Notas iniciais
Olá meninas! Esse fim de semana foi puxado sabe como é ENEM e suas vítimas... kkkk Não queiram me matar, ok? Eu sei que esse é um assunto polêmico e muita gente vai detestar, mas precisava ser verossímil com o grau de maturidade da personagem! Chega de papo e vamos ao capítulo! Por favor, comentem...

Acordei com o despertador, são 07h da manhã e eu não tenho tempo a perder... Já perdi tempo demais nessa minha vida, tenho um problemão para resolver e não passa de hoje, chega! Preciso tomar as rédeas da minha vida nem que para isso sejam necessárias medidas drásticas.

Estranho o silêncio na casa e me dirijo até a cozinha, encontro um bilhete da minha mãe pregado na geladeira:

“Pelo visto a fase da calmaria passou e as noitadas voltaram com tudo, hein?

Precisei sair mais cedo, consulta marcada lá em Niterói

Tem café na térmica e pão de forma, se vira com o almoço

Thelma”

Thelma e todo o seu carinho de mãe logo cedo... É dose! Abro o saco de pão e só de sentir o cheiro meu estômago embrulha, desisto do café da manhã e resolvo tomar um banho, isso tem me aliviado bastante ultimamente. Me olho no espelho e percebo que os lindos cachos que a Xana fez no meu cabelo estão um pouco amassados mas ainda estão lá... E pensar que ela teve um trabalhão danado para me deixar linda para a conversa com o Lucas, quanta perda de tempo! Engulo o choro (prometi a mim mesma não derramar mais nenhuma lágrima por aquele moleque) e entro no chuveiro.

FLASHBACK

Depois da conversa com a Xana saí decidida a contar tudo para o João Lucas, afinal, nós sempre fomos amigos e acho que podemos sim, encontrar, juntos uma solução para tudo isso... Eu não engravidei sozinha, nada mais justo que eu divida com o pai dessa criança as minhas aflições.

Chego em casa com o coração disparado e mãos trêmulas – Essa vai ser a conversa mais difícil que eu já tive na minha vida, mas eu vou encarar- Repito para mim mesma enquanto escolho uma roupa, não sei por que, mas quero me sentir linda! Acho que quando nada vai bem por dentro melhor estar bem por fora ajuda um pouco... Escolho um vestido de mangas compridas preto, meias calças rendadas e bota sem saltos... Capricho no rímel e no delineador, jogo a cabeça para baixo para realçar meus cachos e voilá! Estou pronta para a batalha... Pego a minha bolsa e saio de fininho para não acordar a minha mãe que cochilava assistindo a novela na sala. Quando saio do prédio me dirijo ao ponto de táxi e mando seguir em direção à Zona Sul.

Chegando ao prédio de Lucas me dirijo ao elevador de serviço, uma hora dessas todos devem estar jantando e eu prefiro ser discreta, toco a campainha e quem atende é o Silviano, mordomo e leão de chácara da D. Maria Marta, mãe do Lucas:

“-Boa noite Silviano, o Lucas tai?

– Não Srta Eduarda, o Lucas não está...

– Posso esperar no quarto então? (respondo já perdendo um bocado da coragem)

–Acho melhor a Srta se dirigir ao escritório, tenho certeza que o Comendador e a D. Marta vão querer falar com a Srta.

– Eu? Cê ta doido? A mãe dele não me suporta...

–Creio que diante das circunstâncias, a chegada da Srta será muito bem vinda...

–O que é que está acontecendo?

– O Lucas está sumido há dois dias, você realmente não sabe de nada? Reconheço imediatamente a voz atrás de mim, é a voz da mãe dele, só que ao invés do tom de autoridade e até deboche com que ela sempre me tratou, hoje sinto que a voz dela está carregada de tristeza e preocupação... –Minha esperança é que você soubesse de algo...

Como foi isso? Ele sumiu assim do nada? Pergunto já nervosa.

Não, ele sumiu após uma discussão com o pai, o comendador soube das visitas do Lucas àquela ninfeta dos infernos, eles tiveram uma discussão violenta e o Lucas saiu daqui totalmente desconcertado, isso já faz quase 48 horas...

