Eu sou a cura
13 Verdade
Notas iniciais
Os dias foram passando após a morte de Lilian Kaas. Eu me forcei a continuar trabalhando pela Cure buscando incessantemente uma cura, ao mesmo tempo em que mais e mais mortes eram confirmadas em decorrência dos ataques. Dessa vez eu não conseguia mais fingir animação ou confiança. Pelo contrário, minha face expressava exatamente o que eu sentia. A dor percorria minha alma e se manifestava através do meu corpo. Não foram poucas as vezes em que dei uma pausa no trabalho para repousar as costas que tanto doíam. Jennifer, obviamente, reparou no meu comportamento, mas a jovem não me questionou e nem tentou interferir. Ela sabia bem que cada pessoa tem o seu próprio jeito de viver as suas perdas.
Paralelamente, Liam Kaas continuou a frequentar as aulas na faculdade. Mas ele já não era o mesmo. Com um olhar de morte, ele sempre voltava para casa com a esperança de encontrar a mãe. Esperança, talvez, de que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Mas infelizmente o pesadelo era real. Mesmo com o passar dos dias, o meu filho não melhorava. Até tentei conversar com ele sobre perdas, algo que entendo bem, mas não adiantou. Se até eu estava sofrendo intensamente, imagine o pobre garoto.
Toda essa situação era perturbadora para minha alma. O avanço em busca de uma cura continuava praticamente estático, quase que inexistente. Liam sempre trazia consigo um silêncio atormentador, silêncio esse que eu não encontrava palavra alguma para rompê-lo. Enquanto isso, Anthony Grace estava sumido. Nossa última conversa fora no enterro de Lily e transcorrera de maneira desagradável e violenta da minha parte. Confesso: eu temia que ele tentasse algo contra mim ou contra meu filho. Ele parecia desequilibrado mentalmente, além de estar fisicamente acabado. Definitivamente havia algo de errado com ele.
Mas o que realmente mexia com meu coração era uma decisão que eu havia tomado no dia do enterro, decisão essa que envolvia acabar com todo esse esquema de corrupção dentro da indústria farmacêutica. Céus, onde eu estava com a cabeça? Isso tudo é muito maior que eu mesmo. E, a propósito, não é só a Cure que está envolvida nisso. São muitos. É o establishment. Denunciar isso seria um trabalho de formiga, ou como um beija-flor que tenta apagar um incêndio. Mas eu não podia ficar parado. Eu prometi que honraria o nome de Lilian, mesmo que essa promessa tenha surgido tardiamente.
Aliás, não era apenas denunciar. Eu tomei a decisão de me entregar. Não haveria mais mentira alguma, apenas a verdade. A partir daquele momento, eu abominaria qualquer resquício de má fé, meias verdades e mentiras jogadas ao vento. Decisão extrema, certo? Bem, você sabe que eu nunca fui um homem muito equilibrado. Entretanto, eu não poderia fazer isso sem um planejamento prévio. Talvez eu pudesse ser morto antes de entregar a verdade. Ou pior: desacreditado. Mas o tempo corria. Da mesma forma, eu não estava tendo mais utilidade na procura pela cura. Meus conhecimentos estavam, finalmente, sendo ultrapassados pelo desafio que eu mesmo criei. “Falta algo”, eu pensava.
Além de toda a questão de preservar a minha vida, eu também pensava e dava igual importância ao meu filho. Liam Kaas sofreria imensamente se soubesse todas as verdades por trás do pai. Não bastava perder a mãe, ele também iria descobrir que o pai era o assassino, mesmo que indireto. Onde eu fui me meter? Mas esse era o preço a ser pago. Por mais que a verdade doesse, certamente traria mais benefícios do que continuar cultivando uma relação com base em mentiras. Dessa forma, decidi que contaria toda a verdade (desde os pormenores) para o meu filho. “Ele deixará de confiar em mim e dirá que me odeia, mas eu sinto que isso é o certo a se fazer”, eu pensei.
E então eu ri. Desde quando eu me preocupei com o “certo”? Até quando aquilo era realmente caráter ao invés de temor pelo “o que Lilian acharia”? O ser humano sempre foi um mistério para si mesmo, assim como eu mesmo nunca me entendi completamente. “Talvez se Lily estivesse aqui, ela saberia como resolver isso”, imaginei. E veio em minha mente a imagem dela me visitando no meu escritório na Cure. Éramos só nós dois. Trocávamos beijos, abraços e palavras de afeto. Momento singelo e sem grande surpresa, mas que fazia total falta para mim. “Nunca mais a verei entrar por aquela porta”, pensei.
