Eterno
13 Demônio.
Notas iniciais
– Tédio! Tédio, tédio, tédio! Estou com tédio!
– Mai, repetir isso não vai mudar nada.
– Mas não tem nada para fazer. – a garota reclama, acariciando a cabeça de Light, enquanto esse descansava em seu colo.
– Então vá trabalhar, que por acaso, era o que deveria estar fazendo. – Naru retruca, lançando-lhe um olhar repreendedor.
Na verdade, ele também estava cansado. Muito. O dia inteiro passou e nada aconteceu. Nem uma informação nova foi descoberta e nem uma aparição ou manifestação ocorreu. Para falar a verdade, ele meio que desejava que algo acontecesse, se não, todos ali dormiriam de tédio, inclusive ele. Caçar espiritos e fantasmas era sua profissão pois oferecia a ele desafios, problemas racionais e ele gostava de pensar em como desvendá-los. Era justamente esse desafio que o instigava a sempre pegar os casos mais complicados e os outros ignorar totalmente. O problema era que esse caso era um desafio, mas estava se mostrando um cada vez mais difícil de se resolver. E ele não gostava nem um pouco quando não encontrava respostas. Se houvesse pelo menos uma dica, qualquer informação que eles tivessem deixado passar e que fosse a chave para esse caso, mas não, ele já tinha revirado todos os papeis e livros, lido todos os diários, que foram todos relidos por Gene e Lin, mas nada se destacava.
Ele olhou para sua equipe. Lin estava focado no computador, Martin, Luella e Ryu tentavam se entreter para não acabarem dormindo ali; Jonh e Yasuhara estavam conversando sobre algo relacionado a faculdades e intercâmbios na Austrália, Gene tentava distrair Mai falando sobre qualquer coisa, mas pelo que ele percebia não estava funcionando muito bem. Até mesmo Ayako e Hoshou estavam quietos, simplesmente olhando para o nada.
Ele suspirou, fechando o livro e atraindo a atenção de todos. Se ficasse ali, não seriam nada produtivos. O melhor era irem todos dormir.
– Podem se retirar para seus quartos e descansar. Nada aconteceu o dia inteiro e duvido que algo vá ocorrer.
– Finalmente! – Mai se levanta em um pulo, pronta para ir para a cama.
– Não se preocupe, querido. Ficaremos com o primeiro turno. – Luella sorri para o filho, abraçando-lhe e desejando uma boa noite.
– Boa noite, mãe, pai. – Gene sorri, acenando e acompanhando o irmão e Mai para fora da sala e subindo as escadas, dobrando no corredor e entrando em seu quarto.
– Cama! – a garota pula em cima dos lençóis, rolando de um lado para o outro e agarrando um travesseiro.
– Mai, vá se trocar. Depois, pode dormir. – Naru diz, observando a garota gemer com preguiça e então se levantar da cama, pegar seu pijama e entrar no banheiro.
– Está muito frio hoje, não é? – Gene olha para o irmão, tirando seu casaco e sua blusa, deixando seu peito nu a mostra – Me lembra de quando eramos pequenos e mamãe nos levava para o parque e brincavamos com a neve.
– Você quer brincar com a neve? – Naru ergue uma sobrancelha, obviamente provocando o irmão.
– Ah, cala a boca, Noll. – Gene resmunga, fazendo o mais novo sorrir disfarçadamente.
– Hey, eu acho que tem um bicho no banheiro e… — Mai para de falar ao ver Naru apenas com a calça de seu pijama. O rubor foi instantâneo em suas bochechas, fazendo o garoto sorrir maliciosamente. Ele realmente adorava quando provocava aquela reação na garota.
– Des-desculpe! – ela se virou, dando as costas aos garotos, seu rosto incrivelmente vermelho e seu coração batendo furiosamente. Era a segunda vez que via Naru sem camisa!
– Tudo bem agora, Mai. – Gene sorri, terminando de fechar os botões de seu pijama.
– S-sinto muito, juro que não vi nada, Gene! – a garota olha para ele, ainda envergonhada.
– De mim, não, mas do meu irmão… — Gene sorri ao ver o rosto dela ficar mais rubro que antes.
