Notas iniciais
Yara

Finalmente ela chegou, mais tarde do que eu esperava, mas o importante é que ela está aqui. Encontrá-la no aeroporto foi salvador, ela carregava uma mala e uma mochila, estava sentada com Vlad em uma das lanchonetes lá de dentro, eles brincavam um com os dedos do outro, observei aquilo e soltei um risinho, sabia o que significava. Quando me aproximei e os cumprimentei Yeva pulou em meus ombros e começou a chorar, eu a olhei atônita e para o escritor que também parecia triste.

– Eu sou uma inútil, Ya. — ela me chamou de Ya, foi isso mesmo que eu ouvi? — E perdi, eu perdi tudo o que o papai nos deixou, eu perdi tudo.

– Como assim, perdeu tudo? — eu a olhava tentando absorver o que ela me dizia.

– A casa, perdi tudo, a tia conseguiu o que queria, agora estamos sem nada e...

– Não me venha com essa de estamos sem nada — ela me olhou, eu sorria, estava com medo por termos perdido a casa, mas com tudo o que está acontecendo não é como se eu fosse precisar da casa e ela tinha o Vlad e pelo que parece estão muito bem. Apesar que vê-los juntos ainda me causava algum desconforto no estômago — Você tem a mim e eu tenho a você, então não estamos sem nada, certo? — ela sorriu — E se você me chamar de Ya mais uma vez eu juro que vou te dar um soco, odeio te ver tão desprotegida assim. E venha, me dê essa mochila e vamos para o carro.

Abri a porta para os dois entrarem, Alexander nos esperava.

– Achei que você tinha resolvido voltar ao Brasil, demoraram tanto. — ele falou rindo — Oi, irmã da Yara, eu sou Alexander o namorado dela — Yeva me olhou rindo e apertou a mão dele — Vlad. — o baterista acenou, o escritor apenas acenou respeitoso.

Os dois dormiam atrás, um apoiado no outro, era fofo vê-los juntos, me perguntava se Richard sabia deles ou se não tinham nada e era coisa da minha cabeça.

– Esses dois — olhei Alexander — você acha que tem algo? — dei de ombros — O Richard vai odiar isso.

– O que quer dizer? — eu o olhei e depois para o casal que dormia.

– Ele programou uma música para ela — eu o olhei espantada — Pois é, ele quer que com a música ela volte a ficar com ele, mas pelo que vejo o que esses dois ai atrás têm é bem forte.

– O que você sabe que eu não sei, senhor baterista?

– Ela está morando com ele há algum tempo já e parece que estão começando a produzir um livro dela e adivinha quem é o supervisor do projeto — apontei para Vlad com o olhar — Yep. Sem falar que com a morte da avó dele ela ficou cuidando dele e imagino a barra que enfrentaram com o falecimento da Francisca e logo em seguida a perda do apartamento e...

– Espera! — eu o encarei — Você sabia do apartamento? — ele apertou os olhos percebendo que revelara algo — E não me contou? Como pode?

– Desculpa, ruiva, mas eu não podia contar, Richard me prometeu não te contar sobre isso e... — ele bateu no volante — Eu tenho que calar minha boca.

Chegamos até o hotel. Ajudei minha irmã a descer com as coisas dela e a levei até nosso quarto, ela então me contou que tinham pedido um quarto para ela e Vladimir, mas que ela preferiu ficar comigo, questionei o fato dos dois juntos e ela me contou que aconteceu no falecimento da avó dele e só então me contou sobre a produção do livro, comentei que Alexander sabia, Yeva pareceu surpresa com aquilo e arrumou seus óculos que estavam certos, analisou por alguns instantes e olhou o celular, se levantou e foi até o quarto de Vlad, pude ouvi-la lembrando-o do remédio, depois ela voltou e me contou que provavelmente fora ele quem contara a eles sobre o livro, até porque o único contato que ela estava tendo com o Richard era através de mim.

Então foi minha vez de contar sobre as novidades, ela me ouvia atenta e quando contei sobre a bateria ela ficou empolgada, me perguntou como era ficar no palco, como era ensaiar com o grande astro que Richard é, me perguntou se ele estava bem, se os meninos da banda me tratavam bem, perguntas que no final me fiz chamá-la de mamãe, ela riu e ficou séria, eu também perdi minha empolgação.

– Daqui a pouco terá um ensaio, quer vir? — a convidei.

– Claro.

Nos arrumamos, ela riu quando me viu colocando as baquetas prendendo meu coque, eu não tinha visto o quão ridiculo aquilo era até ela me falar, mas não desfiz, tenho preguiça dessas coisas, de ter de carregar.

No ensaio os meninos já estavam a postos, Picasso, JT e Joshua pularam sobre minha irmã fazendo várias perguntas, que ela respondia meio atordoada.

– Deixem-na em paz — Richard gritou do palco, ele a olhou, fui para meu lugar. — Oi, Yeva. — ela acenou tímida.

Todos assumiram suas posições, ela ficou dos bastidores nos vendo ensaiar, mandou uma mensagem, imaginei que para Vladimir, ele ficara no hotel descansando. Ela tirou algumas fotos e várias eram de mim, ela ria enquanto fazia isso.

– Vamos comer algo? — Richard convidou o grupo.

–Parem tudo o que estão fazendo — JT gritou — Eu ouvi bem? O Richard está nos convidando para comer? Isso é um milagre.

