Eu sou a cura
8 Família
Notas iniciais
Era o verão de 1992 quando eu tomei a melhor decisão da minha vida. Eu e Lily estávamos em Nova York de férias e resolvemos visitar o famoso Central Park. Como um oásis em meio ao deserto, o verde no meio daquela selva de pedra encantava de maneira genuína. Por mais que boa parte dele fosse artificial (por exemplo, é possível “desligar” a cachoeira que existe lá), sua beleza era inquestionável. Um verdadeiro pulmão no meio da cidade. Era como se o ar de lá fosse mais leve, além de sentirmos uma umidade agradável em decorrência da presença de tantas árvores e outras plantas.
Mas não só as sensações puramente físicas eram estimuladas pelo lindo ambiente: o espírito era renovado. O som de crianças brincando com seus pais, namorados passeando juntos e fazendo juras de amor, além de — obviamente — eu e ela. Lilian trajava um vestido leve que passava um pouco abaixo do joelho. O azul refletia parte da luz que advinha do sol e seu cabelo parecia mais claro do que nunca. Calçando uma pequena sapatilha branca, ela transmitia uma inocência e felicidade que só ela podia passar.
— Nunca esteve aqui? — Eu perguntei.
— Apesar de já ter viajado bastante, eu nunca tive a oportunidade de vir especificamente para aqui. E é incrível! — Ela respondeu.
Seus olhos brilhavam e eu, que segurava seu braço, pude sentir o seu perfume que lembrava levemente o cheiro de rosas na primavera. Nada exagerado ou discreto em demasia, mas na intensidade certa.
— E você? — Ela questionou enquanto me encarava.
— Nunca vim aqui, de fato. Mas já li um pouco sobre. Você sabia que tudo isso aqui foi projetado? Digo, a vegetação foi posta aqui pelo homem, não sendo uma área de preservação ou coisa do tipo. Além disso, sabe a cachoeira? Artificial. Ela pode ser desligada com o apertar de um botão. Falo sério — eu expliquei.
Lily ficou com a boca aberta, como se tivesse descoberto o grande plot twist de um filme ou livro. Depois ela me deu um leve tapa e disse enquanto ria:
— Não estrague a magia!
Ah, a magia. Ela corria em minhas veias naquele momento, enfeitiçava meu cérebro e fugia de mim através de minhas pupilas extremamente dilatadas e do bater frenético do meu coração. Estava chegando a hora.
— Bem, podemos dizer que há magia, afinal. Os magos que construíram este reino mágico foram muito bem — eu brinquei.
Lily deu mais uma de suas encantadoras risadas e me recompensou com um demorado beijo. Continuamos andando pelo parque, até que vimos um carrinho em que pipoca era vendida. Retirei o dinheiro da carteira e paguei o vendedor. Eu e Lily estávamos agora tentando jogar a pipoca para cima e acertar nossas bocas, como verdadeiros retardados.
— Sabe como isso nos faz parecer estranhos, certo? — Lily brincou.
— Tenho plena convicção — respondi.
Mas eu precisava daquilo. Estava muito nervoso e a tensão não reduzia. Continuei assim por uns dez minutos, até que percebi que a tensão só passaria se eu fizesse aquilo que objetivava desde o momento em que convidei o meu amor para aquele passeio. Havia chegado a hora.
— Você lembra daquele dia no cinema? — Eu disse após jogar o pacote de pipoca vazio no lixo.
— “Curtindo a vida adoidado”, como não lembrar? — Lily sorria para mim.
— Bem, o filme é a coisa que eu menos lembro. Tudo que lembro é de você. Desde o princípio. Desde daquele dia em que pensei que fosse ser assaltado. Deus, pensei que você fosse me matar ou coisa do tipo. Mas definitivamente eu fui abençoado por ter encontrado você. Tenho que agradecer ao Tony por ter se embebedado naquele dia. Se não fosse por aquilo, talvez a gente não tivesse se esbarrado. Ou teria, não sei. A questão é: desde que eu pude vislumbrar a sua face, eu senti atração, claro. Mas quando começamos a conversar, a trocar ideias e a compartilhar nossas vidas... bem, aí eu senti conexão. Você foi como um furacão para minha vida. Mudou meu foco. E minha vida tem sido mais leve, livre e solta desde então. Você me faz ser melhor.
