Eternizar: Um conto de Alan Mendes
2 Parte 2
Notas iniciais
Meu chalé não ficava muito longe do cais, precisei arrastar a Cristina somente por dez minutos até chegar em casa. O caminho todo fiquei preso nas minhas lembranças, pelo menos as que a Cristina é saudável e alegre. Esse flash do passado me preencheu de felicidade, um sentimento que eu só fora sentir no momento em que eu abrira meu notebook para escrever meu novo romance, onde a cada capítulo eu enxergava mais e mais o rosto da dela.
*Se eu pudesse escolher não sonhar, talvez pudesse evitar minhas melancolias, porque a nostalgia agradável é fugaz e não me consola nesse momento. Não adianta eu me enganar, o cenário é tenebroso e percebo que a garota que me deu um sentido à vida, hoje está morrendo e todas as nossas aventuras tornam-se meras lembranças.
– Olá! Planeta Terra falando, será que dá pra você voltar?
– Desculpe!
– Posso saber aonde os pensamentos do “senhorio” estava? – Perguntou Cristina.
– Distantes...
– Percebi. Quer dividir?
– Não é nada.
– Sei... Imagine se fosse.
– Chegamos! Vou levar suas coisas para o quarto – Disse mudando de assunto – Se quiser pode descansar um pouco, a viagem que você fez deve ter sido cansativa. Acordo você quando o jantar estiver pronto.
– Acertou, mas antes preciso de um banho quente.
– Ok! vou deixar a banheira enchendo pra você.
Corri para a suíte com as coisas da Cristina; rapidamente troquei meus travesseiros e lençóis usados por limpos, acertei a temperatura da água para o banho dela, e desci de volta para sala-de-estar com outras roupas de cama, eu não me importava de dormir no meu desconfortável sofá.
– Pronto! Você já pode subir para o quarto – Afirmei – Estou indo fazer o jantar, o que quer comer?
– Qualquer coisa sólida, não aguento mais sopa.
Nada de sopas. Espero que ela possa comer uma macarronada com muito molho de tomate com manjericão e queijo ralado. Espero que a Cristina ainda goste da minha comida, faz tempo que não cozinho para ela.
– Hey! Onde vai? – Perguntou ela.
– Estou indo para cozinha...
– Pode pelo menos me ajudar a subir a escada, de cadeira de rodas fica um pouco difícil.
– É claro! Eu esqueci que você está... Deixa pra lá.
Peguei ela no colo sem nenhuma dificuldade.
– Nossa como você está forte Alan – Ela pareceu estar impressionada, mas algo me dizia que era um a gota de sarcasmo.
– Ainda tenho a mesma força de antes é você que emagreceu muito. Tem se alimentado direito?
– E alguém se alimenta direito com sopas?
Rimos juntos.
Fiquei preocupado com a alimentação da Cristina, por isso fiz questão de caprichar no banquete. Não quero me gabar, mas minha macarronada está ficando supimpa, as almôndegas estão com uma cara ótima e minha salada de tomate e alface está perfeita – Gosto de usar as verduras da minha pequena horta que fiz nos fundos do chalé, é uma mania que herdei do meu finado pai. Sinto saudades daquele velho aventureiro.
– Já vou logo avisando – Começou Cristina que apareceu minutos depois na porta da cozinha, vestida com seu pijama – Sem querer esbarrei no criado-mudo e deixei cair um brinquedo, mas já coloquei de volta, contudo não sei se está do jeito que você deixou, por isso se caso você notar que não está... Já digo que sou a culpada.
– Sem problemas, não sou tão paranoico com minhas coisas.
– Não tem problema mesmo? Por que eu notei que você ainda continua com aquele hábito de ficar organizando cada objetos em lugares estratégicos.
– Notou é?
– Uhum! O seu quarto por exemplo. Fiquei olhando a prateleira de livros e DVD's, todos separados por ordem alfabética e temática... Tem também os objetos de enfeite, todos agrupados milimétricamente na estante... E suas roupas...
– Você abriu meu guarda-roupa?
– Sim! Algum problema? – Cristina fez uma careta, a mesma careta que ela fazia quando queria me provocar.
– Nenhum! Só acho que não vai encontrar nada que lhe sirva – Tenho quase 1,90 de altura e a Cristina não passa do 1,65, qualquer roupa que ela vestir vai parecer um vestido – Mas continue, o que é que tem minhas roupas?
– Sei lá! Separar cada camiseta, calça e camisa por cor, deixar as meias e cuecas enroladinhas em cubinhos, todas alinhadinhas na gaveta.
– Organização agora é problema? – Perguntei.
