Eu sou a cura
14 Loucura
Notas iniciais
E foi assim que eu fui parar atrás das grades. Tudo foi visto como um verdadeiro espetáculo, como um grito que se soltava após anos de espera. A mídia tradicional, blogs de teorias conspirativas e as próprias pessoas comuns começaram a falar sobre o assunto. Todo o processo foi lento e bastante repetitivo. Fotos minhas por todo o lado com o chamado “testemunho” ou “revelação”. Alguns acreditaram, outros duvidaram, enquanto outros pensaram que eu só havia enlouquecido. Não importava mais: a verdade já estava liberta.
Meus primeiros dias na cadeia foram realmente duros para mim. Acostumado com todo o conforto, foi um verdadeiro choque viver em uma pequena cela e sem a liberdade de ir e vir que qualquer cidadão tem. Além disso, dei adeus ao luxo. Por sorte, eu recebi um tratamento relativamente humano. Não que eu merecesse, mas aliviou a situação. Além disso, o meu sofrimento por lá também fez eu me sentir bem. Contraditório, não? Mas eu sentia que estava pagando pelos meus erros. Claro, nenhum sofrimento traria Lily de volta ou nenhuma das outras pessoas mortas. Entretanto, eu estava “pagando a dívida”, posso dizer.
Paralelamente, a arma que eu criei continuava a ceifar vidas. Com apenas um dia preso, eu pude receber a visita de Jennifer Hoggart e ter ainda mais notícias. Ela estava pálida, como que em choque. Não conseguira processar todas aquelas toneladas de informações dos últimos dias.
— Aquilo tudo que você disse era verdade? — Jenny falou pausadamente, como se tivesse medo da resposta.
— Palavra por palavra. — Respondi com plena sinceridade.
Os olhos da bela moça começaram a se encher de lágrimas que aos poucos escapavam pelo seu rosto. Com a voz abafada, ela disse:
— Eu não acredito, Reed! Eu não acredito que você fez isso!
E naquele momento eu senti mais um baque que eu não esperava. Não imaginei que decepcionar Jenny iria me afetar tanto. Ver a mais dedicada funcionária da Cure chorando daquele jeito por causa de mim... era horrível! Eu era o modelo dela. Ela me via como inspiração, mas eu havia posto tudo a perder. Era o preço da verdade. Respirei fundo e juntei forças para encontrar uma resposta.
— Jennifer, desculpa. Eu estou sofrendo também, mas sei que mereço. Isso tudo é culpa minha. Mas simplesmente não sei o que dizer para acalmá-la. Eu já estava envolvido nisso há anos. Tentei corrigir. Sei que foi tardio, mas eu tentei. Você consegue compreender isso? — Tentei me explicar.
Jenny ainda chorava, mas reservou forças para falar uma vez mais:
— Você deveria ter pensado na Lily. Deveria ter pensado no Liam!
E aquelas palavras cortaram o meu coração, principalmente porque ela estava certa. Por que não pensei na minha esposa e no meu filho antes de tomar as piores decisões na minha vida? Eles eram minha família, meu suporte. Eu deveria tê-los honrado enquanto ainda tinha chance.
— Sei que o que eu fiz é imperdoável. Mas por favor, me responda: a cura foi achada? — Eu desejava que todo aquele pesadelo tivesse fim.
Enquanto enxugava as lágrimas, Jennifer balançou a cabeça negativamente. Em seguida, já recomposta, disse:
— Nada de bom. Estamos na mesma e cada vez mais pessoas morrem, Reed!
“Reed”. Mais uma vez ela relembra a culpa e o peso dos meus atos. Mas repito: ela estava certa. Mas estava na hora de partir. Antes que ela fosse, entretanto, eu disse:
— Diga ao Liam que eu o amo. Ele não tem culpa disso.
— Definitivamente não. Ele é diferente de você! — E foi assim que Jennifer se despediu de mim.
Aquela conversa foi curta, mas intensa. Quando eu fui conduzido de volta para minha cela, pude finalmente refletir: aquele era o sabor da redenção? Um sabor amargo, sofrido e azedo. Nada de histórias de superação e a felicidade na dor. Se nos primeiros dias eu me sentia bem através do sofrer, naquele momento eu apenas sentia o próprio sofrer. Ao mesmo tempo refletia que Liam não tinha ainda me visitado. Nossa última conversa fora a da revelação, onde tudo virou pó. É, eu definitivamente havia encontrado o meu inferno.
