Ethereal

16 Décimo Quinto


ANTES

Enquanto eles andavam, Diane tentava inutilmente não reparar na postura de Dorian, no modo como o caminhar dele era gracioso e confiante. Ele se esquivava de galhos e as vezes — poucas vezes — erguia o braço na direção dela para ajudá-la a subir numa pedra ou terreno muito íngreme, e Diane sentia a agitação em seu corpo toda vez que aceitava sua mão. A maneira como os dedos dele se curvavam sobre a palma dela, segurando-a firme. Ela simplesmente não conseguia resistir.

Diane culpava sua inegável beleza por isso.

Se não pudesse vê-lo, ou se ele simplesmente tivesse a decência de ter uma aparência horrorosa, ela poderia sentir a repulsa que tanto desejava. Mas não. Dorian nascera com o rosto e corpo abençoado pelos deuses, e toda vez que olhava para ele de soslaio e percebia que ele também a avistava de volta, seu estômago se contorcia e ela sentia como se fosse derreter, sua pele toda ardendo como carvão em brasa.

Ela suspirou audivelmente. Se ele percebeu, ignorou.

Diane revirou os olhos enquanto levantava a barra de sua saia para atravessar uma poça de lama. Ela fez uma careta. Seu vestido e capa já estavam todo sujos, ela não sabia porque ainda se dava ao trabalho. Ela deu a volta na poça, e quase escorregou quando pisou na grama úmida.

Ela não fazia ideia de onde estavam, nunca tinha se aventurado por aquelas matas, e não podia dizer se continuavam ou não na Inglaterra. Olhou para Dorian novamente, tentando decifrar qualquer coisa sobre ele.

Diane não podia adivinhar de que parte do país viera — se é que era mesmo daquele país -, já que seu sotaque era peculiar demais para qualquer canto da região. E aquele cabelo... ela nunca tinha vista nada igual. Ás vezes até se perguntava se ele era ao menos humano.

Nos dois anos que passou no bar de Bev, foram poucas as vezes que cruzou o caminho com ele, e nunca tinha conversado com ele a não ser que fosse servi-lo alguma coisa. Mas toda vez que ele esteve lá, o ambiente parecia mais agitado — por medo, ou por outra coisa -, e a atmosfera ficava mais leve, como se sua presença conseguisse disfarçar o cheiro do álcool. Diane percebeu o quão ilógico era isso assim que pensou tal coisa.

Dorian escalou outra pedra, mas dessa vez não tentou ajudá-la. Diane bufou para si mesma e levantou sua saia para colocar o pé numa inclinação e fazer força com os braços para conseguir subir. Seus braços já estavam todo arranhados, assim como suas pernas, mas mesmo assim, ela realizou a proeza de abrir um corte feio no antebraço, o sangue jorrando incontrolável e grudando no tecido de sua capa. Assim que conseguiu se por de pé acima da pedra, ela parou para avaliar a ferida. Por mais horrorosa que parecesse, nem estava doendo tanto assim.

— Vai ficar enrolando mesmo? Nós não temos o dia todo — veio a voz de Dorian de algum ponto à sua frente.

Ela fechou os olhos e contou até dez antes de encará-lo.

— Ah me desculpe se me atrapalho com todas essas camadas de tecido quando vou escalar uma pedra, já que eu nunca tinha escalado uma pedra antes na vida!

Ele suspirou.

— Tudo bem, agora que já realizou este feito, podemos continuar andando?

Ela queria espancá-lo, cuspir naquele rosto prepotente e arrogante...

— A propósito — continuou ele, caminhando na direção dela — Você está sangrando.

E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa a repeito, Dorian chegou na frente dela e se agachou. Então arrancou um pedaço da barra de seu vestido e ergueu a mão para ela.

— Mas que diabos... — começou a reclamar ela.

— O braço.

— O quê?

— Me dê seu braço.

Ela soltou uma exclamação indignada e então recuou um passo, sem perceber que ainda se encontrava na beirada da pedra. Um grito cortou seu peito quando sentiu que estava caindo, mas Dorian segurou seu braço e a puxou de volta como se ela não pesasse mais que uma folha, e antes que ela pudesse agradecer ou protestar, ele começou a enroscar a faixa de tecido rasgado em seu braço machucado.

Diane não ousou dizer mais uma só palavra enquanto ele enrolava o tecido lentamente no braço dela. O machucado ardeu quando ele pressionou e amarrou o tecido sujo, mas ela não deixou isso se transparecer em seu rosto. Ela o observava curiosa enquanto ele fazia isso, uma das sobrancelhas erguidas, e tudo o que ele fez quando acabou foi lançar um olhar por cima para ela e dar um de seus sorrisos presunçosos.

— Viu? — provocou ele — Você ganharia muito mais se parasse de reclamar.

Então se virou e continuou a caminhar na frente dela como se nunca tivesse sido interrompido. O rosto dela ardeu, mas ela se via indecisa entre a fúria e o constrangimento, decidindo apenas segui-lo com a cabeça baixa, sem comentar mais nada.

***

O dia quase já havia se transformado em noite quando ela criou coragem para falar de novo, o céu numa violenta batalha entre o vermelho e laranja.

— Sabe — começou ela no que acreditou que fosse um tom despreocupado, mas que na verdade acabou saindo estranho pela falta de uso. Ela pigarreou — Você costuma ser mais divertido quando está bêbado.

Dorian a olhou rapidamente pela primeira vez desde que tinha enfaixado seu braço, e então parou abruptamente, Diane quase se chocando contra ele.

