Notas iniciais
Yara

Os dias naquela casa eram frios, tão frios que as vezes eu achava ter dormido com pedras de gelo aos meus pés. Levantei enrolada a um cobertor, ele cobria a minha cabeça, abri a aporta do quarto eu estava com fome, muita fome o que era bem comum quando eu levantava. Desci as escadas, a madeira parecia estar gelada além da minha meia e da sola da pantufa. Apareci na cozinha e encontrei Richard colocando água para ferver. Ele me olhou e apenas deu um leve sorriso, olhei na bancada e encontrei um cobertor que imaginei pertencer a ele.

– Quando se é criança, o frio parece algo bem mais divertido — ele comentou com uma voz preguiçosa.

– Você vinha para cá quando criança? — eu me sentei.

– Vim algumas vezes, até ter dinheiro para poder comprá-la — ele sorriu os olhos inchados se encolheram com o mover das bochechas — E então passo minhas férias aqui, é bom para esquecer toda aquela confusão — confirmei enquanto estremecia — Vou acender a lareira.

Ele foi até a sala, observei sobre a pia uma caixa de chás, ele colocava lenha e tentava acender a madeira fria. Peguei duas canecas, coloquei um saquinho de chá em cada uma e água quente, o vapor atingia meu rosto de forma reconfortante, era bom. Fui até a sala estiquei a caneca a ele assim que terminou de acender a lareira, nos sentamos ao sofá e novamente o silêncio tomou conta de nós. Richard assoprava o vapor encolhido debaixo do cobertor, eu nunca o tinha visto parecer tão vulnerável, não em público, mas também nunca fiquei tão íntima dele. Um vento frio o fez estremecer, vinha da janela do banheiro provavelmente ainda estava aberta ou com alguma fresta. Ele me olhou percebendo minha análise.

– Algum problema, gêmea? — eu o olhei, 'gêmea' soou tão ríspido, eu ajeitei os ombros para melhor cobri-los com o cobertor, apertei a caneca para aquecer minha mão e neguei com um gesto — Você é bem diferente da sua irmã — eu o olhei de canto.

– O que quer dizer? — cerrei os olhos e desci as pernas fazendo um vento gelado soprar.

– Quando eu disse estar cansado você aceitou isso, brigou um pouco, insistiu, mas depois desistiu, ela... — ele olhou o líquido da caneca — Yeva, ela não me deixou desistir tão fácil — eu ri, ele me olhou parecendo se ofender com minha atitude.

– Ela é assim, vira questão de honra ajudar os outros, já eu — dei de ombros e me levantei, estiquei a mão para pegar sua caneca também já vazia — ajudo aqueles que querem ser ajudados, se você não me permitir isso não poderei forçá-lo, seria como invadir uma fronteira. — ele me olhou por cima do ombro — E por sinal — ele prestava atenção — Não quero que me compare com ela, não sou a Yeva.

– Desculpa, eu não queria te ofender.

Confirmei.

Subi a escada, troquei de roupa coloquei uma jaqueta e duas calças, duas meias, meu pé quase não cabia na pantufa, antes de sair do quarto eu podia ouvir o som de um violão tocando e alguém parecia cantar, mas imaginei estar delirando, Richard não estaria fazendo nada disso, ainda mais quando estava todo travado há dias sem conseguir liberar uma única nota desafinada. Ali naquela casa eu era apenas uma garota contratada para lhe fazer companhia, do contrário eu não servia par amais nada. Meu ídolo não queria cantar, não queria tocar e aparentemente nem seguir seu cronograma pré-programado pelos empresários. Encolhi-me na gola da jaqueta e voltei para a sala, encontrei Richard sentado ao sofá, o violão deitado ao seu lado e um caderno preso aos seus dedos que estavam brancos de tão gelados, ele me olhou parecendo espantado, olhei o que ele escrevia, estava compondo.

– Isso é bom — falei, ele olhou o violão e depois me olhou — Ver você compondo já é um bom passo — sentei ao seu lado — E quanto a cantar?

– Não me force...

– Eu o ouvi — ele se assustou sorri tentando não parecer uma onça diante a um coelho — Não parecia tão ruim, você não parece estar tão desafinado, será que poderia cantar para mim?

Ele pareceu desconfortável, mas pegou o violão e o dedilhando começou a cantar, aquela era a voz que me relaxava, claro, não estava afinada, longe disso, era como um violino desafinado nas mãos de um profissional, com os movimentos certos, mesmo que imperfeitas as notas eram maravilhosas. Fechei os olhos para escutá-lo melhor, até ele fugir a nota, abri os olhos, ele parou de cantar e de tocar o violão, parecia constrangido, corrigi seu tom e pedi para que me imitasse nos ensaios, ele começou a fazê-lo, isso me alegrava.

