Não se perder naqueles corredores subterrâneos já era uma grande conquista. Ainda se lembrava de quando chegou ali pela primeira vez, do modo como corria seus dedos pelas paredes de pedra desesperada para sentir o arranhar na pele, desesperada para sentir qualquer coisa.

No final, tinha aprendido a conviver com o vazio. Nem era tão difícil assim.

Ignorou Sebastian por todo o caminho, mesmo com o garoto dando várias tentativas de começar uma conversa. Ela não estava com raiva de verdade, mas manter uma decisão era um grande exercício de poder. Sabia que naquele momento estava no controle, e pretendia continuar assim até segunda ordem.

Todo seu corpo tremia de dor, a emenda de seus ossos ocorrendo mais lentamente do que pretendido. Quando passaram pela enfermaria, Diane quase caiu para dentro da sala, o rosto contorcido em uma careta de dor. Sebastian tentou ajudá-la a manter o equilíbrio mas ela se esquivou dele e caminhou sozinha até o armário de analgéticos mais próximo.

— Ei — chamou Sebastian — Ei! — gritou ele mais uma vez. Diane não o escutou, por isso ele a pegou pelo pulso com força — Deixa que eu faço isso.

Ela queria gritar com ele. Dizer que não precisava de sua ajuda e que conseguia fazer aquilo sozinha. Mas a dor em suas costelas falou mais alto, e ela cambaleou para a cama mais próxima. O garoto continuou a mexer no armário lendo rótulo por rótulo.

— Onde está Quinn? — perguntou ela sem quase força alguma na voz.

— Na Congregação junto com o resto — ela xingou alto. Sebastian se aproximou dela com um frasco em mãos — Aqui. Tome isso.

Diane não pensou duas vezes, retirou a tampa de plástico com os dentes e entornou o líquido garganta abaixo. O alívio foi quase instantâneo. Precisou de alguns segundos para se recompor da tontura, a pressão e o som de suas costelas se reparando sozinhas dando-lhe aflições. Balançou a cabeça para espantar a sensação e respirou fundo. Ainda conseguia andar, mesmo que mancando, e isso já serviria de algo.

— Vamos.

Sebastian suspirou.

— Você sabe que pode perder a reunião se estiver indisposta, não sabe?

— Não vou dar o prazer da minha não presença aquele bando de idiotas. Eles precisam de mim, mesmo que se recusem a admitir

Ele revirou os olhos.

— Claro que precisam — depois a avaliou enquanto ela tentava se levantar da cama gemendo de dor — Precisa de ajuda? — ela lhe lançou um olhar no mínimo petrificante e Sebastian estendeu a palma das mãos como se estivesse se rendendo — Você quem manda.

Ela sabia disso.

Saíram para os corredores mais uma vez. Tinha plena consciência de seu estado deplorável. Dos cabelos completamente despenteados para os cortes e hematomas por toda a extensão de sua pele exposta e o fato inevitável de estar mancando. Mas sabia muito bem quando não perder uma reunião do Conselho. Sabia que havia algo de errado, algo que se recusavam a contá-la, por isso se não recebesse as respostas rápido, acabaria tendo que arrancá-las com as próprias mãos.

Não demorou muito para que os corredores de pedras fossem substituídos por paredes de ferro com entalhes de aço dando aquela sensação claustrofóbica que sempre a deixava irritada. Podia ter se acostumado com aqueles caminhos intermináveis, mas isso não queria dizer que o ambiente a agradava.

Sebastian continuava a segui-la de perto, mesmo que ela retardasse o caminhar dele. O garoto era alto e Diane quase desaparecia na sombra dele. Ele tinha uma postura rígida e cautelosa, os músculos sobressalentes transparecendo por debaixo do tecido fino de sua camisa. Havia um cordão preto ao redor de seu pescoço, apenas um cordão solitário sem pingente algum, Ela já tinha tentado questioná-lo sobre o objeto, mas Sebastian se recusara a responder, desviando do assunto o máximo que pôde. Eventualmente ela desistira do assunto, mas nada a impedia de continuar a contemplar suas feições quando ele não estava olhando. Seus olhos eram do tom mais escuro e penetrante que conhecia, que combinava perfeitamente com o tom de um caramelo mesclado do seu cabelo. Ele era inevitavelmente lindo, mas Diane tinha aprendido há muito o preço de um rosto bonitinho.

