Eternidade — Um Conto da Terra-Média

5 Capítulo 4 — Murmúrios de Terras Malditas


Notas iniciais
Ainda é quinta-feira! Seguimos aqui com o capítulo da semana. Espero que gostem!

— Não deixe que as preocupações perturbem o teu sono, rapaz. Huan servirá de vigia.

Sob as palavras de Alatar, Hador se permitiu descansar. A promessa de que o estranho cão de olhos azulados os guardaria lhe pareceu convincente: o animal era capaz de derrubar com facilidade um homem, e certamente seus latidos despertariam a dupla em caso de perigo. Sem mais dizer, puxou de seus pertences um diminuto embrulho de folhas de mallorn, e dele revelou o lembas que recebera dos elfos. Uma refeição simples, mas que, junto dum sono desatento, permitiria que se recuperasse. E então, com o crepúsculo, poderia decidir seus novos rumos.

— Tem fome, senhor?

O velho meneia a cabeça, calado. Seus olhos já estão fechados, embora permaneça sentado, o cajado repousando entre as mãos. Poderia dormir de forma tão peculiar? Hador decide não se questionar a respeito, e se deita assim que encerra a primeira — e última — refeição de um longo dia.

Agora com olhos entreabertos, Alatar o observa. Era a primeira vez em muitos anos que se deparava com um homem que não lhe fosse hostil ou apático. Seria assim a vida dos outros três?

***

Hador se encontrou com sonhos inquietos. Estava quase acostumado a tê-los: aquelas terras malditas possuíam certa capacidade de perturbar a mente de alguns homens.

O dúnedain encontrou-se diante de enormes muralhas e edificações que, a seus olhos, jamais seriam confundidas: Minas Tirith, lugar que habitava seu imaginário desde a primeira vez em que ouviu sua mãe cantando histórias de fadas. A glória do coração de Gondor, entretanto, estava maculada: a escuridão pairava nos céus, suas nuvens lançando a penumbra sobre cada esquina — os palácios, incendiados, contemplavam a coroação das tropas de Angmar, seguidas por haradrim e pelos homens do Leste: seu povo, em contrapartida, perecia a seus pés, derrotado em uma guerra desigual, superado pelos infindáveis números que marchavam sobre os Campos de Pelennor.

E, diante de seus olhos, contemplou a face do velho Mago Azul, seus olhos escuros, a sombra de seu caráter evidente em seu rosto. Alatar caminhava em sua direção às gargalhadas, o cajado se tornando serpente, a escolta de orcs dizimando os escassos resistentes que tentavam se aproximar.

— Sorria! Sorria, Hador. O dia profetizado veio, e veio graças à tua tolice, à tua ingenuidade. — Sua voz era grave ecoava sobre os muros. — Os anos passaram devagar enquanto tramei a queda dos teus estandartes; em meu exílio, entretanto, mesmo em meus melhores dias, jamais pude sonhar que o próprio Herdeiro de Isildur me enviaria um cúmplice.

O rapaz levou a mão à bainha, puxando sua lâmina — apenas para contemplá-la enferrujada e partida. As serpentes já subiam por seus tornozelos, estrangulando suas pernas.

— Gandalf o alertou sobre mim, mas tua arrogância o convenceu a desprezar o conselho dos anciãos, a confiar nas traiçoeiras palavras daquele que sabia mais sábio. E agora o teu reino arde, e teu senhor jamais empunhará o Cetro de Annúminas.

Com a força deixando seu corpo, Hador cai de joelhos. Basta um gesto das mãos escuras e malignas de Alatar para que suas cicatrizes se abram e sua visão fique turva.

***

Alatar — o verdadeiro, e não o simulacro corrompido cuja presença perturbava Hador em seus sonhos — se atinava ao sono inquieto do dúnedain. Compadecido, se levantou e foi até ele, estendendo sua mão direita — que, de fato, era escura e cheia de feridas — e tocando sua testa. Seus lábios se abriram e sua voz murmurou palavras em uma língua antiga.

