Eu Quase Namorei o Ídolo da Minha Irmã
18 Não é dele
Notas iniciais
Os dias se passaram, Yara sempre me manda emails, mas não era sempre que eu conseguia respondê-los, a correria na faculdade e nas pesquisas par ao livro estava enorme, eu chegava na casa de Vladimir e passava o dia lá, o trabalho era tanto que já tinha até tomado a liberdade de deixar uma muda de roupas e meu pijama no quarto que eu sempre usava já que dificilmente eu ia para casa, e quando eu ia era aos finais de semana para lavar a roupa, dar uma limpada e então voltava ao trabalho.
– Para você — ele falou em um dia esticando uma caixinha pequena, eu o olhei tentando entender, não estávamos em seu carro e sequer tínhamos saído da faculdade, logo todos nos observavam, senti minhas bochechas corarem.
– O que é isso? -o tipo de pergunta que você sabe que a resposta será, 'abra logo' ou 'é uma surpresa'.
– Uma caneca — ele me respondeu, eu o olhei depois de abrir a caixinha, não achei que ele responderia a minha retórica pergunta — Star Trek, espero que tenha gostado.
– E o Spock está grandão nela, caramba, obrigada — eu pulei em seus ombros, sim, eu já estava mais íntima dele e achava que fazer isso não teria muita importância, ele me abraçou desajeitado e arrumou os óculos que não estavam tortos — Eu adoro o Spock — eu fiz a mão ele me copiou rindo tímido.
– Eu sei. — ele olhou para a tela do celular.
– Droga, já deu meu horário. — ele falou e me olhou suspirando — Você vai na frente, — ele colocou algo dentro da caneca — e começa a adiantar sua parte, depois eu a alcanço.
– Certo. — peguei a chave de dentro da caixinha, tinha um chaveiro do pac-man.
Ele foi dar sua aula e eu pegar o ônibus, já fui a casa dele sozinha, mas normalmente eu ia para lá depois que ele já estava, nas sextas eu ia para meu apartamento e depois ao anoitecer eu ia para a casa dele, pensando bem, eu já estava mais morando na casa de Vladimir do que na minha, pensando nisso agora comecei a me sentir mal, era como invadir a casa sem pedir licença, tudo bem que ele pedia para eu ficar, mas mesmo assim era só educação, ou não...
Abri a porta da casa, fui até a cozinha coloquei um café para passar e subi para o escritório, era estranha a casa sem ele, mesmo que em silêncio ele fazia barulho com sua manina de grunhir quando não conseguia o que queria ou de xingar achando que ninguém o ouviria após se queimar com o que café (algo que acontecia todos os dias). Sentei na cadeira que era meu lugar de costume, observei a pilha de papel para começar a ler, reuni coragem e comecei a folhear, parei para adoçar o café e tomar um pouco na minha nova caneca. Fui da ruma olhada nos livros que ele tinha ali, a primeira impressão de muitos dele, rascunhos de outras histórias e um livro sobre uma autora muito famosa, eu o tirei da estante e comecei a ler a dedicatória "Ao meu netinho com todo o amor do mundo, espero que voe bem alto, Francisca Amaral" o F e o A eram bem desenhados enquanto o resto das letras pareciam estar em itálico. Ele era neto dela, como nunca soube disso, tudo bem que não se espera que alguém se apresente com "Oi, sou Vladimir, neto da maior autora nacional Francisca Amaral", mas mesmo assim tivemos tantas conversas sobre nossas famílias, mas em nenhum momento ele falou sobre a avó, talvez eles não fossem íntimos, mas se não fossem ele não teria um livro dela na estante de favoritos e nem mesmo aquela simples e bela dedicatória.
Peguei mais café e continuei meu trabalho, mas deixei aquele livro de canto para lê-lo quando desse uma pausa. Foi o que fiz ao final da tarde. Comecei a ler, mas caí no sono, acordei com o som de Vladimir puxando a cadeira para se sentar a mesa, ele me olhou e sorriu simpático, tentie retribuir, mas isso só que fez rir sonoramente.
– Gostou?
– Da caneca? Adorei — respondi olhando a caneca com o resto de café já frio.
– Do livro — eu procurei pelo exemplar, não o vi — O coloquei de volta a estante, ele é muito especial — senti minhas bochechas corarem.
– Certo, desculpe.
– Sem problemas — ele olhou a papelada — Parece que rendeu bastante hoje.
– O suficiente. — falei sorrindo — E como foi a aula?
– Chata — ele espreguiçou e me olhou de canto — Não quer assisti-la na próxima semana?
– Pode ser — sorri para ele e me levantei — Vou dormir, já estou cansada.
Ele confirmou e me mandou um 'boa-noite' cansado.
No dia seguinte fui até meu apartamento, lavei mais algumas roupas, limpei o pó e preparei um baldão de pipoca, eu estava com vontade de comer porcarias o dia inteiro se isso fosse possível. Liguei a televisão e estava passando Star Wars, eu ia mudar e procurar qualquer outra coisa, mas deixei ali e assisti me lembrando de Richard dormindo tranquilamente com aquele cabelo bagunçado sobre o rosto, ele era encantador, abracei minhas pernas e olhei para o Darth Vader, eu sentia falta do astro e da minha irmã, estava torcendo para que eles estivessem bem e que Richard não a estivesse maltratando ou vice-versa.
