– Obrigada, Charlie. – agradeceu Valentina ao motorista antes de sair do carro.

Ela observou seu próprio reflexo no vidro escuro do carro. Arrumou seu vestido preto básico e justo que se desalinhara no caminho para lá, depois, endireitou os cabelos ruivos que iam até a altura dos seios fartos. Só quando Valentina percorreu o trajeto do carro até a porta dos Stweart’s, o fiel motorista decidiu que poderia partir.

Catarine abriu a porta apresentando o seu sorriso falso e amarelo de sempre. Ela usava um vestido vermelho abusando do decote, que de tão apertado lhe espremia os seios pequenos. O cabelo loiro amarelado estava preso em um coque, e os sapatos eram de veludo como o vestido. A mulher estudou a convidada dos pés à cabeça com uma expressão de reprovação.

– Ainda de luto, querida? – Catarine bateu os saltos para se aproximar da outra, lhe beijou uma das faces e fez um sinal com a mão para que entrasse.

Louren surgiu da cozinha inesperadamente e abraçou Valentina com um informalidade.

– Você está linda. – murmurou.

Ela respondeu o comentário desnecessário com um sorriso de dois segundos de duração. Não gostava do jeito de Louren, há tempos.

– Bom, o que acham de um vinho antes do jantar? – sugeriu a anfitriã.

E a ruiva, que até então poupara sua voz, disse educadamente:

– Eu aceito.

– Vou buscar na sala de estar. – anunciou.

Mas Valentina se colocou em seu caminho. De repente, ela sentiu uma vontade imensa de fugir dos olhos de Louren. Ele não era alguém a quem você poderia atribuir o adjetivo discreto.

– Não se incomode, Catarine. Eu mesma vou.

– Tem certeza, querida?

– Claro!

– Está na prateleira de cima.

– Certo.

Valentina entrou na sala de estar escandalosamente decorada de Catarine, enfeitada com cortinas pesadas e tapetes de pelo verdadeiro de leopardo. A garrafa de vinho na prateleira de cima tinha um molde diferente das demais. Com certeza, não custava menos de 400 libras. Ela alcançou-a com dificuldade.

– Imaginei que iria precisar de ajuda para pegar as taças. – a voz de Louren surgiu fortuita no cômodo.

Valentina apertou a garrafa em suas mãos para que não caísse. Havia se assustado com a entrada abrupta do dono da casa.

– Sim, eu acho que sim. – balbuciou.

O homem loiro esticou os braços definidos para alcançar as taças, ficando poucos centímetros de encostar sua cintura na de Valentina, que estava acuada entre Louren e uma prateleira repleta de taças, vasos e vinhos caríssimos.

Ao segurar a primeira taça, não pode conter seus olhos de encarar os dela. E quando deu por si, já estava tocando sua bochecha rosada com um dorso da mão livre, vendo-a recuar lentamente.

– Será que irei ver aquele sorriso encantador em seu rosto outra vez? – deixou escapar a indagação em um murmúrio.

– É impossível dizer.

Ele se deu conta de quanto a queria, e queria há muito tempo. Sempre quis. E em um movimento único, Louren desceu seu rosto de forma ligeira e a beijou, tão superficialmente que pode puxar seu lábio inferior. Ela lutou, empurrando seu corpo grande e pesado para trás com toda a sua força feminina. Cravou suas unhas nos músculos dos ombros dele para garantir que ele não ousaria repetir a dose.

– Você enlouqueceu, Louren? – ela ofegava demonstrando uma irritação incomum.

– Eu ainda amo você. — seu tom era ameno, como sua expressão. E talvez, a ruiva nunca houvesse sentido tanta pena de alguém. Não por suas palavras, mas por sua falta de autocontrole e amor próprio.

– Não! – ela retrucou, o afastando ainda mais. – Pare com isso. Acabou, Louren.

– Mas eu pensei que...

– ... que nós íamos ficar juntos agora?! – ela soltou uma risadinha desesperada. – Eu amo Joe. Nada mudou.

– Joe se foi. – o homem pareceu recuperar seu tom de voz seguro de sempre. – Ele está morto e acabado.

– E nós também. – ela deu a volta nele, planejando deixar a sala de estar sem pestanejar.

– Quer saber, Valentina? – ela parou de andar para escutá-lo, mas permaneceu de costas. Não queria encará-lo outra vez. – Eu nunca me senti tão mal quanto no dia em que Joe morreu. Você estava descontrolada, chorando e gritando. Eu queria que você sofresse assim por mim, não por ele. Você deveria me pertencer.

Os olhos dela queimavam em lágrimas que queria absorver novamente. Ela virou para ele por sobre o ombro, chorosa.

– Você é um filho da puta doentio, Louren.

Quando Valentina se foi, suas palavras permanecerem presentes para assombrar Lourem. Ele sentiu uma cólera incomum acender em seu peito e chamuscar por suas veias, queimando, corrompendo seu ser. Ele acreditava que a morte de Joe se apresentaria como a solução de seus problemas, entretanto, Valentina provara que era apenas o início deles.

A ruiva voltou ao seu ponto de partida e viu a empregada pondo pratos sobre a mesa de jantar. Em uma das janelas douradas do cômodo, Catarine fumava um cigarro, absorto em quaisquer pensamentos mais distrativos que aquela noite.

– Ah, Catarine... Acabo de me lembrar que irei viajar para Bath amanhã e, sequer fiz as malas. Receio que não vou poder demorar.

– Ah, tudo bem. – ela gesticulou um movimento dispersante. – Querida, acho que uma visitinha à Bath lhe fará muito bem.

– Eu concordo. – vociferou Louren, com o tom confiante e equilíbrio recuperado. Mas a ruiva ainda não ousava encará-lo.

– Bem, então, vamos jantar logo. — apressou a Loira.

Valentina falou o mínimo possível. Não podia encarar Louren, pois seus lábios haviam se tocado e não podia encarar Catarine pela mesma razão.