Notas iniciais
medo /ê/ substantivo masculino 1. psic estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência. 2. temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio.

Confesso que em meio a tantas revelações sobre meu passado e meus pensamentos, eu acabei perdendo o fio da meada. Afinal, do que falávamos realmente? Qual o objetivo de todo este livro? Mostrar o meu lado, por mais sujo e decepcionante que seja. Lembra que eu e Anthony aceitamos criar uma arma biológica para o governo? Ela estava finalmente pronta.

— Nem acredito que conseguimos, Reed — disse Tony.

Estávamos na boa e velha sala de reuniões da Cure. A luz que adentrava a enorme janela permitia ver bem as verdadeiras e alegres feições do meu até então bom amigo. Gastamos um bom tempo naquele trabalho e, apesar de seu uso maléfico, eu estava feliz por ter feito aquilo junto dele.

— Valeu a pena, hein? Fazer um trabalho com seu amigão e tal. — Tony deu uma sonora gargalhada logo após beber o seu café e pôr a xícara em cima da grande mesa de vidro da sala.

E ele estava certo. As longas semanas de trabalho com ele foram rejuvenescedoras. Há anos eu não me sentia tão empenhado num projeto como aquele. Claro, todos os medicamentos que fiz nos anos anteriores também foram conquistas. Mas nenhuma dessas conquistas teve a simbologia de despedida entre eu e meu amigo. E que despedida.

— Claro que valeu, afinal de contas, agora vou me livrar de você — eu brinquei.

Além da xícara de café, a mesa estava ocupada por uma quantidade assustadoras de papéis. Eu olhei fixamente para eles e tudo que via era um emaranhado de letras em meio a um borrão branco.

— Isso é o governo não se responsabilizando por nosso sumiço caso tudo dê errado? — Eu ironizei.

— Basicamente. — Tony pareceu um pouco desconfortável. Ele juntou os papéis e os guardou numa grande gaveta embaixo da mesa. — Você sabe como funciona. Mas eu já cuidei de tudo.

Enquanto ele arrumava o restante da sala para sair do local, eu levantei um questionamento que há muito tempo afligia minha mente.

— Não é crime?

— Hã? — Tony não entendeu.

— O uso de armas desse tipo não é crime de guerra? — Eu expliquei.

Anthony respirou fundo, como se estivesse irritado. Ajeitando seus óculos, ele olhou o mais profundamente possível para meus olhos e disse:

— O que é um “crime” perto de uma guerra? Afinal, você realmente acha que respeitam regras na guerra?

— Desculpa, mas ainda tenho um pouco de ingenuidade e inocência dentro de mim — respondi.

— Pois eu digo que não. E veja bem: são os Estados Unidos da América contra um bando de terroristas filhos da puta. Estamos fazendo um favor. E outra coisa: quando foi que jogamos seguindo as regras? Bem no princípio da Cure, talvez? Por favor, nós não chegamos até aqui seguindo as regras. Quem consegue, afinal?

E ele realmente estava certo. A Cure só fora uma empresa realmente pura em seu início de vida. Posteriormente nos entregamos ao lado oculto da área. Claro, nem todos da empresa sabiam disso; pelo contrário, apenas uma minoria verdadeiramente pequena. Jennifer, como já cite, ainda acreditava em um mundo idealizado. Pobre garota.

— Você tem razão — eu disse. — Mas você não vê que isso é diferente? Já falamos sobre isso, eu sei. Mas uma coisa é atrasar a produção de uma vacina ou coisa do tipo. Outra completamente diferente é criar uma arma. E se cair nas mãos erradas? Você estaria satisfeito em ter sangue nas suas mãos?

“Quanta hipocrisia”, você — leitor — deve estar pensando. Afinal, eu sempre fabriquei a morte, não é verdade? Por que eu teria, afinal, um descarrego de consciência naquele momento? Talvez fosse um presságio ou o resto de humanidade dentro de mim que tivesse sido desenterrada ao enfrentar tamanha tentação. Era dinheiro fácil e com suporte governamental. E tudo isso em um último trabalho com o meu melhor amigo de toda a vida. Mas ainda era diferente de tudo o que já fiz.

— Reed, nós já temos sangue nas mãos. Todas as pessoas que morreram enquanto nós já tínhamos uma cura, por exemplo. Essas mortes vão para nossa conta, certo? Mas o que podemos fazer? Precisamos sustentar nossas casas. E por favor, não seja hipócrita. Está com medo de ir para o inferno? Eu não acredito nele, mas se existir tenho certeza que não há mais volta para pessoas como nós. O que fazer? Eu não tenho mais tempo de mudar quem sou — ele disse.