Mas o inferno não pertencia apenas a mim; Liam sofria intensamente da sua própria maneira. Ele agora estava vivendo em uma casa grande e vazia, sem a presença da mãe falecida e do pai assassino. Uma verdadeira história de terror. Enquanto andava pela casa, imaginava a cada momento encontrar mais uma vez com a mãe. Lilian Kaas e seu sorriso único, sua inocência no olhar e sua voz que aquecia corações. Ao mesmo tempo, meu pobre filho ainda tentava preservar a imagem do pai bondoso, ainda que duro. Um pai com discursos estranhos, mas bem intencionado. Mas logo a imagem do crápula assassino ofuscava qualquer resquício de bom pai.
O garoto ainda tentava ir para as aulas na faculdade, mas era ignorado pelos colegas e os professores o olhavam torto. Sua timidez estava voltando e ele cada vez mais perdia a coragem. “O que mais a vida quer de mim? ”, imagino que ele devia pensar. E era um questionamento válido. Até hoje eu penso se eu teria aguentado tudo que o que Liam passou. Foi um sofrimento maior até mesmo do que o que eu passei, imagino.
Mas o garoto não ficaria inerte, afinal. Certa noite, ele estava na assombrada residência Kaas e bebia um Uísque de excelente qualidade. Sozinho, o garoto encarava a parede branca enquanto esperava que um raio caísse sobre sua cabeça para acabar com todo aquele sofrimento. Ele já era de maior e não havia ninguém responsável pelo garoto. Mas, no meio da solidão, o silêncio foi rompido pelo toque do celular. Ao encarar a tela, Liam leu “Jenny H.”. Relutante, ele ficou alguns segundos refletindo, mas viu que não faria mal atender a ligação.
— J? — Ele atendeu.
— Liam? Como você está? — Jennifer demonstrava realmente se importar.
— Eu estou legal. — A voz do garoto estava um pouco abafada e confusa. Talvez ele tivesse chorado demais. — E você?
— Liam, você não parece bem. Eu estou indo aí, certo?
— Jenny, não precisa se preocupar!
Agora o garoto mostrava-se levemente agressivo. Não como se ele rejeitasse a presença e ajuda de Jennifer, mas ele se via na defensiva. A vida já havia o atacado demais.
— Liam, eu me preocupo — Jenny respondeu.
O silêncio se fez presente por um breve momento. Liam refletiu sobre aquelas palavras. “Eu me preocupo”. Sim, isso era algo que ele precisava. O garoto respondeu:
— Certo. Pode vir.
Era uma noite chuvosa e depressiva. Fazia frio, as nuvens eram espessas e o barulho da chuva não trazia a calmaria de sempre. Além disso, trovões tornavam tudo mais assustador. Jennifer pegou seu carro e logo se direcionou para minha casa. Ou melhor, a casa de Liam. Ela havia passado o dia na Cure, sendo aquele mais um dia sem muito progresso. A frustração também havia se tornado algo comum em sua vida. Mesmo assim, ela ainda teve sorte de que o suplente que assumiu a administração da empresa era um homem sério e honesto. Mesmo com as dificuldades, a luta pela cura continuava.
Enquanto aguardava a garota, Liam pegou um dos álbuns da família. Ele encontrou fotos desde o dia em que eu e Lily compramos a casa na qual ele mesmo estava naquele momento. Um casal jovem, feliz. Seguindo mais algumas páginas, ele pode ver sua primeira foto: Lily grávida e eu com um sorrisão no rosto. Estávamos num parque cheio de crianças. A inocência e ingenuidade que transbordavam da foto chegaram a fazer Liam ensaiar um sorriso. Na página seguinte ele se vê como um belo bebê com pouco cabelo e um rosto bochechudo. A mãe o segurava com intenso zelo e amor. Posteriormente, ele estava nos meus braços. O dia em que Liam nasceu foi um dos dias mais fantásticos da minha vida. Quando eu senti aquela vida em meus braços, foi como se algo fosse ligado entre nós dois. Pai e filho, um só sangue.
Mais adiante, Liam encontrou fotos em que ele já estava com mais idade. A infância tímida, mas feliz. Ele brincava no mesmo parquinho em que estávamos durante a foto em que Lily estava grávida. Posteriormente, Liam viu suas fotos na juventude, quando participou do seu campeonato esportivo. Mas uma vez um sorriso chegou a ser ensaiado, mas logo se dissipou com as tristes memórias. E então a campainha tocou. Era Jenny.
— Jenny! — Liam agora foi mais amigável com ela ao abrir a porta. — Obrigado por vir. Eu sei que eu não fui tão legal.
— Tudo bem, L! — Jennifer sorria ao encarar mais uma vez os grandes olhos do meu filho.
