Eternity

2 It's the End of the World (As We Know It)


Notas iniciais
Cá estamos com mais um capítulo. Espero que goste! ^_^

— E os casos dessa doença misteriosa são cada vez mais comuns ao redor dos Estados Unidos. A ameaça que antes apresentava zero casos na América do Norte infelizmente chegou a nós. O governo tem aconselhado a população a não entrar em pânico e, se chegar a entrar em contato com um desses doentes, facilmente reconhecíveis, afastar-se o mais rápido o possível e procurar por proteção. Também é possível que algumas regiões precisem ser fechadas em quarentena, por questões de segurança.

Ethan respirava pesado em frente à televisão, ouvindo atenciosamente cada palavra da transmissão. Sua mandíbula, enrijecida, chegava a doer por conta da pressão causada pelo nervosismo do jovem.

Todos os dias, desde que os casos daquela assustadora doença começaram a se tornar mais frequentes, Ethan se sentava no sofá e encarava a tela do aparelho, sempre atento ao desenrolar daquele caos. Vez ou outra, algumas emissoras conseguiam imagens dos infectados, e nada no mundo o assustava mais do que aqueles corpos em decomposição perseguindo suas vítimas.

Era dia de fazer as compras do mês, então o casal deixou sua filha em casa e se encaminhou ao metrô que os levaria até o mercado.

— Amor, eu acho que a gente devia estar mais preocupado com aquela doença dos jornais – Ethan começou a falar do assunto novamente, puxando um dos carrinhos para fora da fila que eles formavam na entrada do Walmart.

— Preocupar? Que nada, amor, daqui a pouco já acham uma cura para aquilo.

Ethan engoliu em seco. Sempre que ele mencionava o assunto, a resposta da parceira era a mesma: ela não estava preocupada. Talvez ele devesse de fato dar ouvidos a ela e relaxar, mas algo dentro de sua cabeça não o permitia fazer aquilo. Uma sensação de urgência e terror crescia dentro de si todas as manhãs quando acordava.

O carrinho, já cheio pela metade, era empurrado por Ethan, que seguia Carol, quem ia na frente com a lista de compras, escolhendo os produtos e certificando-se de que não se esqueceriam de nada.

Ethan olhava em volta, alerta, enquanto Carol examinava uma lata de sopa de tomate. Ele encarava uma a uma as pessoas a sua volta, não querendo ser pego de surpresa se alguma delas por acaso estivesse infectada. Ao longe, Ethan avistou a seção de armas de fogo. Ele nunca havia sequer pensado em possuir uma mas, sob aquelas circunstâncias, era algo a ser considerado.

Após inúmeros corredores percorridos, o casal acabou se aproximando da seção de armamento, o que levou Ethan a desviar do rumo em que iam para examinar uma pistola preta. Os olhos de Carol se arregalaram e ela caminhou para junto dele.

— Mas o que é que você está fazendo, Ethan? – ela perguntou, com a mão sobre o ombro dele.

— O que você acha dessa daqui? Está com um preço bom e...

— Você não pode estar falando sério – ela bufou, desviando o olhar, com as mãos na cintura.

— Carol, você não viu o noticiário? Todos os dias os casos de pessoas infectadas é mais frequente! “Comportamento violento”, “perseguem suas vítimas”, "canibalismo"! Estamos em perigo, meu amor, precisamos nos proteger!

— Você está paranoico! – ela retrucou – É só uma doença, uma ameaça momentânea, logo eles vão decifrar isso e fim de papo!

— Mas, Carol...

— Você não vai levar uma arma para perto da minha filha— ela o interrompeu, e aquelas palavras fizeram com que ele se calasse e engolisse em seco.

Ethan respirou fundo e tentou aquietar seu coração, que agora parecia pesar mil toneladas. Ele encarou o chão um instante, guardando a arma de volta na prateleira em seguida.

— Tudo bem – ele cedeu – Mas vamos comprar algumas provisões extras, só por precaução. Certo?

— Tudo bem – ela respondeu, agora mais calma – Me desculpe.

— Está tudo certo – ele forçou um mínimo sorriso de lado, e ela o abraçou – Me deixa comprar um taco de basebol também?

A mulher lhe lançou um olhar severo quando o soltou, mas acabou permitindo. Sabia o quão assustado e nervoso seu parceiro estava e, se aquilo o fizesse sentir mais seguro, sem representar perigo aos três, não havia razão em negá-lo.

Com muita comida enlatada, um taco de basebol de metal e o resto dos suprimentos da lista de compras, o casal deixou o mercado e foi para casa.

— Eu amo você, Carol – Ethan disse no metrô, no caminho de volta.

— Eu também te amo, Ethan – ela disse, e o beijou – Vamos ficar bem, ok? Não se preocupe.

— / — / -

Eu avisei, eu avisei, eu avisei, eu avisei, eu avisei...”, era tudo o que o rapaz conseguia pensar, enquanto trancava a porta do loft. “Eu avisei, eu avisei...

O governo passara as últimas semanas instruindo a população a ficar dentro de casa, em segurança, com comida estocada e não abrir as portas sob nenhuma circunstância. Eles estavam planejando, junto às forças armadas nacionais, uma maneira de controlar a agora epidêmica doença ainda sem causa ou cura conhecidas. “Eu avisei, eu avisei, eu avisei...”, Ethan pensava, enquanto arrumava as latas de provisões sobre a bancada da cozinha.

