Eu sou a última...?
3 O Teste e a Surpresa
Notas iniciais
America Pierce, por favor, venha comigo. --- disse o homem.
Meus pais me desejaram boa sorte, eu agradeci e me levantei. Eu tremia da cabeça aos pés, estava muito nervosa. Caminhei em direção ao rapaz. Este devia estar na faixa dos trinta e poucos anos, tinha cabelos loiros e olhos escuros e severos. Enquanto eu me encaminhava na direção do rapaz as pessoas me encaravam com um tipo de curiosidade distinta no olhar. Como se fossem descobrir qual seria meu resultado só me olhando. Parei na frente do homem. Ele me olhou de cima á baixo, como se estivesse me avaliando, e fez um sinal com a cabeça para eu segui-lo. Fui atrás dele. Entramos por uma porta no canto do recinto. Adentramos a um quarto completamente branco. O quarto estava vazio, exceto por uma cadeira com uma máquina presa á esta e uma pequena mesa. A cadeira era feita de metal, assim como a máquina que era uma espécie de capacete com fios conectores. Na mesinha, encontrava-se uma seringa e ao seu lado um pequeno recipiente contendo um líquido laranja.
–--Sente-se, por favor, senhorita America. Eu me chamo Noel. --- falou o rapaz.
Eu acatei á sua ordem. A cadeira metálica estava fria como o gelo. O homem veio ao meu lado, pegou a seringa e encheu-a com o estranho líquido laranja. E me olhou.
–-- Você tem medo de agulha? --- ele perguntou.
–-- Um pouco. --- admiti.
–-- Não garanto que não irá doer. --- ele disse.
Bem, só uma observação: Doeu. Senti o conteúdo penetrando minhas veias e se espalhando pelo meu corpo, fermentando. Minha mente parecia fervilhar, como se tivessem injetado em mim adrenalina. O rapaz levantou-se e pegou o capacete e o colocou na minha cabeça. Pegou os fios conectores que saiam do mesmo e os colocou no meu braço e, em seguida nos próprios braços, conectando-os.
–-- Estarei te avaliando. Boa sorte, America. --- anunciou o rapaz.
–-- Obrigada. --- agradeci.
Assim, recostei-me na cadeira. Minha visão começou a ficar turva e então tudo se apagou. Mas logo em seguida, uma luz forte cegou minha visão até estabilizar-se e eu poder enxergar o ambiente. Eu já não estava mais no quarto branco. Estava começando o teste de aptidão. E eu estava em uma simulação. Olhei o local ao meu redor: era uma floresta, estava entardecendo, de longe se via o pôr do sol e as cores alaranjadas e vermelhas pintadas no céu. A floresta era densa, com altas árvores com ramos e folhas grandes. Eu ouvi um choro. Um choro de uma garota. Resolvi seguir o som. Adentrei á floresta. Após uma rápida caminhada eu encontrei a fonte do choro. Era uma adolescente, que aparentava ter a mesma idade que eu, porém seu rosto estava coberto com um capuz. Eu não conseguia vê-lo. Parei e pensei: o que eu faria numa situação dessas?
–-- Hm... Olá? --- perguntei.
–-- Olá, você pode me ajudar? Roubaram minha bolsa. --- falou a garota com voz chorosa.
Por um momento, confesso que senti pena da mesma. Mas então parei e pensei: que idiotice, uma garota chorando no meio de uma floresta dizendo que foi roubada. Isso é uma cilada, claro. Ela é que deve ser a ladrona. Então comecei a imaginar como eu sairia dali sem levantar suspeitas. Eu não conseguia ver o rosto daquela garota, não confiava nela.
–-- Sinto muito, não posso te ajudar. --- falei.
–-- Por que não? --- perguntou a garota.
–-- Porque eu preciso ir, está tarde. Você também deveria ir... Para casa. Alguém pode te ajudar a achar sua bolsa lá. --- falei.
Eu fiquei com medo. Por quê? Porque do nada a garota se levantou, tirou uma faca do bolso e começou a correr atrás de mim. Eu corri também, o máximo que pude. Ela estava gritando um tipo de gemido e estava quase me alcançando. Eu tropecei em uma pedra e pensei: é o meu fim. Mas então eu consegui recobrar o equilíbrio. Pensei rápido e chutei a pedra para trás. A garota tropeçou. A faca caiu, eu peguei e sem pensar levantei a mão. Bem na hora em que eu ia golpeá-la, a visão mudou. Eu tinha certeza e que eu havia alterado a simulação. Eu já não estava mais na floresta. Eu estava em uma sala, rodeada de pessoas que eu não conhecia. Elas sorriam para mim com rostos acolhedores. Com rostos amigáveis. Então eu percebi que eu estava segurando algo. Eu estava segurando uma seringa que tinha aquele estranho líquido laranja. Então uma garota me olhou e começou a falar:
–-- Todos que estão nessa sala foram contaminados com um vírus mortal, inclusive você, porém conseguimos desenvolver esse soro que salvará a vida de quem o tomar. Todos nós já tínhamos tomado quando percebemos que o Fred também tinha sido contaminado. Você tem a última dose. Ele está ali. --- ela apontou para o fundo da sala, onde as pessoas abriram caminho e eu vi um garoto.
