Notas iniciais
Yara

Eu fui iludida. Pensei que ficaria em uma vida apenas de shows, me esqueci de um detalhe, sou da banda, não sou o artista principal. Então boa parte do tempo iamos de acompanhantes de Citro para entrevistas onde ele cantava e se envolvia com fãs em uma trama mais falso do que tudo. Ele era bom, comparei muitas de suas entrevistas com as de Richard e como fã do grande astro eu deveria considerá-lo o melhor, masa não foi o que aconteceu. Richard era bem mais frio do que Citro, quase não conversava com fãs convidadas enquanto Citro sempre falava com as suas e asa convidava para cantarem com ele. Mesmo assim era o outro quem tinha a maior legião de fãs.

Já fazia um bom tempo que todos estavamos juntos, a produção do livro de Vladimir e Yeva já estava quase no fim. Ela me mandava algumas possibilidades de capa, dizia que achava todas boas, mas ainda não tinha encontrado a perfeita. Liguei meu computador enquanto esperava Citro terminar a entrevista, os outros liam ou ouviam música, ou no caso de João, dormia. Abri alguns programas que há muito eu não usava. Peguei algumas fotos de Richard e comecei a alterá-las, mudar fundo, tentei fazer montagens de títulos, já tinham um nome para a biografia.

Richard — O Reascender de uma Estrela.

– O que está fazendo? — Fernando se debruçou ao meu lado — O que é isso?

– O livro que minha irmã e Vlad estão montando, estão com problemas com as capas.

– Essa me parece boa, eu compraria um livro com essa capa — ele falou — mesmo que ele fosse ficar só na minha estante.

– Sério? — ele confirmou — Quando eu terminar vou te mostrar.

Ele falou que gostaria de ver.

Minha vista já estava cansada e pelo que a televisão daquela sala rodava a entrevista estava longe de acabar, estou com pena dos editores, tantas besteiras que ouvi e que serão cortadas. Algumas até me faziam desviar do meu trabalho e rir.

Depois de alguns ajustes cutuquei Fernando.

– O que acha? — entreguei o notebook para ele.

– Ficou muito bom — ele me olhou — Você aprendeu a fazer isso como?

– Partes em cursos, partes na faculdade, partes fuçando nos programas — eu falei espreguiçando — Nossa! Estou com uma fome, vocês não?

– Nem me fale — Pedro se contorceu — Será que tem alguma coisa para comer por aqui?

– Logo vamos ver, deixa só eu mandar isso para minha irmã.

Enviei, desliguei o notebook o coloquei na mochila. Saímos os quatro em busca de algum lugar para comer. Alexander me enviou duas mensagens, uma deles todos almoçando e outro com JT e Richard passando mal e uma mancha que depois de encarar muito parecia vômito o que me forçou uma careta e fez Fernando me roubar o celular soltar um 'Nojento'.

Compramos alguns lanches em uma lanchonete que encontramos, voltamos para o local da filmagem que já estava perto do fim, Citro se retirava do palco, algumas fãs iam até ele e pegavam autógrafos e fotos. Ele entrou e nos encarou enquanto comiamos nossos lanches, o meu sanduíche era tão grande que eu nem conseguia mordê-lo inteiro, tinha de pegar metade e depois a outra metade, a quantidade de queijo me deixava feliz e o molho perfeito, pena que melecava meus dedos.

Citro reclamou que não compramos nada para ele.

A questão não era que não tinhamos comprado, mas no caminho para lá detonamos as batatas e o refrigerante, e depois antes de comermos os nossos usamos o dele como entrada.

Compramos o lanche do nosso astro e depois fomos para o hotel, dois dias de filmagens para irmos a uma revista onde ele daria mais uma entrevista, depois iriamos para outra cidade para nos prepararmos para mais um show, mais uma cidade de catalogo que eu conheceria de verdade.

Mas tinham cidades em meu catalogo que talvez nunca fossem receber seu check, como Kiev, Bhali (ilha), Townsville, Okinawa e muitas outras. Me deixava triste, ms conheci algumas que sequer estavam em meu catalogo e isso é ótimo, porque foram viagens maravilhosas.

Citro dizia que já iamos tirar férias, já estavamos rodando a tanto tempo que seus musculos pareciam querer estourar a qualquer instante.

– Para onde vão nas férias? — João perguntou juntando suas coisas.

– Vou visitar minha mãe em Nova Iorque — Pedro falou.

– Família — Fernando sorriu, desde que começamos com a turnê ele só se encontrara com eles três vezes, mas não tive a oportunidade de conhecê-los.

– Sem destino — falei.

– Vem comigo — Fernando falou — Minha esposa e meus filhos querem te conhecer, acho que pode ser divertido.

