Eternidade — Um Conto da Terra-Média
6 Capítulo 5 — Um tesouro menor, um dragão menor
Notas iniciais
Alatar ia à frente. Hador era o segundo, e o cão completava a fila. Seus passos os levavam montanha acima: eram como formigas retornando ao topo de um imenso formigueiro. O dúnedain observava com espanto o fato de que o Mago conseguia liderá-los com facilidade, apesar do peso dos anos sobre suas costas: seguia com braveza, apoiado ao cajado e opondo o azul de seu manto ao vermelho das rochas. Ganhou logo metros e metros de vantagem com relação a seus seguidores.
Seguiram por centenas e centenas de jardas, até que uma espécie de gruta se revelou aos seus olhos. Estavam já na altura das nuvens, mas a neblina era indiferente aos olhos do Mago: viu a rachadura imediatamente e lá se meteu, logo se encontrando dentro duma cavidade de cerca de três metros de altura e cinco de diâmetro.
Não tardou para que os outros dois o alcançassem. O jovem logo repousou seus olhos sobre o fundo da gruta, encontrando apenas a rocha seca.
— Que lugar é este, senhor Alatar?
O Mago deu alguns passos à frente, estendendo a mão escurecida. Seus dedos limpam a poeira que encobre certas runas discretas.
— A entrada de um reino antigo que já não existe.
— Reino? — pergunta, olhando em volta com confusão. — E como chegamos lá?
— Sob o ímpeto do relâmpago revelarei as entranhas do carneiro — enuncia, suspirando. — A paciência dos anões para entalhar charadas em cada uma de suas malditas portas jamais deixará de me surpreender.
Hador leva a mão ao queixo e se vira, olhando para o horizonte. Seu olhar se perde conforme certas dúvidas recaem sobre sua mente.
— Devemos aguardar a tormenta para que o caminho se revele? Não me lembro de ter visto sequer uma gota de chuva desde que atravessei as terras de Mordor.
O Mago assente. Seus olhos glaucos estudam os dizeres da rocha com cuidado.
— É um enigma de tempos mais gentis, quando estas terras não eram tão áridas — diz, dando passos para trás e levando as duas mãos ao cajado. — Para trás. Não temos tempo para isso.
O dúnedain estranha, mas recua. Não demora para que estranhas correntes de vento comecem a tomar a pequena gruta, rodopiando como redemoinhos. Então, em um piscar de olhos, há um imenso clarão vindo do lado de fora, que lança luz sobre toda a gruta e revela, na parede, quatro estranhos pontos em baixo relevo.
Talvez o leitor estranhe — como Hador estranhou — a súbita demonstração de poder de nosso Mago, mas explico que, adiante, compreenderás que embora seja um istar, Alatar já é, aqui, muito distinto dos teus conhecidos Gandalf e Saruman.
— O que foi isso?
— Isso, rapaz, é um Mago trabalhando — afirma, avançando novamente e tocando as fendas na rocha com seu cajado. — Imagino que o teu Gandalf não tenha mostrado nada mais divertido do que anéis de fumaça e fogos de artifício, se as histórias que ouvi forem verdadeiras. Eu, por minha vez, não tenho tanto a perder quanto ele.
Diante de uma resposta um tanto enigmática, Hador suspirou. Se os Anões colocam charadas em cada maldita porta que escavam da rocha, que dizer dos Magos, incapazes de responder simples indagações com algo além de insinuações e mistérios?
Mas deixemos as preocupações de nosso jovem de lado por um momento, assim como ele as deixou: afinal, diante de seus olhos, as pedras se moviam de forma vagarosa e barulhenta, tomando para si todas as atenções. Logo, uma espécie de túnel se revelava diante da dupla. Embora fosse estreito e escuro, os dois lá mergulharam de imediato. Desceram as escadas em silêncio, usando a luz azulada do cajado para enxergar o caminho.
— Então… este é o salão dos Punhos-de-aço?
— Pés-de-pedra — corrige o Mago. — Mas eles já não habitam o lugar há muitos séculos. Os que não pereceram foram expulsos.