– Não vi nada! – ela grita, jogando-se na cama e puxando o lençol sobre sua cabeça.
Ambos se olham, um sem expressão e outro sorrindo, então dividindo algum pensamento, se deitam cada um ao lado da garota, puxando os lençois e o edredon para cima de seus corpos, cobrindo-os e enchendo-os com certo calor. Para Naru, aquele tipo de calor nunca se compararia ao de Mai em seus braços. Era algo que aprendera e não estava dispostor a tirar de sua vida.
– Gene? – a voz timida de Mai chama a anteção dos dois.
– O que foi, Mai? – ele sorri para a elevação no lençol, sabendo que a cabeça da garota estava ao seu lado.
– Você sente alguma coisa aqui?
– Eh? – ele olhou para o irmão, intrigado – Você quer dizer algum espirito?
– H-hm…
‘O que você acha que ela está pensando, Noll?’
‘Não leio mentes para saber. Talvez ela esteja sentindo algo e pensa que é só a imaginação dela.’
‘O poder dela já é o grande o suficiente para ela levar qualquer intuição a serio’
‘Ela é tão idiota assim’
‘ Noll!’
‘Responda a pergunta’
– Não, Mai, não sinto nada aqui. Na verdade, não senti nada o dia inteiro. É como se ele estivesse se escondendo, ou se resguardando.
– Resguardando? Para que?
– Não sei. Hara-san disse que era como se houvesse algum tipo de escudo ou algo do tipo ao redor da casa. Ela não consegue sentir, ouvir ou ver nada.
– Você tem certeza? Não tem nada aqui, né?
– Sim, Mai, tenho. – o garoto sorri gentilmente, tirando o lençol de cima dela – Não precisa ficar com medo, okay?
– Não estou com medo. Se algo vier me atacar, o Naru está aqui. Ele sempre me protege. – Gene hesitou ao escutar isso, olhando estranhamente para o irmão – Você também, Gene.
– Então va dormir. – Naru diz.
– Eu tenho que contar uma coisa muito importante. É sobre o caso.
– Você viu alguma coisa?
– É sobre quando eu sai sozinha.
– Você lembrou? – Gene pergunta, curioso.
– Eu nunca esqueci. Eu só não podia contar porque ele estava nos observando. – ela sussurra, olhando ao redor.
– Quem? Daniel?
– N-não. – então ela contou tudo o que aconteceu. Desde o momento em que deixou seu quarto até o momento em que sentiu sua visão falhando e caindo na inconsciência. Claro, não precisava relatar em como achou Daniel um anjo e super bonito. Era algo muito… embaraçoso para se contar. Além disso, Naru com certeza a reprimiria por ter prestado atenção a ‘fatos inuteis e sem valor’. E ela também não queria causar nenhuma briga entre eles. Vai que Naru se ofendia por ela ter achado Daniel bonito. Ele tinha um ego bem grande. Um enorme de um narcisista. Um que ele amava acima de tudo. Até mesmo sua vida.
– Gemeos?! – Gene repetiu, ainda digerindo as informações – Como eu e o Noll?
– Sim. Damon-san e Daniel-san são gemeos. Um deles está nos protegendo do outro.
– Mas você disse que não é de próposito. Que há algo controlando-o. – Naru disse cuidadosamente.
– Sim. Foi o que Daniel-san disse.
Naru ficou alguns minutos em silêncio, preso em seus pensamentos e ignorando completamente os dois ao seu lado, que discutia fervorosamente em quem era o verdadeiro culpado por trás de toda a história.
– É isso! – Naru de repente disse, seus olhos demonstrando entendimento e confiança – Como eu não pude ver antes?
– Eh? Ver o que, Naru?
– O culpado. Não é alguém, mas sim algo.
– O…kay, eu vou precisar mais do que isso para entender. – Mai diz, tão confusa quanto antes, quem sabe mais.
– A mascara. – Naru e Gene disseram ao mesmo tempo.
– A mascara está controlando Damon.
– Você é tão esperto, irmãozinho. – Gene sorriu.
