Eternizar: Um conto de Alan Mendes
3 Parte 3
Notas iniciais
A madrugada está gelada; a densa névoa que estava no pico da montanha pareceu descer até a praia, pois aqui mesmo da janela do quarto, em uma noite comum de céu estrelado é possível enxergar as brilhantes luzes do cais, mas agora o máximo que posso ver e o cercado do quintal e nada mais.
Fecho a janela, lá fora o outono se despede e aqui dentro procuro manter a Cristina aquecida – Finalmente vou estrear meus novos cobertores que ficaram um tempão guardados esperando o momento oportuno – Agora a Cristina estava protegida, sob minha vigília, tão perto que me permitiu beijar sua testa, mas ainda havia um inimigo invisível que assolava minha calmaria, o medo, medo de deixá-la dormir sabendo que não poderá mais despertar, entretanto, ver seu rosto sereno enquanto dorme é reconfortante, pois parece não a ver problemas nem enfermidades, somente paz.
Este dilema angustiante fritava meus miolos e eu não conseguia relaxar, por isso decidi me desgrudar um pouco da Cristina e aproveitar a insônia para escrever.
– Onde você vai? – Parecia a voz da Cristina sussurrando dentro da minha cabeça, mas não foi uma memória, ela estava mesmo me chamando. Por que será que ela despertou?
– Oi!
– Onde vai?
– Dormir! – Menti.
– Você vai congelar lá em baixo.
– Eu instalei aquecedores por todo chalé.
– Você o quê?
– Ano passado eu quase morri congelado, não conhecia o inverno daqui, sofri tanto com o frio que prometi nunca mais passar por isso. Gastei uma fortuna com aquecedores, hoje esta estação do ano não me incomoda mais.
– Mesmo assim.... Fique aqui comigo – Pediu ela.
– Está tendo pesadelos?
– Não! Só quero você aqui comigo.
Não estava em condições de dizer “não” à ela... Como se eu quisesse.
– Então chega pra lá!
Deitei-me ao lado dela e em um segundo ela se prendeu a mim como se o calor do meu corpo fosse o sol e sua vida fosse dependente disso. Não é a primeira vez que ficamos juntos assim, mas agora está sendo diferente de todas as outras vezes, porque pela primeira vez é a Cristina quem me pede para ficar ao seu lado.
Eram três da manhã e Cristina ainda estava abraçada a mim quando acordei, queria ficar um pouco mais com ela, mas era de costume passar a madrugada em claro escrevendo, eu tinha essa necessidade... Foi a forma que encontrei para inibir a ansiedade.
Era dia quando dei por mim, meus dedos já não aguentava mais digitar e meu organismo estava cansado de ingerir cafeína... Era hora de parar e começar o ritual matinal.
O sol brilhava intensamente por detrás das nuvens cinzentas, as vezes, quando nada barrava sua luz eu me colocava na frente para receber o calor – Tinha que aproveitar já que eu teria um longo trimestre de puro frio. Mais um.
Como de costume é isso que eu faço, vou para minha horta, mexo com a terra, colho alguns legumes e frutas, jogo alguns grãos e sementes no quintal para as pequenas aves que sempre migram para cá... E também faço trilhas – Talvez eu leve a Cristina para passear perto da cachoeira que ela leu no “guia básico de viagem”, assim ela sai um pouco.
Pensando nela, lembrei do seu temperamento feroz ao acordar de estômago vazio, ela de TPM é um doce perto disso. Quem sabe um forte e natural suco de laranja e uma deliciosa torta de maçã seja o suficiente para começar bem o dia.
Estranho, Cristina está demorando para levantar, a mesa está quase pronta, já são praticamente dez da manhã e nada dela aparecer. Será que ela está bem?
Fui para o quarto e a cama estava feita, depois no banheiro e nada dela estar lá. A cadeira de rodas estava ao lado da cama, mas onde estava Cristina? Olhei por toda parte e não a encontrei, comecei a chamar por ela – Será que ela foi dar uma volta por aí? Ela faria isso sem mim? Será que ela não percebeu que frágil desse jeito pode acabar caindo e se machucando feio? – Estou preocupado.
– Como é que você sai e deixa a omelete queimando? Quer botar fogo na casa? – Disse Cristina, enquanto revirava a omelete na frigideira.
– Onde estava? Procurei você por toda parte! – Perguntei já estressado.
– Se tivesse me procurado direito teria me encontrado – Havia sarcasmo na sua frase e uma vontade de sorrir que só vendo.
– Resposta errada mocinha! Você tem conhecimento de como eu fiquei aflito?
– Sem estresse Alan! – Ela me ignorou enquanto colocava a omelete no prato, depois voltou a me fitar – Não tem nem trinta anos e já apresenta marcas de velhice.
– Marcas? Que marcas? – Talvez ela esteja falando das minhas olheiras, mas isso não quer dizer nada. Eu acho.
– É fácil ver os fios brancos se destacarem entre todos esses pretos. Isso é de preocupação sábia?
– A culpa é sua? Se não fosse tão escorregadia...
– Escorregadia? Eu?
– Sim. E quer saber? Você não me disse onde estava! Vai me dizer?
– Simples. Eu estava no telhado do chalé, por quê?
– Pensei que não conseguia andar sozinha.
– Longos passeios eu não consigo, mas levantar da cama e ir ao banheiro...
– Você estava no telhado da casa Cristina!
– Para estar no telhado eu só precisei abrir a janela do quarto.
Depois ela não queria me preocupar, era um susto atrás do outro.
– Não vai fazer escândalo? Dizer que sou maluca ou algo do tipo? – Perguntou ela.
– Não! Eu quero evitar a fadiga, lembra? Não quero ganhar mais uns fiozinhos brancos.
– Então vamos comer, estou morrendo de fome.
Ela não me disse por que estava no telhado, mas isso não tem importância considerando que ela está bem.
– Faça isso, hoje vamos fazer trilha.
De repente Cristina parou de beliscar a omelete para me fitar.
– Você está falando sério?
– Não vai me dizer que já amarelou.
– É claro que não. Só pensei que...
– Ficaríamos dentro de casa o dia todo? – Completei.
– É.
– E eu aguento? De jeito nenhum.
– Eu vou pegar o guia na minha mala – Cristina levantou-se da mesa eufórica.
– Sente-se! – Ordenei – Não precisa de guia algum. Dois anos foram o suficiente para eu fazer um mapeamento da ilha, conheço tudo com a palma da minha mão.
Cristina me olhou desconfiada.
– Quem é você? E o que fez com o Alan?
– Eu sei, eu sei, esse negócio de aventura na mata não faz meu perfil, mas fazer o que se a paisagem aqui é convidativa.
– Estou impressionada!
– Não fique, logo você se acostuma.
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