Eu Quase Namorei o Ídolo da Minha Irmã
16 Frio e Café
Yara me enviou um email contando sobre como era no Canadá, mas em seu texto não tinha nada sobre Richard, fiquei decepcionada, apenas a respondi com uma linha dizendo: "Bom saber que fez boa viagem, espero que se divirta", sim, essa foi a minha resposta para minha irmã que me mandou um texto com mais de 30 linhas. Desliguei o notebook, peguei minha mochila e saí para a faculdade, fazia frio, eu usava uma touca, cachecol e um casaco grosso, eu me sentia com dificuldade para me movimentar. Sair sem acordar Yara era estranho, eu me sentia solitária mesmo que já estivéssemos sem nos falar há algum tempo.
Cheguei na faculdade alguns amigos me cumprimentaram. Sentei no meu lugar de sempre sem minha irmã por perto, copiei a matéria, eu teria de ir para a ONG, bom, era o que eu achava. Na hora do almoço recebi uma ligação, Carla dizia que eu não precisaria frequentar o lugar, os empresários de Richard tinham negociado e minhas horas de trabalho na ONG seriam contadas como minhas horas de trabalho na Biografia do cantor. Desliguei o celular meio cansada, eu gostava da ONG quase tanto gostava de escrever e agora eu estava afastada, em um de meus suspiros melancólicos observei uma bandeja ser pousada em frente a minha, olhei para quem se sentava, Vladimir sorria.
– Boa-tarde — ele falou com alegria.
– Boa-tarde — tentei soar simpática, não fui convincente.
– Algo a está incomodando? — ele não me olhava parecia entretido com a couve-flor.
– Não sei — dei de ombros depois de bagunçar meu arroz — Estou achando estranha estar afastada da Uma Recordação -ele pareceu curioso — o lugar onde Richard ficou se recuperando — ele pareceu entender — Fiquei lá por muito tempo.
– Prometo que não irá se arrepender de ter largado aquele lugar, será bem divertido trabalhar comigo.
– Cuidado com essa promessa — estávamos na fila para pagar — Quando começaremos a produção?
Ele olhou par ao teto como que pensando e sorriu simpático, Vladimir tinha seu charme eu não poderia negar, e eu já tinha um fraco por ele por aquele rapaz ter me inspirado por tanto tempo.
– Que tal hoje? — eu confirmei — Na minha casa.
– Certo — falei pagando — Que horas?
– Se quiser podemos ir agora, não tenho aula nem atendimento, estou livre.
Confirmei.
Andamos até seu carro, ele usava um sobretudo bege que realçava os traços de seu rosto, usava um botina, não era o que eu imaginava vê-lo usando, sempre imaginei algo como um sapatênis. Ele repousou o olhar sobre o meu quando olhei para seu rosto, o cabelo bagunçado cobria parte da testa e dava um charme que eu não tinha percebido na noite em que fiquei em sua casa. Vladimir abriu a porta e me permitiu entrar, fechou, deu a volta no carro e abriu a sua porta, sentou-se. Ali estava quente, quando a porta do motorista foi aberta pude sentir o vento gelado que soprava de fora, estremeci.
– Quer minha blusa? — ele perguntou me analisando, neguei mexendo a cabeça lentamente.
Dirigiu pelas ruas vazias, todos se abrigavam do frio. Eu o olhei concentrado na avenida, poucos carros transitavam pelo lugar, uma garoa começou a molhar o para-brisa, abri a janela, Vladimir me observou e olhou para a fresta da janela.
– Gosta da chuva? — eu o olhei, algumas gotas molhavam o plástico interno da porta, passei minha mão pelas gotas geladas.
– Ela faz com que me sinta mais próxima do meu pai e da minha mãe — ele me olhou curioso — Eles gostavam de chuva, apesar de minha mãe dizer que o verão era a sua estação, mas ela nunca recusava andar pela garoa com meu pai, acho que era o amor que fazia isso com ela — ele me olhou, seus olhos diziam que queria rir de mim, eu sabia porque minha irmã sempre ria quando comentávamos — Sei que é meio idiota falar isso, mas pelo que eu via em meus pais fazia com que eu acreditasse que o amor existia — arrumei meu casaco — Quando eles... — pausei e fechei os olhos com dor — Quando sofreram o acidente eu senti o amor esvair do mundo desde então não acredito que o amor possa realmente existir.
