Eu sou a cura
3 Irmão
Notas iniciais
Mas nem sempre foi assim. Quem vê o luxo e a festividade da minha vida recente, não sabe o quanto sofri em minha infância. Pai alcoólatra, mãe ausente e desajustada. O clichê perfeito para justificar pessoas más, não é? Eu olho para meus colegas de prisão e vejo meu pai em cada um deles: desajustados, viciados e sem saber o que fazer da vida. A maioria tem família lá fora, mas você acha que eles se importam? Claro, sempre choram e fazem cena com os familiares por perto. Mas por dentro são mais podres que um defunto. Na cabeça deles só existe desejo. Desejo de alimentar o vício, vício este que não é necessariamente relacionado ao álcool ou outras drogas, mas o vício pelo poder.
Sim, o poder de fazer o que bem entender sem ter que entregar uma justificativa à sua própria consciência. Pessoas num ponto de perversão tão grande que perderam a si mesmas. Mas quem sou eu para julgar? Eu produzo a peste do mundo moderno, sou pior do que o pior daqui. Mas tenho que confessar que divagar sobre o quão maus os outros são é algo que me traz alívio. Descarregar o peso das minhas responsabilidades, culpar a sociedade, o governo ou uma garrafa de cerveja é algo que me tranquiliza.
Vejam só, estou eu me perdendo mais uma vez em meio a uma tempestade de pensamentos. Do que eu falava mesmo? Ah, a minha origem. Que tal começar pelos meus progenitores? Preston e Linda Kaas. Duas pessoas que eu simplesmente não consigo enxergar como família até hoje. E, tendo em vista que já estão mortos, não acho que enxergarei nunca. Dessa forma, por onde começar?
Preston era um homem cheio de demônios. Infância pesada, delinquente juvenil e um amor incontestável pelo álcool e pelo jogo. Trabalhava numa fábrica de garrafas, até que um acidente o tornou inválido. Veja bem, o homem não podia mais fabricar garrafas, mas desde então passou a comprar mais e mais garrafas de cerveja. O excesso era tanto (perdão pelo pleonasmo) que o cheiro de álcool ficava impregnado pela casa. Sim, eu sentia como se morasse em um bar. Era 1975, eu era apenas um garotinho de sete anos de idade. De manhã eu estudava e, quando voltava, tinha que aturar meu pai embriagado. À noite ele ia jogar e só voltava pela madrugada. Seu retorno geralmente incluía desmaiar em plena sala de estar.
Sobre isso, minha mãe sempre foi um tanto quanto medrosa. Confesso que nunca presenciei Preston batendo nela, mas ele sempre fora grosseiro. Mas eu não pretendo tirar a culpa dela: ela era uma mãe verdadeiramente ausente. Não entendo até hoje. Ela trazia as latas de Preston como uma escrava, ia trabalhar, voltava, preparava o jantar e ponto. Nada de perguntar sobre como fora o nosso dia, se o dever de casa estava sendo feito ou se eu tinha brigado com alguém na escola (não que eu fosse desse feitio). Eu me lembro bem de um dia que resume o meu cotidiano na infância.
Eu havia acabado de chegar da escola. Abri a porta de casa, cuja madeira apodrecida combinava com o resto do meu lar: sujo, pequeno e hostil. Revistas, latas e outras coisas espalhadas pela casa empobreciam o ambiente, além da goteira eternamente presente logo após a porta do meu quarto. Era meu inferninho particular.
— Quem é?
A voz rouca, embriagada e pesada do meu pai ecoou pela sala enquanto eu pisava leve na madeira barulhenta.
— Eu perguntei quem é!
A voz se tornava agressiva. Eu lembro bem o quão eu tentava evitar qualquer contato com o Preston. Conversar com ele se resumia a sentir o bafo de álcool e ter vergonha em admitir que tenho os genes daquela criatura. Não que eu pensasse nisso com sete anos, mas era uma espécie de autodefesa.
— Sou eu, pai — eu finalmente respondi.
— Ah, garoto. Demorou hoje! — A voz dele vinha do quarto.