E assim Anthony esfregou minha hipocrisia na minha própria cara. O que eu poderia responder? Apelei para questionar suas próprias palavras.

— Não tem tempo? Você é um menino ainda. A vida começa depois dos quarenta. Somos jovens.

— Sério isso? De tudo que eu disse, isso foi o que mais chamou sua atenção? Puta merda, Reed. — Ele estava verdadeiramente irritado.

Tony saiu rompante da sala de reuniões, algo que estranhei por completo. Ele sempre fora o engraçadinho (após vencer a barreira da timidez, evidentemente) e aquela atitude não era algo comum vindo dele. “O que será que o aflige? ”, pensei. Talvez meus questionamentos tivessem o afetado, mas ele preferiu rejeitá-los para não sentir o pesar da consciência, ainda mais com o que viria depois. Mas só talvez.

— Reed? — Era a voz de Jennifer.

Tony, ao sair, deixara a porta aberta. A bela e jovem moça então entrou lentamente e disse:

— Desculpe entrar assim, sr. Kaas... — eu a interrompi.

— Reed, apenas. Reed.

— Certo. Reed, Anthony saiu meio apressado e acabou deixando a pasta dele com celular e tudo na outra sala. Você entrega para ele?

— Claro — Eu respondi assertivamente.

— Ah, outra coisa. Não tem a ver com trabalho, tudo bem? — Ela parecia tímida. — Eu e Liam andamos conversando, trocando algumas ideias. Poderia entregar isto para ele?

Jennifer retirou de sua bolsa um pequeno envelope, como de uma carta, mas um pouco menor. Ele era vermelho-escuro e tinha uma textura incomum: áspero, mas macio. Seria um convite para algo? “Parece que meu filho se deu bem”, pensei com orgulho e felicidade no coração.

— Pode deixar! — Respondi com um sorriso no rosto.

Jennifer agradeceu mostrando os dentes em um amável sorriso e se retirou da sala. Eu fui até a sala ao lado e peguei a pasta de Tony. O celular estava vibrando: uma ligação de um número estranho. Parte de mim queria atender o celular, mas a outra prezava pela privacidade e respeito ao meu amigo. E foi exatamente essa parte que ganhou. Ignorei a chamada e levei o celular junto com a pasta até a casa dele.

— Muito obrigado! Alguém me ligou? — Sua voz parecia um pouco trêmula.

— Um número estranho. Mas eu não atendi, será melhor que você retorne — fui sincero.

Anthony soltou a respiração, como se estivesse aliviado.

— Tudo bem então. Obrigado, Reed. Ah, e desculpas pelo que aconteceu lá na empresa.

Ele transmitia um misto de vergonha e arrependimento pelas palavras que havia proferido e pela forma que se comportara. Eu, mais uma vez, agi como um bom amigo.

— Tudo bem, Tony. Vá relaxar um pouco. Você merece um descanso depois de trabalhar tão duro.

— Com certeza! — Ele respondeu e logo em seguida se despediu.

Eu finalmente pude voltar para casa. Lá, um belo almoço me aguardava. Liam estava de férias e pôde preparar o prato principal: Spaghetti ao sugo. Lily, por sua vez, fez um fantástico suco misturando morangos, laranjas e abacaxi. Extremamente ácido, mas ela sabia fazer ficar bom.

Chegando em casa, logo senti o cheiro vindo da cozinha e fui recebido com um demorado beijo da minha esposa.

— Vocês dois se superam a cada dia, hein? — Eu disse referindo-me ao excelente aroma que advinha da cozinha.

— Tentamos ficar no mesmo nível do excelente marido e pai que você é. — Lilian respondeu com modéstia e uma pequena mordiscada em meu lábio.

Andei através da grande sala da casa, atravessei o corredor e, chegando em meu quarto, finalmente guardei minha bolsa e coloquei uma roupa mais casual. Mesmo com a conversa pesada com Tony (e o rápido pedido de desculpas), eu sentia um tremendo alívio. Havia cumprido minha promessa, afinal. Não tinha mais dívida alguma de amizade para com Anthony Grace. Tudo bem que essa “dívida” era algo da minha própria cabeça, mas ocorreu que eu havia feito a promessa de um último trabalho. E finalmente eu podia dizer que a promessa estava cumprida. Fiz minha parte, podia finalmente relaxar sem amarras ou compromissos.

