Ethereal
15 Décimo Quarto
Às vezes, no meio da noite, ela jurava que podia ouvir os gritos.
Gritos de todas as pessoas que matara, talvez. Ou até mesmo os gritos de sua própria alma, aprisionados na cela que ela criara para si própria.
Gritos sem palavras.
E ela ficava deitada em sua cama, mãos atrás da cabeça e olhos bem abertos, encarando o teto como se não estivesse realmente no escuro. Diane não via razão para dormir. Lá também encontraria todos aqueles gritos, e ainda seria obrigada a se deparar suas faces, seria capaz de sentir o gosto de sangue que sempre escorria pelos seus dedos e que de algum jeito acabava manchando seu queixo.
Não era exatamente o tipo de cena que ela gostava de reprisar.
O Forte era silencioso à noite, e as paredes eram grossas o suficiente para que os ruídos das escoltas patrulhando pelos corredores não fossem audíveis. Ela não teria se incomodado com o barulho, no entanto. Pelo menos seria algo com que se distrair. Mas como não podia contar com isso, foi obrigada a encarar a escuridão.
Aquilo, aquele momento específico, parecia ser a única coisa sólida em sua vida. A única coisa real. E ela se via tentada a erguer os braços como se pudesse tocar naquele instante. Como se pudesse apertá-lo entre os dedos e mantê-lo seguro ali para sempre.
A raiva a consumia por dentro. Ela queria poder chacoalhar o corpo como se assim conseguisse espantar a sensação de impotência em seu ser. Seus olhos se ajustaram a escuridão e ela foi capaz de enxergar um brilho no teto proveniente do vão debaixo da porta. Aquilo, por alguma razão, a irritou ainda mais, porque a claridade não só iluminava o quarto, como também abria uma porta para todos os pensamentos que ela lutava em suprimir.
Diane ergueu o tronco dando um soco no colchão. Toda aquela raiva fazia com que o sangue em suas veis borbulhasse, e os segundos se arrastaram na sua frente, intermináveis. Ela socou os cobertores para longe enquanto se levantava, vestindo o primeiro casaco que encontrou por cima do sutiã e do shorts curto que vestia, antes de pegar sua foice e sair pelo corredor.
Ela não se deu o trabalho de vestir sapatos, o lugar que estava indo não exigia esse tipo de coisa. Prendeu o cabelo em um rabo segurando sua arma entre os dentes, e então finalmente chegou a porta que tanto procurara. Ela voltou a segurar a foice com as mãos e respirou fundo, abrindo a porta.
A sala de treinamento nunca estava realmente vazia, por isso, quando estava com saco cheio demais de tudo e de todos, Diane caminhava apenas mais alguns metros e ia até a sala de simulações. Como a sala tinha que ser reservada para ser utilizada, poucos Ilegítimos se davam o trabalho de ocupá-la, então era ali que ela encontrava seu conforto.
A sala em questão era, na opinião dela, muito mais útil quando não estava exercendo seu verdadeiro propósito. Quando todas as máquinas e computadores estavam desligados, aquele lugar não era apenas um quadrado de metal como todos os outros cômodos do Forte. Suas paredes em primeiro lugar, diferentemente de todo o resto do Forte, eram compostas de pedras assim como na sala de reunião, e bom... Havia um buraco no teto.
Não era propriamente um buraco, mas sim uma abertura que era na verdade o fundo de uma antiga fonte da superfície que havia desmoronado. Quando os Ilegítimos se instalaram ali eles obviamente tomaram as provisões necessárias para tampá-lo, mas, felizmente, algum deles teve a brilhante ideia de não tampar o buraco permanentemente e sim simplesmente cobri-lo, caso algum dia precisassem utilizá-lo como rota de fuga. Não era exatamente uma saída estratégica, contando com o a altura monstruosa daquela sala. Por isso mesmo, o buraco tinha sido praticamente esquecido, e era mantido fechado em quase todo.
Pelo menos havia sido assim, até Diane se deparar com ele.
O encontro dela com a abertura no teto não havia sido planejado, mas quando acidentalmente ela o abriu, se encantou. Principalmente porque, dali debaixo onde se encontrava, ela via as estrelas por um círculo perfeito no céu. E o modo como tudo ali embaixo era escuro e tudo lá em cima também a fazia se sentir melhor consigo mesma, como se o mundo não a julgasse tanto por ser como era. Porque, exatamente como naquele céu estrelado, ele era escuridão, e haviam aqueles pequenos pontinhos de luz. Pequenos demais e muito distantes um do outro para realmente significar alguma coisa.
