Eternity
1 Seasons of Love
Notas iniciais
— Filha – Ethan chamou, enquanto fazia ovos mexidos para o desjejum de sua família – , é bom você já estar pronta, senão vai chegar atrasada na escola!
— Quando é que eu chego atrasada, pai? – Sophia, agora com dez anos, disse ao se sentar no banco vermelho em frente ao balcão da cozinha para tomar café da manhã – Sabe que dou meu jeito.
— Espertinha – ele sorriu – O pior é que tem razão. Você sempre se vira.
Carol saiu do quarto com os cabelos penteados e seus óculos de leitura no rosto. Caminhou até a cozinha e, passando por Ethan, deteve-se para dar um beijo de bom dia em seu amado.
— Eca – reclamou Sophia, torcendo o nariz.
— Chata – Ethan replicou, mostrando a língua para ela e sorrindo de lado em seguida.
— Amor, não provoca – Carol riu enquanto servia café em sua caneca vermelha – Pode deixá-la na escola hoje? A biblioteca está uma loucura agora que é época de provas do ensino médio.
— Sem problemas – ele concordou, terminando de preparar a merenda da filha – Tenho um cliente lá perto, então não vai ser incômodo nenhum.
Nos seis anos que se passaram, Carol fora ganhando destaque em seu emprego na biblioteca que tanto amava. Após promoção atrás de promoção, a mulher acabou se tornando gerente do lugar, investindo no negócio, de forma que passara a ser dona de cinquenta por cento do estabelecimento, o qual agora dividia com Heather.
Carol tomou seu desjejum e terminou de se arrumar para o trabalho. Com a bolsa sobre o ombro e certa pressa nos pés, ela beijou a testa de Sophia e os lábios de Ethan, e saiu para o trabalho.
O jovem pediu à filha que fosse escovar os dentes enquanto ele lavava a louça do café. Quando acabou, percebeu que ele mesmo ainda precisava terminar de se vestir se não quisesse chegar atrasado ao serviço.
No quarto, pegou seus sapatos de couro no closet e sentou-se sobre a cama que dividia com Carol para calçá-los. Depois que o primeiro pé fora colocado, Ethan avistou, sobre a cabeceira ao lado da cama, os porta-retratos que continham fotos de sua família e permitiu que eles o distraíssem um instante.
O primeiro exibia uma fotografia da viagem que fizera com a namorada e a filha ao Arizona três anos antes. Na foto, todos sorriam, emoldurados pela extensa camada de areia vermelha ao fundo. Sophia tinha em mãos um crocodilo de pelúcia que insistira veementemente em adquirir. Ethan sorriu por causa das lembranças que o invadiam.
O outro retrato mostrava ele mesmo, com cada um de seus pais de um lado seu. O garoto trajava uma beca azul escura e dourada e segurava seu diploma com um sorriso orgulhoso no rosto. Aquela fotografia havia sido tirada no dia de sua formatura da universidade, dois anos antes. O jovem sentiu um calor em seu peito e uma vontade de rir à toa, ao se lembrar daquela época.
Já fazia mais de três anos, em tal data, que ele vivia com Carol. Ela estava, aliás, presente no evento, junto de Sophia. Os pais de Ethan ainda tinham, na época, muita dificuldade em aceitar a parceira do filho, por conta da idade, do casamento dela e até mesmo da filha.
Anos depois, porém, dado que o filho ainda vivia feliz ao lado dela, num relacionamento bem estruturado, os pais de Ethan aprenderam a considerar Carol parte da família. A mãe descobriu vários interesses em comum com a mulher, de forma que passaram a cultivar uma forte amizade, e o pai de Ethan se tornara um avô coruja para a pequena Sophia.
— Vamos, pai! – a menina o tirou de seus devaneios ao entrar no quarto com a mochila nas costas – Quem é que está atrasado agora? – ela não perderia a chance de provocá-lo.
Ethan calçou o outro sapato e se dirigiu em direção à porta de entrada do loft, abotoando os últimos botões de sua camisa azul, com a bolsa estilo carteiro pendurada desajeitadamente sobre seu ombro.
Depois de deixar a filha na escola, o jovem tomou o metrô novamente para chegar ao seu emprego.