A dupla se encontra em um imenso e escuro salão de pedra. Suas vozes e passos ecoam. Calafrios percorrem suas espinhas conforme Alatar utiliza sua magia para acender as tochas no caminho.
— Expulsos? O que quer dizer? Que tipo de criatura poderia…?
— Ora essa, meu rapaz! Não aprendeu nada no Oeste? — pergunta Alatar, parando de andar por um momento. — Que tipo de criatura costuma expulsar anões de suas montanhas e tomar para si seus tesouros?
Hador suspira, olhando em volta. Percebe os esqueletos daqueles pequenos hominídeos encostados nas paredes, ainda vestindo suas armaduras.
— O tipo que cospe fogo.
***
Muitos metros abaixo, na profunda gruta que outrora resguardou o tesouro daqueles vetustos anões, repousava a tal criatura anciã. Suas escamas esverdeadas subiam e desciam conforme respirava; seus olhos fulvos acendiam como duas esquisitas estrelas. Tinha cerca de vinte metros — pequeno para um dragão, é claro, ainda mais se comparado aos ancestrais de outrora, mas ainda grande o suficiente para atemorizar mesmo o mais bravo dos homens. Seu peito se acendia em tons de laranja conforme se movia, o fogo escapando entre as fendas de sua armadura. Suas garras escorregavam entre as montanhas de moedas douradas que cobriam o chão; suas asas pareciam incapazes de erguer nos ares aquela montanha de músculos e gordura.
Calendel era, afinal de contas, um dragão velho, pequeno e estranho. Para começar, era verde esmeralda, tinha apenas duas patas e parecia ter crescido demais para seu novo lar. Ainda que não estivesse apegado ao tesouro que conquistara, seria incapaz de deixar a velha montanha por motivos simples: já não era capaz de passar pelos túneis que utilizou para entrar. Já não era capaz sequer de voar direito, há muito não cuspia fogo e sua comida se resumia aos infindáveis aventureiros que se atreviam a ir atrás do tesouro dos Pés-de-pedra. Engordava, na verdade, apenas por sua notável preguiça: incapaz de voar, já sequer andava muito pelo parco espaço que encontrava naqueles salões, e seus dias eram restritos a dormir e a caçar os imbecis que o desafiavam.
Apesar de suas limitações físicas, Calendel não era tolo. Restrito sob as paredes escuras daquela pequena sala, o dragão se viu forçado a desenvolver um faro mais aguçado, uma visão mais precisa e uma audição incomparável. Já havia, portanto, se atentado à presença de Alatar e Hador, cujos odores e dizeres atravessaram os corredores da montanha com o vento.
— Um velho e um rapaz… — murmurou, sua voz rouca ecoando pela sala. Sua língua bifurcada passou pelos dentes, seus olhos brilharam. O estômago roncava. — Um… Mago?
Passou a exibir um perturbador sorriso ofídio. Se virou com velocidade assombrosa e se meteu outra vez sobre a montanha de ouro. Seus movimentos eram estranhos, ora lentos, ora velozes, mas sempre traiçoeiros. Seus olhos se fecharam em uma encenação: fingia então hibernar, esperando assim abaixar a guarda de suas presas. Porque Calendel, como já disse, não era um dragão como os outros: era astuto e pérfido, mais serpente que leão; seus métodos não eram o enfrentamento e a caça, mas as armadilhas e as enganações.
Afinal, apesar do fogo que havia em suas entranhas, apesar do orgulho do sangue que corria em suas veias… ele tinha fome.
***
— Dissestes que é um dragão menor do que o tal Smaug, mas o que quer dizer exatamente? Pequeno que seja, se conseguiu expulsar os Pés-de-pedra de seus salões, não deve ser uma força desprezível. Está certo de que podemos lidar com o problema sozinhos?
— Meu plano era derrubá-lo por conta própria, rapaz, mas teu auxílio não deve dificultar a tarefa.
Hador se permitiu um sorriso.
— Para alguém que se diz tão cansado, sua energia e seu bom humor são invejáveis, senhor Mago.