Dei uma pausa para respirar enquanto Lilian não tirava os olhos de mim. Além disso, eu devia estar falando um pouco alto, tendo em vista que algumas pessoas se acumularam ao nosso redor.
— A cada dia que passa eu aumento a minha certeza de que você é a pessoa certa para minha vida. Você esteve comigo quando eu mais precisei e também em momentos de alegria. Olha, eu não sei como dizer isso, mas aí vai: Lilian, você aceita se casar comigo?
Eu estava com um dos joelhos no chão a esse ponto, enquanto segurava a mão de Lily e a acariciava. Então retirei o belo anel trabalhado em ouro do fundo do bolso da minha calça e estendi para a mulher da minha vida. E, conforme eu disse, essa foi a melhor decisão da minha vida.
“Sim” foi a resposta dela. Imediatamente nos beijamos enquanto as pessoas aplaudiam e desejavam felicitações para nós. Desde então, o tempo voou, mas de maneira extremamente positiva. Minha amizade com Anthony continuou forte, pois eu permanecia cumprindo minha palavra. Ao mesmo tempo, minha relação com minha esposa só trazia bons frutos. Até que um novo homem apareceu em minha vida: Liam Kaas nasceu no dia 7 de abril de 1995.
Evidentemente eu homenageei o meu falecido irmão com a também evidente aprovação de Lily. Não decidíamos nada que fosse influenciar ambos sem antes uma conversa aberta e sincera. Paralelamente, eu e Tony prosseguimos com os estudos e com trabalhos em empresas menores. Não era a melhor coisa do mundo, mas possibilitava o sustento da casa. Além disso, Lilian estava ministrando suas aulas de física em Washington, o que nos fez morar na capital.
Os anos foram passando e Liam foi crescendo e amadurecendo. Entretanto, ele sempre se apresentou como uma criança tímida e introspectiva. Lembrava a mim mesmo em casa. A diferença é que ele tinha uma mãe e pai presentes. Será que eu fora duro em demasia com ele em algum momento? Talvez. A questão é que eu sei (e bem sabia na época) o peso do mundo. Ele te puxa pra baixo mais do que a gravidade e não faz a menor questão de se soltar. Quanto mais fundo você cai, mais profundamente ainda você pode cair. E é por isso que os fracos não tem vez. Eu sobrevivi porque fui forte, mesmo desde criança. Não podia falhar como pai e deixar que Liam se tornasse um fraco. Por mais que eu não quisesse ser como meu pai foi, eu também não poderia amolecer.
— O que você faz, pai? — Liam perguntou.
Era 2005 e ele tinha um trabalho da escola. Aquela velha tradição de perguntar a profissão do pai e depois de se exibir para os colegas.
— Eu sou farmacêutico, meu filho. E dono de uma das maiores empresas do ramo. — A Cure já havia sido fundada. — Sabe as doenças, tudo aquilo que aflige a humanidade desde o princípio dos tempos? Eu luto contra isso. Sou como um guerreiro, mas em uma escala diferente. Eu e seu padrinho Tony estamos sempre estudando para descobrir como derrotar as doenças. Você entende isso?
Liam ficou calado, mas balançou a cabeça afirmativamente enquanto seus olhos brilhavam. Havia um claro orgulho em seus olhos, a clara visão do pai impecável, intocável e perfeito.
— Mas preste atenção — eu continuei. — Isso é para um trabalho, certo? Não quero nunca que você use as conquistas dos outros para se vangloriar. Esse é o estágio mais baixo que um homem pode chegar. Eu quero que você lute, vença e seja alguém. Dinheiro nenhum do mundo faz diferença na mão de um fraco. Muito menos traz felicidade. Isso é uma questão de dentro, não de fora. Capiche?
Eu acredito que ele não entendeu. Afinal, uma criança de dez anos não costuma ser muito esperta. Mas, em minha cabeça, eu acreditava estar fazendo o melhor: preparando-o para o mundo. É melhor a dureza do lar do que a da selva de pedra. Liam então cresceu desconfiado, sempre buscando entender o que as pessoas diziam nas entrelinhas, ao mesmo tempo em que sua timidez se acentuava. Era um verdadeiro gênio na matemática, mas não gostava de se vangloriar por seus feitos. O garoto se sentia mais seguro continuando na sombra das minhas próprias conquistas.