Quando ela se pôs debaixo do buraco naquela noite, no entanto, não havia estrela alguma.
– Você é bem previsível, sabia? — veio uma voz de algum ponto a frente dela. Diane não se incomodou em olhar, ainda com a cabeça jogada para trás enquanto encarava o céu noturno.
– Ouvi dizer — foi sua única resposta.
Ela quase podia sentir o sorriso dele mesmo antes de seu rosto finalmente ficar visível enquanto ele dava a volta apenas para se por atrás dela, seus lábios perigosamente perto de seu pescoço. Ele tinha a esperteza de não tocá-la sem o consentimento dela.
– Pensei que você apareceria no meu quarto depois da missão — desabafou ele. Sua voz não passava de um sussurro rouco, carregado de desejo.
Diane revirou os olhos, mas estava sorrindo.
– Aparentemente não sou tão previsível assim — ela desviou o corpo do dele e se virou para encará-lo — E aliás, não se ache tanto, querido. Não sou tão desesperada assim.
Zane Vance era, no mínimo, um dos homens mais lindos que Diane já vira. Seu cabelo era encaracolado e castanho claro, e ele o havia deixado crescer nos últimos anos de modo que agora chegava um pouco abaixo de suas orelhas. Seu maxilar era perfeitamente destacado no rosto e sua pele era num moreno apenas um tom mais escuro do que o dela. E por alguma razão desconhecida (não. Não. Ela sabia exatamente porquê ele fazia isso), insistia em utilizar um óculos de grau mesmo sua visão como a de todos os outros Ilegítimos sendo perfeita. Ele sabia como aquele modelo e aros em especial faziam as linhas de seu rosto se destacarem ainda mais, e sabia o efeito que isso tinha sobre ela.
Ele tinha ombros largos e cintura relativamente fina comparada aos músculos que carregava, mas Diane não se importava com isso. Tudo o que via com a pouca luz proveniente do lado de fora e sua silhueta se destacava por baixo do decido fino da camiseta branca lisa que usava. Ela encarou seus braços, relaxadamente deixados ao lado do corpo, e seguiu a linha das veias saltadas que terminavam em seus dedos longos e finos. Ele esfregava um dedo no outro.
Ele tinha uma barba por fazer, que não afetava sua beleza de modo algum, e agora roçava os poucos fios com a mão enquanto se aproximava dela com o sorriso que sabia que a afetava. Os dentes nunca expostos, apenas os cantos daqueles lábios perfeitos levemente erguidos.
Mas quando chegou perto o suficiente dela (Diane teve que erguer o olhar, ele era relativamente mais alto do que ela), tudo o que fez foi soltar o ar no rosto dela. O aroma de hortelã beijando seu rosto enquanto ele voltava a se afastar.
– Sebastian me falou sobre a missão. Disse que vocês tiveram problemas — revelou ele. Seu rosto estava parcialmente na luz, então tudo que ela enxergava era um de seus olhos — Só vim checar se você estava bem.
Agora foi a vez dela de sorrir, debochadamente.
– Eu deveria me sentir elogiada?
Ele virou os olhos e cruzou os braços como se estivesse cansado de toda aquela conversa.
– Você nunca consegue levar nada a sério? — seu tom não era mais sedutor. Mas mesmo assim, sua voz provocava calafrios por todo o corpo dela.
– Por que eu faria isso?
Ele revirou os olhos novamente.
– Esquece.
Ela brincou com sua foice, jogando a arma de uma mão para a outra e pegando-a no ar quando a jogava para cima.
– E desde quando você e Sebastian conversam? — ela exigiu saber, quebrando o silêncio. Não estava nem um pouco desconfortável, quanto mais ele se incomodasse, mais ela seria feliz.
Zane deu uma risada fraca. Ele mascarou sua raiva rapidamente com um novo sorriso.
– Digamos que ele não estava exatamente conversando comigo.
Ela riu. Desde que chegara naquele lugar, a única certeza que sempre teve foi que Sebastian e Zane não suportavam a existência do outro. Diane gostava muito de implicar com a linha frágil entre os dois.
Ela não sabia no entanto o que causara aquele desentendimento. Seja lá o que tenha acontecido, foi muito antes dela próprio causar novas discórdias.
