um breve riso. Mesmo esforço que vejo na cara do velho á minha frente para fingir estar calmo.

— Senhor Romero, me permita lhe avisar. Existe um motivo para me chamarem de “Chefe“.

— Eu sei... – Percebo estar jogando num terreno perigoso, mas todo homem com poder é frágil á falta dele. – Você é o mais viado de todos.

Sinto o couro da sua luva morder a minha cara.

Meu rosto vira e sinto o sangue descer pelo meu queixo.

Eu começo a rir.

Quase histericamente.

Diabos, isso dói pra caralho.

Ele me aponta aquele charuto fedorento como se fosse uma faca.

Dá voltas ao redor do meu rosto e me faz olhar de bem perto para aquela brasa.

Só para depois apaga-lo no meu ombro.

MERDA.

Se eu pudesse me soltar.

Arrgh.

Já me prenderam outras vezes.

Eu mesmo me prendi.

Eu não sou um escravo.

Não mais.

— Sabe... Chefe, suas putinhas batem mais forte que você, sabia?

— Engraçado você dizer isso, Duke. Posso te chamar assim, não é? Por que agora você não é nada... Nada... Além de uma das minhas putinhas.

ESTOU INDO EMBORA...

Eles perderam grana investindo em um lutador e depois ganharam um de graça.

Eu tinha de lutar para dar dinheiro para eles e para me manter vivo.

Acho que na mente insana desses mafiosos é assim que funciona.

Bem, pelo menos eu ganhava mais do que no antigo trabalho e as manchas saem mais fácil.

Me acostumei ás regras e ao sangue que carrego nas mãos, ao peso que carrego nas costas.
Juntei dinheiro o bastante para vocês saírem deste bueiro e, Júlia, para você dar a Marrie o futuro que ela merece.

Espero que a esquerda dela seja tão forte quanto a minha. Aposto que é até mais.

Quando você finge ser algo por tempo demais acaba esquecendo o real motivo daquilo e não lembra mais do que era antes de mudar. Eu não quero permanecer diferente e sei que você entende mesmo querendo que nosso destino seja outro.

Sei que terá orgulho do que fiz e fará nossa filha ter também.

Hoje á noite eu vou lutar contra o Quebra Ossos.

É, nós temos esses nomes estúpidos. Melhor você não saber do meu.

Me sinto um pouco indisposto mas tenho um gráfico louvável de vinte e duas vitórias consecutivas, querida. Imagine algo assim profissionalmente.

Eu sou o rei deste jogo... E não me orgulho na verdade.

Apenas não se preocupe.

Eu encontrei vocês e vou encontrar de novo.

Hoje será como todas as outras.

Será minha última luta, mas eles não sabem disso.

Hoje eu vou levar esses cães pestilentos para o inferno que eles merecem.

Se eu tenho que ter sangue nas mãos, que seja o deles.

McGarthy estará aí em breve e espero que ele não te assuste.

Saia da cidade, Júlia.

Logo estarei com você.

Logo estaremos em casa.

Eu te amo, Júlia.

Eu te amo, Marrie.

MAS O LUTADOR AINDA PERMANECE.

McGarthy me disse hoje mais cedo que encontrou Júlia e Marrie.

Tenho seu endereço agora e pelo que ele me disse, são vocês.

Não me arrisquei a confirmar, mas confiei em John.

A escopeta que peguei do viciado está debaixo da cama.

Eu a pego e uso um cinto velho como bandoleira.

Um punhal preso á bota.

Minha pistola velha que troquei com o cara no bar e algumas automáticas que John me emprestou. Ele é um cara legal, só tem alguns problemas com mulheres.

Estou decidido.

Fui servo por tempo demais.

Tirei muitas vidas. Hoje será a número Vinte e três no ringue.

Mas fora dele... Ah, vou pintar essas ruas com sangue.

Não haverá ar apuro para se respirar.

O cheiro da morte vai encher seus narizes como os dutos de esgoto e farei deus se arrepender de me ter como cria.

Os diabos vão gemer de prazer em meio ás tripas dos corpos ainda vivos, esfolados, me pedindo por misericórdia sem perceber que não há opções além de esperar o suspiro doce da morte.

Estarei embaixo das linhas inimigas durante a noite toda e nem mesmo os mafiosos saberão o que os acertou.

Não sobrará nada pra contar a história.

No fim o que poderá ter sido?

Qualquer coisa.

A polícia resolveu fazer um limpa como trabalho para outras famílias, acertos de contas, qualquer coisa pode ser alguma coisa neste mundo infértil, podre e repulsivo.

Eles pensam que têm o mundo nas mãos, mas não podem baixar a guarda, pois sabem que na verdade não tem controle sobre nada.

Subo em minha moto e me sinto como nos terríveis dias em meio á guerra.

Caminhando sem nada além de umas dúzias de munição, vontade e um ideal.

Talvez seja essa a única e verdadeira guerra justa.

Guerra santa.

Matar pela liberdade, pela família.

Mataria qualquer escroto para saber que estamos livres novamente.

Esta matança é minha cruzada.

Minha moto é meu cavalo.

E esta calibre.12 é minha cruz.

Estou na esquina do maldito prédio amarelo.

Aposto que esqueceram de mim, que acham que estou morto ou bêbado em alguma esquina.

Idiotas.

Eu não bato na porta ou me preocupo com ela.

Um chute contra o trinco.

A maldita velha está lá, com os olhos tão abertos quanto á sua boca murcha.