Desde que se formara na faculdade, Ethan trabalhava como programador de sistemas. Seu serviço, a princípio, era feito em um grande prédio no centro comercial da cidade. Com os anos, no entanto, o escritório no qual ele trabalhava começou a fazê-lo sentir-se aprisionado, enjaulado, de forma que agora ele era um funcionário móvel: ia de lugar em lugar prestando os serviços necessários em diferentes estabelecimentos, em nome daquela mesma empresa. O cliente daquela manhã, por exemplo, era o dono de um auditório de palestras que precisava ter seu sistema de projeções reajustado.
O salário que Carol ganhava como gerente da biblioteca, além do retorno que seus investimentos nela lhe geravam, somado ao salário de Ethan na empresa, era suficiente para que o trio vivesse confortavelmente. Compraram a televisão que tanto queriam, pagavam as contas, reformaram o banheiro – o qual sempre precisava de algum conserto – e, mais importante: conseguiram dar a Sophia um quarto apropriado uns anos antes. O que sobrava era depositado no banco – estavam economizando para comprar um carro.
Ao fim de um longo e cansativo dia, Ethan chegou ao loft e deixou seu corpo cair sobre o sofá, o qual já não mais servia de cama para a filha. A parceira e a menina chegaram em seguida, fazendo com que o jovem se sentisse imediatamente revigorado. Ele abraçou a pequena, que se dirigiu para seu quarto a fim de fazer seu dever de casa, deixando os pais sozinhos na sala.
— Como foi seu dia, meu amor? – ele perguntou após beijar os lábios dela.
— Cansativo – ela suspirou, deixando a bolsa sobre a mesa de centro da sala — Mas valeu a pena.
Carol se dirigiu para o quarto, onde guardou seu blazer no armário, e o garoto a seguiu, admirando-a, com seu corpo encostado na porta.
— O que foi? – ela questionou, com carinho, ao ver o sorriso bobo estampado no rosto dele.
— Você é linda – Ethan respondeu, fazendo-a sorrir, e ela se aproximou dele, esticando o braço para acariciar a mão do parceiro.
Carol pôs as mãos sobre a nuca do namorado, correndo os dedos por seus cabelos desgrenhados, enquanto ele a puxava pela cintura para mais perto dele, eliminando qualquer espaço que pudesse haver entre seus corpos. A mulher aproximou seu rosto do dele, fazendo com que compartilhassem um longo e intenso beijo apaixonado.
— Papai! – os dois ouviram a voz da filha do outro lado da porta, enquanto ela a esmurrava com seu punho magro – Faz janta para a gente, estou faminta.
O casal riu. Claro que não podiam ter um momento sozinhos livre de interrupções. Ethan beijou a mulher uma última vez antes de separar aquela junção de corpos tão confortável.
— Claro, filha – ele disse, abrindo a porta – O que você gostaria de comer?
Os três foram para a cozinha e começaram a preparar os alimentos para a refeição. Carol se sentou no banco alto em frente ao balcão e ficou assistindo ao seu parceiro cozinhar.
Ethan tirou um frango do congelador e Sophia começou a fatiar cenouras, como aprendera com o pai. Sophia, quando terminou seus afazeres, sentou-se em um banco ao lado da mãe e ligou a mini televisão que eles mantinham na ponta do balcão. Na tela, o âncora do principal jornal da região anunciava, com uma expressão séria no rosto:
— A doença continua se desenvolvendo aceleradamente, e ainda não possui cura. Médicos e estudiosos de todo o mundo tentam compreender o comportamento irracional e violento que os infectados passam a apresentar uma vez que contraem a doença. Não se sabe ainda o que a causa, mas ela é extremamente contagiosa e... – a menina cortou a fala do homem ao mudar de canal para o Disney Channel.
Carol acariciou os curtos cabelos da filha, admirando o quanto esta havia crescido ao longo de todos aqueles anos. Parecia tão recente a lembrança daquela menininha que tinha medo do Lobo Mau.
Ela viu em Ethan o homem responsável que ele se tornara. Já não era mais aquele menino calado e meio tímido que conhecera, mesmo que os anos não houvessem roubado um pingo sequer de seu charme e encanto. Ele era o melhor parceiro que ela podia ter, e o melhor pai que sua filha irreverente podia merecer.
E foi dessa forma que a família vivera durante todos aqueles anos que se passaram desde que Ethan entrara na biblioteca na qual o amor de sua vida trabalhava, numa tarde fria de outono. Juntos, felizes e sabendo que nada ruim jamais lhes aconteceria enquanto tivessem uns aos outros.
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