Eu sou a última...?
2 Um Pouquinho de Mim e Uma Chamada
Notas iniciais
Passei esse dois dias pensando sobre a minha vida, ou pelo menos, o que eu sabia dela. A época no orfanato foi muito tranquila, mas triste. Cuidavam bem de nós, órfãos. Porém, nós precisávamos de mais do que isso, precisávamos de amor, de uma família de verdade. Confesso que quando me chamaram em uma sala, junto com mais quatro garotas, eu fiquei nervosa. Não sabia o que esperar. Via na minha frente um casal com roupas cinzas. A mulher com um cabelo castanho cortado bem curto na altura dos ombros e olhos verdes. O homem com o cabelo preto bem aparado e usando óculos,porém era visível que tinha olhos castanhos. Ambos sorriam para mim. E para as minhas companheiras de orfanato ao lado. Mas percebi que seus olhos cravaram em mim. Chamaram uma mulher que trabalhava lá na instituição, e enquanto conversavam com a mesma, apontavam para mim. Soube naquele momento que seria adotada. Uma confusão de sentimentos se instalou em mim. Feliz, por ter uma família nova. Triste, por deixar o orfanato, eu gostava dos amigos que tinha lá. Então, três dias depois, eu já estava no meu novo lar, o lar dos Pierce. Eu tinha 8 anos na época. Eu estava assustada e com medo. Medo de não gostarem tanto assim de mim, de ser rejeitada. No início, eu ficava fechada no meu quarto, raramente falava com alguém. Ainda estava absorvendo a ideia de que eu tinha uma família. Eu tinha um sobrenome: Pierce. Minha nova mãe, Hanna, vinha no meu quarto todo dia. Perguntava como eu estava e se podia fazer algo por mim. Típico pensamento da Abnegação: preocupar-se mais com o outro do que consigo mesmo. Aos poucos, comecei a me aproximar, primeiro, de meu meio irmão, Maxon. Ele tinha seis anos, cabelos castanhos e olhos verdes. Sinceramente, admiro as crianças, não se precisa falar muito para se fazer amizade e conseguir um amigo. Assim, em pouco tempo já estávamos rindo e brincando juntos. Depois, aproximei-me de meus novos pais. Foram gentis e acolhedores. Gradativamente, ensinaram-me o jeito de viver da Abnegação. No meu armário, todas as roupas foram trocadas e passaram a ter cores cinzas. Não gostava disso, gostava de diferentes cores e estampas. Não tinha espelhos dentro de casa, sendo difícil eu ver meu próprio reflexo. Mas sei que era bonita. Cabelos ruivos, olhos azuis claro, pele macia e rosto de boneca. Parecia frágil, até demais. Comecei a resistir a cortar o meu cabelo. Queriam cortar na altura do meu ombro, mas não deixei. Eles ficaram tristes por isso. Não conseguia ter muitos amigos dentro dessa facção, porque eu não era altruísta o suficiente. Maxon sempre emprestava os seus brinquedinhos para outras crianças, eu não. Os brinquedos eram meus, eu só emprestava para quem eu achava que merecia. Não queria dividir, era egoísta. E continuo sendo. Por mais que eu me sentisse diferente, tentava realmente pertencer a Abnegação, mas sabia que aquele não era o meu lugar. Teve um dia em que eu estava sozinha na rua com uma bola na mão. Eu tinha saído escondida. Eu estava brincando com a mesma quando de repente um cachorro de olhos famintos e dentes á amostra apareceu e pegou-a. Eu fiquei com muita raiva e saí correndo atrás do cachorro. Eu corria muito e montava estratégias na minhas mente para pegá-lo. Até que então ele parou e me enfrentou. Eu o enfrentei de volta. Que merda eu estava fazendo? Aquele bicho podia me atacar e me morder. Mas eu não me importava, não tinha medo dele. Ele largou a bola e avançou. Eu sai de sua frente e corri pra pegar a bola. O cachorro se recuperou e olhou na minha direção. Eu tive uma ideia rápida e simples. Fiquei na frente de uma árvore. Ele avançou novamente, eu sai do caminho novamente e ele bateu com a cabeça na árvore com tamanha força que desmaiou. Por um momento fiquei com medo de ter matado o cachorro e fiquei olhando para o seu corpo parado no chão. Até que ouvi uma voz perto de mim:
–--Você foi muito corajosa menina. Tome cuidado.