Saindo do quarto e indo em direção a cozinha, o aroma do molho do spaghetti tornou-se ainda mais forte, ainda mais saboroso. Adentrei a área (que era integrada com a sala, tendo como elemento de separação apenas uma bancada de granito) e finalmente pude vislumbrar o meu belo filho em seus trabalhos na cozinha. Havia pouco tempo que ele revelara tal dom. Como vocês bem sabem, o garoto sempre fora tímido e discreto, nunca ficando próximo dos holofotes.

— Meu bom filho! — Tentei ser o mais gentil possível, como Lilian me recomendara várias vezes.

— Pai! — Ele respondeu calorosamente, mas não podia tirar os olhos da panela que usava para preparar o molho.

— Por que não falou antes que sabia cozinhar tão bem?

— Ah, nem é grande coisa — disse ele sem graça. — Apenas macarrão, molho e pronto. Qual a novidade nisso?

Lily olhou para mim como se eu devesse dar uma palavra de apoio. E foi o que fiz.

— Nem sempre a novidade é o que importa. Não adianta mudar para pior, não é mesmo? O importante é fazer bem feito. E se for um tradicional prato italiano, melhor ainda. Amo comida italiana. — Falei de maneira afável, ao mesmo tempo em que mantive a completa sinceridade.

Percebi um largo sorriso no rosto de Liam, mesmo que mudo. Ele continuou seus trabalhos enquanto Lily me questionou:

— E então? Acabou mesmo?

Obviamente ela se referia aos trabalhos ao lado de Tony na Cure. Eu disse:

— Do jeito que falei no dia daquela festa: um último trabalho com meu bom amigo. E foi exatamente isso.

Lilian sorriu com tremenda sinceridade ao ouvir minhas palavras e, seja por curiosidade ou educação, perguntou:

— Do que se tratava? Digo, você pode falar ou é mais um daqueles projetos super-secretos?

Eu engoli seco enquanto pensava no que falar. Não podia transparecer o lapso de consciência que tive ao conversar com Tony. Ao mesmo tempo, não queria mentir novamente para Lily. Mas pensei “Que mal fará? ”. Afinal, eu sempre menti para ela. Estávamos casados há 24 anos, mas ela nunca soube de todos os negócios obscuros dentro e fora do governo. Ela era uma pessoa verdadeiramente boa, diferente de mim. Jamais aceitaria o que eu fazia.

— Mais um daqueles projetos super-secretos. — Não era mentira, afinal de contas.

Lily aceitou minhas palavras, como sempre fazia desde o dia em que nos conhecemos. Paralelamente, Liam terminou de preparar o almoço. Como o suco de Lily já estava pronto, finalmente levamos todos os materiais para a mesa e iniciamos o almoço. Durante tal momento familiar, eu lembrei da misteriosa carta que Jennifer enviara para Liam. Então puxei assunto.

— Liam, como anda Jennifer?

Meu filho então arregalou os olhos, como se estivesse surpreso. Mas logo compreendeu tudo e respondeu:

— Bem. Ela por acaso mandou algo para mim?

Lilian ficou surpresa, pois não fazia ideia que havia qualquer tipo de relacionamento (mesmo que não oficial) entre Liam e Jennifer. E isso a alegrava, pois Jenny era muito querida por nós dois.

— Claro! Um envelope estranho, eu diria. Mas envelopes estranhos sempre trazem as melhores surpresas — eu respondi.

Liam demonstrou a alegria sem timidez e cobrou para que eu entregasse o cartão após o almoço. Estávamos todos felizes e eu pude comtemplar, mesmo que por breves minutos, minha família em um momento leve e singelo. “Eu realmente amo essas pessoas”, eu pensei.

Desde aquele momento eu comecei a planejar fazer uma viagem em família, afinal, isso era algo que não fazíamos há tempos. E com minha longa folga da Cure (e futura aposentadoria), nada mais propício que aproveitar o tempo. Após dias de pesquisa, optei pelo clássico: a boa e velha Las Vegas. Uma viagem realmente em família: apenas eu, Lilian e Liam.

Os dias foram passando até a chegada da viagem. Nesse meio tempo, a relação entre Liam e Jenny começou a se tornar mais forte, ocorrendo deles saírem juntos com frequência. Lily se sentia feliz com isso, pois via seu filho encontrar alguém com quem podia se abrir além de nós dois. Jennifer sempre fora uma boa garota.

— Você acha que se tornará algo sério? — Perguntei para minha esposa.

