Jessica Parker chegou à cafeteria no centro de Bristol cerca de meia hora atrasada. O agente policial Montgomery a esperava em uma das mesas discretas no canto da parede. A mulher de altura mediana caminhou sobre seus saltos finos e modernos até a mesa onde o seu acompanhante solitário se encontrava.

– Victor Montgomery? – a voz dela soava mais sensual do que a sua aparência demonstraria ser.

– Sim, senhora. – ele confirmou, levantando-se e logo voltando a sentar-se depois que a cumprimentou.

– Você é bem mais... – ela hesitou, dando-lhe uma boa olhada da cabeça aos pés. — ... interessante do que eu esperava.

– Então, — Victor remexeu-se, encontrando uma posição mais confortável em seu acento. – qual o propósito desse encontro informal? – perguntou, dando um gole no café que já bebia antes de sua acompanhante chegar.

– Alguns minutos antes de eu entrar aqui, confesso que eu tinha um único propósito, mas agora eu acho que podemos levar essa conversa para um rumo bem mais... – a loira respirou fundo. — interessante.

Victor pigarreou, sentindo-se mais desconfortável que nunca. O jeito que algumas mulheres o cortejavam era constrangedor e o modo como a jovem Senhora Parker flertava com ele o perturbava. Ele nunca precisou chamar uma mulher pra sair, nunca precisou dizer “Oi, meu nome é Victor.” Pra nenhuma garota da escola. Todas as suas namoradas, inclusive a sua falecida esposa, haviam iniciado o relacionamento com ele.

Tocando mentalmente o fio que o levava a essas lembranças, ele lamentou mais uma vez a morte de Lily. Pelo menos, quando eram casados ele podia exibir seu anel de compromisso como um sinal de Pare com as mulheres que o cortejavam. Victor considerou a possibilidade de voltar a usar o anel, mesmo não tendo uma noiva para honrá-lo.

Com todo o desconforto da situação, o homem pensou de imediato em como se sentia à vontade com Valentina. Enquanto lhe coubesse sanidade ele jamais seria tão confortável com outras mulheres. Valentina era tão frágil e vulnerável, precisava dele. Apesar de muito bonita, ela não era vulgar ou propositalmente sensual. E era isso que ele apreciava nela: toda a sua simplicidade, a pureza gentil que, de alguma forma, ainda a tocava.

– Talvez, se eu fizer as perguntas nós possamos conseguir manter o foco dessa conversa. – Victor sugeriu, educadamente.

– Não é necessário! – a loira replicou, sem feições alteradas. – O que eu tenho a falar sobre Rick é simples e objetivo.

– Então, diga.

O agente adoraria ter seu tempo poupado e sumir daquele café.

– Ele não matou Joe Kingston.

– Objetivo, simples, porém obvio vindo de você. – retrucou, dando um gole leve em seu café. – Garçonete, — chamou uma jovem que atendia outra mesa. – um cappuccino para a minha acompanhante.

– Posso provar. – disse firme, erguendo uma das finíssimas sobrancelhas loiras.

– Agora, estamos falando a mesma língua.

– Há uns tempos venho desconfiando que Rick tem uma amante. Eu contratei um detetive particular para investiga-lo. – enquanto a garçonete voltava com o café, Jessica aproveitou a pausa para remexer sua bolsa cara de couro e retirou algumas fotografias, cujo entregou nas mão de Montgomery. – A primeira foto foi tirada pela câmera de segurança do escritório de Joe e Rick, no dia em que o Senhor Kingston morreu. A segunda foto foi tirada no mesmo dia por volta das 5:00 h, mais ou menos quando Joe foi assassinado.

Victor observou as duas fotos em que o homem alto vestia a mesma roupa. Rick aparecia na entrada do prédio, onde ficava a cede da empresa de ambos, trajando uma camisa branca e uma gravata azul por baixo de um paletó, e na segunda, saindo de uma BMW preta com a mesma roupa e acompanhado de uma mulher morena.

– Pode ligar para o motel em que eles foram essa noite, se quiser. O número está escrito atrás da foto e você pode confirmar a estadia de Rick lá. Eu não tive a.... – pigarreou. – a devida coragem.

– Sinto muito, Senhora Parker. Essas evidências provam apenas o localização do Senhor Parker naquele dia. Isso não o faz menos suspeito. Ele pode não ser o autor do disparo, entretanto, isso não prova que ele não possa ser o mandante.