Era um sem-facção. Com barba desgrenhada, cabelos bagunçados e roupas usadas. Porém com olhar honesto. Mesmo assim, sai correndo e voltei pra casa. Ainda com a sensação de adrenalina no corpo. Eu tinha gostado dessa sensação, tipo muito. Outra coisa sobre mim: Eu gosto muito de ler. Sempre fui muito inteligente. Aprendia as coisas com muita facilidade. Mas também sabia mentir, bem na cara dura. Acho que isso poderia me eliminar da Franqueza, mas não me importava. Eu sabia que não seria escolhida para a Abnegação, menos uma. Mas ainda tenho duas opções: Erudição ou Amizade. Eu não queria pensar muito nisso, pois já estava ficando nervosa. Terminei de me arrumar no meu quarto, vesti minhas tipicas roupas cinzas, fiz um coque no cabelo e fui encontrar minha família.
–--Vamos, filha! Temos que chegar cedo, o teste de aptidão é daqui a poucas horas. --- disse minha mãe.
–--Eu sei, mãe. Já estou pronta. --- falei.
–--Posso ir com vocês? --- perguntou Maxon, animado.
–--Não filho, você ficará em casa com Stacy, sua tia que se ofereceu para cuidar de você. Uma ótima pessoa ela é. --- falou meu pai.
–--America, vou estar aqui te esperando! Assim que você for aceita pela Abnegação! --- disse Max, ele ainda acreditava que eu seria da mesma facção que nossa família. Eu fiquei triste.
–--Claro, Max. Não se preocupe. --- falei, mas dava para sentir que não tinha firmeza nas palavras.
Então me despedi do meu irmão com uma abraço. Não era permitido muita troca de afeto aqui em casa, afeto físico. Então fui para o carro com minha mãe e meu pai. O meu coração batia em um ritmo acelerado, estava prestes a fazer a escolha. Tinha tantas perguntas em mente. Mas a que mais me apavorava era o fato de eu ter a Marca, e apesar de não ter muita noção sobre o que ela realmente representava, eu sabia que era uma Divergente. Eu soube no orfanato. Quando um menino com uma Marca na mão foi chamado para a sala especial. Era a sala onde se levava as crianças que tinham algum problema ou faziam coisa muito errada. Eu era curiosa e fui atrás escondida para ver o que ia acontecer. Não pude ver o que acontecia, pois a porta estava fechada, mas ouvia as vozes.
–--Onde conseguiu essa Marca, meu filho? --- falava um homem.
–--E-eu não sei. --- respondia o menino.
–--Você tem ideia do que isso representa? --- perguntava o homem.
–--N-não senhor. --- dizia o menino.
–--Que bom. Você é um Divergente. Você não serve para a nossa sociedade, ou para qualquer facção. Você não poderá mais continuar aqui. Será levado para... Um lugar de... Treinamento. Irão fazer alguns testes em você. Não se preocupe, será coisa rápida. Não conte isso para ninguém. --- falou severamente o rapaz.
–--Sim, senhor. --- falou o menino com voz triste.
Tentei apagar esse pensamento da minha mente enquanto estava no carro indo para fazer o teste. Mas eu simplesmente não conseguia. O que será que fariam comigo se descobrissem? Testes? Eu seria uma sem-facção? Me... Matariam? Ainda estava pensando sobre isso quando entrei com meus pais na instituição que aplicava os testes de aptidão. Estava cheio de meninos e meninas com a mesma idade que eu e também nervosos com as possibilidades dos resultados. Uns já tinham feito e aguardavam, outros como eu ainda não. Me sentei em uma das cadeiras disponíveis juntamente com Hanna e Robert. Eles me mandavam sorrisos motivadores. Mas eu não estava muito animada, meu futuro estava em jogo. Eu estava pensando: é agora ou nunca, quando o meu nome foi chamado no alto falante por um homem.
–--America Pierce, por favor venha comigo.
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