– E por que acha isso? — estávamos parando no semáforo, alguns pedestres atravessaram a rua debaixo de seus guarda-chuvas.
– Porque se o amor realmente existisse eles estariam vivos, eu acreditava que o amor era salvador, era algo tão forte que superaria tudo, vi meus pais passando por muitas dificuldades e as superando, no acidente achei que poderíamos superar, mas ao contrário — eu suspirei — Até hoje eu sinto uma dor enorme crescer em meu peito a cada instante em que me lembro de tudo, eu gostaria de poder deletar tudo de minha mente.
Vladimir ficou em silêncio, estacionou de fora da casa, desci do carro e estremeci com o frio, ao entrarmos na residência senti o bafo quente como se ali tivesse uma lareira. Na mesa de centro duas canecas soltavam fumaça, o escritor foi até lá pegou as duas, esticou uma par amim, ficar na casa do meu ídolo sozinha com ele era meio estranho, meu corpo se sentia estranho, eu não sabia como reagir. Eu sabia que Richard estava com minha irmã e sabia que algo poderia rolar entre os dois, afinal, minha irmã é encantadora e eu e o astro do Rock não temos mais nenhuma relação tornando tudo que acontecesse entre os dois muito natural, já com Vladimir era estranho, ele era encantador com seu charme inteligente, sabia como me entreter, mas ainda assim não era como Richard.
– Venha, já estou com a papelada no escritório, só precisamos dividir os tópicos e... — ele encarou minha mochila — Pode largá-la em qualquer lugar.
Confirmei, peguei um caderno e uma caneta, subi a escada e entrei no escritório. Estava como da vez que o conheci, livros na estante, um mapa mundi na parede de frente para a porta, uma lâmpada iluminava o lugar e ainda assim tinha uma luminária pequena próxima a mesa onde ele já estava encostado com duas canetas e duas lapiseiras mais uma borracha, uma papelada repousava ao lado dos instrumentos para se escrever. A caneca com café ainda estava soltando fumaça enquanto o escritor tomava mais um gole embaçando seus óculos, o que não aconteceu diferente comigo quando tomei um pouco do líquido que desceu aquecendo minha garganta e estômago.
– Eu dei uma olhava e já peguei os tópicos que achei interessante para mim, espero que você concorde comigo, porque tem pontos que fiquei extremamente curioso para pesquisar e escrever.
– Certo — falei e sentei na cadeira vazia, a mesa ficava abaixo do mapa — Deixe-me dar uma olhada e quero ver os documentos que temos — ele me olhou — Se não for problema.
– Não, não é — ele se levantou, eu olhava a papelada.
Em alguns tópicos ele tinha feito bolinhas com caneta preta, o escritor sentou com algumas apostilas no colo, as colocou na mesa e terminou o café, mesmo vazia a caneca ainda soltava fumaça. Peguei um lápis e marquei os pontos que eu queria retratar, Vladimir apenas me observava com certa curiosidade, eu me sentia como um rato de laboratório após receber uma injeção que faria crescer uma nova pata e o cientista assistindo ansioso pelo surgimento do mesmo. Eu o olhei, sobre os óculos, ele olhou para as apostilas me causando um riso.
– Pronto — eu o olhei — E eu já anotei todos os tópicos a serem tratados, precisamos decidir apenas a ordem — eu o olhei, ele estava de cabeça baixa sonolento — Desculpa, eu não vi que estava dormindo.
–Tudo bem — ele arrumou os óculos pela primeira vez tortos de verdade — Amanhã eu dou uma olhada — ele procurou por algo — Sabe que horas são?
Olhei na tela do meu celular.
– ai, caramba! Está tarde — eu me levantei — Já são Dez horas, eu preciso ir para casa. — eu estava saindo do escritório, desci até a sala peguei minha mochila.
– Ei, Yeva! — eu o olhei no alto da escada — Está muito tarde para sair, durma aqui.
– Eu não sei — falei desconfiada — Eu não costumo dormir fora de casa e...
– Não se preocupe, prometo te dar a chave do quarto para se preferir trancá-lo.
Conferi o relógio, aceitei o convite para dormir. Subi até o quarto onde dormi com minha irmã, tomei banho e me deitei, eu podia ouvir o escritor andando de um lado para o outro da casa e finalmente se deitando. Verifiquei meu email mais uma vez antes de dormir e não tinha nada de Yara, dormi bem.
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