Ele não devia ter mais do que dez anos de idade. Era apenas uma criança e precisava do soro. Mas eu também estava infectada e por mais que eu quisesse ajudar aquele pobre garoto, eu também precisava daquele líquido. Olhei para aquelas pessoas, todas me encorajavam a fazer a coisa certa. Abdicar de minha vida para salvar aquele garoto. Lembrei-me de quando eu era criança e não queria dividir os brinquedos porque eles eram meus. Eu era egoísta. E continuo sendo. Então encarei de volta todas aquelas pessoas, peguei a seringa e injetei no meu braço e despejei o líquido nas minhas veias. As pessoas me olhavam aterrorizadas. Algumas começavam a gritar:
–--Você é cruel! Vai deixar esse pobre menino morrer! Você tem coração? Você é egoísta.
–-- Talvez eu seja. --- respondi.
E então a visão mudou novamente. Uma bomba explodiu do meu lado, eu gritei. Eu estava em um campo de guerra. Estava cercada por soldados de todos os lados. Uns correndo, outros atirando, outros gritando. Mas ninguém veio para cima de mim. Percebi que eu estava com um tipo de uniforme azul. Eu estava no time azul da batalha, e algumas distâncias mais á frente eu conseguia ver pontos vermelhos. Era o time inimigo. Certo, mas o que eu tinha que fazer? Minha resposta foi correspondida quando um homem alto e de feições grosseiras apareceu na minha frente.
–-- Capitã America, requisitamos a sua ajuda. Estamos perdendo cada vez mais soldados. Os vermelhos estão nos massacrando. --- falou grosso o homem.
–-- Hm, claro. Como posso ajudar? --- perguntei em dúvida.
–-- Venha até o centro de comando. --- disse o soldado.
Então eu o segui até o dito lugar. Era um pequeno armazém, onde dentro encontravam-se outros homens. Todos vestidos de azul, eles pareciam ter um ar intelectual. E estavam cansados. Sentados em frente á mesas com pilhas e mais pilhas de papéis e livros em frente. Um deles, um cara careca com óculos redondos falou comigo.
–--Até que enfim capitã America, nos ajude. Precisamos de uma estratégia de batalha. --- falou o careca.
Resolvi ajudar, eu era boa em estratégias, aprendi lendo livros antigos de guerras. Sentei-me junto á um grupo de homens, peguei os papéis e os estudei, dei uma olhada básica e cheguei á uma conclusão rápida.
–-- O flanco esquerdo deles está prejudicado. Vão por esse lado, levem gases, soltem e deixem-os submersos á fumaça e então ataquem. --- falei.
–-- Obrigado, Capitã. --- agradeceu um soldado. --- Vamos homens.
–-- De nada. --- falei. --- E eu vou com vocês.
–-- Mas Capitã, a senhorita não pode se arriscar desse jeito. --- contrariou o rapaz careca.
–-- É minha responsabilidade não é? Afinal sou a Capitã. Eu vou e lutarei junto, não tenho medo. --- falei determinada.
Os homens se entreolharam e pareceram ceder mediante á estranha situação. Então assim aconteceu, fomos pelo lado esquerdo, aplicamos as bombas de gás e atacamos atirando. Eu nunca tinha pegado ou usado uma arma na minha vida. Mas acho que me saí bem. Vencemos a luta. E o ambiente mudou novamente. Eu estava em um corredor, dentro de uma escola. Estava cheio de estudantes, armários, livros, risadas e fofocas. Eu estava com uma calça jeans, um uniforme e uma mochila. O sinal tocou, os estudantes começaram a se dirigir para suas salas. Eu os segui, esperando chegar a algum lugar. Então eu me perdi, como se todos os estudantes e salas tivessem sumido e eu estivesse sozinha. Continuei andando, até que eu iria virar em uma esquina e ouvi vozes. E parei.
–-- Quando você vai acabar com sua namoradinha, aquela vagabunda, hein Jeff? --- falou uma voz masculina.
–-- Aquela garota está me enchendo o saco. Ela é tão irritante e grudenta. Odeio-a, só estou com ela porque ela é gostosa e quero transar com ela. Carla é uma vadia mesmo, fica me fazendo esperar. --- falou o outro garoto, o qual imaginei ser o namorado da tal Carla. Ouvi passos. Eles pareceram se distanciar até sumir. Quando virei à esquina já não tinha ninguém lá. Por que aquele garoto estava falando tão mal da namorada? Achei aquilo tão errado. Mas não pude pensar muito sobre a situação, pois o sinal tocou de novo. E os estudantes reapareceram do nada. Olhei a multidão tentando identificar os garotos. Até que uma garota veio correndo na minha direção. Ela era loira com os olhos azuis.