– Aconteceu provavelmente bem antes dele a possuir. A mascara foi usada como algum tipo de objeto em algum ritual e não se livraram completamente de quem quer que tivessem tentando invocar.
– Damon-san tentou invocar alguma coisa?
– Ou ele, ou já recebeu a mascara assim.
– Ou… — Gene olha olha para o irmão.
– Sim, também pode ser o caso. Apesar de que se for assim, não vamos ter muita utilidade.
– Eh? Eh? O que? Eu quero saber também! – Mai reclama.
– Um demonio.
– De…monio? C-como… aquele com chifre e uma cara realmente assustadora?
– Isso é apenas uma das várias aparência que um demonio pode tomar.
– Não entendi.
– Vou explicar isso para o seu bem. – Naru diz, recebendo um olhar furioso da garota – Um demonio não é uma pessoa ou um espirito. Ele é energia pura. Energia negra, ruim. É um amontoado de todos os sentimentos ruins que as pessoas sentem.
– Mas se fosse assim, o mundo estaria cheiro de demonios.
– E está. – o garoto assistiu os olhos da garota se arregalarem e ela agarrar o lençol com força – Mas é necessário que alguém os acorde. Preste atenção, Mai. Tudo no mundo é energia. Eu, você, a cama, a casa; o planeta e o universo inteiro são feitos de energia. Um demônio é a materialização de todos os sentimentos, que também são energia, que ninguém nunca deveria ter. Pelo menos não de acordo com as religiões. Raiva, rancor, inveja, odio, ambiciosidade, luxuria, avareza; eles também são energia, que quando se juntam formam o que nós chamamos de demônio.
– Entendo. Então… se eu sentir raiva de alguém, eu vou estar criando um demonio? – a garota pergunta, seus olhos arregalados em terror — Oh minha nossa, eu já criei vários demônios! Naru! O que eu faço?!
– Mai, relaxe. Não é facil criar um demonio.
– Mas você disse…
– O que meu irmão quer dizer, Mai, é que é preciso uma grande quantidade de emoções ruins para criar algo tão monstruoso. Só porque você sente raiva de alguém por alguns segundos não significa que você criou um demonio. E mesmo que significasse, ainda assim não significariam nenhum perigo.
– Mas é um demonio! Eles são maus!
– Nem todos. Assim como há os demonios criados a partir de toda a miseria e estupidez humana, há também aqueles criados do lado bom e amavel. Há muitos tipos de demonios, Mai. Cada um deles age de acordo com o sentimento que mais lhe deu forma.
– Entendo… Então o que está controlando Damon-san é um espirito formado por sentimentos ruins?
– Sim. Mas não sabemos ainda se esse é o caso. Pode ser simplesmente um feitiço na mascara.
– Ah. Mas como você se livra de um demônio? – os gemeos ficaram calados – Vocês conseguem, ne? Você consegue se livra do demônio, não é Naru? Vamos ajudar o Damon-san, não é?! – ela agarrou o braço do garoto.
– Acalme-se, Mai. Sim, é possivel destruir um demônio. Mas é necessário um grande poder para tal. Poucas pessoas conseguem lidar com um e a maioria acaba morrendo no final.
– M-mas… então como vamos salvar o Damon-san?
– Não vamos.
A garota olhou chocada para o chefe, seus olhos brilhando com lágrimas, mas nenhuma delas caiu.
– Está tudo bem, Mai. Isso é só uma opnião. Não é como se fosse realmente um demônio. – Gene tentou confortá-la.
– M-mas voc-você disse…
– Vá dormir, okay? Amanhã falaremos sobre isso. Takigawa-san lhe explicará melhor sobre demonios.
– M-mas… Okay. Boa noite.
– Vamos todos dormir. Boa noite, Noll. – Gene desligou a luz, nem mesmo dando chance ao irmão de reclamar.