Ela entrou na casa e, após Liam fechar a porta, o som da chuva ficou para trás. Jennifer contemplou o caos que estava a cabeça do meu filho através da situação da casa. Os sofás estavam caóticos, completamente tortos e desarrumados. O chão sofria com a falta de manutenção, além de que ela notou a presença de garrafas vazias de bebidas alcóolicas pela sala. Entretanto, ela não queria ser direta em qualquer crítica ou conselho que fosse dar. Sabia que meu filho estava na defensiva, sendo necessária uma abordagem diferente.
— Será que podemos nos sentar? — Jenny disse.
— Claro — Liam respondeu.
Liam conduziu a bela garota até o desajustado sofá. Logo depois ele foi até o som e colocou para tocar algumas músicas. Abaixou um pouco o som e logo se direcionou para o sofá. Ainda de pé, perguntou:
— Quer beber algo?
Jennifer recusou e, logo em seguida, fez um gesto para que Liam sentasse ao seu lado. O garoto seguiu as instruções dela e, agora lado a lado, começaram a conversar de fato.
— Eu senti tanta falta de você — Jennifer tentou ser meiga.
— Eu também. Mas as circunstâncias nos ferraram, hein? Eu, filho de um psicopata que ganha dinheiro matando pessoas. Você, a funcionária dele. Esse mundo é muito doido, não? — Havia um quê de tristeza e ironia na voz de Liam. Era como se ele tentasse externar a dor e a raiva, mas esses sentimentos insistiam em se manter presos em sua garganta.
— A vida é isso, não? Cada um se ferrando. Mas não dá pra parar. Sempre existe algo pelo que lutar, não é?
— Será? Passamos a vida inteira escutando isso. “Todos nós temos uma missão”, as pessoas dizem. Sempre falam de um objetivo maior, um motivo para viver. Mas qual é? Digo, até agora eu não encontrei meu objetivo. Eu não vivo, apenas sobrevivo. Sou um figurante neste palco da morte e do tempo. O que faço aqui?
Jennifer se espantou com o discurso de Liam. Era algo incomum vindo dele, mas mostrava a profundidade de seu sofrimento. Mas a garota não se conteve. Ela segurou as duas mãos do meu filho e, olhando para o fundo de seus olhos, disse:
— Não sabemos aquilo que a vida é até que ela assuma o que de fato é. Eu mesma não sei o que estou fazendo aqui. Trabalho numa empresa que tem como símbolos dois homens corruptos. Mas estamos aqui, não é? — Jenny procurava palavras, mas não as encontrava. — Quer saber? Você está aqui pelas pessoas. Pelos sorrisos que você pode plantar, pela tristeza que pode arrancar. Não é por elas que vivemos? Nossa família, nossos amores, nossas amizades? Se a única certeza é a morte, eu quero morrer sabendo que cultivei a vida. Esse é o sentido. Essa é a missão. A única diferença é como fazer isso. Eu ainda acredito no bem, Liam.
As palavras da cientista conseguiram entrar no coração do meu filho e trazer luz e esperança para a sua alma. O mundo virou as costas para ele, mas não ela. Ela se fazia presente e buscava ajuda-lo.
— Jenny... — Liam falou pausadamente. — Eu nem sei o que dizer!
— Não precisa dizer nada. — Jennifer começou a se aproximar. — Apenas não deixe morrer aquilo que você tem de melhor.
Aquelas palavras foram o necessário para Jennifer passar os braços em volta do corpo de Liam e beijá-lo intensamente. Naquele momento não havia mais chuva, música ou inquietude de pensamento. Liam pode, finalmente, viver apenas aquilo que importava: o presente. Mas como na vida nenhuma felicidade dura para sempre, aquele momento bom logo foi dissipado. O bater da porta interrompeu o duradouro beijo entre os dois.
Liam encarou os olhos de Jenny e balançou a cabeça afirmativamente, como se transmitisse tudo apenas com a mente. Ele se levantou para atender a porta enquanto ela aguardaria na sala. Liam passou pelo hall e foi até a entrada. Ao mover a maçaneta e abrir a porta, ele pode vislumbrar aquele que aguardava do lado de fora: Anthony Grace. Vestindo uma grande capa de chuva e com os ossos ainda mais visíveis através do magro rosto, Anthony parecia o ceifador sinistro.
— Tony? — Liam se assustou.
— Posso entrar? — Anthony tremia de frio.
O meu filho lembrou de toda verdade que eu revelei. O ódio então começou a subir pela sua cabeça até ser liberado em palavras.
— Não. Dê o fora daqui agora! — Liam ordenou.
— Poxa, Liam! — Anthony riu como se estivesse com medo. — Não faça isso. Eu e seu pai fomos grandes amigos. Por que isso?
Da sala, Jennifer não conseguia identificar as vozes. A moça então chamou:
— Liam? Tudo bem?