Puxo o ar e respiro fundo, então o pior aconteceu... O comendador Alfredo descobriu que seu filho está apaixonado por sua amante, aquele homem estava cego de paixão, deve ter pegado muito pesado com o filho, e conhecendo o Lucas e toda a sua fraqueza, toda a frustração que ele sente por nunca conseguir agradar e pai, ele deve estar desesperado.

–Me empresta a chave do carro, vou procurar o Lucas, tentar achar o seu filho...

– Claro... Silviano... Faço melhor, o Josué, motorista do Zé Alfredo vai te acompanhando, é mais seguro, afinal imagino as quebradas que vocês freqüentam... Ela diz sarcástica.

Vocês VÍRGULA! Respondo irritada... As quebradas que SEU FILHO freqüenta e eu vou lá resgatá-lo novamente, como tenho feito várias vezes nos últimos anos.

Ela ficou boquiaberta com a minha resposta, mas não dei tempo para que ela retrucasse. Nesse momento o Josué aparece na cozinha e me acompanha até o carro. Percorremos todos os lugares em que eu sabia que o João Lucas poderia ter se metido. De boates de classe A a bailes funks na favela. Ruelas, becos escuros, botecos vasculhamos absolutamente tudo! Depois de duas horas de buscas resolvo tentar minha última cartada... Mando o Josué seguir para as Docas (são alguns galpões abandonados perto da região do porto e ponto de tráfico de Drogas) quando ele para o carro e eu vou descer ele me pede para esperar e diz que ali eu não iria entrar sozinha. Entramos naquele lugar escuro e fétido e logo encontramos o João deitado afastado do grupo de viciados que se reunia na fogueira. Ele está com os olhos vermelhos e visivelmente dopado.

“-João Lucas?

–Du?

–Você enlouqueceu de vez? O que você está fazendo aqui? Cê tinha me prometido... Digo já aos prantos!

Ah, não me venha me cobrar nada, você me abandonou no momento que eu mais precisei de você... Ele diz com a voz empastada.

Eu? Eu te abandonei?

–Sim... E logo no momento em que a Isis partiu meu coração e o meu velho resolveu acabar com a minha raça! Sempre disse que era meu “Melhor Amigo”, mas quando eu precisei de você, onde você estava? Me dando um gelo e bancando a ofendida... Por isso não me venha dizer que eu não podia buscar refúgio aqui... Aqui eu posso me anestesiar e esquecer dos meus problemas...

– Você percebeu o que acabou de dizer? É tudo “EU” não é Lucas? É a SUA dor, o SEU pé na bunda, os SEUS problemas! Você é o centro do mundo, o universo gira ao redor do seu umbigo! É... Claro! Mas e os MEUS problemas?

Ah Du, não queira comparar os seus problemas com os meus...

– É realmente, os MEUS problemas não tem comparação! Respondo amarga, e viro as costas para ele, olho para o Josué e digo: -Tá entregue! E saio correndo daquele lugar o mais rápido que posso!

FIM DO FLASHBACK

Termino o meu banho, visto a minha roupa e resolvo tentar comer alguma coisa, afinal a noite de ontem foi bem esclarecedora. Eu preciso encarar essa situação sozinha, sou apenas eu e mais ninguém, por isso, preciso ser forte. Opto por uma fruta, acho que vai ser menos agressivo ao meu estômago. Mordo a maçã e finalmente consigo me alimentar. Cheguei ontem tão exausta que capotei na cama, deve ser o tal sono da gravidez, por um lado foi bom estava de cabeça quente e nesse momento não posso ser emotiva, preciso ser racional.

Diferente do que a Xana comentou, não vou poder contar com o Lucas. Ele é um imaturo egoísta, e está mais perdido do nunca agora com essa paixão pela tal de Isis. É duro admitir para mim mesma que ele ama aquela criatura, mas não posso me enganar, essa é a realidade. Sem contar que sempre penso em que tipo de pai seria o Lucas? Um menino que no primeiro problema vai se drogar para fugir do mundo real?