— Eu torço para que sim. Liam merece. Sempre esforçado, gentil. E, a propósito, seria de grande felicidade para Jennifer. É muita sorte arranjar um garoto como ele — Lily brincou.

O dia havia chegado! Fomos de avião com imensa tranquilidade. O hotel, os cassinos e compras, tudo já estava planejado. Eu e Lily ficamos em um quarto, enquanto Liam ganhou um só para ele. O garoto realmente estava mudando cada vez mais para melhor. Estava mais aberto, seguro e sorridente. Estava, afinal, feliz.

— O que achou? — Perguntei a ele.

Liam admirava a bela estrutura do hotel. A recepção luxuosa imitava a estética das danceterias dos anos oitenta. Havia luz, cores e detalhes nada discretos. Era como se estivéssemos em outro mundo. Até o cheiro era diferente e a temperatura lá dentro era extremamente agradável. Liam andou pelo piso escuro e foi até a recepcionista, que trajava um belíssimo vestido vermelho, algo que não devia em nada em relação às estrelas de cinema. Após apresentar os documentos, ele recebeu as chaves dos quartos e foi até mim.

— Incrível! — Ele finalmente respondeu. O garoto sorria de um canto da boca ao outro.

Mas não só ele estava encantado: Lily estava deslumbrada com toda aquela beleza e com as luzes de múltiplas cores vindo de cima e pelos lados. Era caótico de uma maneira ordeira, mesmo que isso pareça (e seja) contraditório.

— Parecem estrelas — ela disse.

— Receio, meu amor, que nós é que somos as estrelas aqui — brinquei.

Lily, como de costume, deu sua mais linda risada e prosseguiu na caminhada rumo ao nosso quarto. Ficamos no terceiro andar e optamos por subir a belíssima e espaçosa escada, passando por espelhos e luminárias luxuosas. Quando chegamos em nosso andar, dei um abraço em Liam e fui até o quarto com Lily. O meu filho disse que iria explorar um pouco mais o hotel.

Entrando no quarto, pude observar como tudo era feito com grande esmero. Paredes claras, revestimento em madeira e um microclima agradável. A espaçosa cama centralizada, a enorme TV acoplada na parede, além de uma mesa de maquiagem e outra para jogos ao lado da varanda que dava para a bela e luminosa vista. A luxuosa cortina vermelha dava ainda mais charme ao lugar. Eu e Lilian deitamos na cama e sentimos toda a maciez do móvel.

— Tenho que confessar: isso é bem melhor do que eu esperava — eu disse.

— Nós merecemos. Tanto trabalho, tanto esforço. Todo mundo merece uma folga — Lilian falou.

Olhei o mais profundamente possível para os olhos dela e disse:

— Eu me sinto em um sonho. Estar num hotel desses já é muito bom. Mas poder ter isso estando ao seu lado e ao lado de Liam? Isso é de valor inestimável. Vocês são tudo para mim.

E aquele momento foi o de maior sinceridade da minha vida. Ainda mais do que o “sim” que dei no meu casamento. A família que construí com Lilian era algo de valor incalculável. Algo que eu sempre tive extremo cuidado, mesmo que às vezes me comportasse da maneira errada. Mas finalmente eu estava fazendo tudo dar certo. Liam feliz, Lily sorridente (como sempre) e eu me sentindo bem. Era mágico, como se fosse um sonho. Nada poderia me abalar naquele momento, eu acreditava. E, se por obra do destino, eu viesse a morrer, saberia que morreria em paz. “Fiz minha parte”, eu pensaria. Deixei minha família o mais feliz que pude. “Dei o meu melhor”, eu pensei.

Mas eu estava errado. Era possível que minha paz fosse perturbada, e da pior maneira que você pode imaginar. Era o terceiro dia que em Las Vegas e eu e minha família estávamos andando por um grande cassino próximo ao hotel. Mais uma vez as luzes e o glamour chamavam nossa atenção. Liam usava um belo óculos escuro, como se fosse um ricaço (e na verdade ele era). Lily mantinha sua descrição — mas sem perder a beleza — com um belo vestido verde na altura dos joelhos. E eu usava uma singela camisa de botão, quase que como um caipira na cidade grande. Éramos uma família comum naquele mundo de fama e dinheiro. Seguranças por todos os lados, gente famosa, rica e muita comida.

— A cada dia melhora — disse Liam.