Ao ouvir a voz, Anthony reagiu.
— Ah, a bonitona da Jennifer? Está pegando ela, Liam?
O comportamento do meu ex-amigo era completamente estranho, assustador e tinha um ar depressivo. Sua expressão de morte e o riso de sofrimento só faziam a situação ficar mais tensa. Liam cada vez se enfurecia mais.
— Dê o fora daqui agora, seu filho da puta!
Anthony começou a encarar o chão, como se segurasse lágrimas. Então, com a voz sofrida, ele disse:
— Eu não mereço isso!
E após aquelas palavras, o louco Anthony Grace puxou uma pistola e a apontou diretamente para o peito de Liam.
— Tony?! — Liam ficou estático, temendo pela própria vida.
Enquanto isso, Jennifer chamou mais uma vez. Sua voz ecoou, se misturou com a chuva e com o olhar tenebroso e demoníaco de Anthony Grace.
— Tudo isso é culpa sua! É culpa do seu pai! É culpa da puta da sua mãe! Eu estava lá para ajudar, eu fiz de tudo para auxiliá-lo. A cura, tudo. Mas não só isso. Eu tinha uma vida inteira com Reed Kaas. Ele foi o único amigo que eu tive na vida, a única pessoa que me tratou como igual. Mas então ele me trocou. Então ele desistiu de tudo, enquanto eu perecia. E fiquei largado como um cão! — Anthony gritava e ia entrando na casa.
Liam, com medo de ser morto, acompanhava o movimento de Anthony e entrava junto na casa.
— Eu tentei falar, fazer a coisa certa. Céus, o que é o certo? Ninguém nunca sabe. As pessoas moldam aquilo que é moral e ético de acordo com suas vontades! Essa é a verdade dolorosa que o seu pai não quis admitir. Ele preferiu se esconder no falso moralismo! Se entregou e me entregou junto. Traidor! — Anthony gritava freneticamente. A mão que segurava a arma começava a tremer, ao mesmo tempo em que ele andava mais. — Agora estão todos procurando por mim. Reed manchou o meu nome! Eu era alguém, Liam. Agora sou só um peão num jogo de peças muito maiores. Estamos dominados, porra!
Em meio ao medo e nervosismo, Liam tentou argumentar:
— Calma, Tony. Eu não sou meu pai. Se ele fez algo de errado com você, desculpa! Ele também errou comigo. Ele me fez sofrer e ainda matou minha mãe. Acho que estamos no mesmo barco, não?
Anthony começou a rir. Sua mão chacoalhava ainda mais a arma.
— Não é bem assim — ele começou. — Reed desistiu por causa de vocês. Por causa da família. Patético. Hora de resolver o problema.
Nesse momento, a mão de Anthony segurou firme a pistola. Liam então fechou os olhos aguardando a morte que o esperava. Entretanto, Jennifer se esgueirou pelo lado e, com uma garrafa na mão, acertou a mão armada do bandido. A arma caiu sem causar danos ao meu filho. Anthony gritou de dor e reparou que pedaços de haviam entrado em sua mão.
— Sua filha da puta! — Ele xingou e tentou agarrar Jennifer.
Entretanto, Liam avançou antes e derrubou Anthony Grace. No chão, ambos trocaram socos carregados de puro ódio. Até que Grace rapidamente pegou a arma próxima a sua cabeça. Ele tentou apontar para Liam, que estava em cima dele, mas o meu filho segurou a mão do malfeitor e ele acabou escapando de ser acertado pelo tiro. Entretanto, a bala seguiu um triste trajeto e penetrou no corpo de Jennifer Hoggart.
A cientista caiu no chão gemendo de dor enquanto os dois homens brigavam pela posse da arma no chão. Até que, finalmente vencendo pela força física, Liam segurou as mãos de Antony e apontou o cano da arma contra o do malfeitor.
— Você me obrigou a isso! — Liam gritou.
O garoto então pressionou as mãos de Anthony Grace, fazendo com que o monstro disparasse contra o próprio peito. Poucos segundos após o embate, o chão próximo do corpo de Anthony já estava encharcado de sangue. Mas não era isso que preocupava Liam. Ele olhou para trás e viu Jennifer, no chão, sofrendo de dor e chorando enquanto o sangue saía de seu ferimento.
— Meu Deus! — Liam gritou.
Sem tempo para chamar um resgate, o meu filho carregou Jennifer até o carro e a pôs deitada no banco de trás. Foi até o assento dianteiro e começou a dirigir em perigosa velocidade para o hospital. A chuva ainda era forte, ao mesmo tempo em que um triste Anthony tinha seu agonizante fim na minha própria casa.
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