– Assassino particular? – a loira riu sarcasticamente. – Acho que o senhor não entendeu, Sir Montgomery. Eu dei um depoimento sobre onde o meu marido estava naquele dia, menti perante o júri. E é por isso que eu o convidei aqui, não podia falar com a polícia. Acha que eu me arriscaria tanto por nada?

Victor oscilou, considerando as palavras da loira. — Não, acho que a senhora não faria isso.

– A empresa estava no buraco, você não soube? – ela mostrou os dentes em um sorriso maléfico.

– O que eu soube foi que Rick Parker desviou dinheiro o suficiente para afundar a empresa de seguro.

– Você não sabe de nada! – ela se levantou, mostrando uma alteração de voz e feições. – Joe não virou um santo por estar morto. Você e Valentina Wardle acham que sabem tudo sobre aquele homem, mas dê outra olhada!

Depois disso, Jessica deixou a cafeteria. Victor não soube dizer se a última expressão dela era de raiva ou de glória. Ele deixou uma nota de dez libras sobre a mesa e também deixou o café. Conseguiu interceptar sua acompanhante no fim da avenida.

– Parker ainda é um suspeito. – disse ele ao parar de correr e começando a acompanhar o passo dela.

– Imaginei que seria, — pareceu mais calma. – mas o meu detetive o seguiu durante semanas. Ele não falou com nenhum entranho. Tenho os registros de tudo o que ele fez e todos os lugares onde foi nas últimas seis semanas. Não acha que eu saberia se meu marido contratasse um assassino?

Houve um curto silêncio após a pergunta retórica.

– Me perdoe se estiver sendo enxerido, entretanto, eu não entendo a razão da senhora querer provar a inocência de alguém que a traiu.

– Não tenho muito a ganhar com Rick preso. Além disso, é publicidade ruim para o meu nome ser a esposa de um suspeito.

– Será que posso dar uma olhada nos registros?

Não que Victor não acreditasse naquela mulher magoada, mas o protocolo dizia que ele deveria fazer aquela pergunta.

– Só se me fizer algo em troca. – ela sorriu daquela mesma maneira maliciosa que fez ao avistar o agente policial.

– Sobre o seu depoimento, você afirmou que esteve com Rick o dia todo.

– O que eu deveria dizer? Eu sabia que ele não havia feito aquilo, mas ele não sabia que eu estava o vigiando. Rick é meio pirado. Talvez, até quisesse exigir divórcio alegando perseguição. Morre de medo de ser perseguido. Não ia suportar a polícia toda atrás dele.

– Acredita mesmo que seu marido e inocente?

– Senhor Montgomery, — ela finalmente parou de andar. – Rick é um babaca cheio de ganância, mas ele não é um assassino. Muito menos, idiota. Ele sabe que seria o primeiro suspeito de tantas discussões.

– E por que discutiam tanto?

Os dois pararam por um instante, esperando que o sinal na avenida movimentada por carros ficasse verde para pedestres.

– Os negócios iam mal. Joe culpava Rick. E Rick culpava Joe. Mas no final, todos sempre pareciam acreditar no bom e honesto Kingston. – justificou com ironia.

– Poderia me explicar melhor?

– Eu sei que você quer respostas e para isso, precisa fazer perguntas. Mas está fazendo as perguntas para a pessoa errada. – os dois voltaram a andar, atravessando a avenida e passando por ruas que faziam cruzamentos com outras. Jessika afastou a manga de seu sobretudo bege, checando um relógio de pulso dourado e repleto por pedras brilhosas que pareciam diamantes. – Preciso pegar uma encomenda à duas ruas daqui. Ah, a propósito, com a falta de provas contra Rick, ele acabará sendo liberado de qualquer forma. E então, salvarei meu casamento viajando para o Egito! – ela sorriu, porém sem sua malicia habitual. – Se quiser saber daquela tal proposta, você tem o meu número.

“Louca. Desequilibrada.” Pensou Montgomery.

Mas ela estava certa, com a procedência de falta de provas, Rick Parker iria acabar livre. Então, Jessika não precisaria abrir sua intimidade para um estranho, não precisaria dar-se ao trabalho daquele encontro informal. O propósito dela era outro. Ela queria culpar Joe por algo. Queria livrar a cara de seu marido, mas principalmente, queria provar que Joe não era tão bom e honesto quanto todos pensavam.