— Espere um minuto — pediu ele — Você está tentando puxar assunto?

Ela pôs as mãos na cintura e revirou os olhos.

— Não, não — riu ele, se virando para ela — Não me leve a mal, mas o que aconteceu com seu movimento de ódio contra mim?

— Seres humanos normais costumam fazem esse tipo de coisa quando o silêncio é tanto que chega a doer.

Ele sorriu e voltou a andar, sem respondê-la.

— Eu posso voltar a te odiar se isso te incomoda tanto.

— Isso quer dizer que você não me odeia mais?

— Não — respondeu ela tranquilamente — Só percebi o quão cansativo isso seria já que serei obrigada a conviver com você por sabe Deus quanto tempo.

— Obrigada pela consideração — devolveu ele.

— Eu faço o que posso — sorriu ela.

Eles voltaram a ficar em silêncio de novo, e Diane coçou nervosamente sua nuca com a pergunta que a estava incomodando desde que deixaram a estalagem de Bev e agora estava na ponta de sua língua.

— Por que eu? — ela se viu perguntando de repente sem conseguir se conter.

— Por que você o quê?

— Por que aqueles homens que estão te perseguindo me escolheram entre todas as pessoas para te chantagear? — Por que aqueles homens acharam que eu era importante o suficiente para te chantagear, ela queria realmente perguntar.

Dorian se virou para ela, parando para encará-la. Os poucos raios solares que restavam abençoaram seu rosto num tom de dourado, o que fez seus olhos azuis se destacarem ainda mais.

Ele respirou fundo como se estivesse prestes a tentar explicar o mundo a uma criança e arrumou a alça de sua mochila no ombro.

— Você não era a questão — respondeu ele dando de ombros — Ou qualquer uma das outras garotas de lá, de qualquer jeito. Bev, ela... — ele pareceu perder as palavras, olhando para longe dela — Ela me aceitou. Mesmo sabendo de algumas coisas sobre mim — explicou — Você, e todas as garotas naquele bar, são importantes para ela. Qualquer um que ameaçasse uma de vocês estaria ameaçando ela, e isso é uma ameaça para mim.

Diane o fitou numa mescla de incredulidade com confusão. Era estranho pensar que Dorian se importava com alguma coisa, e mais estranho ainda pensar que ele se importava com alguém. Ele parecia tão confiante e certo de si mesmo que ela se esquecia de que ele não passava de um garoto. Olhando para ele parado debaixo da sombra daquela árvore — o sol já tinha quase desaparecido -, ele não passava de um garoto solitário como qualquer outro.

— De qualquer jeito — continuou ele, pigarreando e voltando a caminhar, seu rosto de costas para ela — Isso não importa mais porque eu nunca mais vou voltar aquele bar.

Diane teve que correr para acompanhar os passos dele.

— Por que não?

— Porque sim — replicou, rispidamente. Ela sentiu como se levasse um tapa na cara — Agora que já fez suas perguntas, pode andar mais rápido, por favor? Temos que chegar a cidade antes de anoitecer.

— Cidade? Que cidade? — questionou ela, quase sem fôlego pela corrida — Pensei que nos manteríamos longe de vilarejos.

— E vamos — confirmou ele — Mas eu tenho um assunto para tratar antes.

— Que tipo de assunto?

— Do tipo que sou contratado para fazer.

— E o quê você faz?

— Não é da sua conta — ele respondeu, impaciente — E eu disse para andar mais rápido.

— Quem está liderando um movimento de ódio agora? — murmurou ela para si mesma. Dorian a ignorou.

Eles andaram mais alguns passos antes de Diane reparar em algo estranho no ar. Um som. Aquilo eram... vozes? A mata a sua frente se abriu para revelar um grande campo que terminava num pequeno círculo populacional. Ela via a fumaças das chaminés se misturando com as nuvens no céu e crianças brincando correndo uma atrás das outras. Mulheres carregando cestos de roupa na cabeça e nos braços iam e vinham se misturando na multidão de homens caminhando com os rostos sujos de carvão.

Logo atrás de todas as casas, uma alta montanha se estendia, e abaixo dela, um casarão de muros altos com uma cortina de vegetação cobrindo quase toda sua extensão. Tudo ao redor da casa parecia morto. Os campos, as pessoas, e até mesmo a própria montanha. Tudo em relação ao casarão era inferior. Nada nunca chegaria ao seu esplendor. Mesmo vindo da cidade e do centro de Londres, tendo visto todo tipo de construção de luxo assim como a miséria que se concentrava nos arredores da cidade, nada se comparava a beleza daquela casa. Porque ela era a única beleza por ali. Eles nem tinham saído da cidade ainda, percebeu ela, só haviam se venturado mais para dentro dela, para o seu interior, onde as maravilhas eram raras como aquelas única casa no meio da dos trabalhadores.

Só que a semelhança era tão grande com o que ela lembrava do campo onde crescera que Diane teve que segurar a respiração enquanto tomava consciência do contraste que era aquela paisagem. Nunca pensou que voltaria para um lugar daqueles tão cedo.

Se ela tivesse se virado para encarar Dorian, teria visto a verdade que se escondia ali. A tragédia que era sua existência, a dor naqueles olhos velhos demais para um rosto tão jovem. E o olhar de quem já vira impérios sendo derrubados. Mas ela estava concentrada demais em sua própria dor, afundando-se em sua própria memória. Era quase como se ela tivesse voltado para casa.

— E aliás — começou ele sem se virar para ela, quebrando novamente o silêncio que se instalara entre eles — Quão bem você acha que ficaria num vestido de baile?