Hador despertou levando a mão ao cinto, mas a espada não estava lá. Olhos arregalados, encara Alatar com desconfiança.

— Minha lâmina. — A afirmação tem certo tom de pergunta.

— Acredito que a tenha deixado perto daquela pedra, meu rapaz. Ao lado da capa.

Desconfiado, o rapaz se levanta. Sua memória o estaria traindo?

— Pensei que…

— Ignore os seus pensamentos. Estamos em terras que murmuram mentiras aos homens incautos. A essa altura, estou certo de que já se atentou às árvores que mudam de lugar, aos rios que parecem reverter seu fluxo e às estrelas que brilham de forma diferente a cada noite. Acredite no que os teus falsos pensamentos te dizem e esquecerá até mesmo o próprio nome.

Ouvida a lição, Hador se lembra de sua jornada recente. O comportamento singular dos astros era de fato relatado pelos demais membros de seu povo, mas as mentiras da terra lhe pareciam novidade. Era difícil confiar no Mago após aqueles sonhos, mas seus instintos aguçados eram incapazes de perceber hostilidade no sujeito. Talvez o alerta de Gandalf fosse apenas um alerta; talvez o sábio ainda fosse fiel a sua missão. Entretanto, seu pai o havia ensinado a discernir o caráter dos homens pelos aspectos de sua aparência: ainda que Alatar o lembrasse do Mago Cinzento, sua mão direita, escura e ferida, parecia avisá-lo de que aquele sujeito ainda guardava muitos segredos.

— Jamais ouvi sobre tais encantos no Oeste; tampouco enfrentei males similares mesmo quando vaguei pelas terras do inimigo. Poderia me revelar o que há de errado com este lugar?

O Mago acende seu cachimbo mais uma vez. Hador jamais conhecera sequer um hobbit que fumasse com tamanha frequência. De onde tirava tanta erva de fumo?

— O Senhor do Escuro não consumiria seu poder com esse tipo de artifício tolo. A maldição dessas terras vermelhas foi lançada por aqueles que aqui derramaram seu sangue muito tempo atrás; ainda hoje, suas almas aflitas clamam por revanche. É por seu desejo sangrento que os murmúrios da terra penetram a mente dos homens, capturando seus sonhos e manipulando seus instintos até que se dobrem a suas vontades. Sugiro que fortaleça seu espírito, cavaleiro do Oeste, ou então abandone estas terras e retorne ao teu senhor. Em qualquer uma das duas hipóteses, devo alertá-lo de que jamais vi um homem adulto desenvolver o dom de ver profecias em seu sono.

De fato, Hador já ouvira os rumores de que palavras malignas ditas sob as condições certas eram capazes de envenenar a mente dos homens. Mas seriam mesmo os murmúrios da terra? Ou seriam os dizeres do próprio Alatar, que ainda enunciava palavras em uma língua estranha quando acordou? Seja como for, para que pudesse sequer considerar retornar, era necessário, antes, ter certeza dos rumos da missão dos Magos Azuis.

— Não sou profeta, senhor. Sei que devo aprender a vencer as maldições da terra para que possa cumprir com meu dever. Mas não sei se posso dizer o mesmo de vocês Magos. Embora tenha conhecido Gandalf e meu senhor tenha me revelado certas coisas a seu respeito, não estou certo do que são, do que podem fazer ou mesmo de quais estandartes guiam o teu caminho.

Observando as estrelas, Alatar demora a responder.

— E o que o teu senhor te disse, cavaleiro?

Hador estremece, mas decide dizer a verdade. Havia percebido que, se tentasse jogar com as palavras, seria derrotado por seu interlocutor, que certamente perceberia suas verdadeiras intenções antes que a recíproca acontecesse.

— Disse que, nas histórias de seus antecessores, encontrou relatos sobre o Mago Cinzento e sua peregrinação. Que portanto estão vivos há muito tempo, e que talvez não sejam homens, nem mesmo dúnedain como nós; e que certamente não são elfos ou anões. Que suas capacidades e sabedorias escondem muito mais do que os fogos de artifício que Gandalf mostra aos hobbits. Que talvez sejam mais poderosos do que imaginamos.