Mas chega de pensamentos. O objetivo naquele momento era claro: contar toda a verdade para Liam. Eu precisava de coragem para encarar seus olhos arregalados e dizer verdades intragáveis. E depois aguentar a reação odiosa (e completamente justificada) dele. Mas como chegar nesse ponto? Eu agi de maneira simples: telefonei para meu filho.
— Pai? — Ele atendeu.
— Liam. Como você está? — Perguntei gentilmente.
Um silêncio se fez presente, mas logo foi rompido com a lenta e abafada voz dele:
— Indo. E o senhor? Alguma evolução?
— Tentando. Olha, eu estava pensando: por que não saímos hoje? Tomamos um café ou comemos uma pizza. Qualquer coisa. Eu preciso muito conversar com você — expliquei.
Mais uma vez o silêncio se fez presente. Dessa vez, pude ouvir a respiração profunda do meu filho, ao mesmo tempo em que ele ensaiava alguma resposta. Aguardei pacientemente os demorados segundos até que ele finalmente falou:
— Pai, eu não sei se eu quero sair.
— Tudo bem! — Eu já esperava aquela resposta. — Podemos pedir o jantar. O importante é que troquemos uma ideia. Combinado?
— Combinado.
Aguardei ansiosamente as horas passarem para ir para casa. Jennifer várias vezes olhou para mim e, acredito eu, percebeu minha inquietude. Entretanto, ela optou por manter o silêncio e respeitar o meu momento. A moça estava realmente sendo muito compreensiva comigo. Além disso, soube que ela também mandara mensagens de apoio para meu filho, o que me alegrava. Ele não estava tão só, afinal de contas.
— Está tarde e eu não ando produzindo nada. — Eu disse após o passar das horas.
— Normal, Reed. Mas eu posso perguntar uma coisa? — Jennifer questionou.
— Bem, acabou de perguntar — eu disse em tom de brincadeira.
— Como você se sente? Digo, ainda é recente isso tudo. E foi tão de repente. E o Liam?
A garota falava em um tom que demonstrava sincera preocupação. Além disso, apertava seus olhos enquanto falava, como se quisesse enxergar mais do que minhas palavras poderiam dizer. Eu fui completamente sincero:
— Não me sinto bem. Eu chego em casa e sinto falta dela. Visito o túmulo dela todos os dias e simplesmente não me acostumo com a ideia de que ela se foi. Minha nossa, acho que eu nunca irei me acostumar. Para piorar, eu a vejo em tudo. Não como alucinações, claro. Mas como uma memória pungente, que vive em cada canto do mundo. Eu a vejo no meu escritório, na minha casa, no meu carro e até mesmo na rua. Já me vi duas vezes confundindo as feições de alguma mulher na rua com as dela. Acho que estou enlouquecendo aos poucos.
Dei uma pausa para que Jennifer Hoggart pudesse processar toda a informação. Após ela assentir com a cabeça, prossegui:
— Quanto ao Liam: nós andamos distantes. Tento falar com ele sobre isso e também peço que ele desabafe, mas é como se estivéssemos em sintonias diferentes. Ambos sofremos, mas cada um da sua maneira e na sua própria linguagem. Mas hoje isso irá mudar. Terei uma conversa com ele e poderemos finalmente colocar essa dor para fora. É só uma fase, Jennifer. Tudo isso passará, pelo menos para ele. Quanto a mim? Já sou velho, não sei mais esquecer.
Jenny deu um sorriso meio triste e finalmente nos despedimos. Fui até o carro e, enquanto voltava para casa, comecei a ensaiar as palavras para contar toda a verdade para meu filho. Dizer “não era minha intenção” não iria funcionar. Colocar a culpa em Antohny muito menos. Falar que “as circunstâncias me obrigaram” seria uma mentira até para mim mesmo. Não importava o quanto eu pensasse e refletisse, o medo voltava a tomar conta de mim. Já perdi minha esposa, não queria perder meu filho. Não seria melhor continuar a viver na confortável mentira? Seguir em frente e não repetir os erros? Mas e todo o sangue deixado para trás? Como ficaria? Apenas interrogações surgiam em minha cabeça e eu não sabia nenhuma das respostas. Até que encontrei a pergunta que seria a chave de tudo.
— O que Lily faria? — Falei em voz alta enquanto conduzia o carro.
“Ela contaria a verdade”, o silêncio me respondeu. Mas como? Não obtive resposta alguma. Mas já estava ficando tarde para ensaios e pensamentos soltos, pois eu havia chegado em meu lar. Lar agora sem a mesma alegria e calor de sempre. Estacionei o carro e me desloquei lentamente até a porta da sala. Abri a mesma e pude vislumbrar o vazio da casa. O silêncio tão chamativo, cortante e violento que abria uma ferida letal em minha alma. “Onde você está? ”, pensei. E nada. Fui até sala e sentei-me no confortável sofá. Peguei o celular e pedi a pizza preferida de Liam. Olhei para o relógio e vi que eram oito horas da noite. Ele em breve chegaria em casa.