Eles chegaram em uma porta dupla de madeira que contrastava com todo o resto do lugar. As portas não pareciam certas ali, e de fato não eram para parecerem. Aquelas portas eram um aviso. Atrás dela você não estava mais protegido.

Diane respirou fundo e entrou. Toda a dor que passara a ignorar pinicando por debaixo da sua pele como se tivessem sido provocadas, induzidas a se revelarem. Trincou os dentes enquanto passava despercebida pela multidão que se encontrava em pé ao redor da grande mesa circular que se encontrava no centro da sala. Aquele salão poderia ser considerado um santuário, com suas paredes brilhantes entalhadas por fluoritas e atacamitas cujo brilho vítreo e adamantino refletia por todo o recinto, dando aquele efeito divino, como se assim se encontrassem mais próximos do paraíso. Diane bem sabia que na realidade estavam mais próximos do inferno. Resolveu não discutir o assunto mais uma vez enquanto se desviava das enormes colunas e arcos banhados do próprio resplendor. Achava toda aquela decoração ridícula, e o brilho das pedras irritava seus olhos.

Avistou Quinn abaixo de um dos lustres de cristal que refletiam ainda mais a luz do fogo que sustentavam. E caminhou pelo chão perfeitamente liso feito de várias rochas fundidas até estar ao lado da garota. Quinn não esperou que ela se aproximasse demais para encará-la boquiaberta dos pés à cabeça, aquele olhar irritante e investigativo no rosto. Diane revirou os olhos.

— Algum problema? — perguntou abrindo os braços. Quinn riu.

— Não, querida, problema algum — ela jogou o cabelo para trás — Só pensei que o corvo não apanhasse dos seus iguais.

Uma nova revirada de olhos.

— Então — continuou Diane desviando do assunto — Por que não começaram a reunião ainda?

— Aparentemente o informante de Cora está desaparecido — ela lançou o olhar para o outro lado da sala oval, na direção da mesma que conversava irritada com dois de seus seguranças pessoais — Foi visto pela última vez no refeitório e depois puf, ninguém sabe onde o ser humano se encontra.

Diane riu em deboche.

— Quem diria que nossa querida Chanceler não têm conselheiros de confiança. Eu chamaria isso de incompetência, mas sabemos muito bem que não devemos subestimar o verdadeiro significado da palavra.

Quinn cruzou os braços. Parecia relaxada como sempre, mesmo com a ameça iminente que pairava sobre suas cabeças.

— Bem conveniente da parte dele, desaparecer com uma informação desse tamanho tão próximo das eleições. Cora já causou tumulto demais nos escondendo o fato de que perdemos nossa aliança com a máfia chinesa, e agora foi feita de boba pelos próprios homens de confiança — ela lançou um olhar preguiçoso na direção de Diane, erguendo uma sobrancelha.

— O quê? — perguntou a garota inocentemente — Eu não tenho nada a ver com isso, juro.

— Sei que não tem, mas Sebastian por outro lado...

— Sebastian? Você tá louca? — riu ela — Aquele garoto é praticamente o cachorro de estimação de Cora, ele nunca a trairia.

— É verdade — ela suspirou e balançou a cabeça como se estivesse decepcionada — Nunca vou perder a esperança de ter a chance de salvar a alma desse garoto — Diane riu — E por falar nele, olha só quem se aproxima da ama suprema.

E de fato lá estava Sebastian, sorrateiramente sussurrando algo no ouvido de Cora que concordou com a cabeça e finalmente se virou para a multidão de líderes das tropas que se calou subitamente.

— Vai começar o show — Quinn falou movimentando os lábios.