Já falei um milhão de vezes: ele estava cada dia melhor, aproveitando o máximo a vida, mas sem se tornar um completo louco, obviamente. Uma moça se aproximou com uma bandeja cheia de petiscos banhados em vinho seco. Eram um tanto diferentes, então eu, Liam e Lily prontamente pegamos uma porção para cada. Dei uma mordida e senti a maciez da carne com uma pequena camada de queijo e alguns grãos que não consegui identificar. O vinho trazia um pequeno ardor graças ao álcool, além do adocicado da uva. Eu nunca havia provado algo daquele tipo, mas era maravilhoso.

— Que delícia! — Lily disse, pegando mais uma porção logo após exterminar a que pegara anteriormente.

Eu e Liam fizemos o mesmo e nos deliciamos com o petisco mais uma vez.

— Fantástico! — Liam disse.

Eu apenas sorri e aproveitei o momento. Nós então resolvemos jogar um pouco. Passou-se cerca de meia hora. Perdemos dinheiro, mas nos divertimos bastante. Apenas risadas eram ouvidas por todo o lugar, como se todos (não só eu e minha família) estivessem em um estado puro de alegria e confiança. Até que algo deixou toda a situação tensa: um senhor de idade começou a tossir compulsivamente, chegando a vomitar sangue e depois a desmaiar. As pessoas olharam espantadas e a emergência foi chamada. Parecia um problema isolado. Entretanto, uma segunda pessoa sofreu dos mesmos sintomas. Quando a terceira também passou por aquilo, o pânico finalmente se instaurou. “Intoxicação alimentar”, eu pensei. E então lembrei dos deliciosos petiscos. Entretanto, nem eu, Liam ou Lily estávamos maus. Pelo contrário, minha família estava preocupada com os que sofriam.

— O que é isso? — Lily questionou com medo.

— Acho que algo na comida. Mas tudo bem, veja. — Apontei para uma equipe de emergência que havia chegado.

Após a barulheira das pessoas desesperadas ser interrompida, finalmente recebemos informações e instruções oficiais. Mas não de um médico, ou alguém da área da saúde. Um estranho homem de terno preto apareceu e disse:

— O cassino passa por problemas na cozinha. Investigaremos e pedimos para que todos aguardem para serem examinados.

Sua voz era fria e calma. Algo estava errado.

— Pai? — A voz de Liam estava trêmula, demonstrando medo.

— Vai ficar tudo bem — eu disse calorosamente.

Todos os presentes foram guiados para o salão principal do cassino, pois o ambiente era bem mais espaçoso. O local já estava com equipamentos modernos para facilitar o exame, como um laboratório portátil, pode-se dizer. “Isso é muito para tão pouco”, eu pensei. Afinal, como tantos recursos seriam aplicados para algo corriqueiro? Vamos lá, intoxicação alimentar é comum e eu nunca vi empregarem uma estrutura daquela. “Com certeza tem algo errado”, eu concluí comigo mesmo. Entretanto, optei por manter a serenidade para não assustar Lily e Liam. Quando eles me encaravam, eu retribuía com um sorriso e alguma palavra de conforto.

— Procedimento normal — eu disse.

E eles confiavam plenamente em mim. E isso me deu tranquilidade, pois eu sabia que minha família não estava sofrendo tanto, afinal. Logo eu, Liam e Lily fomos examinados e nos restava apenas aguardar longos e arrastados minutos (talvez horas) para termos um resultado. E, naquele momento, por mais que eu tentasse manter a calma, eu suava frio. O medo começou a tomar conta de mim. Mas na minha mente eu continuava a pensar “Se estivéssemos maus, já teríamos sofrido a reação”.

— Bem, não deve ser grande coisa. — Liam tentava ser positivo.

— Exato — eu concordei.

Lilian, entretanto, começou a ser novamente dominada pelo medo, deixando-o estampado em seu rosto. Eu coloquei o braço em volta de seu corpo para confortá-la e acolhê-la. E então o primeiro resultado havia chegado! Era o de Liam e ele dizia que meu filho estava sem intoxicação alguma. Eu vibrei muito por dentro, mas apresentei uma comemoração mais contida por fora. Não queria fazer daquilo algo pesado.

— Eu avisei — disse brincando.

Liam sorriu e deu um beijo no rosto de sua mãe. Logo em seguida chegou o meu resultado. E eu estava bem. “É, acho que estamos todos bem”, eu pensei. Lilian mostrou imensa alegria ao ver que eu também estava “limpo”. Além disso, ela passou a se sentir mais otimista. Não só ela, mas eu também. O medo havia passado. E então chegou o resultado dela.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura! Até o próximo capítulo :)