As palavras atingiram Alatar com certa força. Por um momento, ele se deteve, encarando as paredes e permitindo que sua memória retornasse aos conselhos do espírito fugaz do velho Pallando. Ao ver o olhar intrigado de seu novo companheiro, porém, meteu a mão nos bolsos das vestes e puxou um velho pergaminho amarelado, usando a mão boa para estendê-lo sobre o chão.
— Bem, tua intervenção não é tão tola. Os dragões são, de fato, criaturas hostis e poderosas. Aqueles que conheci nos dias de outrora eram também um tanto esfomeados, motivo pelo qual recomendo que não se distraia enquanto estivermos lidando com Calendel.
— Calendel? Terror verde?
— Acredito que o epíteto adotado pelos Anões foi, na verdade, “Terror Esmeralda”. Mas é bom saber que possuis certas noções da língua dos elfos — corrige. — Seja como for, um de meus velhos companheiros Pé-de-pedra demonstrou notável gentileza ao esboçar este mapa do tesouro. Acredito que, em posse dele, não precisaremos nos preocupar demais com nosso amigo de bafo cálido. Meu plano consiste em meramente distraí-lo o quanto for necessário para que consiga me apoderar do anel. Imagino que a tarefa de procurar o objeto possa recair sobre os teus ombros.
Hador observa o mapa com certo desgosto. Embora as habilidades manuais dos anões fossem famosas pelo trabalho nas forjas, seus talentos cartográficos não pareciam gozar da mesma desenvoltura. Puxando o pedaço de papel para si, aponta para certos traços mais pesados.
— Imagino que estejamos aqui, certo? — pergunta, observando o Mago confirmar com a cabeça. — E seguiremos por este corredor até adentrar a última sala, certamente grande o bastante para abrigar um dragão adulto. Se o tesouro for tão farto quanto aqueles que pertencem a essas criaturas costumam ser, como encontrarei um pequeno anel neste lugar?
— Meu informante não nos brindou apenas com elevadas habilidades artísticas, rapaz — disse Alatar, apontando com seu dedo escurecido para a representação da parede oposta à entrada. — O velho rei deste povo, Barin, não era um tolo. Ele soube dos rumores sobre os anéis dos outros senhores e tentou evitar o mesmo destino. Embora seus esforços não tenham salvado sua vida, soube que, em suas últimas forças, pôde ao menos esconder o precioso anel que herdara de seus antepassados, evitando assim que fosse destruído como os demais… ou que caísse nas mãos do inimigo. A lenda se espalhou como o vento: anões, orcs e homens de toda sorte se dirigiram a esta velha fortaleza em uma tentativa de se apoderar dele… mas nenhum sabia exatamente onde estaria o esconderijo, e portanto acabaram engolidos por Calendel antes que pudessem alcançar seu objetivo.
— Creio então que o seu contato supõe saber o que os demais desconhecem.
— Não. Ele efetivamente sabe. Estou certo de que não se trata de suspeita ou devaneio: se não o encontrarmos onde nos foi indicado, é porque chegamos tarde demais.
— E onde nos foi indicado?
— Nesta parede ao fundo — revelou Alatar — você encontrará, se procurar bem, uma pequena fenda. Há ali uma porta oculta, como é tão comum a esses pequenos sujeitos barbados. Se fores capaz de abri-la, deve encontrar o que procuramos.
— Devo esperar por charadas ou peças como a que vistes lá fora? Não conheço o idioma dos anões e creio que não seria capaz de decifrá-las.
É a vez de Alatar sorrir.
— Imagino que não, meu jovem. Mas isso não significa que sua tarefa será fácil. A fenda é quase imperceptível para olhos desatentos e não conseguirá separá-la com seus dedos.
— Como o farei então?
O Mago olha em sua direção com bom humor. Devagar, acende novamente seu cachimbo. Seu semblante é despreocupado, muito distinto daquele que parecia carregar em outros momentos: era como se, ao encontrar companhia, se tornasse também mais jovem e altivo.
— Não faço ideia — revela, quebrando as expectativas e frustrando seu interlocutor. — Mas eu confio nas tuas capacidades, dúnedain. Sei que encontrará um meio.
Sem mais dizer, Alatar acelera na direção do salão. Deixava a fumaça atrás de si como uma chaminé e sorria — sequer parecia marchar na direção da morte.
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