Eu matei Joe Kingston
6 O que diz o passado
No sábado de manhã, Victor foi acordado por batidas frenéticas à porta de seu apartamento. O que não era comum, pois morava propositalmente distante dos pontos movimentados de Bristol, o que lhe rendia menos visitas.
Ele saltou para fora da cama, ainda sonolento assaz. Nem sequer teve tempo de colocar outras roupas, além das calças confortáveis de algodão que vestia, pois seja lá quem fosse que batia à sua porta aquela manhã tinha pressa de ser atendido.
Montgomery abriu a porta, sem dar-se ao luxo de espiar pelo olho mágico e encontrou uma mulher ruiva, usando jaqueta de couro preta e óculos escuros, que ela deslizou para o topo da cabeça revelando olhos verdes. Era Valentina Wardle.
– Valentina, tudo bem? O que houve?
– Victor, investigue Louren Stweart! – disse, sem pestanejar.
– O quê?
–Você precisa investiga-lo. – a mulher insistiu – Ele... Ele está escondendo algo.
– Por que está me dizendo isso?
– Eu sei disso! – afirmou.
– Como?
Não houve uma resposta imediata, nem posterior. Valentina suspirou, cansada daqueles pensamentos que lhe roubaram o sono durante a noite inteira.
– Valentina, por que você não entra um minuto? – convidou-a com seu hábito tom apaziguado.
A ruiva observou o homem alto e seminu na entrada da porta. Apesar de se sentir bastante confortável na presença de Montgomery, seria constrangedor ter que encará-lo naqueles trajes, aliás, na ausência deles. Porém, mais constrangedor seria pedir-lhe para pôr uma camisa, pois ela se sentia intimidada. Sendo assim, Valentina optou por findar o papo ali mesmo: na porta de entrada.
– Eu vou para Bath. Se lembra? Charlie está esperando lá embaixo.
– Claro. Ah... E como faço para encontrá-la?
– Voltarei na quarta-feira.
– Vai demorar. – concluiu enquanto coçava o queixo, pensativo – Escute Valentina, você sabe que eu confio em você, mas se realmente quiser que eu investigue Louren, precisa me dar pelo menos uma razão plausível. Não podemos mais perder tempo, entende?
Ela pensou. Naquele momento tudo teria que ser passado para segundo plano. Nada mais era tão importante. O mais importante era desvendar o mistério da morte do homem da sua vida. Joe importava. E nada mais.
– Tudo bem. – ela respondeu, cedendo lentamente seu corpo a entrar no apartamento masculino do agente policial.
O lugar não era um poço de organização, mas pode-se dizer que Montgomery se cuidava bem sozinho.
– Sente-se. – disse ele, também tomando um lugar ao lado dela no sofá marrom de um falso couro. – Então, — principiou – por que eu devo investigar Louren Stweart?
– Ele disse coisa que... bem, se você tivesse escutado o rotularia como suspeito.
– Valentina, nós continuamos a dar voltas. Seja específica.
A mulher respirou profundamente, ganhando o tempo necessário para pensar se deveria, ou não, abrir o jogo com Montgomery. Além do agente policial, não havia mais ninguém no mundo que ela pudesse contar o que pretendia. Cansada de segredos, optou por soltar o verbo. Confiava naquele homem à sua frente.
– Há um tempo, quando visitei Bristol com minha amiga de Bath, conheci Louren e Joe numa cafeteria do centro. Os dois eram rapazes muito bonitos, do tipo que não passa despercebido entre moças. Eu, obviamente, fiquei encantada por Joe, mas ele estava tão concentrado em sua universidade que pareceu esquecer o resto do mundo. Cheguei a pensar que ele estava interessado em Hayley: minha amiga. Mas não. Aquele era o jeito dele de ser, sempre preocupado com o futuro, sempre esquecendo de viver o presente. – um sorriso discreto e distante apareceu nos lábios avermelhados dela. – Na época, Louren insistiu ardorosamente para que eu aceitasse sair com ele. Nos encontramos algumas vezes e tivemos um breve romance. – houve uma pausa.
“Entretanto, quando Joe sorriu daquela maneira para mim, não foi preciso um beijo para que eu soubesse que tudo com Louren havia acabado. Ainda mais depois que descobri que ele estava noivo de Catarine. Joe nunca soube disso. E eu achei que seria melhor assim. Porém, Louren não estava muito satisfeito com o nosso termino.”
Desta vez, houve uma pausa tão extensa que Montgomery achou que a mulher não diria mais nada. Até que ele mesmo interferiu no silêncio dela.
– Quer beber alguma coisa?
– Água, por favor.
Quando Victor lhe trouxe um copo d’água e ela pareceu livrar-se da palidez anterior, os dois retomaram a conversa.
– Louren começou a nos perseguir como um cão farejador. Eu sabia muito bem que era ele o tempo todo, mas Joe não. Comecei a achar que seria melhor para a sua própria segurança que ele não soubesse quem nos atormentava. Ele era muito cabeça quente, ás vezes.
“Porém, não havia nada que Louren pudesse fazer contra nós. Pelo menos, era o que eu pensava até ele contratar três homens para dar uma surra em Joe. Uma surra que quase o matou. Depois que nós nos casamos, Louren parecia mais conformado. Mas sabe-se lá quanto ódio ele adquiriu até aqui. – Valentina suspirou, emergindo de um silêncio que durou anos. – Só um doente mental faria isso com o melhor amigo. Me atrevo a chama-lo de tresloucado.
– Isso é crucial! – afirmou Montgomery, levantando-se do sofá. – Você deveria ter me dito isso há muito tempo. Louren Stweart é, sem dúvidas, um suspeito pelo assassinato de Joe. Afinal, ele já atentou contra a vida dele antes.
– Mas, por favor, isso não pode vir à tona e se tornar público! — implorou. – Segure-se até que eu volte de Bath.
– Nós não vamos prejudicar você. – rebateu.
– Eu confio em você, porém, você não pode me pedir para fazer o mesmo com os outros policias.
– Tudo bem, eu vou cuidar de tudo pessoalmente. – ele procurou sorrir. – Tente se divertir em Bath.
– Obrigada! – a mulher se levantou. – Posso usar o seu banheiro? – indagou timidamente.
– Claro. Segunda porta do corredor à direita.
Valentina enxaguou o rosto, satisfeita por ver suas bochechas tornarem a ter cor. Seus olhos redondos e esverdeados estavam fundos e sombreados por olheiras cansadas. Sentiu vergonha por ver a si mesma daquela maneira despenhada. A mulher retirou uma base facial e um gloss labial da pequena bolsa que estava carregando, e então, fez o que pôde para melhor a sua própria aparência.
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