Ethereal
5 Quarto
ANTES
O sangue que bombeava em suas veias pareceu congelar, interrompendo seu próprio ciclo circulatório. Diane quis muito poder desviar o olhar, mas a força que a atraia a ele era muito forte, e ela não tinha vontade alguma de confrontá-la. O garoto começou a se aproximar dela a passos lentos. Cada vez que suas botas tocavam no piso de madeira alguém parecia dar um passo para trás, tentando ao máximo se afastar daquela figura peculiar. Diane no entanto não conseguia se mexer, como se seu único propósito na vida fosse esperar que o garoto chegasse perto o suficiente para poder tocá-la.
Ainda havia aquele sorriso irritante em seu rosto, e quanto mais ele se aproximava mais ela podia enxergar as linhas perfeitas que aquele sorriso desenhava em seu maxilar, toda a beleza encoberta pelo líquido escarlate que escorria dos fios de seu cabelo prateado. E quando Diane sentiu que não podia mais aguentar, e o garoto estava a centímetros de distância, ele se virou para o lado e se sentou no banco alto na frente do balcão que se encontrava exatamente ao lado da garota.
Os olhos dele já não mais se encontravam com os dela, e ela permanecia parada em seu lugar segurando com força no balcão que perfurava suas costas, ainda encarando o caminho pelo qual o garoto passara como se ele ainda se encontrasse ali.
Ele nunca esteve olhando para ela.
– Dorian! — gritou uma voz atrás dela. A voz de Bev — O que diabos faz aqui nesse estado, garoto? Você sujou todo meu chão deste teu sangue imundo!
O garoto tinha enterrado sua cabeça nos braços cruzados, mas agora levantou os olhos para encarar Bev.
– Na verdade — começou ele. Diane não pôde deixar de notar o quão bom era o som da voz dele em seus ouvidos, tão próximo assim dela — O sangue não é meu, mas mesmo assim peço-lhe desculpas.
Ele nunca esteve olhando para ela.
Bev apareceu na frente do garoto passando um pano pelo balcão e retirando os cotovelos dele de cima com as pontas dos dedos como se sentisse nojo.
– Faça-me o favor de levar o sangue do seu amigo para o lado de fora então.
Ele nunca esteve olhando para ela.
– Infelizmente, temo precisar de um lugar para dormir, então...
Bev suspirou revirando os olhos. Ele nunca esteve...
– Diane, por favor, acompanhe esse jovem cavalheiro ao andar de cima — a garota despertou de seu devaneio com a menção do nome, se virando de um pulo e batendo o braço no balcão no processo. Bev se viu sua reação, ignorou, levando as mãos à alguma espécie de bolso nas dobras de seu vestido que Diane não reparara que existiam e tirou uma chave grossa e enferrujada. Entregou o objeto a ela — Terceira porta à direita — ela então voltou o olhar para o garoto mais uma vez. Dorian, presumiu Diane — E sim, respondendo à sua pergunta silenciosa, ela é nova sim. Mas não é para o seu bico, então tire os olhos.
Claramente desobedecendo as ordens que lhe foram impostas, Dorian a encarou. Se não estava precisamente desconfortável antes, agora ela estava. Sentiu o ardor nas maçãs do rosto quando começou a corar sobre o olhar dele. Não era medo que sentia, ou até mesmo surpresa pela irrevogável beleza dele, mas exposta. Despida sobre aquele olhar tão penetrante. O modo como ele a encarava... parecia que podia ver por dentro de sua alma, enxergar seus demônios. Mas antes que Diane pudesse ficar desconfortável a um nível considerado preocupante, Bev empurrou seu braço levemente, a induzindo a seguir em frente.
Ela quis lançar um olhar de súplica à mulher. Estava trabalhando ali a o quê? Duas horas no máximo? Nem ao menos tinha subido às escadas, como poderia guiar o caminho a um estranho? Mas Bev não parecia encontrar problema, voltando a se concentrar na conta que fazia com o lucro adquirido e gritando para que o músico voltasse a cantar. Todos no salão que pararam por alguns segundos para encarar a cena que o tal de Dorian fizera voltando a se preocupar com os próprios afazeres — ficando mais bêbados do que Diane poderia ficar em toda sua vida.
Não soube por quanto tempo ficou ali. Parada sem olhar nem para Bev nem para Dorian, encarando o chão aos seus pés, mas quando ouviu o sotaque desconhecido presente na voz à centímetros de seu ouvido, foi obrigada a levantar a cabeça.
– Quer que eu lhe mostre o caminho? — perguntou Dorian, um sorriso inconsequente nos lábios.
Não lhe deu o prazer de uma resposta decente, apenas acenando negativamente com a cabeça e se recompondo para finalmente começar a andar na direção da escadaria de madeira. Não parou para verificar se Dorian a seguia, mas cada passo que dava parecia uma navalha cortando seu estômago quando a madeira rangia em protesto. Sentia o olhar dele sobre sua espinha, e isso a deixava incomodada.