–--America, onde você esteve? Te procurei esse tempo todo! --- ela falou.
Tentei assimilar rápido aquela situação. Ela era minha amiga. E estava me procurando.
–--Ah, eu estava resolvendo um problema no meu armário... Por que estava me procurando? --- perguntei para me esquivar.
–-- Ah, você não sabe! O Jeff me convidou para ir à casa dele, disse que iríamos assistir um filme juntos. Não é maravilhoso? Tenho certeza que ele me ama. Você não acha America? Não acha que ele gosta de mim? --- perguntou ela com os olhos brilhando.
Eu olhei para aquela garota. Eu sabia que eu devia contar a verdade. Mas não queria magoar aquela menina, não ali nem agora. Então menti.
–--Claro Carla, é claro que ele gosta de você. --- falei.
E então tudo se apagou. Quando clareou de novo eu estava de volta ao quarto branco e o rapaz estava me encarando com uma expressão incrédula. Ele já havia desconectado os fios e tirado o meu capacete.
–-- O que houve? Eu me saí bem? --- perguntei insegura.
–-- Você é uma Divergente. Você conseguiu mudar a simulação da garota na floresta. Era pra você ou ter ajudado, ou ter sido morta. Mas você iria matar a garota. --- falou ele preocupado.
–--Bem, então estou com problemas? --- perguntei.
–-- Muito mais do que imagina. Você eliminou três facções: a Abnegação, a Franqueza e a Amizade. Você passou na Erudição. --- ele disse.
–-- Então quer dizer que sou uma Divergente da Erudição? --- indaguei.
–-- Não. Você tem divergência para a erudição. Mas você... Você... --- ele tentava falar.
–-- O quê?! --- perguntei.
–-- Você passou no teste da Audácia. Você não é só uma Divergente. Você é uma Divergente da Audácia. Se descobrirem, você será morta. Tem noção do que isso significa? --- ele disse.
Eu não conseguia entender. Como eu podia ter passado no teste da Audácia? Eu já era uma Divergente e agora sou uma Divergente da Audácia? Minha vida só está piorando. Vou ser morta. Mas eu pensei que a Audácia não existia mais, então por que aplicavam testes de aptidão para essa facção extinta?
–-- Noel, eu estou perdida, não sei o que fazer. Por favor, me ajude! --- implorei desesperada.
–-- Temos pouco tempo, você precisa sair. Irei apagar a parte da simulação em que você passou no teste da Audácia, a parte em que você vai junto para a guerra com os soldados. Foi uma atitude corajosa. Foi uma atitude audaciosa. Colocarei você na facção da Erudição, mas você não pode contar para ninguém. Se descobrirem que te ajudei, nós dois morreremos. --- falou o rapaz.
–-- Obrigada, muito obrigada. Eu sei que vai parecer estranho, mas preciso perguntar, por que está me ajudando? --- indaguei.
–-- Porque meu pai era da Audácia e ele foi morto durante a guerra com a Erudição. Você precisará descobrir sozinha o que houve com a sua verdadeira facção. Mas uma coisa posso lhe garantir, ela não foi extinta. Ela ainda existe e precisa de ajuda. Vá America Pierce. --- ele disse.
Então olhei uma última vez para aquele cara. Ele tinha esperanças. Enquanto eu tentava assimilar tudo o que aconteceu comigo em questão de minutos. Eu tinha passado em duas facções: Erudição e Audácia. Eu pertencia á Audácia, porém esta era dita como extinta. Eu fui colocada então na Erudição, a pior inimiga que a Audácia tinha, eu era uma bomba que poderia explodir lá dentro. Como uma Divergente da Audácia poderia sobreviver no complexo da Erudição sem que ninguém descobrisse quem eu realmente era? E ainda, eu precisava descobrir mais sobre o que havia acontecido com a minha verdadeira facção: a Audácia.
Mas para melhorar, tenho certeza de que se eu fosse pega, eu seria morta.
Saí da sala. Olhei ao redor. Eu sei que eu parecia assustada, então tentei estampar o meu melhor sorriso no rosto. Se eu não fui aprovada na Franqueza é porque eu era uma mentirosa. Então era isso o que eu faria agora. Fui até os meus pais e os abracei.
–-- Como foi o teste filha? --- perguntou meu pai.
–-- Ocorreu tudo bem, pai. --- Menti.
–-- Então filha, para qual facção você foi aprovada? --- indagou minha mãe.
–-- Fui aprovada para a Erudição. --- falei a verdade.
Mas não toda a verdade.
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