O comportamento do jovem vinha assustando tanto a filha quanto a parceira, que em parte se sentia, de certa forma, culpada pela situação na qual se encontravam, por não ter dado a ela a importância que merecia previamente. Ethan se movia de um lado ao outro entre as quatro paredes do apartamento, organizando e contabilizando os mantimentos de que o trio disporia pelos próximos tempos. Ele sempre tivera essa mania, na verdade. Quando ficava nervoso demais, começava a organizar e reorganizar o que quer que houvesse a sua volta: material de escritório, rolos de papel higiênico, revistas, livros, tudo.

Ele procurava recipientes pela casa para estocar água, alegando que se a situação do país piorasse numa escala muito maior, logo a distribuição de água e energia seria cessada. Caixas, tigelas e garrafas foram enchidas com o líquido. O material de higiene – papel higiênico, pasta de dentes, fio dental – se encontrava em quantidade limitada, dependendo do tempo em que tivessem que viver confinados ali. Sobre o balcão da cozinha, estavam empilhadas as latas de comida, por ordem de vencimento e, segundo Ethan, elas deveriam ser consumidas por último, por que eles deveriam dar preferência aos alimentos perecíveis, os quais se encontravam enfileirados sobre a outra bancada, também organizados por ordem de vencimento, consumindo-os antes que estragassem.

No quarto principal, as roupas extras que os três possuíam – casacos, meias, camisetas, calças, gorros – estavam dobradas, dispostas em três malas: uma grande, de viagem, contendo as roupas de Carol e algumas da filha, a mochila de escola de Sophia, com as roupas da mesma, e uma mochila de escoteiro que Ethan possuía de longa data, com as coisas dele, para o caso de precisarem fazer uma saída emergencial. Outras vestimentas haviam ficado para fora das malas: estas seriam usadas diariamente e lavadas periodicamente enquanto eles precisassem ficar de quarentena.

Inquieto por não haver mais nada que organizar, Ethan começou a reposicionar estrategicamente os móveis da casa. A escrivaninha sobre a qual Sophia fazia suas tarefas fora arrastada para a frente da porta do loft, uma vez que o garoto não tinha ideia da dimensão da força dos infectados – conseguiriam eles derrubar a porta se quisessem? Por sorte, ainda era possível observar o corredor e os lances de escada pelo olho mágico da porta de madeira. A cama de Sophia fora levada para o quarto de Carol e Ethan, pois ele não queria que ela dormisse longe deles, para o caso de um acidente ocorrer durante a noite. Os criados-mudos eram posicionados também na porta do quarto, pela mesma razão. O quarto de Sophia fora transformado num ponto de observação, pois possuía a única janela do apartamento da qual se podia ver a rua. O taco de basebol não saía de perto do menino um instante sequer.

Eu avisei, eu avisei, eu avisei, eu avisei...” era um mantra tóxico que estava impregnado na mente dele. Suas extremidades tremiam constantemente, e ele ocasionalmente tinha espasmos nervosos. Ethan não conseguia parar de andar em círculos, exceto quando encarava a rua pela janela do quarto de Sophia.

Carol ousou se aproximar do parceiro, ainda que lentamente. Ela tocou as costas dele delicadamente, virando o rosto dele para ela carinhosamente com a outra mão. Ela possuía uma expressão extremamente bondosa e materna no rosto, tentando transmitir calma para ele da mesma forma que costumava fazer quando Sophia entrava em pânico por causa do pai quando era criança.

A mulher o virou de frente para ela e o abraçou ternamente, fazendo aquele toque durar por quanto tempo fosse necessário para Ethan, cuja respiração finalmente se acalmava e voltava a um passo regular. Ela o pegou pela mão e o levou para o sofá, onde Sophia se encontrava, toda encolhida.

— Fique aqui – ela sussurrou, carinhosamente – Deixe a gente tomar conta de você um pouco, meu amor, pode ser? Você já fez tudo o que podíamos fazer por enquanto – ele a olhou um instante, mudo – Descanse um pouco, por favor.

Carol se dirigiu à cozinha a fim de fazer um chá para o parceiro, que não comera nada a tarde inteira. Ethan a observara fixamente, enquanto um novo pensamento se iniciava em sua mente. “O que será de mim se eu a perder?”. Carol se tornara a parte mais importante de sua existência, junto da filha. Não podia deixar que nada acontecesse a ela, nunca. Ele lutou contra o impulso de ligar a televisão no noticiário, mas fraquejou um instante, e logo a voz do âncora do jornal preenchia a sala novamente.

— Esta mensagem é destinada aos habitantes de locais muito populosos, como moradores de grandes cidades ou pessoas presas em áreas demasiado movimentadas. As instruções para esses telespectadores é que, quando possível, desloquem-se para centros de refugiados nas áreas periféricas mais despovoadas. O governo enviará tropas e veículos de resgate assim que possível, por isso mantenham-se em casa por quanto tempo conseguirem. Esperamos que todos tenham suprimentos o suficiente para se manterem em casa até o fim da epidemia. Segue agora a lista de localidades dos campos de refugiados.

Os olhos de Ethan se arregalaram. Havia uma chance. Os veículos de resgate os salvariam, tudo ficaria bem. Ele estava demasiado fraco para apresentar qualquer reação, mas aquilo acalmou seu coração um instante.

Carol trouxe chá para os três, sentando-se no sofá ao lado dos dois. Ali passaram os próximos minutos, abraçados, enquanto Ethan anotava os endereços dos campos de refugiados em garranchos tremidos, por conta da inquietude de suas mãos. Quando a transmissão foi encerrada, o trio se dirigiu para o quarto a fim de descansar.

Contra a sua vontade, porém, Ethan passou a noite em claro, encarando a parede.

O que será de mim se eu a perder? O que será de mim se eu a perder? O que será de mim se eu a perder?

Notas finais
O que achou? Deixe seu comentário! ^_^ O último capítulo será postado amanhã!