Por melhor que ele fosse, Liam temia me decepcionar. Algo que era impossível, tendo em vista que ele sempre foi uma pessoa melhor do que eu. Céus, em 2005 eu já estava participando da dita “Conspiração da Indústria Farmacêutica”. Não, definitivamente não é tão cinematográfico quanto você deve estar imaginando, mas isso é assunto para outro capítulo.
— Você deveria ser mais amoroso com ele — disse Lily.
Isso foi em 2007, sendo uma das discussões mais difíceis que tive com ela. O assunto: Liam e sua timidez. Já havíamos o colocado no psicólogo. Tudo indicava que a culpa era realmente minha, como se eu fizesse dele um gladiador, alguém estava sempre lutando e tendo que superar desafios. Como se eu não assumisse a função de pai em sua plenitude: era duro e educador, mas esquecia de demonstrar um amor pleno, sem buscar ensinamentos filosóficos ou querendo passar uma mensagem enigmática que um garoto de 12 anos só entenderia anos depois. E era por isso que Lilian reclamava de mim. Por outro lado, eu definitivamente não podia falar nada dela. Ela era a mãe ideal: sabia ser dura na hora certa, ensinar com a linguagem certa e, mais do que tudo, sabia transmitir amor. Liam se sentia verdadeiramente acolhido com ela.
— E qual foi o resultado? — Lily perguntou com animação.
Era 2009 e Liam estava participando de um campeonato de atletismo na escola. O esporte estava o ajudando a melhorar da timidez, além de que ele conseguiu fazer alguns amigos e ganhar algumas medalhas.
— O James correu pra caramba. Era como se ele fosse uma máquina ou um militar desses filmes de ação. Mas eu também fui competitivo. Consegui o segundo lugar e me classifiquei para as finais. — Liam respondeu com um genuíno sorriso no rosto.
Ver o garoto sorrir me encantava. Ele não costumava sorrir muito comigo. Pelo contrário, sempre trazia aquele ar de respeito em exagero, um misto de medo e devoção. Com Lily era diferente: estava sempre mostrando os dentes em sinceros sorrisos e falando com animação. Até a voz dele saía diferente.
— Vocês vão me assistir, né? — Ele disse olhando para mim e Lilian.
Minha esposa olhou para mim e deu um breve sorriso, como se sinalizasse para que eu falasse a decisão mais óbvia que um pai e uma mãe tomariam. Eu me aproximei, coloquei a mão do ombro do meu filho e disse:
— É claro que iremos assistir. E depois da corrida iremos comer sushi.
Lily me olhou com um misto de espanto e admiração. Liam amava comida japonesa. Já eu nunca fui muito fã da culinária em questão. Mas eu estava disposto a fazer esse leve sacrifício em nome da alegria do meu filho. Eu estava tentando ser um pai melhor.
— Valeu, pai! — Liam me deu um forte abraço.
Ao tocar de seus braços, eu pude enfim sentir que estava tomando uma direção realmente diferente da do meu pai. Um filho que pouco a pouco me temia menos, não no sentido de ser desrespeitoso, mas de me ver como um guia, não um general.
Eu cumpri a minha promessa e tivemos um ótimo dia em família. Liam surpreendeu a todos com sua velocidade e conseguiu vencer o tal do James na corrida, faturando assim a medalha de ouro. James era um jovem enorme. Teria ele, afinal, menos de 16 anos? Acho até difícil que ele tivesse menos de 18 na época. Mas o que importa é outra coisa: Liam conquistou aquilo com o próprio esforço e pode, finalmente, se gabar por causa disso. Eu incentivei, afinal, aquilo nada mais era fruto do seu próprio trabalho.
Infelizmente, eu falhei em não dar continuidade nos meus acertos como pai nos anos seguintes. A empresa exigiu cada vez de mim e, ao longo do tempo, eu via com mais frequência Anthony e algum magnata político do que minha própria família. Para minha sorte, Lily sempre fora compreensiva e também sempre explicou toda a situação para Liam. Por sorte, ele cresceu bem e, apesar de continuar tímido, ele evoluíra sem dúvida alguma. Queria eu ter sido um pai mais presente. Pena que perdi meu tempo com algo que causaria danos irreparáveis para minha própria família posteriormente. Eu nunca irei me perdoar.
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