Notas iniciais
Yeva

Fui pegar os livros que a vovó tinha deixado para mim, um era do Vladimir, era um original dele, outro era dela autografado. E dentro do de Vladimir tinha um outro bilhete.

"Pense bem sobre sua história, ela é fantástica."

Deixei tudo junto das minhas coisas, procurei por Vladimir, ele não parecia estar na casa fui atrás dos cavalos, o dele não estava ali, criei coragem e montei no da vovó, ele relinchou, pensei que iria cair, mas ele apenas estremeceu, olhou para a frente como que esperando que eu desse a partida.

– Ah... Claro — mandei beijinho e bati de leve com o pé na lateral de seu corpo.

Ele relinchou, segurei as rédeas com força, o cavalo começou a andar, eu fui guiando até o local onde o escritor tinha me levado antes, encontrei seu cavalo lá, comendo a grama despreocupado, mexeu as orelhas quando saltei do cavalo, Vladimir me olhou assustado.

– E ai, tudo bem? — perguntei me sentando ao seu lado.

– Está, está... — eu o encarei, ele me olhou — Não está, não — ele parecia prestes a chorar.

– Vem aqui — ele hesitou puxei sua cabeça contra meu ombro, ele tirou os óculos e desabou chorando, acariciei seu cabelo.

Nunca o tinha visto dessa forma, Vladimir aprecia tão vulnerável agora, ele soluçava desesperadamente, me abraçou, eu o apertei bem forte, ele me olhou, limpou as lágrimas, tirei meus óculos e limpei algumas lágrimas que me correram o rosto, foi ali que eu entendi, foi ali que entendi o quão frágil todos somos e que eu não poderia ficar remoendo o acidente dos meus pais todas as vezes que me lembrassem dele, eu tinha de superar, tinha d superar não só por mim, mas pela Yara e agora pelo Vladimir, ele vai precisar do meu apoio, se eu ficar doída com a morte não poderei ajudá-lo.

– Vem — eu levantei e o puxei — levanta.

– Sabe algo que eu percebi? — eu o olhei tentando entender — Você andou a cavalo.

– Viu como fiquei preocupada? — ele riu — E até que não é tão ruim.

Cavalgavamos de volta para a casa, os empresários já estavam lá. Recolhiam alguns materiais que percebi serem de projetos da vovó, ajudamos a recolherem tudo.

Iamos ficar na casa, Vladimir foi para o quarto e se trancou, abri meu notebook, não vou trabalhar, é a última coisa que pretendo fazer. Olhei meus emails, minha irmã me respondera, Richard não vai vir, não vai vir apoiar o amigo, fiquei brava, gritei um enorme palavrão de uma forma que há anos não fazia, mas me calei, não queria acordar Vladimir. A respondi com um "ok", ela saberia que eu estava muito brava, e eu realmente estava. Larguei tudo e desci, queria um pouco de café.

– Caramba, que susto! — eu parei no sofá, ele estava deitado, assistia a um programa de leilão — Quer café?

Silêncio foi a resposta que tive.

Preparei e da cozinha observei o canal mudar para televendas, logo voltou para leilões, vendiam um boi, parecia ser dos bons, se é que bois são dos bons, ou têm pedigree, não entendo desses animais. Enchi duas canecas até a boca com café e leite quente, as apoiei na mesa de centro, balancei Vladimir algumas vezes, ele acordou, sentou e tomou o café, tudo em silêncio, eu respeitava isso. Eu fiquei muito tempo assim nos poucos instantes em que não me culpava, eu queria saber se ele se culpava pelo ocorrido, mas perguntar algo assim é como fincar uma estaca em uma ferida já aberta e eu não quero que isso aconteça.

Ele me entregou a caneca, as coloquei na mesa de centro novamente, ele se deitou, sua cabeça encostava em minha perna, mas ele não a estava apoiando, forcei para que o fizesse, ele me olhou, apenas sorri e comecei a brincar com seu cabelo, enrolando os dedos, até que ele adormeceu, mudei de canal, coloquei em um filme sobre zumbis, não era grande coisa, mas era o que tinha de melhor naquele horário.

Eu me perguntava se Vladimir ainda iria querer ir ao show de Richard, será que ele ainda estaria disposto a se deslocar tanto por alguém que sequer ligou para ele...

Acordei e só nesse instante percebi que tinha dormido, Vladimir ainda estava deitado, mas ele não dormia, me olhava. Sorriu levemente e então se levantou e me beijou, fiquei estatica, ele se afastou e levou a mão a cabeça como se tivesse sentido uma pontada.