— O que esta casa é sem você? — Falei para as paredes enquanto pensava em Lily. — O que sobrou? Vejo as paredes brancas, o piso bem cuidado e a luz que chega com facilidade ao chão. Tudo tão iluminado e brilhante, mas com um espectro sombrio. Construímos essa casa juntos e criamos nosso filho nela. Sem você, é como se parte da casa houvesse desmoronado.
Eu estava dormindo no sofá desde a morte de Lilian. Eu simplesmente não me sentia bem ao deitar na cama sem tê-la ao lado. Era uma sensação estranha, quase que como eu estivesse a traindo, por mais que isso não fosse verdade. E, em meio a todas essas memórias, pude finalmente ouvir a porta da sala ser destrancada. Era Liam.
— Pai? — Ele chamou ao enxergar o vazio.
— Na sala — respondi.
O garoto se aproximou rapidamente e sentou-se ao meu lado no sofá. Ele estava com a barba mal feita e os cabelos mais longos do que o usual. Respirei fundo e disse:
— Tudo certo?
— A universidade? Sim. Os resultados estão sendo positivos. Mas então, do que quer falar? — O garoto estava sendo um tanto quanto objetivo.
— É sobre a Cure. Você deve estar pensando: “o que a Cure tem a ver comigo? ”. Mas você logo entenderá. Aguardemos a pizza chegar antes de iniciar essa conversa — expliquei.
Liam estranhou minhas palavras assim como previ, mas as aceitou. Alguns minutos se passaram e a pizza finalmente chegou. Paguei e quando vi já estávamos sentados no chão da sala, com a caixa de pizza em cima do centro e cada um com uma fatia na mão.
— A melhor! — Liam ficou feliz ao perceber que se tratava do seu sabor preferido.
— Pensei em você. — Eu dei um singelo sorriso e comecei a degustar a deliciosa pizza.
Enquanto comíamos e bebíamos, o silêncio imperou entre nós dois. Eu ainda pensava no que dizer, em quais palavras utilizar. Quando me vi, já havíamos acabado a pizza e eu nada havia dito. Até que o próprio Liam puxou o assunto.
— Então? O que tem a Cure? — Ele perguntou.
— Bem, é uma longa história. Esteja pronto — eu disse.
Meu filho me olhou com ainda mais estranheza, mas assentiu com a cabeça e redobrou a atenção para as palavras que ouviria a seguir. Eu respirei fundo e comecei:
— A Cure foi uma das conquistas da minha vida. Foi ela que permitiu que tivéssemos tudo que temos hoje, desde nossa casa até sua faculdade. Eu sou muito feliz por tudo que construí ao lado de Anthony Grace, pelo menos naqueles tempos de ouro. Éramos jovens animados e com o desejo de ser algo mais do que o ordinário. Como você bem sabe, eu venho de família pobre. Não só pobre, mas totalmente desgraçada. Minha mãe me abandonou e meu pai era um alcóolatra. Para piorar, meu irmão foi morto enquanto eu ainda era muito jovem. Ele era o meu modelo de pessoa, o meu herói.
Pausei para respirar e tomar mais um gole da bebida em cima do centro. Liam estava concentrado, tendo piscado poucas vezes enquanto eu falava. Prossegui:
— Conheci Anthony na faculdade. Você conhece a história: fizemos amizade e criamos a Cure anos depois. O sucesso e o dinheiro vieram, mas ainda não éramos nem metade do que somos hoje. Até que uma proposta nos foi feita. Um político queria que atrasássemos a entrega de uma vacina. Não era nada grave. Então, com o apoio de Anthony, eu resolvi atrasar.
Naquele momento, Liam começou a franzir a testa e balançar a cabeça em sinal de desaprovação. Mas eu prossegui com minhas palavras:
— Ninguém morreu por causa daquilo e a Cure ganhou muita influência. Crescemos, mas logo mais propostas moralmente questionáveis começaram a aparecer. E uma vez que já tínhamos nos corrompido, continuamos a nos vender. Chegamos a produzir algumas doenças, nada muito sério. Sim, aquelas teorias malucas sobre a indústria farmacêutica são reais. Também deixamos de revelar vacinas prontas para poder lucrar com outros medicamentos. Era algo que fazia parte do nosso meio, sabe? Ou melhor, faz parte.
Liam se levantou com os punhos cerrados, mas respirou fundo e percebeu que eu ainda tinha mais para revelar. O garoto já imaginava aonde eu iria chegar.