Todos os líderes se sentaram silenciosos em seus respectivos lugares na mesa. Todos aguardaram enquanto Cora se punha à frente do assento mais alto do recinto. Ela pigarreou. Não era como se alguém estivesse fazendo algum barulho, mas mesmo assim...

— Como todos sabem — começou. A voz retumbando pelas paredes até chegar ao ouvido de cada um — Todas nossas conexões com a máfia chinesa foram rompidas, e agora aparentemente nos tornamos os alvos principais. Ou pelo menos os mais divertidos de caçar — completou, numa voz baixa e levemente irritada — De qualquer jeito — continuou — Podemos ser atacados a qualquer hora. E simplesmente não podemos deixar isso acontecer.

Houve uma espécie de suspiro coletivo na sala. Como se todos tivessem respirado fundo, se preparando pelo pior.

— A melhor estratégia seria cortar o mal pela raiz. Atacá-los antes que eles possam ter a chance de nos atacar. Não vai ser exatamente um ataque surpresa porque eles com certeza já estarão esperando uma reação nossa, mas não temos outra saída e eles têm muitos recursos — uma pausa de efeito — Ainda estamos nos recuperando das baixas causadas pela última briga que uma de nossas líderes comprou sem pensar nas consequências — todos, inclusive Cora, fuzilaram Diane com o olhar. A garota não poderia ter se importado menos — E não resistiremos a um ataque frente a frente. Temos que afastar a batalha o máximo possível do Forte.

Uma manada de comentários foram todos jogados na mesa de uma vez só. Cora levantou a mão cerrada em punho e o silêncio reinou mais uma vez, mas antes que ela pudesse começar a falar, Diane a interrompeu.

— E posso saber como exatamente você pretende acabar com uma máfia inteira sozinha? Todos sabem que eles têm ligação com muitos outros grupos e que atacá-los de frente não apaziguaria nada.

— Estamos abertos a sugestões se tiver alguma, soldado Tulles.

Todos na sala continuavam em silêncio e agora a encaravam avidamente. Ela teve que controlar a vontade incontrolável de morder o lábio inferior num instinto infantil.

— Eu digo que nos infiltremos. Não para lutar, mas para mandar uma mensagem. Temos que mostrar que somos mais fortes do que parecemos. Somos em maior número de fato, mas se eles atacarem nossas instalações estamos condenados — novos murmúrios surgiram na sala — A prioridade aqui tem que ser nossa segurança. Temos que manter a luta longe do Forte realmente, mas se conseguirmos impedir que a luta aconteça, vencemos sem baixa alguma.

Cora riu. Não parecia achar graça.

— Essa é a jogada mais arriscada de todas. Se não formos convincentes o suficiente, isso seria praticamente uma declaração de guerra.

— Então temos que ter certeza de ser bem assustadores — interveio Sebastian apoiando os cotovelos na mesa — Todos sabem que somos ótimos manipuladores do medo nas batalhas. Se conseguirmos usar isso para impedir que a batalha de fato aconteça não estaremos apenas garantindo nossa segurança contra a máfia chinesa, estaremos garantindo que somos imbatíveis a qualquer um que tente nos atacar novamente.

Cora se sentou em sua cadeira, não parecia convencida, mas mesmo assim encarava Diane como se esperasse que a garoto retirasse suas palavras. Como ninguém deu nenhum indício de bolar algum novo plano, ela foi obrigada a continuar.

— Pois bem — disse ela por fim — Votemos então. Quem está a favor do plano do Corvo levante a mão.

A maior parte dos conselheiros e líderes presentes na mesa levantou a mão. O olhar de Cora sobre ela agora parecia pegar fogo.

— Então que assim seja — ela se aproximou da mesa, o olhar faiscante de ódio não intimidando Diane nem um pouco — Você liderará essa missão, Corvo. Se falhar, todo o futuro dessa organização estará em risco, e a culpa toda pesará em seus ombros. Então espero para seu próprio bem que saiba o que está fazendo, e que garanta ser tão boa quanto pensa que é.