Ela me olha enquanto aponto a escopeta para o meio da sua testa.

Peço para ela se manter calada como a chuva que chiou outra noite.

Ela acena que sim com a cabeça.

Eu não vou perder tempo acreditando.

Enquanto avanço em sua direção, a múmia tenta tocar a campainha ao seu lado, mas é inútil.

O único som que ela ouve é o espatifar do seu braço com o primeiro disparo.

Seu peito molenga pinta a parede com o segundo.

Ela está morta.

Ouço barulho vindo dos fundos.

Pulo por cima do balcão e agarro uma das malditas listas telefônicas amarelas, a levo na mão esquerda.

Espero algum sinal de movimento enquanto me agacho.

Uma garrafa de bebida está logo ao meu lado.

A seguro pelo gargalo e a jogo em direção á sala.

Ela se parte ao chão e ouço um disparo apenas.

— NÃO VAI ME ENGANAR ASSIM, SEU MERDINHA.

Uma voz grave vem de lá.

Estúpido.

Não é isso que tenho em mente.

Retiro um isqueiro do bolso e a lista telefônica queima como uma tocha.

— É melhor sair daí e se render. Eu tenho granadas e vou explodir esse lugar inteirro se você não se mover. Você decide.

O fogo em minha mão aumenta de maneira rápida assim como o suor em minha testa.

Eu espero.

Detesto me sentir como num daqueles filmes de faroeste como quando um dos dois tem de dar o primeiro tiro e se errar estará na desvantagem e pode acabar morren...

Um passo para fora.

Duas mãos levantadas.

Ele se rende.

Eu jogo a lista telefônica.

Ele queima como um fósforo, dando mais e mais combustível á chama.

Tentando rolar no chão e caindo cada vez mais em cima do álcool.

Eu observo ele espernear e gritar em meio á fumaça preta.

Não há mais olhos, nariz ou lábios.

A cara está tão bagunçada como a de uns quadros de Edvard Munch.

Apago o fogo quando percebo que não há mais vida em meio ao bolo de carne.

Não quero criar um incêndio e acabar chamando atenção.

No caminho para o Olho Vermelho fiz uma visita á casa do Chefe e do braço direito, Luca.

Quando voltarem pra lá não encontrarão nada bonito.

Encontrei um capanga da família que toma conta da Rua de Baixo bêbado numa esquina e aproveitei para deixar um presentinho num dos galpões perto do rio.

Vão ter ainda mais certeza que foram negócios agora.

Hoje está parecendo Natal.

Mas é noite de luta.

E nessas datas, meus donos me esperam no Bar, enchendo a cara e comemorando mais um vitória que ainda nem mesmo tem certeza.

Malditos bastardos.

Eu falei com a Madre. A dona e gerente do bar.

Ela odeia homens, mas acima disso, odeia O chefe.

Fizemos um acordo.

Ela vai envenenar cada um dos copos que servirem aos capangas e ao próprio velhote e eu acabarei com a influência dele sobre o bairro.

Eu fiz minha parte.

Vai ser uma caçada aos últimos que sobrarem dessa corja por aí.

Só espero que ela tenha cumprido com sua parte.

Por que inferno espera cada um de vocês e eu sou o demônio que dará boas vindas.

Caminho para o Olho Vermelho com gosto de sangue na boca.

Penso nesta noite como a última aqui.

Neste lado da cerca.

Sinto um assovio frio, uma brisa gelada me acerta como se estivesse me sangrando.

Penso na minha esposa e minha filha.

Retiro a foto um pouco amassada e suja que encontrei nos escombros de minha antiga casa.

Porra, minha filha é linda.

Fico feliz dela não ter puxado ao pai.

Guardo a fotografia no bolso da jaqueta e ponho minhas roupas num suporte no banheiro como se estendesse minhas roupas de inverno desejando já ter partido.

Contra a luz vermelha que clareia estou eu.

Um boxeador, um lutador por ofício.

Que carrega uma lembrança para cada luva que abateu ou que lhe cortou o rosto até gritar em sua raiva e em sua vergonha.

Para cada corte na pálpebra inchada, cada ponto malfeito no vestiário, cada puta que recusei como pagamento, cada noite tremendo as mãos embaixo do chuveiro.

Pisco para a Madre e ela pisca de volta com um sorriso torto fazendo a cicatriz que liga o lado esquerdo da boca ao olho dançar em seu rosto.

É apena mais uma das dezenas de marcas do seu passado.

A vejo pôr um pó roxo na bebida servida na bancada.

Boa garota.

Ela me disse que esse veneno não vai matá-los imediatamente, mas amanha cedo estarão vomitando os intestinos quando o estômago começar a apodrecer.

Balanço meu rosto molhado.

As gotas de suor e água voam como estrelas cadentes em busca do nada.

Sob a clareia estou eu.

Um boxeador, um lutador por ofício.

Eles me apresentam.

Os bêbados e vagabundas gritam como leões que saldam seu líder.

Me sinto no topo do mundo e me decepciono por ser tão baixo.

Todos cantam como anjos tortos num coro: ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR. ESTRAN-GULADOR.

Estou indo embora, estou indo embora.

Quando deixei minha casa e minha família eu não era nada além de um menino.
Me tornei pugilista, pai, esposo, soldado...

Menino, pai, esposo, soldado não há mais.

Estou indo embora, estou indo embora.

Mas o lutador ainda permanece.

Logo estarei com vocês, Júlia, Marrie.

Eu as amo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!