— E continuamos. Após aquela festança de 2015, eu decidi parar. Mas Anthony insistiu muito para que fizéssemos um último projeto. Você sabe como valorizo a amizade. Por isso, eu aceitei fazer um último trabalho com o meu até então melhor amigo. Esse trabalho consistia, supostamente, na criação de uma arma para o governo. Um mecanismo biológico que enfraquecia e causava alucinações no inimigo. — Eu falava, mas fui interrompido.
— Você causou aquilo em mãe!? — Liam gritou.
— Escute! — Respondi. — Anthony me enganou. A arma foi vendida para terroristas. Eu não sabia de nada. Mesmo assim não retiro minha culpa e entendo completamente o seu ponto. Eu só peço que compreenda o meu lado: eu não queria que isso acontecesse. Eu vou me entregar. Mas é por isso que resolvi contar para você antes. Eu sou o culpado e peço desculpas.
Um silêncio pavoroso tomou conta da sala. “Será que fui direto demais? ”, pensei. Eu tentava costurar em minha mente uma forma de tornar toda aquela situação menos tensa, mas essa era uma missão impossível. Liam apenas me encarava com seus olhos tensos e com os lábios se mexendo rapidamente como se ensaiasse falar algo, mas não conseguisse soltar as palavras. Uma lágrima começou a escorrer pelo canto de seu olho e então eu soube que ele havia processado a informação. O pai dele fora o responsável pela morte da mãe.
— Desculpa — repeti.
Sem falar nada, Liam se retirou de minha presença e foi até o quarto. Lá ele se trancou e eu não o vi mais durante aquela noite. “O que está feito está feito”, pensei. Não havia volta. Agora eu deveria tomar uma última decisão: me entregar para a polícia. Mas não só isso: revelar toda a verdade sobre a indústria farmacêutica para o mundo. Eu não poderia mais fazer parte disso. Não poderia mais me manter calado perante todo o sangue que era derramado no silêncio de um laboratório.
Naquela noite eu escrevi o texto que se tornaria referência no combate a todo e qualquer tipo de esquema fraudulento da indústria farmacêutica. Entreguei-me a polícia no dia seguinte sem nem mesmo poder me despedir de Liam. Eu esperava poder tornar o mundo melhor após aquilo. Consegui? Bem, não tenho a resposta enquanto escrevo este texto. Mas você pode achar a resposta, caro leitor. Segue abaixo o texto em que revelei tudo. Obviamente eu apresentei arquivos e outras formas de comprovação quanto as minhas palavras para a polícia.
Meu nome é Reed Kaas e eu sou o fundador da Cure. A empresa foi fundada junto de Anthony Grace e, em poucos anos, se tornou uma verdadeira referência no ramo farmacêutico em todo o mundo. O segredo do sucesso? “Trabalho duro e persistência”, você deve estar pensando. E bem, isso é verdade. Mas admito que não foi exatamente o caso da Cure e nem é o caso de várias grandes empresas do ramo. Nós nos metemos em negócios sombrios e simplesmente somos incapazes de sair deles. E é isso que venho denunciar: nós estamos envenenando vocês aos poucos.
Todos devem saber do ataque ocorrido em Las Vegas e posteriormente em Dallas. Obra de terroristas malvados, certo? Bem, eu concordo plenamente que eles são malvados, mas não são os únicos. A arma utilizada por eles foi criada pela Cure. Eu não sabia que eles eram os compradores, pois fui ludibriado e acreditava que o governo desejava a arma. Anthony Grace fez toda a negociação e é o responsável pelo fato da arma ter chegado nas mãos dos terroristas. Mas obviamente isso não isenta a minha culpa.
Como sabemos, a Cure e as outras empresas tem a missão de criar a cura para nossos males e de trazer conforto para o homem que sofre. Mas muitas vezes objetivos políticos ou monetários acabam nos desviando desse caminho. Por isso nós atrasamos a produção de vacinas para lucrar com a venda de medicamentos. Por isso nós desenvolvemos algumas doenças para influenciar a movimentação turística de algumas regiões, tudo a mando de políticos ou outros magnatas. E por isso alguns chegam a desenvolver doenças para conter o avanço populacional. “Nós”. Não falo só da Cure, mas do establishment como um todo. Estamos todos cercados e eu assumo que fiz parte dos que cercavam.
Entendam: não é questão de ideologia ou mesmo o dinheiro em si. É questão de poder. E arrisco dizer que existem forças ainda maiores atuando nesse meio, coisa que nem mesmo eu em minha experiência maléfica quero me envolver. Espero que com esta mensagem todos possam abrir seus olhos e enxergar o silencioso mal que nos cerca. Existe um monstro e nós não podemos alimentá-lo. Que possamos destruir esse monstro. Questionem tudo e não aceitem que o mal vague livremente. Não se esqueçam disso. Essa é a minha mensagem.
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