Eu preciso dizer que te amo
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Minha cabeça não parou um só segundo desde que fiz aquele teste. Resolvi voltar para casa, precisava ficar sozinha e o meu quarto era o melhor lugar... Já passava do meio dia, minha mãe já saiu para o trabalho e sei que estarei sozinha em casa, quem sabe assim eu terei algumas horas de trégua e consigo pensar melhor? Encontrar uma saída? Entro no apartamento e confirmo: “-Estou sozinha!”. Vou até a cozinha e encontro um macarrão na geladeira, esquento no microondas e finalmente consigo me alimentar, não tinha colocado nada do estômago até aquela hora. Me tranco no meu quarto e finalmente libero o choro que estava contido no meu peito desde a hora em que vi o resultado daquele teste...
“- Um filho? Um filho do João Lucas?”. Entro em desespero e começo a chorar novamente... “-O que foi que eu fiz da minha vida?!” Eu tenho 20 anos, não tenho profissão, emprego fixo e a minha mãe com toda a certeza me coloca para fora de casa, ela sempre deixou bem claro que já tinha criado os filhos, jamais criaria um neto! Volto a chorar e ponho para fora toda a minha angustia, adormeço, estou exausta e minha mente apaga, acho que de tanto pensar meus neurônios deram um tilte.
Acordo com o barulho do meu celular tocando, dou uma olhada no visor e reconheço o número é a minha mãe, acho melhor atender passei o dia inteiro fugindo dela: “- Alô, mãe?
–Até que enfim Eduarda, não vi a Srta o dia inteiro, posso saber aonde foi? Fez as pazes com aquele marginal?
– Não D. Telma (devolvo com sarcasmo o senhorita) acordei cedo para caminhar um pouco, depois passei na Xana, mas já estou de volta...
–Quero saber até quando você pretende levar a vida assim... Du, estou preocupada contigo, você só terá direito à pensão do seu pai até aos 21 anos, depois disso apenas se tiver estudando, o que não é mais o seu caso...
–Não precisa se preocupar, eu vou dar um jeito na minha vida, e quando a pensão do meu pai acabar, eu dou um jeito de me sustentar, pode ficar despreocupada que não vou viver as suas custas... Agora dá licença que eu tenho que desligar!”
Respondo ríspida e desligo imediatamente... Meu pai morreu há uns dois anos, logo depois d ‘eu largar a faculdade, como meus pais já eram separados, a pensão do meu pai ficou para mim e é com ela que eu banco as minhas despesas (e ainda ajudo em casa com alguma coisa). A minha mãe é uma mulher prática e nenhum pouco sentimental, não tiro a razão dela, foi ela que sempre se virou para pagar as contas e fazer a grana render até o fim do mês, afinal eram 4 bocas para sustentar! Imagina se ela descobre que tem mais uma a caminho? Depois que meus irmãos se casaram, somos apenas nós duas, nunca nos demos bem, ela nunca ligou muito para mim e a cada dia que passa faz questão de deixar claro que eu sou um incomodo, uma preocupação na vida dela... Com meu pai era pior! Ele sempre deixou claro que eu era um acidente de percurso, uma criança indesejada que adiou os planos dele de se separar da minha mãe e ir cuidar da própria vida... Uma coisa era se separar de uma mulher com três filhos criados, outra era largar uma mulher com três filhos maiores e um bebê, a minha chegada prendeu meus pais mais alguns anos num casamento infeliz, numa relação desgastada. Mas apesar de tudo agradeço a ele por essa pensão, é o que me permite sobreviver, por enquanto...
Respiro fundo, me levanto e resolvo tomar um banho. Entro no banheiro e observo a minha cara no espelho, estou péssima, pareço um urso panda, a maquiagem borrada e olheiras profundas, retiro a minha roupa e observo meu reflexo no espelho; Meus seios estão diferentes, parecem maiores, mais redondos. Dou um leve sorriso, parece que qualquer desgraça tem seu lado bom... Entro no chuveiro morno, quase frio e parece que pelo menos temporariamente a minha cabeça esfria um pouco também, procuro não pensar em nada e apenas sentir a água escorrendo pelo meu corpo e sinto um alívio momentâneo.
Saio do banho, visto a minha lingerie e olho o meu reflexo no espelho, tirando o volume no sutiã continuo absolutamente igual, se bobear até mais magra do que antes (também depois de tanto enjôo devo ter emagrecido alguma coisa...), estranho pensar que aqui dentro tem um bebê, na verdade não passa de emaranhado de células se bem me lembro das minhas aulas de biologia no colégio. Um emaranhado de células que com o passar dos meses, se desenvolve num bebê.
Um bebê meu e do Lucas, o meu ex- melhor amigo, o cara que me tratou feito um lixo depois de tudo o que a gente viveu junto, o cara problemático, instável, que vive se drogando e arrumando confusão, o cara que ocupou o centro da minha vida durante tanto tempo, o cara que não me ama e é apaixonado por outra... O mundo realmente é muito injusto com as mulheres, enquanto eu estou aqui nesse estado, perdida e sem chão ele deve estar lá, dormindo ou de ressaca e nem se lembra mais da nossa transa.
E o pior é que nós nos protegemos naquela noite, lembro perfeitamente do momento em que pedi para ele pegar a camisinha e ele abriu a gaveta e pegou o pacote... O que será que aconteceu? O que deu errado? Será que o preservativo estourou? Ele bem que podia ter me avisado, é para situações como essa que existe a pílula do dia seguinte. Fico aqui tentando me lembrar dos detalhes... A verdade é que depois da nossa discussão eu nunca mais atendi um telefonema ou abri uma mensagem dele. Se ele tentou me avisar e não conseguiu? Ai... Acho que prefiro morrer a pensar nessa possibilidade. O tempo não para e nem volta atrás. Eu preciso pensar numa solução, e é pra já.