Jogou a foice no ar uma última vez, esta dando giros rápidos e mortais antes de Diane erguer o braço e segurar o cabo sem nem ao menos olhar para cima. Então começou a sair da sala, andando lentamente para a saída. Mas assim que cruzou com o caminho de Zane, ele se atreveu a segurar o braço dela, mesmo que delicadamente.
Ela encarou os dedos em seu braço e então ele, se voltando novamente aos dedos. Ele a soltou.
– Já está indo? — perguntou, um tom provocativo na voz. Ele ainda estava irritado, ela percebia isso. Esta era exatamente a razão dela não gostar de encontrá-lo a não ser que tivessem outras intenções em mente (no sentido menos bíblico possível).
– Sim — respondeu apenas, e continuou seu caminho.
Não precisava dizer mais nada, ele já sabia todo o resto.
– Você está indo ver o Sebastian, não está? — ele prontamente questionou.
– Sim — repetiu.
Poderia tê-lo provocado perguntando "Está com ciúmes, por acaso?", mas ela já sabia a resposta, e realmente não se importava o suficiente para se dar ao trabalho.
Diane fez o resto do seu caminho no silêncio entre eles, e logo já se viu novamente no corredor. Ela tinha ido até a simulação para conseguir ficar um tempo sozinha ou até mesmo lutar um pouco com algumas Projeções, ver Zane nunca esteve em seus planos, isso só havia piorado seu humor.
O que ela realmente não queria fazer, era exatamente o trajeto que fazia agora, sem precisar prestar muita atenção porque seus pés já conheciam o caminho de cor. Prosseguiu pelos corredores de ferro até se deparar com o do seu próprio quarto e passar reto por sua porta fechada, indo em direção ao último aposento, que estranhamente estava com a porta aberta. Ela ouviu o barulho da televisão antes mesmo de se apoiar na soleira.
Quinn ergueu os olhos para ela assim que parou. Diane levava seu olhar da garota loira sentada com os pés para cima no sofá de couro de Sebastian para o programa que ela assistia, e então para o pote de pipoca que segurava entre as mãos. Ela enrugou a testa.
– Você começou uma festa sem mim?
O Lobo deu de ombros, jogando uma porção de pipoca na boca.
– Eu deixo Sebastian responder essa pergunta.
Diane revirou os olhos e se jogou no sofá ao lado da amiga, retirando suas pernas do lugar, seus pés também descalços batendo no chão.
– Ele ainda está bravo comigo? — questionou como se realmente não se importasse, pegando uma porção de pipoca para si.
– Bravo é uma escolha de palavra interessante.
– Quão impossivelmente bravo, mais ou menos?
Quinn moveu a cabeça para o lado fingindo considerar a pergunta, fazendo uma careta.
– De zero a dez?
– É.
– Quinhentos e noventa três.
E como que para provar seu ponto, a porta do banheiro foi aberta e Sebastian saiu de uma nuvem de vapor com apenas uma tolha branca enrolada na cintura. Seu cabelo molhado pingava no carpete, e como se planejasse se juntar à festa, também estava descalço. Ele não notou a presença dela no primeiro momento, e Diane virou o rosto do corpo dele — tanto para não encará-lo demais quanto para não encará-lo de qualquer jeito -, e fingiu estar prestando atenção no programa de TV, só notando agora o que Quinn realmente assistia.
– Hora de Aventura? — Sebastian perguntou como se lesse a pergunta na cabeça dela — Você veio até o meu quarto e fez pipoca para assistir a um desenho animado?
Quinn fez um barulho indignado com a garganta. Diane permaneceu quieta porque aparentemente ele ainda não havia notado sua presença, de costas para elas enquanto procurava alguma coisa em seu guarda-roupa.
– Esse desenho foi a criação mais genial da raça humana, tudo bem? — respondeu a garota — Você não pode me julgar sem nunca ter assistido!
– Sério que você acha que alguém precisa assistir esse desenho para saber que ele é... — ele finalmente se virou e encontrou Diane sentada em seu sofá, o sorriso sumindo de seu rosto enquanto sua voz sumia — ...tosco...?
Diane engoliu em seco e se virou para encará-lo, tomando seu tom como um indício de que ele a avistara. De fato, Sebastian a encarava fixamente.
E eles ficaram um longo tempo assim, se encarando com a trilha sonora de fundo do desenho e de Quinn mastigando a pipoca.
– Você não vai falar nada? — ela perguntou finalmente, não conseguindo aguentar mais.