O interfone tocou, o atendi, o porteiro dizia que minha tia estava ali e queria entrar no apartamento, falei que sua entrada não era permitida. Desliguei, o interfone tocou mais duas vezes, peguei uma blusa, a tarde estava esfriando, mas mesmo de blusa, eu usava o short do pijama e uma pantufa que deixava tudo muito bem combinado, só que não. Desci as escadas e cheguei até o portão, do outro lado estava a mulher com cara de impaciente. Fui para a rua e me arrependendo de estar ali com aquela roupa, meu primo a acompanhava e não tirava os olhos de mim, isso me preocupava.
– O que querem? -cruzei os braços tentando me esquentar.
– Vamos tirar tudo de vocês — ela falou sorrindo — Você e sua irmã morarão na rua como duas mendingas.
– Mendigas — eu a corrigi o que pareceu irritá-la, maldita mania. — E como pretende fazer isso?
– Abri um processo, irão rever o que seu pai deixou naquela carta e autenticidade dela.
– Quer dizer que te farão passar vergonha mais uma vez? — eu ri sozinha, meu primo se aproximou o que me fez encolher contra mim mesma, eu sentia falta da Yara por perto, com ela eu ficava mais confiante, mas estar ali sozinha me sentia desamparada. — Olha, eu não sei o que a senhora tanto quer do meu pai, mas saiba que nada disso aqui é seu, o que ele deixou estava claro, 'Deixo tudo o que tenho, desde minhas dívidas até meus lucros para minhas duas filhas', palavras do senhor Budapeste.
– Você está linda. — meu primo comentou eu o olhei tentando entender o que aquilo tinha a ver com a nossa atual situação.
– Controle-se — minha ti ao olhou também tentando entender — Olha aqui, Yeva, não sei porque ele fez tamanha idiotice, mas sei que hoje seu pai estaria arrependido de tudo, de ter se tornado músico, de ter largado a mim e meus pais — era verdade, ele passou anos sem falar com a família, mas tinha um motivo, ninguém o apoiava, mas depois de alguns anos os pais dele se arrependeram e foram a um show do filho e virão o potencial dele e o apoiaram, era exatamente o que ele fazia comigo e Yara, nos apoiava, dizia que a pior coisa do mundo é ter quem você ama contra você, ele devia ter razão — Ele teria se arrependido de ter se casado com aquelazinha — eu a olhei, 'aquelazinha' era referencia a minha mãe.
– Aquela o quê? — eu perguntei sentindo o gosto do ódio.
– Aquelazinha cheia de frescura que mais delirava do que tudo, ele teria se arrependido de ter tido duas filhas imprestáveis como você e a Yara... que afinal nem são dele.
– Agora já chega!
Eu ia avançar sobre ele, meus braços estavam prontos para agarrar aquele cabelo de progressiva, meus óculos já embaçavam, eu não enxergava só tinha como referencia o local onde ela esteve durante toda nossa conversa. Eu quase já sentia a textura da sua pele recebendo minhas unhas, mas no meu salto alguém me pegou no ar e ficou me segurando pela barriga, eu ofegava, o ódio ainda era exalado, mas agora o embaçar dos óculos reduzia, eu podia ver minha tia pálida, tão assustada quanto meu primo, minha respiração foi relaxando, eu ainda não tinha olhado para quem me segurara.
– Acho que melhor vocês dois irem — uma voz séria.
A dupla correu, relaxei meus ombros ao os ver entrar no carro e partirem desesperados. Olhei para quem me segurara, Vladimir me fitava curioso e eu não podia fazer diferente, eu ouvira sua voz antes, nunca o tinha visto tão sério.
– Obrigada — falei abrindo o portão e dando espaço para ele entrar, agradeci ao porteiro que estava pálido, mas ainda acenou de volta — Sério, obrigada mesmo, eu teria acabado com aquele rostinho cheio de maquiagem dela.
– Eu sei que teria — eu abri a porta do apartamento, ele entrou e olhou para a televisão ainda ligada, subiam os créditos.
– Mas o que você veio fazer aqui? — falei ainda cansada. Corrigi minha postura.
– Sua irmã me mandou um email — eu lhe dei as costas e fui pegar um copo com água, ele me seguiu e se apoiou na bancada — A irmã do Richard acordou — ele sorria — Estou pensando em ir visitá-los, o que você me diz?
– Bom... Muito bom... — era muito bom mesmo, mas eu estava conturbada com o que minha tia dissera, sobre querer tirar tudo de mim e da Yara e sobre não sermos dele...
– Está tudo bem? — eu o olhei e só então percebi que fitara todo esse tempo as gotículas geladas que se formaram no copo.
– Está... só que eu... — suspirei — me desculpe, essa notícia sobre a irmã do Richard é ótima, juro, mas minha tia me disse umas coisas que me deixaram meio abalada — falei, ele estava dando passos na minha direção, me abraçou e apertou minha cabeça contra seu peito.
– Venha comigo, vamos relaxar indo ver Richard e sua irmã, o que me diz? — eu o olhei, meu queixo em sua clavícula, confirmei e sorri — Ótimo, agora vamos assistir a mais um filme, porque eu adoro Star Wars. — ele falou me largando e se jogando no sofá.
Coloquei o copo na pia e corri par ame juntar a ele, ainda tinha pipoca, apesar de estar começando a murchar.
Dormimos ali.
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