Sim, nobre leitor: mesmo nesses dias, nosso Aragorn já nutria suspeitas sobre a verdadeira natureza dos Istari; entretanto, não as compartilhou todas com Hador, embora não houvessem problemas de confiança entre o Herdeiro de Isildur e um de seus principais subordinados. Certos segredos são feitos para que não sejam revelados mesmo àqueles em que mais confiamos; ainda assim, seria pouco razoável enviá-lo às sombrias terras do Leste sem que tivesse qualquer conhecimento sobre os males que poderia enfrentar.

— Sabe o suficiente — diz Alatar. — Se ainda possui questões sobre minha lealdade, imagino que meras palavras não serão capazes de convencê-lo; mas peço que olhe em meus olhos, e que me diga se vê algo além de um velho cansado. Tivesse eu sucumbido às forças das trevas, não estaria aqui conversando contigo: poderia arrancar os teus segredos tão rápido quanto um dragão seria capaz de reduzi-lo a cinzas, e então tornaria a gozar de meus poderes ou a tramar meus planos obscuros. Não és profeta, rapaz, e tampouco eu o sou; mas garanto que, se tivesse me dobrado ao Senhor do Escuro ou tivesse minhas próprias ambições malignas, a tua determinação não seria páreo para o que sou capaz de fazer.

As palavras eram duras, mas verdadeiras. Restava uma hipótese de pé, mas testá-la seria tolice.

— Está bem, senhor. Confio em você. Mas que eu escute suas palavras não me isenta de cumprir meu dever: disse que estava quase no fim, mas não me revelou o que fará a seguir. Não estou aqui apenas para me assegurar de seu caráter, mas também para garantir que cumprirá sua missão. É para isso que ofereço minha espada.

Ao dizer isso, o herói realizava um voto de confiança consciente. Estava certo de que uma tentativa de ludibriar o Mago em jogos de palavras e investigações o conduziria ao fracasso em ambas as suas missões. Aquilo era seu salto de fé: uma esperança de que, ao se lançar de forma imprudente nos planos de seu interlocutor, poderia de alguma forma desvendá-los.

Alatar, em contrapartida, encarava o outro com alguma descrença. Há muito tempo não contemplava tamanha boa-vontade; há anos não contava com lâmina alguma além da própria. Os dedos da mão direita, escuros, tremeram; suas pupilas se dilataram, a boca se entreabrindo enquanto o cenho franzia. Ainda assim, de alguma maneira, conservou em sua face o ar de sabedoria típico dos Magos.

De súbito, sobressaltou-se e meneou a cabeça. Deu-lhe as costas.

— Esqueça essas tolices. Nenhum bem lhe aguarda nestas terras. Retorne antes que se arrependa de não ouvir minhas palavras.

— Estou disposto a encontrar a morte aqui se for este o meu destino. No Oeste ainda ouvimos a lenda da Companhia de Thorin, cujos feitos jamais seriam possíveis sem Gandalf; mas, se Magos solitários matassem dragões facilmente, imagino que o próprio propósito da Companhia seria desfeito.

— E serás tu a minha Companhia? És apenas um dúnedain desacompanhado e longe de casa, que conhece estas terras tão bem quanto um hobbit sabe de forjar espadas. Que bem posso tomar de você, Hador e a Companhia de Um Homem Só?

Os olhares dos dois se cruzam. Há certa hostilidade de vontades aqui, mas Hador sabe contornar este empecilho com seu bom humor — afinal, falhar não é uma opção. Logo abre um sorriso:

— Se contei bem, senhor Mago, somos três: eu, você e o cão.

Notas finais
Bem, é isso. Espero que tenham gostado do capítulo de hoje, que prossegue no esforço de posicionar as peças de nosso primeiro ato. Até a semana que vem!