Ele revirou os olhos do mesmo jeito que Zane fizera há poucos minutos, como se estivesse cansado demais das atitudes dela até para dizer o quanto. Ela tomou uma nota mental de implicar com eles mais tarde por serem tão parecidos.
– E o quê você quer que eu diga? — ele perguntou sem emoção, jogando os ombros para a frente.
– Só grite logo de uma vez — ela ordenou — Eu sei que é isso que você quer fazer.
– Não, Diane, eu não quero gritar com você — negou ele se aproximando dela. Ela se levantou também, dando a volta no sofá para se por de frente a ele — O que eu quero é entender por que você fez aquilo.
– Fiz o quê? — rebateu ela, irritada — Salvei o dia?
– Por que você não nos contou o plano todo, porra!
– Você ouviu minha explicação — gritou ela — Eu precisava que vocês parecessem surpresos!
– Ah, é claro! — exclamou ele num tom mais alto do que ela. Qualquer um poderia ouvi-los do lado de fora, mesmo se a porta não estivesse aberta — Porque se você tivesse sido morta por exemplo, ou todo seu plano tivesse falhado nós teríamos parecido muito surpresos realmente! Me desculpe por te questionar.
– O plano não ia dar errado — argumentou ela — Ele não deu errado! Você só está bravo comigo porque eu não te contei. Se você fosse o único a saber além de mim nada disso aqui estaria acontecendo.
– Mas é claro que não estaria! — berrou ele — Eu pelo menos tenho um pouco de juízo, Diane, e teria impedido os imprevistos dessa noite — ela gargalhou para demonstrar o quanto desprezava esse comentário. Quinn jogou mais uma porção de pipoca na boca e mastigou o mais alto que conseguiu, tentando chamar a atenção dos dois. Ambos a ignoraram — Você é incapaz de tomar uma decisão racional sozinha, não é? Nenhuma vez passou pela sua cabeça que sei lá, a máfia tivesse mais guardas do que esperávamos? Ou que encontraríamos um poder de fogo que nem nós mesmo conseguiríamos combater?
– Não, toda essa merda não passou pela a minha cabeça, claro que não — ela praticamente cuspia na cara dele — Porque eu sou tão idiota quanto você acredita.
– Você desapareceu, Diane — de algum modo, não havia mais raiva em sua voz. Ele parecia apenas cansado. Seu peito subia e descia rapidamente, ela não estava pronta para deixar a raiva de lado, mas quando ele a encarou novamente, seus olhos pareciam implorar por algo que ela não conseguia compreender — Eu quase abandonei a missão para ir atrás de você.
– Quase — reforçou ela. Ignorando o verdadeiro significado daquela confissão, ela estava cansada demais para ir por esse lado — Não importa o que poderia ter acontecido, Sebastian. Tudo aconteceu como o esperado, e atingimos o objetivo.
– Não importa? — ele levantou os braços como se não compreendesse o propósito dela naquele mundo — Diane, você é uma das líderes dessa instituição. Suas decisões importam. Você não pode fazer algo desse tipo sem pensar nas consequências!
– Ah, pelo amor de Deus, Sebastian, eu...
Mas ela não teve a chance de terminar, porque naquele momento uma pessoa entrou como um furacão pela porta e quase caiu em cima de Quinn enquanto tropeçava no sofá. Os dois Ilegítimos que brigavam se viraram para encarar um muito suado e desesperado Evans. Seu rosto estava vermelho e ele não parecia conseguir respirar direito.
– E-e-e-eu... — gaguejou ele — ... C-C-Cora... Ela...
– O quê? — perguntou Diane impaciente — O quê tem Cora?
Até Quinn havia se levantado, desviando os olhos de seu desenho pela primeira vez.
– E-ela...
– O quê? — perguntaram os outros três em uníssono.
– Ela vai executar aquele mensageiro dela daqui a dez minutos.
Diane deu de ombros.
– E o que diabos nós temos a ver com isso?
– Você não lembra? — perguntou ele numa mescla de indignação e desespero.
– Lembro do quê?
– Carl, ele... — Evans tomou um segundo para respirar fundo — Ele estava delirando sobre fogo, Diane.
Diante dos olhares confusos que recebeu, ele respirou fundo mais uma vez e continuou:
– É a mesma palavra que Dakota Ning utilizou para conseguir a liberdade há poucas horas — explicou — Ele sabe o segredo de Cora e vai ser executado daqui a dez minutos.
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