Notas iniciais
Onde, quando e como tudo começou.

Recordo-me bem daquele verão: O sol alto, tornando as pernas expostas pelo vestido curto mais bronzeadas. O mormaço que se aliviava a cada brisa passageira e refrescante que passava. E o céu, infinito e azul sem nuvens, que alías não sei aonde foram parar naquele dia.

E com a exatidão que tudo prosseguia, era certo que eu iria sorrir em algum momento.... a qualquer momento, principalmente porque Joe estava ao meu lado. Sei que ele falava sobre algo empolgante (pelo menos, para ele), provavelmente, em minha língua. Entretanto, eu não conseguia compreende-lo, parecia eminentemente complicado e entendiante demais para render a minha atenção. A conversa todo não tinha ponto final. To o falso fim de suas frases acabava com o início de outras.

O outro casal em nossa mesa redonda mal tivera a chance de falar o que quer que fosse. Joe sempre houvera sido assim. Ele achava que se iniciasse uma conversa, deveria guia-la até o fim, mas o rapaz nunca sabia identificar o mesmo. Joe estava usando roupas claras e leves. A barba simétrica e o cabelo de cor castanha, encaixavam-se perfeitamente nas cores do verão.

Catarine e Louren tinham um bronzeado brilhante evidente dos habitantes do Oeste. Ela era alta, com longas pernas magras e uma postura perfeita sobre os saltos. O agasalho branco, envolvido em volta do pescoço de Louren como um acessório, o fazia parecer mais jovem do que ele, de fato, era. Mesmo Joe sendo o centro das atenções, pude notar que os olhos de Louren rolavam de maneira discreta por mim, exclusivamente quando eu reversava as pernas cruzadas.

A mulher acenava com a cabeça durante o discurso de Joe, o que fazia com que seus cachos loiros de sacudissem em torno de seu rosto. Seu sorriso amarelo era classicamente falso e ensaiado, e isso me causava pequenos calafrios debaixo da nuca, pois eu jamais poderia ser igual a Catarine, nem que eu quisesse. O máximo que eu podia fazer era sentar ao lado do meu noivo e futuro esposo enquanto ele contava sua história intrigantes sobre viagens, aparentemente, incríveis.

– Muito interessante, Joe. — comentou Louren, mesmo ficando claro para todos que aquele não era o fim da história — Mas, e quanto a nossa bela Valentina, — seus olhos azuis me fitaram — conte-nos sua história.

– Ah, — eu principiei, surpresa — eu não tenho nada de muito interessante para contar. — tratei de oficializar o meu silêncio, fugindo da conversa.

– Nos diga de onde você veio. — Louren insistiu, como se ele mesmo não soubesse a resposta.

– Bem, eu nasci e cresci em Southampton. — respondi educadamente.

– Southampton? Não foi lá que o Titanic embarcou? — o homem fez a observação.

– Sim.

– Oh meu Deus! Isso é incrível. Deveríamos ir até lá qualquer dia desses. — Catarine se incluiu no diálogo, parecendo mais falsa que nunca.

– Claro que você deve ter uma boa história pra contar. — Louren ignorou o comentário da esposa, e se livrou discretamente do braço que ela colocara em seu ombro. Era compreensível, afinal, era um dia muito quente para contato físico.

Percebi que não ouvia mais a voz de Joe. Olhei para ele discretamente. O cotovelo direito apoiada na cadeira branca, e a cabeça sobre o punho fechado. Ele estava entediado, pois não conseguia participar de nenhuma conversa se não fosse ele o centro dela.

– Southampton não é tão animada quanto parece ser. — eu estava disposta a dizer qualquer coisa que me desse um álibi para voltar a ouvir Joe. Eu não queria chateá-lo, muito menos, dialogar com Louren Stweart.

– E como você e Joe se conheceram? — desta vez, a indagação foi feita por Catarine.

– Eu vim passar o verão em Bath — insinuei como se fosse um local muito próximo — na casa de uma grande amiga minha. Ela me trouxe aqui para conhecer Bristol, e em de nossos passeios pelos cafés da cidade conheci Joe. — eu voltei a olha-lo pelo canto do olho, ele pareceu sorrir.

– Romântico! — comentou Catarine, voltando a pôr sua mão no ombro do marido. Joe levantou-se da mesa de repente, chegando a me assustar.

– Valentina, se importa em me acompanhar até a cozinha? — ele perguntou.

Eu sabia que ele tinha algo para me dizer, pois sempre que se comportava daquele modo e nos afastava de outros, Joe queria dizer algo.

– Claro. — disse enquanto me levantava.

– Valentina! Por que não nos agracia com suas histórias? — Catarine interferiu.

– Prometo voltar logo. — pretendia demorar ao máximo para escapar das garrafas bronzeadas daqueles ingleses.

Quando me pus ao lado de Joe, agarrando seu braço, senti minha pulseira deslizar de meu pulso direto para a grama verde. Isso fez com que eu pensasse que eu havia emagrecido. O brilho que o sol causava na joía fez com que fosse fácil encontra-la. Achei que Joe a pegaria, mas ele pareceu não ter visto. Larguei o braço dele e me agachei para alcançar a pulseira de ouro puro.

E foi quando tudo aconteceu. Em um segundo, Joe estava bem e no outro, ele estava caindo sobre os próprios joelhos e indo de cara para a grama fresca com uma bala atravessando sua garganta. Encarei os olhos arregalados, que pareciam não olhar para lugar nenhum. O rosto dele agora se confundia em uma camada de terra úmida e verdura.

O cheiro enferrujado do sangue invadiu meu canal respiratório. Me senti completamente enjoada. Eu não conseguia me mover, ainda estava agachada ao lado do corpo dele, com minha mão sobre pulseira e os dedos cravados na terra. Finalmente, Louren e Catarine pareceram levantar da mesa.

– Joe.... — minha voz não passou de um sussurro, mas logo, se tornou uma rojada de gritos desesperados que ecoaram por toda a extensão do jardim. Eu não pensei de onde veio a bala, nem se eu estava em perigo. Tudo que eu via era o corpo de Joe ensaguentado e sem movimentos sobre a grama fina de verão.