– Não sei o que você fez com o Richard, mas não pare, Yeva, ele está fantástico, sem falar que quem convida paga a conta — Picasso falou rindo, minha irmã ficou vermelha.

– Ei, deixem minha irmã respirar, ok? — eu a abracei — Vocês irão assustá-la se continuarem dessa forma.

Fomos todos comer.

Richard olhava para minha irmã como na época da cabana, ele ainda gostava dela, eu via isso, todos viamos, mas não ela. Não a estou obrigando a ficar com ele, mas ela tinha de acabar com aquela tortura, era desolador vê-lo olhando-a daquela forma e saber que não era recíproco.

– Yara? — Alexander se sentou ao meu lado, eu me deitei em seu ombro — Parece preocupada.

– E estou — eu o olhei — Ele vai ficar arrasado quando descobrir.

– Eu sei — ele suspirou, senti seu peito subir e descer — E sabe o que é pior? — eu o olhei — Ele se acha o deus do mundo, acha que pode conseguir todas e perder para o Vlad vai ser terrível.

– Conte-me mais.

Pedimos licença, e nos retiramos, eu queria fica rum pouco com ele, mesmo que fosse para conversar sobre minha irmã e Richard, eu ficava com pena de deixá-la sozinha com aqueles abutres famintos, mas ela sobreviveria.

– Quando eles eram mais novos, eu tinha acabado de entrar para abanda, Richard e Vlad brigaram feio por uma menina, ela era inicialmente namorada do Vlad, mas Richard a achava muito chata e não a queria no meio do nosso grupinho, ele a seduziu e assim que ela acabou em sua cama, ele tirou uma foto e a mandou para Vladimir, na época foi terrível ter de aguentar aqueles dois, viviam brigando, Vlad foi para a casa de Francisca, ela nunca gostou de Richard, dizia que ele era uma péssima influência para o neto e ela estava certa, ele fazia muitas coisas ruins para prejudicar o Vlad, mas era uma forma de não perder o amigo, acho que ele não tinha consciência do que fazia.

– Como ele pode fazer essas coisas?

Ele deu de ombros.

– Richard sempre quis provar ser o melhor, mas acho que ele nunca achou a forma correta de fazer isso, então quando encontrou sua irmã e ela gostou dele de verdade não teve de ser seduzida e o ajudou, acho que foi ali que ele se encontrou, foi com ela. Eu tenho pena dele — ele apertou minha mão — Acho que no fundo ele só quer atenção e nada além disso.

– Pode ser — suspirei.

– Mas vamos dormir, amanhã será o grande show, precisamos estar prontos.

Quando cheguei no quarto minha irmã já dormia, ela usava fones, eu os tirei dela e guardei, me arrumei para dormir.

Acordei com minha irmã sentada ao meu lado, era bom tê-la ali, ela sorria com seu olhar perdido, estava sem os óculos, não conseguia focar em mim, então a cena passou de algo meigo para hilário, eu comecei a rir e ela ficou desentendida.

Descemos para o café. Todos estavam a mesa, Richard brincava com os meninos, era ótimo vê-lo bem antes do show, Yeva me contara que Citro também iria, mas não se mostraria para ninguém. Ele queria apoiar o amigo.

– Alguém viu o Vlad? — ela perguntou quando terminamos.

– Vlad? — Richard a olhou, ela não o chamava assim da última vez que nos encontramos.

– É, não o vejo desde ontem — ela olhou a hora, mandou uma mensagem, ligou — Droga!

Eu sabia o que ela dizia, eu me lembrava. Nós duas nos levantamos e corremos até o quarto do escritor, começamos a bater na porta, as duas, ninguém nos atendeu, Alexander pediu a chave reserva do quarto, abriu, eu e minha irmã nos atropelamos e encontramos Vladimir caído, ela ajoelhou ao lado dele, eu abracei Alexander assustada.

– Vlad... — ela deu leves tapinhas no rosto dele — Vlad, cadê o seu remédio?

Ele murmurou algo.

Yeva olhou pelo quarto e encontrou o frasco vazio.

– Alguém me ajuda? — ela começou a levantá-lo.

– Eu o levo ao médico — Alexander falou — Tente acalmá-la — ele falava comigo — Quando tudo estiver bem ligo para vocês.

Confirmei e levei minha irmã para o quarto.

– Fique tranquila, ele sempre supera essas crises.

– Você já passou por isso com ele? — ela me olhou preocupada, sorri.

– Já, foi assim que nos conhecemos — sorri para ela. Ela sorriu de volta.

– Ele está bem — eu a olhei sem entender — Richard, ele parece muito bem.

– e está, hoje o show será fantástico.

– Eu sei que será.

Ao anoitecer Vlad já estava de volta medicado, tinha de ficar de repouso, mas insistiu em ir ao show, eles foram para a área VIP, imaginei que Citro estaria lá com ele. Alexander já fazia seu aquecimento, eu o imitava, Picasso, JT e Joshua também se preparavam, Richard fazia o aquecimento vocal.

Nos posicionamos, os gritos das fãs, as cortinas foram incineradas, Richard gritava em cumprimento e todos respondiam gritando, ele apresentou os integrantes das bandas como sempre fazia no inicio de seus shows, ele me apresentou, olhei para área VIP, minha irmã e Vlad acenavam para nós, saquei as baquetas do meu cabelo e começamos a tocar.