Tentou se concentrar o máximo no caminho, não poderia passar mais vexame e errar o quarto certo. Como se já não bastasse o caminhar de Dorian a poucos centímetros de distância dela, a postura alta e graciosa dele parecia um monstro prestes a engoli-la. Algo nele fazia com que ela quisesse sair correndo, mas seus olhos eram tão... tão focados em tudo que viam que Diane queria saber o que ele sabia, queria entender o que ele sentia, queria ver o que ele via, queria...
– Bev não mencionou algo como terceira porta à direita?
Droga.
Ela se virou. Dorian já tinha parado de segui-la e se encontrava encostado em uma das portas de madeira com os braços cruzados e um sorriso penetrante nos lábios. O sangue continuava a escorrer por suas roupas, e Diane tentou não reparar nisso enquanto voltava a se aproximar dele engolindo em seco. Ele estava claramente provocando-a, o corpo impedindo sua passagem até a maçaneta. Ela contou mentalmente até dez antes de fitá-lo.
– Com licença, por favor.
Ele continuava sorrindo, parecia achar graça da influência que tinha sobre ela, e Diane quis socá-lo. Toda a atração que sentira por ele minutos antes desaparecendo em meio a uma onda transbordando sua raiva. Mas antes que ango mais sério pudesse acontecer, Dorian pigarreou e saiu de seu caminho fazendo uma reverência.
– Perdão — pediu ele em um sussurro com a cabeça baixa.
Ainda mais desconcertante.
Ela abriu a porta para ele e permaneceu com a mão na maçaneta enquanto ele passava, seu casaco ensanguentado roçando levemente no braço dela no processo. Diane sentiu um tremor percorrer seu corpo com o toque, seu braço ficando manchado de vermelho. Dorian se virou para ela já dentro do quarto.
– Eu te sujei?
Diane estava prestes a dizer que não quando Dorian tirou seu casaco e jogou a camisa fora por cima da cabeça em um movimento tão rápido que ela mal pôde acompanhar. Sua boca ficou aberto no meio da frase, as palavras presas em sua garganta enquanto seu rosto corava com a visão do corpo exposto do garoto. Ele sorriu.
– Me desculpe por isso — pediu ele — Eu não aguentava mais aquela camisa molhada.
– E-eu... Hum... hum...
Ela sentia dificuldade em respirar. Seus olhos acompanhando cada traço do corpo esguio dele, percorrendo por toda sua extensão até as linhas de seu abdômen que desapareciam por debaixo da calça. Ela piscou diversas vezes com força, arranhando a palma das mãos com as unhas para tentar controlar as ondas de calor que passaram a percorrer seu corpo. Diane virou o rosto.
– Acho... er... me avise se precisar de algo.
E já estava se virando para ir embora quando ele tornou a falar.
– Espere — ela parou — Diane, não é? — ela assentiu, se virando para ele outra vez — Sou Dorian, caso não tenha ouvido Bev me chamar — ela tinha — E você é nova aqui, certo?
Obviamente.
– Sim.
– O que achou do lugar?
Ele tinha se sentado na única cama de solteiro presente no quarto. Era estranho vê-lo ali, com o rosto jovem e a postura de um homem, e imaginou se aquelas perguntar faziam parte de um teste.
– Tem uma ótima localização.
Ele sorriu com a resposta, ela percebeu que esse era um hábito que ele mantinha religiosamente. Ele usava uma toalha que encontrara em cima da cama para secar os cabelos, e não pareceu se importar com o fato de manchá-la de sangue. Diane trincou os dentes, sabia que teria que lavar aquela toalha eventualmente.
– Realmente, um dos melhores que conheço — apontou ele — E Bev? Acha que ela será uma boa patroa?
– Hum, sim. Ela me parece uma boa pessoa, me aceitou sem fazer muitas perguntas.
– É — concordou ele — Ela gosta de ministra o lugar do seu próprio jeito. Admito que prefiro esse bar muito mais desde que o marido dela morreu ano passado.
Diane tomou a notícia com indiferença, mesmo que ainda se sentia mal por Bev. Balançou a cabeça.
– Acho melhor eu voltar lá pra baixo — ela disse contornando o assunto — Devem estar precisando de mim.
Dorian se levantou para detê-la, dando poucos passos pelo quarto até estar ao seu lado, segurando seu pulso com delicadeza.
– Foi um prazer conhecê-la — ele levantou o dorso da mão dela e levou a pele aos seus lábios, o lugar de contato parecendo queimar. Dali de perto, seus olhos eram de um preto tão escuro que Diane quase foi capaz de se ver em seus olhos — Espero vê-la mais vezes.
Diane retirou sua mão da dele o mais rápido que pôde.
– Igualmente.
Ela escondeu os braços atrás do corpo e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Quase engasgou com o ar que entrava em seus pulmões, seus pés empacando no lugar e ela se apoiando com as costas na porta tentando recuperar a compostura. Toda vez que fechava os olhos, conseguia ver o sorriso dele queimando por trás de suas pálpebras, um ponto de luz em meio a escuridão. Ela respirou com força, segurando o peito para tentar controlar as batidas de seu coração. Conseguia sentir o perigo que emanava do corpo de Dorian mesmo com a porta entre eles, como se ainda sentisse a mão dele na dela. Encarou o ponto que ele tinha acabado de beijar.
Talvez aquele não fosso o pior dos trabalhos de fato.
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