Idiota, como eu fui idiota, por que eu pensei que ele seria legal? Ele é um perfeito imbecil, nada vai mudar isso, não adianta. Eu achei que como ele quase babou quando me viu desse jeito as coisas tivessem mudado, que pelo menos ele não me trataria assim de novo, que seriamos amigos já que somos da mesma turma, como eu fui idiota em pensar isso.

...

Hoje é dia seis de outubro, aniversario da pessoa mais importante na minha vida, hoje é aniversario da minha mãe. Hoje a dois anos atrás eu acordaria bem cedo, prepararia o café com panquecas e calda de blueberry, depois sairíamos pra ir a praia ela adorava ver o mar, depois iríamos ao shopping comer x burguer com Milk shake. Dói pensar que nunca mais a verei olhando pro mar, pulando as ondas comigo e apostando quem come camarão mais rápido.

Hoje eu não vou dar aula, hoje eu vou a praia ver o mar, como ela gostava de dizer “Quando estiver triste vá à praia e deixe o mar levar embora tudo o que te faz perder o riso.” . Hoje vou à praia em homenagem a ela, mas também pra deixar tudo isso que trasborda aqui dentro ir com as ondas.

Meu biquine é tomara que caia preto simples, mas não precisava de muito já que meu cabelo já chamava atenção. Coloquei meu short e uma blusa amarrada que deixava a parte de cima aparecer, diz a Mary que é a ultima moda na Califórnia. Me olho no espelho e percebo o quanto cresci, e evolui desde que tudo aconteceu, desde que ela se foi e eu fiquei só. De repente a campainha toca, eu tinha colocado uma depois que as pessoas começaram a aparecer aqui frequentemente.

–O que você quer?- falo quando vejo quem está do outro lado, Alec imbecil.

Ele parece sem palavras e me olha dos pés a cabeça.

–O que é? Veio falar agora que meu biquine é preto demais pra ir à praia?

–Na verdade é sim.

–Faça-me o favor Alec, vá plantar batata- bato a porta na sua cara, entro pego minha bolsa e as chaves do carro.

Abro a porta e ele está lá plantado no portão, como se fosse enfeite do jardim que eu não tenho.

–Desculpa, mas eu não me lembro de ter pedido nenhum segurança ou enfeite de porta, você poderia se retirar, por favor? – ele me olha sem falar nada ainda, eu desisto de dialogar com mudos.

Fecho a porta, e entro no carro, a praia me espera. O mar está azul, o sol bate forte contra ele, eu estico minha toalha sobre a areia branca e me dento. Não a muitas pessoas aqui, só alguns caminhando e outros olhando o mar como eu.

Lembranças me veem e as lagrimas também, poucos minutos e eu soluço baixo pros outros não ouvirem, ninguém tem nada a ver com isso. Coloco meu fone e ao fundo toca Goo Goo Dolls, essa era musica da minha mãe, seu filme preferido era Cidade dos Anjos. A essa altura eu estou deitada e as lagrimas escorrem pela minha bochecha mas eu não me importo meus olhos estão fechando só ouvindo o barulho do mar.

De repente sinto um lenço enxugando minha bochecha, abro e vejo quem eu nunca esperaria, me sento e o encaro nada sai da minha boca por longos minutos.

–O que faz aqui? – finalmente pergunto.

–Você não me deixou falar o que queria, então te segui. – ele abaixa a cabeça enquanto eu me escandalizo.

–Você me seguiu? Você é doente?

–Não, um pouco talvez, é que eu precisava dizer o que queria. – eu o encaro, não consigo definir o que vejo talvez seja verdade ou não.

–Diga.

Ele pensa e não fala, me olha atentamente mas não sai palavra alguma.

–Viu é por isso que as pessoas batem a porta na sua cara, ninguém dialoga com mudo, pelo menos não mudo que uma hora te ofende outra hora enxuga suas lagrimas. – desisto de olhar pra ele e me concentro no mar, nas ondas. Sinto seus olhos seguindo cada milímetro do meu corpo me deixando envergonhada, mas não olho pra ele. Depois de um bom tempo em silencio ele finalmente diz.

–Desculpa. — num tom relativamente baixo.

–O que? – me viro o encarando, ele está de cabeça baixa.

–Desculpa!- ele me olha e seus olhos parecem estar deixando transparecer a briga que esta ocorrendo lá dentro, Alec me pedindo desculpas era algo pra se guardar, filmar e exibir em rede nacional. – Desculpa, pelo que disse ontem. Não tinha o direito de agir com você daquele jeito.

–Não mesmo.

–É que.. É que não sei explicar.

–Não precisa.

–Mas eu quero,- ele parecia nervoso. — só não sei por onde começar.

–Comece pelo começo, sempre dá certo.

Ele respira fundo.