Meu telefone toca novamente, não reconheço o número mas atendo e abro um sorriso ao reconhecer a voz do outro lado da linha:
“-Alô, Du? É você menina? Soube que andou me procurando... (é a Xana do outro lado da linha)
–Oi Xana, pois é, passei hoje pelo salão, mas você não estava aí...
–Naná me contou, ela falou em retoque de raiz, ta doida ruiva! Retocamos a sua semana passada, quando ficar careca não venha colocar a culpa em mim!
Lembro da desculpa esfarrapada que dei e desconverso– Na verdade quero fazer uma hidratação, ela deve ter entendido mal...
–Se a Srta quiser, pode vir agora que eu dou um trato nessa juba linda e ainda posso oferecer meu ombro, meu colinho... A fofoqueira da Naná me adiantou que a menina não saiu daqui nada bem, não quer desabafar?”
Aceito o convite da Xana, ela sempre me deu boas orientações, talvez seja a hora de me abrir com alguém e Xanão tem sempre bons conselhos para oferecer. Chego ao salão já de cabelo molhado, está quase fechando e sou a última cliente do dia, sinal que vamos poder conversar à vontade.
“-Boa noite menina Eduarda, chegou voando, hein, no que posso te ajudar?
–Oi Xana, vim dá um trato nessa cabeleira, fazer uma hidratação, uma escova, sei lá! Algo que levante meu astral!”
Nessa hora Naná aparece com a bolsa na mão, gritando: “Tô indo Mona, senão perco à hora do dentista, beijo para quem fica...” Xana fecha o salão e começa a lavar novamente meu cabelo “Tenho que lavar de novo para que o produto fixe bem, ok?” Concordo na mesma hora, fecho os olhos e tento relaxar quando minha amiga começa com o interrogatório:
–Pronto Du, estamos a sós pode me contar o que te aflige. Foi aquele seu amigo bad boy? O que ele aprontou agora? Se meteu em uma briga? Voltou a se drogar? Roubou o pirulito de alguma criança?
–Antes fosse apenas isso Xana, com esse tipo de problema eu sabia lidar, essas crises eu sabia administrar, mas agora eu confesso: estou perdida!
– Calma Du, não há problema sem solução, me conte o que está acontecendo, talvez alguém de fora enxergue a situação melhor...
Ela me dá um forte abraço e eu desabo, choro que nem uma criança. Como é bom chorar nos braços de alguém querido... Ela me trás um copo d’água, eu me acalmo e conto tudo o que aconteceu, todos os detalhes, da minha fraqueza em ter ido para cama com ele, da forma estúpida como ele me tratou depois que transamos, da nossa discussão, do nosso afastamento e termino contando do teste de gravidez que fiz aqui mesmo em seu salão hoje pela manhã...
“-Grávida, flor?
–Sim, grávida... Estou perdida Xana, não tenho a menor condição de ser mãe nesse momento... E o João então, você acha que ele pode ser pai? Fiz a maior burrada da minha vida!
–Mas você não se protegeu? Nos dias de hoje minha querida, não se pode brincar com uma coisa dessas...
–Eu sei disso Xana, e te garanto que eu me cuidei... Não sei o que aconteceu, falo já aos prantos.
–Oh minha boneca, não fica assim, parece que quando uma coisa assim tem que ser... Vai dar tudo certo!
–Como assim vai dar tudo certo? É de mim e do Lucas que estamos falando, você acha que temos condições de cuidar de uma criança? Pergunto.
– É... Não! Realmente nesse momento não, mas vocês vão precisar crescer... Amadurecer! Olha Du, eu concordo quando a Srta diz que vocês fizeram; Sim VOCÊS porque você não fez nada sozinha, a maior burrada da vida de vocês! Só que a vida é tão generosa que devolveu essa burrada com um presente, o maior presente que uma pessoa pode ganhar: um filho! Pensa nisso minha querida, um filho é sempre uma dádiva!
– Ah, Xana... É tudo muito lindo, muito poético, mas na prática nem sempre é assim que funciona, não sei se tenho forças para segurar essa barra...
–Tem sim, pensa que Deus dá o frio conforme o cobertor e que você não está sozinha nessa, eu estou aqui para te ajudar sempre!
Dou um abraço apertado na minha amiga quando ela me pergunta:
“-E o Lucas, quando vai ficar sabendo?
–Olha Xana, taí uma coisa que eu não sei te responder... Se depois que a gente transou ele me falou aquelas barbaridades imagina quando eu revelar que engravidei? Capaz de me acusar de estar dando o golpe da barriga... E aquela mãe dele maluca? Não sei se devo contar...
–Uma hora você vai precisar contar, afinal gravidez não é uma coisa que se esconda por muito tempo... E se fosse comigo, ia preferir ficar sabendo o quanto antes...
–Se fosse com você?
–Ué, por que o espanto? Ou existiria outra maneira d’eu ter um filho nessa vida? A ciência evoluiu muito, mas homem engravidar ainda não rolou... E você sabe que eu preservei todos os meus predicados, mesmo sendo improvável ainda posso engravidar alguém...
Caímos na gargalhada, só a Xana para me fazer rir numa hora dessas!
– Mas agora falando sério Eduarda, você precisa contar para ele!
–Eu sei... E vai ser hoje mesmo, se for para enfrentar a fera, que seja logo... Respondo enquanto respiro fundo
– É assim que eu gosto de ver... Coragem e senta aqui nesse lavatório, vamos tirar essa máscara que hoje eu vou te deixar linda! Se é para enfrentar os leões que seja montada e de preferência em cima do salto!
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