E eu, que tipo de mãe eu seria??? Sim porque eu nunca pensei em filhos, para falar a verdade eu nunca pensei em nada, nada relacionado ao meu futuro e agora que eu sou obrigada a pensar, tenho a nítida sensação de que nunca conseguirei ser uma boa mãe, ser a pessoa responsável em criar, educar e amar uma criança incondicionalmente... Nunca tive muito jeito com crianças, talvez em outras circunstâncias, com um parceiro que se amarrasse nessa história eu até toparia, mas sozinha? Sozinha eu acho que NÃO CONSIGO! Eu não consigo... Sei que tem mulheres que fazem isso sozinha e são maravilhosas criam filhos fantásticos, mas eu? Definitivamente não tenho vocação para mulher maravilha Capaz d’eu conseguir ser uma mãe pior que a minha (se bem que isso é impossível...)

Eu sei que a família dele é podre de rica e que se eu pedir um exame de DNA terei segurança financeira pelo resto da minha vida, só que eu não sou esse tipo de mulher e dinheiro não significa muita coisa, taí o Lucas que não me deixa mentir! Sempre teve tudo o que quis: as melhores escolas, babás, viagens e é a pessoa mais infeliz que eu já conheci, mais infeliz que eu mesma... Não quero colocar filho no mundo para ser infeliz! E comigo acho que essa criança não seria feliz.

Tem a possibilidade de uma adoção, mas minha mãe me coloca para fora de casa no momento que souber da gravidez, e eu vou viver aonde até essa criança nascer? E depois, como fica? E se a família que ficar com esse bebê também não for legal? Eu não vou ter como controlar isso, não sou adivinha...

Nessa hora eu me lembro da Mirella, uma colega de faculdade que uma vez me disse que é a mulher a maior afetada por uma gravidez, portanto a decisão sobre ter ou não o filho só cabe a ela, a ninguém mais! E eu não quero, eu não posso levar isso adiante, eu vou tirar, é o melhor para todo mundo... Fosse eu uma mulher americana ou francesa, tudo bem, era só me dirigir a uma clínica especializada e fazer o procedimento sem grandes dramas... Mas aqui no Brasil é ilegal é crime e eu sinceramente não sei por onde começar a procurar...

–Google, é lá que estão todas as respostas!

Digito ABORTO RIO DE JANEIRO e quase desmaio quando leio as notícias na minha tela... Falam de uma moça que desapareceu ao entrar num carro para fazer o procedimento e seu corpo foi encontrado carbonizado alguns dias depois... Depois tem outra notícia falando de uma quadrilha especializada nesse crime e que foi desmontada numa operação da polícia civil após a morte dessa moça. Desligo o computador, não tenho estômago para continuar lendo... Preciso sair para pensar melhor. Pego a minha bolsa e saio pela rua meio sem rumo... Paro na pracinha perto de casa e observo as crianças brincando. O barulho é ensurdecedor e a alegria dos pequenos contrasta com a tristeza que sinto no meu peito. Observo uma menininha brincando sozinha no balanço, ela parece tão triste, tão solitária, tão eu. Depois de vários minutos ali sozinha, chega uma moça vestida de branco (deve ser a babá) carregando a menina pela mão como se fosse um pacote, nem ao menos fala com a garota. Isso me parte o coração...

Fui uma criança assim; solitária. Definitivamente não vou repetir o erro dos meus pais, não vou colocar uma criança no mundo para passar pelo o que eu passei. Preciso ter coragem para fazer o que vai ser melhor para mim, para todo mundo. Pego meu celular e continuo a minha pesquisa. Encontro o número de uma clínica e resolvo telefonar. Converso com uma mulher do outro lado da linha, ela me passa todas as informações necessárias e pergunta se eu estaria interessada... Eu digo que preciso pensar e fico de dar uma resposta em dois dias... Desligo e telefone e respiro fundo: cinco mil reais? Como vou arrumar cinco mil reais? Só conheço uma pessoa que teria essa grana toda... E com ele eu não posso contar... Se bem que eu não preciso dizer por que eu preciso desse dinheiro todo, né? Ah João, parece que nossas vidas estão mesmo interligadas.