– Depende! Se o seu quarto fosse bagunçado talvez eu não teria encontrado cinco coelhinhas na última gaveta do guarda-roupa.
– Coelhinhas? – Do que Cristina estava falando?
– Revistas Playboy!
Então é isso, Cristina quer zombar com minha cara, estou tão focado escrevendo meu novo livro que não tenho tempo nem para pensar em sexo, se quer fantasias eróticas.
– Estranho pensei ter guardado na última gaveta mais meias e cuecas – Fiz com que essa frase saísse com sarcasmo.
– Ok! Vou abrir o jogo! Estou mexendo em suas coisas, olhando para cada detalhe, para tentar descobrir alguma mudança.
– Mudança? Que mudança?
– Pensei que da forma como terminamos você teria, sei lá, surtado. Não imaginei que conseguiria continuar sua vida...
– Pensou o que? – Interrompi – Que depois de levar um toco eu iria encher a
cara até cair numa vala... E lá morrer? Ou pior! Talvez eu fugiria para uma ilha deserta e lá viveria aos prantos, lembrando em como nossa vida podia ser linda e feliz. O que esperou encontrar? Garrafas de cerveja espalhadas pela casa? Um cinzeiro abarrotado de bitucas de cigarro? Restos de comida sobre o sofá? A pia lotada de louça? Ou talvez deparar com as meias penduradas no lustre e as cuecas mergulhadas no aquário? Eu te amo muito Cristina, mas tenho sonhos maiores do que esse amor. Eu sofri, mas nunca pensei em definhar.
Será que peguei pesado? E por isso as lágrimas dela escorre em seu rosto pálido?
– Desculpe!
– Não me peça desculpas, você não está errado, sou eu que tenho feito coisas infantis e falado só “abobrinhas”.
Cristina secou a lágrimas.
– A verdade é que pela primeira vez eu estou me sentindo um lixo...
– Vindo de você é até difícil de acreditar.
– Mas estou! ... Sabe? Estava me sentindo presa no hospital, uma completa invalida. Por isso resolvi deixar meu notebook no hospital, pensei, já que eu passo o maior tempo da minha vida lá então...
Ela se interrompeu como se a lembrança lhe atordoasse. Então mudou de assunto.
– Quando achei você nas redes sociais eu fiquei muito feliz, pois eu vi naquele momento a oportunidade de começar consertar as coisas, me redimir. Juro que eu queria encontrar alguma coisa não resolvida em você para que eu pudesse entrar na sua vida de novo e ajudar... Assim me sentir util. Mas você nunca falava nada de você, só queria saber se eu estava me alimentando direito, se eu estava tomando todos os remédios direitinho, se eu não queria ir para um hospital mais preparado para tratar meu caso...
– Eu só estava preocupado com você...Era o mínimo que eu podia fazer já que eu não era um doador compatível.
– Parecia mais pena.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
– Tanto faz.
– Tanto faz não! Eu não sinto pena de você, nunca senti, pois eu sempre soube da sua capacidade de se superar, da sua determinação de lutar pelo que você quer, mas mesmo sabendo disso eu não queria deixar você enfrentar isso sozinha, não pelo que você fez por mim. Olha! Você disse que queria fazer alguma coisa por mim para se redimir, contudo eu lhe digo, você já fez, você me tirou de um cubículo escuro para viver uma das aventuras mais loucas da minha vida, você me mostrou o mundo e mundo me mostrou o que eu sou capaz de fazer; hoje eu posso dizer que eu conquistei quase tudo, quase tudo porque ainda falta muita coisa e uma das minhas metas agora é ajudar você a se curar.
– Mas estou cansada, são dois anos Alan, dois anos de agonia só adiando minha morte e nenhuma notícia concreta de cura, estou fadada de ficar indo para o hospital para ouvir as mesmas coisas, fazer as mesmas coisas; sou bicho solto, nasci para estar em todos os lugares, com todas as pessoas, fora desse isolamento que me corroem.
Cristina se calou e foi até a janela da cozinha escorando-se pelos móveis. Ela escancarou as janelas e fitou a praia.
– Vou aproveitar o que ainda...
– JÁ CHEGA! Não vamos estragar o jantar, ok? – Estava com o coração apertado só de imaginar o que ela estava pensando, espero que matando a fome a gente venha esquecer essa conversa chata.
Não tocamos mais no assunto, jantamos, assistimos alguns filmes e cochilamos juntos no sofá. Acordei três horas depois com as costas dolorida, mas mesmo assim apanhei Cristina no colo e a deixei no quarto, porque se ela amanhecer no sofá vai ter que se acostumar a viver na cadeira de rodas.
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