Esse era um dia especial: eu levava comigo os papéis que meus pais deveriam assinar para pagar a mensalidade da escola. Eu tinha uma bolsa parcial por causa da nossa condição de vida, mas ainda assim tínhamos que pagar uma parcela. Como um cavaleiro querendo se aproximar de uma fera, eu fui até a cozinha que estava lotada de pratos sujos por todo lugar: mesa, cadeira e pia. Era uma bagunça completa e nojenta. Mas eu não podia fazer muita coisa. Abri a geladeira e tirei uma garrafa de cerveja aberta. Cerca de metade da bebida já havia sido consumida. “Espero que sirva”, eu pensei.
Eu me aproximei do quarto lentamente, tendo cautela para não derrubar a garrafa. Empurrei a porta semiaberta. O quarto estava em uma quase completa escuridão, sendo levemente iluminado pela televisão que chuviscava incessantemente. Com a pequena luz eu via o monstro deitado na cama: um homem barrigudo, careca e com uma mal cuidada barba negra. Ele fedia ao álcool de mais baixa qualidade e claramente precisava tomar banho. “Como mãe vive com esse cara? ”, eu sempre pensava. Na verdade, eu me pergunto até hoje. Com a voz fina de uma criança, eu disse:
— Pai?
Ele se mexeu na cama e se virou para mim. Estendeu o braço como um mendigo quando pede dinheiro. Eu entreguei a garrafa para ele e disse:
— Tem outra coisa.
Segurando a garrafa com força ele bebeu todo o álcool de uma vez só. Então virou o rosto para mim e disse:
— Acende a luz aí, moleque.
Eu, como pedido, acendi. Então, com as mãos tremendo, mostrei para ele os papéis para o pagamento da mensalidade.
— Que porra é essa, moleque? — Ele não estava em seu melhor dia.
Morrendo de medo e com a voz trêmula, eu disse:
— O senhor sabe, pai. São os papéis da escola. O senhor recebe todo mês. Não está lembrado?
Preston amaçou os papéis com força e os jogou em mim.
— Leia essa merda, moleque! — Ele gritou — Você não vê!? Aumentaram a droga da mensalidade. Do que adianta darem a merda de um desconto se logo em seguida aumentam o preço de tudo?!
Com os olhos lacrimejando, eu apanhei as folhas e disse:
— Isso deve ser chato, pai. Mas não é culpa minha.
— Não é?! — Ele gritou mais uma vez — Na sua idade eu já fazia algo pra ajudar meus pais! O que você faz? É de uma geraçãozinha de fracotes. Você nunca vai ser nada! E para de chorar!
Não tinha como eu segurar. Eu saí chorando do quarto dele. Minha única vontade era de pegar uma daquelas garrafas de cerveja e enfiar na cabeça dele. Como alguém poderia ser tão duro com o próprio filho? Eu não entendia. Eu era estudioso, fazia o que eles pediam e não me comportava mal. Mas a cada dia eu era mais ignorado pela minha mãe e humilhado pelo meu pai. Aquelas duas pessoas definitivamente nunca foram minha família.
Chegando em meu quarto, eu tranquei a porta e me sentei no chão. Com as costas encostadas na parede, tudo que eu via eram as duas camas do quarto, um armário caindo aos pedaços e uma pequena mesa de estudo em condições deploráveis. Além disso, minha pequena caneca d’água estava no chão, logo abaixo da minha cama. Eu chorava sem parar. Questionava tudo. Sim, eu era um garoto de sete anos questionando o porquê da minha vida ser daquele jeito. O que eu fiz para merecer? Cheguei até mesmo a orar, prática pouco usual se tratando da minha pessoa. Não me lembro de ter obtido resposta alguma. Toda e qualquer autoridade das pessoas ao meu redor não passava de teatro. Quem é que realmente podia falar algo de mim?
Após um tempo indeterminado, minhas lágrimas começaram a secar e eu havia deixado de soluçar. Não adiantava ficar parado. O idiota do Preston dissera que eu não seria nada na vida. Isso não podia ficar assim. Mas, ainda que com questionamentos complexos para minha idade, eu era apenas um garoto de sete anos de idade. Saí do quarto sorrateiramente e fui para a cozinha. Desarrumada, como já citado, mas ainda assim havia alimento nela. E o meu preferido era, teoricamente, inalcançável: um pote de biscoitos estrategicamente colocado em cima do armário de pratos. Eu não era autorizado a comer esses biscoitos quando bem entendesse, mas eu merecia.