Aceitei o convite.

Citro disse que ficaria na sua casa do interior de São Paulo, queria ficar distante de tudo. Retornariamos dali um mês para um show nos Estados Unidos.

Fernando me ajudou com as malas quando desembarcamos em Moscou. A esposa nos aguardava, ao me ver ela me cumprimentou e falou 'prazer em conhecê-la' pelo menos cinco vezes antes de entrarmos no carro. Ela dirigiu até a casa deles, os filhos estavam na janela e correram para a sala assim que nós entramos. O mais velho é o Nicholas, 15 anos o músico clássico, tinha lápis na parte inferior dos olhos, o cabelo comprido e roupas pesadas, se Fernando não tivesse dito que carreira ele queria seguir eu nunca teria adivinhado. O mais novo Lincoln com 14 anos, cabelo cortadinho, a roupa suaja de tinta assim como o rosto, ele não negava o que queria ser.

Observei várias pinturas pela casa, algumas em quadros outras na própria parede e pela tinta eu percebia onde tinha pintura sobre pitura, imaginei que todos do jovem Lincoln.

– Seu quarto é por aqui — Nicholas falou com o seu português de sotaque russo.

Eu o segui, ele carregava uma mala e eu outra. Ele abriu a porta de um quarto e anunciou que dali alguns minutos o jantar já estaria pronto. Agradeci.

Eu estava em uma suíte, aproveitei para tomar um banho e tirar o cheiro de viagem, não que ele seja ruim, mas ao retirá-lo automaticamente me sinto mais leve, coloquei uma roupa mais leve e fui até onde pensei ser a sala de jantar da família, os meninos já estavam sentados. A dançarino mancava e não pude deixar isso passar a minha visão. Ela seguiu meu olhar e sorriu sem graça.

– Então, Yara, como é trabalhar com os meninos? — ela me perguntou, eu ainda não sabia seu nome.

– Divertido — falei sorrindo — Todos eles são bem legais.

– O Citro é um cara legal? — Lincoln perguntou.

– É sim, vocês não o conhecem? — eles negaram, olhei Fernando.

– Eu nunca quis que o conhecessem — a mulher falou — Não acho esse ambiente do rock saudavel para eles, a exemplo do pai que nunca está em casa.

– Mas já vai começar, Natasha? — descobri o nome — Temos uma visita aqui e...

– O quê? Vai me dizer que você é um pai super presente, que sempre apoia os filhos?

E eu fui mergulhada naquele momento constrangedor de briga de casal, os filhos reviravam os olhos e eu tentava comer aquela coisa que eu não conseguia identificar o que era, mas pelo menos o sabor era bom.

A briga continuou durante muito tempo.

– Yara — olhei o caçula — quer ver mais quadros? — confirmei.

Os dois irmãos me guiaram pela casa enquanto o casal ainda brigava. Abriram uma porta que dava em um comodo cheio de quadros, olhei cada um deles ouvindo as explicações de Lincoln que a julgar a cara de Nicholas eram contadas a todo instante.

A maior decepção do caçula era não conseguir vendê-los.

– Já tentou a internet? — perguntei, ele confirmou. — Tive uma ideia — ele me olhou — Vou ser sua garota propagando, quero um dos seus quadros — olhei todos e encontrei um que era um show de rock, eu percebia as influencias do pai — Quero esse.

– Esse? — os dois perguntaram em coro — É o que mamãe mais odeia — o caçula falou — Vendê-lo será uma glória para ela. Vendido.

– Certo — eu ri — Só tenho um problema — os dois em olharam curiosos — Não tenho onde guardá-lo, estou sem casa no momento.

– Deixa aqui e quando tiver seu canto você leva — Nicholas falou — Nós guardamos isso para você.

– Vocês são uns fofos — eles coraram o me fez rir. — Quero uma foto.

Eles me olharam assustados.

Me juntei a eles, fiz uma careta. Nicholas e Lincoln também fizeram, depois de algumas fotos escolhemos qual eu deveria publicar.

Uma pausa na briga e logo pude ouvir risos vindos da sala de jantar.

Nicholas me levou até seu quarto, com Lincoln nos acompanhando. Ele começou a colocar seus CDs, ele disse que gravara em casa ou em um estudio que a mãe encontrara para ele tentar seu primeiro disco. O som de violino, triangulo, violoncelo, arpa, tudo pertencia a ele, inclusive a montagem da música.

Os dois eram bons no que faziam, o sangue artistico corria em suas veias e eu os entendia muito bem.

Depois de uma longa sessão de música clássica fui para o quarto onde eu passaria os próximos dias, e eu já estava esgotada aquela altura, precisava relaxar um pouco.