– Quer mais café? — perguntei me levantando e pegando as canecas do centro.

– Sim, por favor.

Sentei ao seu lado sobre minhas pernas, ele agradecera em silêncio, apenas com um leve movimento dos lábios. Envolvi a caneca com as duas mãos para poder aquecê-las, ele fez o mesmo, o pé apoiado no joelho, lembrei do meu pai dizendo que aquele era o jeito macho de se cruzar as pernas, ri sozinha. Ele me olhou.

– Sobre o beij...

– Não se preocupe — falei, ele me olhou — Não sairá daqui.

– Não era isso que eu ia falar — ele pareceu desapontado.

– Ah... Não? — eu o olhei sentindo minhas bochechas corarem.

– Não, eu só queria saber se ele poderia se tornar algo mais frequente. — eu o olhei, ele fitava a televisão e então me olhou — Sério que você está assistindo essa droga de filme? — ele tentou roubar o controle.

A forma como trocavamos de assuntos constrangedores para coisas banais era absurda e era algo que me encantava. Estiquei o braço par abem longe dele, Vladimir tentou pega-lo, estiquei ainda mais, ele quase se deitou sobre mim, eu o olhei rindo, ele estava sério, voltou e se sentou normalmente.

– Ei, Vlad... — ele me olhou assustado por tê-lo chamado pelo apelido, me debrucei sobre ele e o beijei — Sem problemas.

– O quê?

– Isso ser frequente. — ele sorriu, era triste e alegre, era encantador e sombrio, ele voltou a me beijar.

Nossos celulares vibraram, a falta de sinal fora compensada pela internet wireless da casa que os empresários mandaram instalar no dia do falecimento da vovó, o que me permitiu notificar minha irmã. Nos entreolhamos, era um vídeo de um dos ensaios, quase não via minha irmã, mas tinhamos a voz do Richard, em baixa qualidade, mas ainda era muito boa, assistimos em silêncio como que concentrados em algo realmente importante.

– Você ainda tem os VIPs? — eu o olhei, ele assistia ao amigo — Eu preciso ir ao show dele — sorri para ele.

Nos arrumamos, iamos voltar a cidade, Vlad também estava com alguns livros da avó, outros antigos dela que nós não pegamos para nós foram levados para bibliotecas, enviados a outros fãs da senhora. Tudo organizado, partimos.

Vladimir parecia meio aéreo e não estava prestando atenção por onde dirigia e na velocidade em que estava.

– Encosta — falei, ele me olhou — Encosta o carro.

Ele o fez, desci, ele me olhava, abaixei no vidro traseiro e acenei para ele, que estava confuso, abri a porta ao seu lado.

– Sai — falei, ele me analisou — Vou ter que te puxar para fora?

– Nã... Não. — ele saiu estranhando, sentei no lugar do motorista.

Ele foi abrir a porta, deixei o carro descer, parei, ele me olhou, fiz novamente, e andei um pouco mais, ele correu desengonçado, parei. Ele abriu a porta e pulou desesperado, eu ria, não ia fazer novamente.

– Ponha o cinto — falei, dei a seta, e entrei para a rodovia.

Ele me olhava assustado, eu entendia, não tinha contado a ele que tinha tirado carteira de motorista, na verdade não contei a ninguém, usei o pouco que sobrava do bar para dar entrada e depois parcelei em o resto da minha vida de dividas, mas consegui, fiz as aulas nos horários entre as aulas dele e o nosso trabalho, e consegui fazer a prova em um dia que faltei na parte da manhã na faculdade, Vladimir não sabia, eu tinha passado o final de semana em casa e fui direto para a prova e depois para a última aula da faculdade.

– Você pode fazer isso? — ele olhou para o carro a nossa frente que eu pressionava.

– Pega minha bolsa ali — apontei para trás — Aí tem uma carteira.

Ele a pegou e riu.

– Você tem uma carteira do Keroppi? — ele ria e me mostrava.

– Pare de rir — eu ria — Abra e vai ver.

Ele abriu, tirou a habilitação e me olhou na foto e eu dirigindo, riu novamente e depois guardou tudo.

– Viu? Sou habilitada.

– Não acredito que sua carteira é do Keroppi. — ele ria enquanto falava o que me fazia rir.

Parei de fora da casa dele.

– Eu não estava bem ou você queria me mostrar suas habilidades de motorista de fuga?

– Os dois — eu o ajudava a descer com as caixas.

