Eu Te Amo

1 Certo, mas indesejável


Ela tamborilou com a ponta dos dedos sobre a mesa, olhava impaciente e desgostosa para o prato de salada a sua frente, suspirava de um lado, revirava a cabeça de outro e do nada começava a mordiscar a ponta da unha que apresentava algumas cutículas, aparentemente mais saborosas que a salada.

Estava impaciente, agoniada, mais que o normal... Doce, precisava de uma grande, saborosa e energética barra de chocolate trunfado, com bastante recheio, apenas aquilo poderia acalmar sua ansiedade.

Exalou forte afastando o prato de salada para longe de si, para perto do celular que estava do outro lado da mesa e se levantou, andou de um canto para o outro, dando voltas na sua minúscula cozinha americana, engolia a seco, ficava passando a mão enquanto andava nos seus longos e bem definidos cachos loiros, passava a mão pelo rosto magro branco, agora rosado, e sempre deixava a ponta dos dedos pousarem na sua grande boca, sua enorme boca que deveria ter sido selada logo no seu nascimento, uma boca que não deveria existir para evitar suas frustadas comunicações com os seres humanos.

Ela lembrou-se remotamente do café-da-manhã com Fritz, lembrou-se bem do que o moreno de ombros largos havia dito, e principalmente do que ela havia falado, murmurou algo baixo, para seu próprio íntimo, algo irritado e particular o bastante para esquecer rapidamente quando seu celular vibrou.

–Maldição, daqui a pouco vou ter que sair ensaboada do banho. -Ela se virou e em passadas rápidas e longas chegou novamente a mesa, ao lado do seu prato de salada intocado seu celular alardava.

–Delegada Chefe Brenda Leigh Johnson? — Ela disse em um tom mais sínico possível de bom humor. Seu sorriso amarelo com seu tom de voz gentil eram percebidos a distancia. -Mama, eu não vi o identificador de chamada. — Sua voz pareceu murchar. -Problema? Nenhum problema que a senhora me ligue, mas eu estou no meio de um papelada, realmente estou muito, muito ocupada... Eu tenho tempo para vocês, sempre procuro falar com a senhora e o papai, mas realmente aqui está muito... Não, não Mama, não é nenhum tipo de coisa que o papai possa resolver... Mama, eu realmente preciso ir, meu chefe está me chamando... Eu sei que sou a chefe, mas eu respondo a outras pessoas... Mama, uu ligo assim que puder, prometo... Ok, Mama, mande um abraço para o papai... Amo você também. — Ela voltou a colocar o celular em cima da mesa.

Patético, talvez ridículo, talvez vergonhoso, com seus 40 anos ainda sendo vistoriada... Ela socou forte a mesa fazendo o prato de salada vibrar e o celular escorregar até a beirada. Ela sabia que sua mãe lhe ligava sempre que possível para ver quem atendia o telefone, com certeza na esperança de não ser ela.

Maldito dia que inventou de chegar atrasada e Fritz lhe receber atendendo um telefonema de seu pai.


Ela sentiu algo peludo lhe alisar o pé e em um sobressalto olhou para o chão, uma gata marrom claro mesclada lhe olhava miando baixo.

–Kitty? — Ela se abaixou levantando a gata no seu colo.

A Delegada Chefe deixou a gata no chão e a seguiu para sala, onde o cantil de comida estava esbarrotado de ração.

–O que foi Kitty? — A gata continuou se esfregando nas pernas brancas e magras da mulher. -Você está precisando de atenção e de um tempo de carinho? É isso? — A loira se abaixou e voltou a tomar a gata nos braços, o tom rude de sua voz mudou completamente. -Eu acho que nós duas precisamos de um tempo só para nós mesmas... Me esqueci que é por isso que 'quarentonas solteironas' tem gatos.

Ela suspirou um pouco irritada indo para seu quarto.

Deitou-se pensativa na cama abraçada a gata.

–Sabe, eu gosto do Fritz, gosto muito mesmo dele. Mas é complicado, eu tenho medo... Não sei por quanto tempo ele vai gostar de mim... — Ela vez uma longa pausa. -Talvez seja negligente ele se mudar para cá... Afinal, aquele sofá é muito desconfortável, e onde você ia dormir não é mesmo? — Ela tentou forçar um sorriso. -Só que com ele por perto eu me sinto segura, com você... Eu só me sinto ainda mais velha e decadente. — Ela disse tudo com tom depressivo.

Se virou na cama e quando virou seu rosto deu de cara com a figura do moreno parado no meio da porta.

–A quanto tempo você estava aí? — Ela gritou indignada se levantando da cama em um pulo. Com um dedo apontado para o rosto do agente do FBI ela se dirigiu feroz até ele. -Você... Não... Tinha... O DIREITO DE TER ESCUTADO ISSO!

A loira estourou de um vez, ela deu fracos socos no peitoral do moreno, tentou empurrá-lo por birra lhe chamando de alguns nomes feios, enquanto ele na sua calma e serenidade rotineira apenas a envolveu no seu corpo, ela parou a agitação e se deixando sentir a mãos de Fritz lhe trazer uma doce sensação de paz.

Ela engoliu a seco percebendo a pirraça boba que havia feito.

–Eu sinto muito ter entrado sem avisar, mas eu preciso, de verdade, falar com você agora. Agora, não depois, não a noite, agora! — Ele tinha o tom baixo e sério, tom certo para fazê-la ficar arrepiada sob o vestido floral vermelho de alças. Ele retirou um da mãos da cintura da loira, enfiou-a no bolso do seu blazer e puxou, o celular de Brenda.

Ele o abriu olhando nos olhos dela, e o desligou ainda tendo o contado visual.

–Por favor, essa conversa não pode ser adiada. — Ela virou o rosto para baixo revirando os olhos e voltando a mordiscar a ponta do dedo. -Brenda, por favor, olhando para mim. — A loira em um longo suspiro volta o contato visual. -Quer se sentar, ou falamos em pé mesmo?

–Fale tudo de uma vez. — Ela sentenciou seu próprio fim mentalmente.

–Eu vou vir morar com você, porque eu não tenho para onde ir e neguei o convite das “Ciências Comportamentais” para ir para o leste, eu vou ficar aqui com você. Gostando ou não. — A pele branca da Delegada Chefe ficou amarela. -E não invente de desmaiar agora.

O ar lhe fugia dos pulmões, como ele não queria que desmaiasse naquele momento? Que outro momento seria mais propício para um dramático e fatídico desmaio?

–Eu não sei que atitude você quer que eu diga a esse respeito, bom, se é que eu tenho ou posso dizer algo sobre isso... Como você quer que eu reaja? — Ele curvou a boca em um sorriso.

–Que tal: “Bem-Vindo ao lar, querido”? — Ela ainda não conseguia fechar completamente a boca.

Deu longos passos para trás até se sentar na ainda olhando incrédula para ele.

–É tão terrível assim a ideia de me ter sempre por perto? — Ela balançou a cabeça.

–Não é “terrível”, é só um pouco assustadora.

Ele exalou com força virando bruscamente a visão dela.

–Eu estou no sofá se precisar de mim para alguma coisa, ou para me dizer alguma coisa.

Ele saiu de dentro do quatro retirando o blazer visivelmente chateado com atitude sua atitude insegura.

O gato miou baixo na cama e ela voltou a deitar-se para acariciá-lo, aquele era o dia folga menos relaxante que ela já tivera em anos.

Notas finais
Admitam, o 2.02 foi um dos episódios mais marcantes da série! KKK