Eternizar: Um conto de Alan Mendes
1 Parte 1
Notas iniciais
O outono já está acabando; o céu tem todos os tons de cinza que você pode imaginar; sinto a brisa gelada do atlântico; observo as últimas folhas secas das sebes flutuarem com os pequenos grãos de areia soprados da praia para o cais – É onde a balsa está atracada agora, é onde Cristina desce para me visitar – Eu nem acredito que ela está aqui.
Dois anos se passaram desde a última vez que a vi, ela não relatou em seus e-mails que já havia começado as quimioterapias e que estava tão fraca a ponto de precisar de uma cadeira de rodas – Sabia que ela era doida, mas suicida? Por que ela está arriscando sua saúde vindo aqui, nesse fim de mundo?
Nos abraçamos por um longo período, seu corpo estava frio e trêmulo. Não é a primeira vez que eu a tenho nos meus braços, mas é a primeira vez que eu a sinto tão desprotegida e tão dependente.
– Você está diferente, deixou a barba crescer? ... Gostei. Não tem mais aquela carinha de bebê... Nem cheira a leite. Dois anos nessa ilha fizeram bem pra você Alan.
Ignorei a brincadeira.
– Você ficou maluca Cristina? Como pode deixar o tratamento para vir aqui? Não sei se percebeu, mas está numa ilha, não tem hospitais aqui só um postinho de saúde, mas mesmo assim fica do outro lado costa.
– Eu sei! Comprei um guia numa banca antes de pegar a balsa, Você sabia que tem um cachoeira maravilhosa no interior dessa floresta?
– PARE COM ISSO! Não me ignore, você sabe que eu não gosto quando faz isso.
– Isso o que?
– Isso! Mudar de assunto como se o que eu estivesse falando não tivesse nenhuma importância.
– Mas não tem. Alan! Olha pra mim! Eu estou aqui, e ainda estou viva.
Ela disse ainda. Esse “ainda” era o que me preocupava. Quanto tempo ela ainda tinha de vida? Quanto tempo eu ainda vou ter com ela até seus olhos deixar de brilhar?
– Você acha que não tem mais chance, não é? – Perguntei. Só podia ser isso.
– Não quero falar sobre isso agora – O rosto dela ficou rígido, conheço essa expressão, é igual a todas que ela fizera para mim quando ficava irritada – Por quê não leva minha mala para o chalé, quero conhecer seu novo lar... Ou melhor, seu esconderijo. Você não se cansa de fugir do mundo?
Olhei para a pequena mala de mão e de repente tudo ficou claro pra mim. Ela realmente não tinha muito tempo, e só veio até aqui para se despedir, dar seu último adeus. Queria não pensar nisso, pois não sabia esconder meu medo de perdê-la para sempre.
– Não estou fugindo, só estou dando um tempo, contudo acho que não sou bom o bastante para me esconder já que todos me acham com facilidade.
– Não queria ser encontrado? Não queria que eu viesse? Quer que eu vá embora? A balsa ainda não partiu – Tagarelou Cristina.
– Eu não queria ser encontrado... Exceto por você, mas não, não queria que você viesse para no fim deixar de fazer seu tratamento. E sim, se dependesse da minha decisão você entraria naquela balsa e voltaria para a cidade hoje mesmo...
– Mas?
– Mas você é a criatura mais teimosa que eu já conheci e sei que nada que eu disser vai fazer a senhorita mudar de ideia.
– Exato! Portanto, assunto encerrado.
Ela sorria, isso era algo que eu mais gostava nela, mas hoje a imagem me tortura, pois é notório o medo em seus olhos. Juro que estou tentando relaxar, mas se tem uma coisa que a Cristina não conseguiu mudar em mim foi a minha ansiedade.
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