O mais novo suspirou, colocando o livro na cabeceira e deitando-se. Em alguns segundos sentiu a mão de Mai se enroscando na sua e apertando-a com força. Ele não sabia quando, nem como, mas acabou virando instinto e hábito ele apertar a mão da garota com força quando a mesma segurava sua mão. Provavelmente porque em todas as ocasiões que estavam de mãos dadas era para algo não acontecer a ela, como um escorregão, um tropeção, ou um fantasma vingativo querendo levá-la para longe dele. Ele não sabia quando, mas virou um hábito segurar a mão dela, para que soubesse que ela estava ali, do seu lado, onde ele podia a qualquer momento escutar sua doce voz, ver seus gentis olhos ou escutar sua risada. E era um hábito que não planejava extinguir tão cedo.
– O-ola? Tem alguém ai? – Mai olhou para os lados, reconhecendo o plano astral, que sempre se apresentava em seus sonhos. Ela sempre imaginara se havia o perigo dela sem querer passar pela ponte que liga os mortos ao ceu, e acabar morrendo, mas nunca perguntou a Gene ou a Yiyan se era ali que havia a ponte. Ou se ela realmente existia.
– …poder…meu…bel… — ela parou ao ouvir pequenos sussurros. A voz era grossa e poderosa, e fazia os cabelos de sua nuca se arrepiarem e seu instinto alarmar feito doido, gritando para ela sair dali. Mas a voz era tão tentadora…
– Eu não quero! Por favor! Não quero mais isso! – Mai continuou andando, preocupada com quem quer que estivesse gritando. Então ela viu.
Um homem sentando no chão, suas mãos em sua cabeça, ele chorava. Ao seu redor algo negro e sombrio, que se prendia ao seu corpo como se fosse correntes. A garota olhou assustada para aquilo. Por que ela estava com tanto medo? O que era aquela coisa que assustava tanto aquele homem? E da onde vinha aquele voz assustadora?
– …contrato…
– Nunca! Eu nunca fiz tal coisa!
– …sangue… beleza… poder… energia… vivo!
Então ela entedeu. A voz vinha da massa preta. Estava…viva.
– Por favor… Liberte-me. Farei o que desejares, mas por favor…
– Nunca!
O homem levantou o rosto e seus olhos encontraram os de Mai. A garota congelou em seu lugar. O lado direito do rosto do homem estava competamente deformado. Uma grande cicatriz se estendia desde sua sobrancelha esquerda, passando por seu olhos azul e descendo até seu queixo, passando pelo canto de seus lábios. Ela arregalou os olhos em terror, colocando a mão em sua boca, tentando conter o grito que se formava em sua garganta. Aquela…coisa tinha feito aquilo ao homem?
– …poder suficiente!
Mai continou olhando para o homem, que a olhava com a mesma intensidade. Seus olhos azuis brilhavam em medo. Os olhos da garota se arregalaram mais uma vez ao perceber quem era ali. Damon.
– Não! – ela foi acordada de seu estupor pelo grito do homem, e levantou seus olhos, finalmente percebendo como a coisa tinha se espalhado pelo local. Estava quase alcançando Mai.
– Garota tola! – ela olhou para cima, surpresa. E o que viu a fez soltar o grito mais arrepiante de toda a sua vida. A coisa não tinha rosto. Mas seus olhos era vermelhos como sangue e lhe olhavam com tanta fome, igual sua boca, que se estendia em uma sorriso maléfico e faminto.
– Corra! Corra!!! – o homem gritou, enquanto desaparecia engolido pela nuvem preta, que Mai definira como o corpo da coisa.
– Tão pequena e tão estupida. Garota tola, não podes desafiar a mim. – Mai não conseguia falar ou se mover. Era como se seu corpo estivesse preso ali. Ela olhou para baixo, vendo aquela fumaça preta tomando conta de suas pernas e chegando a sua cintura, subindo lentamente e prendendo seus braços a seu corpo.
– N-nã-NÃO!!! NÃO!!! Alguém!!! Me ajude!!!! Naru!!! Naru!!! Daniel-san!!! Não toque em mim!!!! Não!!! Afasta-se!!!
Ela tentava se mover, chutar ou fazer qualquer coisa que tirase aquela massa negra de seu corpo, mas era inutil.
– Grite! Sim, grite por alguém! Medo! Terror! Sim, alimente-me! De-me sua energia!
– NÃO!!!
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