–Começar pelo começo, ok. No começo você era apenas a amiga da garota do Jack, mas você parecia ser mais que aquilo. E ai teve aquela noite onde eu te disse tudo aquilo e depois você aparece assim, — ele olha pro meu corpo e eu fico vermelha. — você é de longe a mulher mais bonita que eu já vi. — agora eu tenho certeza que estou parecendo um pimentão. – E depois eu vejo os garotos de futebol fazendo aquilo, por um segundo perdi o controle de mim mesmo e se não fosse pelo seu soluço ao fundo eu teria matado cada um deles. Depois você aparece na escola com aquela saia e todos ficam olhando, não que não possam, sempre fui a favor de o que é bonito é pra ser olhado, eu não sei o que aconteceu. Eu não sei o que está acontecendo, eu fiquei uma hora tomando coragem ali atrás pra vim aqui dizer que eu sou um idiota e te pedir desculpas, mas eu chego e você está chorando é como se toda vez que eu chegasse perto de você todos os meus instintos gritassem em alerta pra eu me afastar, mas eu não quisesse.

Eu estou oficialmente sem palavras, não sei o que dizer, ele me encara esperando uma resposta.

–Eu não sei o que dizer Alec.

–Não precisa dizer nada. – ele sorri. E um longo silencio se forma, até que ele fala. – Vamos tomar sorvete?

–Sorvete?

–Sim, prometo que me calo o caminho todo, mas vamos estou com desejo de calda de chocolate. – eu assinto sem palavras e vamos, sigo ele pela praia. Andamos lado a lado e nossas mãos se batem algumas vezes, chegamos a um quiosque. — Qual o sabor?

–Morango.

–Um de morango e um de chocolate pra mim, Steve.

Não demora muito ele aparece com duas taças e nos entrega, a varias caldas sobre a bancada e eu pego a de morango e começo a derramar sobre meu sorvete ele faz o mesmo com a de chocolate, ele para e fica me olhando jogar calda. Sorvete não é sorvete se não tiver muita calda de morango.

–Nossa, acho que alguém gosta muito de calda de morango.

–Sorvete não é sorvete se não for com calda de morango. –coloco uma colherada na boca, e ele ri.

Conversamos enquanto tomamos sorvete, eu me empolgo enquanto ele fala sobre o porquê de ele gostar de calda de chocolate.

– .. é uma tradição, todos gostam de calda de chocolate.

–Todos menos eu.

–É porque você nunca experimentou a calda de chocolate do Steve.

–Aposto que a calda de morango é bem melhor.

–Experimente a calda de chocolate e se renda ao sabor inconfidivel. — ele diz e colocando a colher sorvete e calda de chocolate, eu aceito.

–É bom. – ele sorri e eu faço cara de pensativa. – mas não chega aos pés da de morango. — falo, e coloco uma colher cheia na boca sorrindo pra ele.

– ok eu desisto, mas antes uma coisa. – ele pega um papel e limpa o canto da minha boca, seu toque é suave enquanto seus olhos me absorvem. – calda de morango. – ele diz mas não se distancia, continua a centímetros do meu rosto. Ele se aproxima, sinto sua respiração, seus olhos nos meus, nossas bocas muito próximas. Desvio e falo ao seu ouvido.

–A calda de morango sempre vence! – ele ri e se afasta.

Saímos do quiosque e caminhamos pela praia, andávamos perto e ele carregava meu chinelo. Sentamos na areia, o sol estava se pondo e eu observava o mar.

–Posso fazer uma pergunta?

Eu assinto.

–Por que você estava chorando? – eu fico em silencio, não esperava isso. De todas as perguntas possíveis ele fez logo essa. – Desculpa, perguntei demais não é? Não precisa responder.

–Tudo bem, afinal eu te devo uma. – faço uma pausa, respiro e começo. — Hoje é aniversario da minha mãe.

–E cadê ela?

–Morreu, a alguns anos atrás.

–Sinto muito.

–Tudo bem. Então eu vim pra cá pra lembrar ela, ela dizia que quando se está triste procure o mar e mande as lagrimas com ele.

– Entendi. – ele olha pro mar agora, silencio se instala e minha lagrimas escorrem. – Acho que você está fazendo errado.

–O que?

–Se as lagrimas tem que com as ondas, você tem que chegar até elas. – ele levanta e me da à mão pra levantar. Então ele pega na minha mão, eu deixo ele me levar até estarmos com água até a cintura.

–Obrigada, meu dia tinha tudo pra ser regado com lagrimas e fone de ouvido mas você apareceu.

Ele se aproxima e coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.

–Duas vezes. Acho que já sou um herói. – ele faz uma pausa, e se aproxima ainda mais seus olhos parecem só querer me olhar e se o mar não fizesse barulho poderia ouvir seu coração acelerado. – Seu herói.

Nossas bocas se encostam e eu perco a noção de realidade e me entrego, sua mão me envolve na cintura me puxando pra perto. Seus lábios são macios, seu beijo quente e envolvente. Ele para e me olha, seus olhos esperam uma reação mas eu só tenho uma. Puxo-o pra perto o beijando.