Tirei os pratos de cima de uma das cadeiras e a coloquei logo antes do armário. Subi em cima e coloquei os dedos nos inalcançáveis biscoitos. Entretanto, eu tive o tremendo azar de uma das pernas da cadeira quebrar. Com isso, eu caí feio no chão, levando o pote de biscoitos junto. O pote de vidro se estraçalhou. Cacos e pedaços de biscoito se espalharam pelo chão. Minha visão estava turva, até que eu finalmente contemplei o horror quando vi meu próprio sangue se misturando àqueles pedaços de biscoito e vidro. A dor começou a tomar conta do meu corpo e as lágrimas retornaram a encharcar o meu rosto.
— Pai! — Eu gritei o mais alto que pude.
Entretanto, não obtive resposta. Até hoje penso se meu pai me ouviu, ou não. Será que ele apenas adormeceu, ou o cretino estava simplesmente me ignorando na esperança de se livrar do peso que eu era? Nunca saberei. O que sei é o horror que vivi. Enquanto meu pai não aparecia (e ele não apareceria nunca, afinal), eu contemplava em minha cabeça o terror de morrer por um motivo tão idiota. Pior, o fato de eu morrer só. Lá estava eu, estirado no chão, sozinho e abandonado. Tudo acabando por causa de uma ambição de criança que tive, ao mesmo tempo em que eu gritava para o vazio e o nada me respondia. O silêncio era ensurdecedor e aos poucos eu comecei a ouvir os passos da morte.
— Meu Deus! Reed! — Eu ouvi a familiar voz.
Não era a morte, afinal. Não era meu pai tampouco, ou mesmo minha mãe. Era a minha verdadeira família: meu irmão de sangue e coração, Liam. Sim, o mesmo nome do meu filho. Ele apareceu como um verdadeiro herói, a verdadeira salvação para mim. Na época, ele tinha treze anos, mas posso dizer que se comportava como o único adulto da casa. Ele era meu irmão, meu pai, minha mãe e meu tudo.
— Liam! — Eu respondi.
Com seu cabelo raspado e seu corpo quase esquelético, o altíssimo irmão se ajoelhou ao meu lado e, sem receio algum, olhou para meus olhos e disse:
— Eu vou ajudar!
Ele se afastou, mas eu sabia que meu irmão não me abandonaria. Eu não ouvia mais as respostas do vazio. Eu tinha a plena certeza de que Liam Kaas estava fazendo de tudo para me proteger de qualquer perigo que fosse. E eu estava absolutamente certo, algo que é raro em toda a minha vida. Logo ouvi os seus passos e ele retornou. Mais uma vez ajoelhado, ele começou:
— A ambulância já está chegando, maninho. Mas me conta aí, o que aconteceu?
Sua doce voz e seus olhos castanho me acalmavam. Ele sempre estava preocupado em como eu me sentia. Talvez, afinal, eu tivesse algo bom na minha infância.
— Sabe como é: eu não resisto a um bom biscoito — eu brinquei.
Ele riu. Talvez nem achasse graça na piada infantil, mas ele ria para que eu também sentisse alegria, mesmo que na pior das situações. De repente foi como se o cheiro do álcool e a sujeira da casa não incomodassem mais. Era só eu e ele. Eu e meu maninho.
— Você tem que se cuidar. Melhor usar um capacete na próxima — ele retrucou, brincando.
Mesmo com a dor, eu ri. A felicidade era maior que o sofrimento. O sangue não mais assustava.
— Bem, fica paradinho. Vou abrir a porta para eles.
A ambulância havia chegado. Mesmo com o som de urgência, algo me dizia que tudo ia ficar bem. No fim das contas não era nada demais. Eu estava bem, afinal. Posteriormente minha mãe me deu um abraço e pediu desculpas pela ausência, nunca tentativa fracassada de me fazer aproximar mais dela. Meu pai comprou cerveja para comemorar. Como se ele se importasse. Mas nada disso mudava o fato: Liam me salvou e ele estava cuidando de mim. “Ele sempre estará ao meu lado”, eu pensava.
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