Paramos para preparar o almoço que era uma sopa bem quente que ao atingir nossos estômagos nos relaxava instantaneamente. Deitei um pouco no sofá, Richard ficou treinando um pouco mais e quando fugia o tom fazia nossos exercícios, eu o escutava, estava indo bem, tão bem que cochilei. Acordei com um vento gelado que chegou a balançar as chamas da lareira, olhei sonolenta para a porta, os empresários estavam entrando. Olharam-me, eu me sentei espantada, Richard descia as escadas correndo, estava cantando até minutos antes e eu só soube pelo elogio que a empresária me lançou, mas logo entendi que o que queriam ali não era comigo e sim algo particular. Subi até meu quarto, aproveitei para mandar um e-mail para Yeva, fazia tempo que não nos falávamos, ela deveria estar preocupada, ou nem tanto, achei que teria mensagens sua me aguardando, mas apenas duas não lidas e uma delas era de um site de compras. Respondi minha irmã que perguntava sobre algo de três dias atrás, mas não parecia urgente como em outros e-mails, era como se tivesse se distraído por lá, o que eu achava bom, mas para Richard saber que minha irmã não estava mais tão curiosa sobre ele seria sinônimo de ela estar se envolvendo com Vlad, o que para mim também não era algo positivo, mas agora não me importo mais.

Fui interessada por Vladimir, isso é verdade, caí nos seus encantos, fui levada a crer que ele era apaixonado por mim, mas agora era diferente, eu estava tão entretida com Richard no Canadá e com a ideia de poder tocar em um de seus shows que pensar em Vlad com minha irmã até me relaxava.

Ouvi a porta ser fechada, deduzi que já era seguro me retirar do quarto, eu já tinha mandado algumas fotos a alguns sites, notícias e tentado contornar toda a confusão que começara antes de chegarmos ao Canadá, foi menos trabalhoso do que achei que seria.

Cheguei a cozinha, Richard estava escrevendo algo e me olhou assustado.

– Posso te pedir algo? -ele parecia alegre, assim como parecia ter chorado, o contorno de seus olhos estavam vermelhos, assim como seu nariz, seus lábios estavam trêmulos, mas bem corados.

Confirmei.

– Avisar a Vlad que minha irmã acordou. — ele sorria alegre, eu não pude resistir, sorri novamente para ele e pensei em abraçá-lo, mas não tinha certeza, depois de abraçá-lo eu faria o quê, beijá-lo, dizer algo reconfortante que eu nunca sei se é correto dizer nesses momentos. Então apenas falei que logo mandaria um e-mail para Vladimir e voltei para meu quarto.

O som do violão voltou a voz de Richard extremamente mais empolgada soou pela casa, estava mais bem afinado do que da última vez que o escutara cantar, agora estava motivado, eu sabia que sua irmã era uma grande influência, no inicio de sua carreira fora a pessoa que mais o apoiou, saber que ela estava bem deveria ser a melhor sensação do mundo, eu queria ter desfrutado disso quando meus pais sofreram o acidente, mas tudo de que desfrutei foi da notícia de óbito junto de minha irmã que ainda tinha alguns curativos. Ficamos arrasadas.

– Já enviei a noticia — tentei ser o mais enérgica possível — Ele deve me responder em algumas horas.

– Obrigado — ele sorria alegre — Será que virão logo para cá, quero dizer, Vlad e sua irmã, Yeva adoraria conhecer minha irmã e Vlad vai ficar super feliz em vê-la despertada. Nossa! — ele bagunçou o cabelo passando a mão para trás, algumas mechas menores caíram sobre a testa dando um ar charmoso a ele — Estou tão feliz que nem consigo me controlar.

– Quando vamos a cidade? — perguntei, ele me olhou confuso, percebi que ele não sabia a resposta.

– Acho que teremos de esperar um pouco, ela acabou de acordar, terá de ser transferida de quarto e acho que querem que nós três vamos lá juntos.

– Os três? — perguntei confusa e já me sentindo cansada.

– Eu, Cítro e Vladimir, eu sou o irmão, Vladimir er ao melhor amigo e Citro, bem, você já sabe.

– Eu não consigo entender como ele parece te odiar tão profundamente na mídia, mas na verdade vocês são melhores amigos, mesmo que agora você esteja bravo com ele, mas ainda assim é difícil.

Ele sorriu e me deu as costas, abaixou no forno, abriu e pude sentir o cheiro, ele preparava bolo. Eu queria saber onde ele aprendeu a fazer tantas coisas deliciosas.

– Vou ficar mal acostumada com um cozinheiro como você.

Com esse comentário recebi o sorriso mais caloroso que já vi surgir dele e acompanhado do cheiro de bolo de laranja e leite quente que já apitava indicando ter fervido.

Encerramos o dia comendo e bebendo coisas quentes embaixo de cobertores de frente a lareira.