Ele me levou até meu apartamento, peguei as cartas, ele entrou, ligou a televisão, já era da casa, deitou no sofá, na cozinha eu preparava café, mais café, acho que se cortarem nossas veias vazará café, mais café do que uma cafeteria de porte médio aguentaria.

– Eu vou... — falei depois de ler uma carta da minha tia — Eu estou... atrasada.

Saí correndo, ouvi Vladimir logo atrás de mim. Ele abriu a porta do motorista entrou.

– Para onde vamos? — ele perguntou batendo os dedos no volante.

– Para a casa da minha tia, fizeram a audição ontem e adivinha quem perdeu — eu apontava para mim mesma.

–Sério? — ele me olhou preocupado — Mas você não parece preocupada.

– Aquela proposta ainda está de pé? — ele me olhou confuso — Sobre eu poder ficar na sua casa...

– Claro que sim. — ele sorriu — Mas o que vai fazer na casa dela se já perdeu a casa?

– Pedir um tempo para terminar de tirar as coisas e deixar a chave com ele. Eu sou uma droga — baguncei meu cabelo — Droga!

– Não é verdade e provou isso esses dias — ele sorriu — Você não é uma droga.

Minha tia abriu para nós, conversei com ela depois de quase atacá-la mais uma vez e ouvi-la xingando minha mãe e se gabando por ter conseguido nos vencer, a mim e Yara. Eu a ouvi e depois de muito tempo e tentando fugir dos olhares do meu primo entramos em um acordo, em uma semana eu tinha que ter tirado tudo e entregado a chave para ela.

Voltamos, assim que chegamos no meu apartamento comecei a encaixotar tudo.

– Você não está cansada? — Vladimir já tinha me ajudado com algumas caixas, três já estavam lacradas, agora ele me olhava sentado no sofá.

Passei por ele, ele me puxou pela cintura, caí sentada em seu colo, ele sorriu e me beijou.

– Estou destroçada — falei rindo e me levantando — Mas preciso arrumar isso tudo e...

– Vem cá — ele se levantou e me puxou.

Me levou até o meu quarto, eu o olhava assustada, ele em empurrou rindo e então trancou a porta.

– Droga, Vlad! Abre essa porta — gritei e bati várias vezes, mas ele não fez nada.

Quando a abriu, já era o outro dia, eu tinha dormido apenas duas horas, mas todas as minhas coisas já estavam organizadas para serem empacotadas.

– Você tem problema — ele falou olhando tudo.

– Fiquei entediada, então comecei a ler isso — mostrei o livro que a avó dele deixara — E ela deixou isso escondido.

– O que é? — ele pegou o pedaço de papel.

– Leia.

Ela falava que meu livro estava com a empresária, e que eu realmente deveria publicá-lo e junto agradecia o que eu tinha feito com Vladimir, eu nunca deveria deixá-lo sozinho, o observei se emocionar lendo os escritos da avó, fui até ele e apoiei a mão em seu ombro, ele entrelaçou nossos dedos e sorriu para mim me devolvendo a carta.

– Onde você tem mais caixas? — apontei para a varanda.

Colocamos as outras coisas, levamos para o carro, ele deixou um dos quartos livres para eu guardar minhas coisas.

No último dia, com a última caixa joguei-me ao chão e fitei o teto, algumas marcas de adesivos de quando eu e Yara espalhavamos os bichinhos que brilhavam no escuro pela casa inteira. Fui até a varanda, tirei uma foto da vista, era a última vez que veria tudo aquilo, que poderia sentir o ar daquele lugar.

– Está pronta? — Vladimir fora me buscar — Ela já está lá embaixo esperando com as garras armadas.

– Eu sei.

Abracei seu braço e desci pelas escadas, lembrando da Yara que adorava correr por ali e lembrei de quandoe la tentou me apresentar o Vlad pela primeira vez, lembrei do meu pai brincando de se exercitar descendo correndo e subindo correndo enquanto minha mãe dizia que ele ia infartar e eu e minha irmã riamos e o seguiamos, paravamos logo na primeira tentativa e ficavamos gritando enquanto ele continuava.

– Seja feliz, como nós fomos — falei entregando a chave.

– Pode ter certeza de que serei — ela falou e entrou, meu primo me encarou e seguiu a madrasta.

Estavamos com as malas no saguão do aeroporto, iamos despachá-las e então embarcar. Fora rápido, a recuperação de Richard, o desenvolvimento da biografia, estava tão avançado que pensamos em tirar algumas férias depois do show para relaxarmos.

Embarcamos.

Notas finais
Espero que estejam gostando :D