O restaurante na rua King foi a escolha do acompanhante de Victor. Aquele era um dos pontos clássicos de movimentação turística da região, o que chegou a surpreender e intrigar o agente de polícia Montgomery. Naturalmente, ele gostava das pessoas obvias porque sabia lidar com elas. E Tony Wolf não era, em nenhum sentido, obvio.

Victor chegou ao tradicional restaurante St. Violet por volta das seis. Tony o esperava em uma das mesas vazias do fundo, mantendo sempre sua aparência misteriosa e conservadora com sua cabeça curvada para baixo. O cabelo liso que ia até o fim de seu pescoço, escondia parte de seu rosto jovem, dando-lhe um ar perigoso e lhe rendendo alguns aparentes anos de maturidade.

– Como vai, meu velho? – disse Victor, cumprimentando-o, e logo, sentando-se â sua frente.

– Você deve estar melhor.

Para Victor, era bom ver que o humor irônico de Tony ainda estava impecável, mesmo depois de tantos acasos.

– Prontos pra pedir? – perguntou uma garçonete morena que trabalhava no local. Ela tinha um uniforme clássico combinando com o cenário ao seu redor.

– O que você sugere? – indagou Victor.

– Bom, a sopa de lagostas dessa noite está maravilhosa, senhores.

– Tudo bem por você, Wolf? – seu acompanhante acenou positivamente, sem dar a graça de sua voz. – Então, sopa de lagostas para nós dois. Obrigado. – agradeceu lhe entregando os cardápios.

– Se ela queria despertar nosso apetite, deveria ter dito “saborosa” e não “maravilhosa”. Afinal, estamos falando de algo comestível.

Victor riu. – Você não perde a oportunidade, não é, meu velho?

Logo, a garçonete estava de volta com os pedidos. Quando terminou de servir, olhou especificamente para Montgomery e disse:

– Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você? – indagou entre mordidas de lábios e os olhos que encaravam Victor sem medo de rejeição.

– Acho que não, obrigado. – respondeu o homem, desconcertado.

– Se precisar, é só chamar. – ela saiu da mesa rebolando bem mais que o necessário, se era realmente necessário, e antes de sumir pelo restaurante, olhou para Victor por sobre o ombro e piscou.

Wolf riu. – Ainda arrasando coações, meu velho?

– Você sabe que eu não tenho tempo para isso.

– Não, o que eu sei é que desde que Lily se foi você está completamente sozinho. – Wolf recebeu apenas o silêncio como resposta, por isso, decidiu prosseguir com o assunto pessoal. — Qual é! Não quero soar desrespeitoso, mas já faz dois anos.

– Um ano e dez meses. Não dois anos. – ele respondeu sem sentir-se ofendido, pois sabia que essa era a maneira de seu parceiro demonstrar preocupação.

– Que seja. – Wolf se jogou para trás, apoiando suas costas na cadeira. – Mas se eu fosse você, estaria em uma abstinência tão profunda que poderia até praticar necrofilia.

– Ok, Tony! – retrucou Victor, sorrindo e sentindo uma repulsa imensa do comentário grosseiro de Wolf. – Nós não viemos aqui para falar de nossas vidas sexuais.

– Claro que não. Se fosse, eu teria classificado esse encontro como interessante. – ele riu das próprias palavras. – Aliás, você tem uma vida sexual?

– Eu preciso de uma informação da rede. – prosseguiu, ignorando o último comentário de seu acompanhante.

– Não sei, não, Victor. – seu tom não era de alguém que teme, mas de alguém que sabe guardar segredos.

– Vamos lá, Wolf. Eu não vou entregar você. E sabe disso.

Porque havia sido assim há anos. Wolf tinha trabalhos errados, e costumava desperdiçar a sua inteligência no lado ruim da coisa. Mas Montgomery nunca ficou no caminho de seus negócios, eles se ajudavam na medida que a lei permitia legal para bandido e mocinho.

– Eu só preciso do nome do mandante para investiga-lo. Você sabe que eu consigo arrumar as provas sem envolver ninguém. Se realmente houver um mandante, o assassino é peixe pequeno.

– Tudo bem. – concordou Wolf, depois de pensar. – Diga o que precisa saber.

– Ficou sabendo do empresário Joe Kingston?

– Sim.

– E soube se alguém da rede se encarregou do serviço?

Tony pensou por um instante. – Não, e também não soube de outra pessoa que tenha pego o serviço. Aliás, eu e os rapazes ficamos curiosos para saber quem o tinha executado. A menos que fosse uma exigência do cliente, nenhum de nós acertaria na garganta. Ainda mais pela lateral.

– E por que não?

– É mais difícil de acertar. Quem fez isso tinha um cliente exigente, ou simplesmente acertou por engano com sua falta de profissionalismo.

– Você está certo... – Victor coçou seu queixo quadrado onde a barba começava a crescer novamente. – Não faz sentido.

– Talvez, você esteja vendo isso pelo ângulo errado, meu velho.

– O que isso quer dizer?

– Antes de entrar em casa, você precisa abrir a porta. Para abrir a porta, você precisa das chaves. E então, precisa saber onde as chaves estão.

– Desde quando se especializou em metáforas? Seja direto!

Tony revirou os olhos. — Comece pela vida particular dele.

– Já fiz isso.

– Então, precisa refazer e ir mais a fundo. Todo mundo tem segredos. – ele finalmente começou a comer seu pedido. – Você sabe que estou sempre certo.

Victor sorriu, grato por poder estar na companhia de Wolf e encabulado por ele estar “No lado ruim da coisa.”

– Farei isso, meu velho.